Do que é feito a feminilidade, afinal?

Texto de Sabrina Alves.

Acho necessário que ativistas e/ou pessoas que se encontram dentro de movimentos (sociais, culturais), grupos, religiões, partidos, grupos de amigos, família…etc etc, estejam o tempo todo prontos para a desconstrução. Porque vira e mexe é proposto que você saia do seu lugar confortável para olhar melhor a outra pessoa, fazer concessões, abrir o círculo, fechar.

A tensão nesses casos é perfeita pra evitar ficar falando para iguais. Do contrário, o nome disso é eco. Porque, vou te dizer, permanecer assim, meu bem, vira clubinho fechadinho e a tal pseudo-revolução proposta, fica no máximo em volta do próprio umbigo. E você sabe o que isso dá, né? (dor de barriga! ;-)) Irremediavelmente alguém pode ouvir falar da proposta por somente se identificar, sendo que, xs outrxs, podem no máximo, supor. Chato isso pra chuchu. E tem um montão de gente assim. E se vê isso em vários movimentos/propostas muito legais. O que é uma pena, claro! Eu chamo de bolhudos/bolhudas ou como recentemente eu prefiro: bolhudxs! Com o ‘X’ mesmo.

Bom, então de onde eu vou falar para questionar/revisitar/duvidar/construir essa tal feminilidade? Vou falar a partir do grupo/movimento que fiz parte. Isso mesmo, FIZ do verbo NÃO FAÇO MAIS. Que é/são os chamados “círculos de mulheres” e “Resgate ( muitas interrogações aqui – ?????) do Sagrado Feminino”. Acho que não carece aqui de linkar com nada em especial, porque a net é uma parque de diversão e, facilmente quem colocar essas palavras aí no google, irão encontrar zilhões de possibilidades. E outra que não estou afim de endossar ninguém, muito menos que amigxs (amigxs, sim) que ainda continuam nesse movimento/grupos se sintam ofendidxs.

Como tudo começou: o clã dos ciclos sagrados

A história começa assim: Eu nasci em uma família, bem bacana. Rodeada de mulheres portuguesas bem fortonas porque, sinceramente, não lhes foi dada outra alternativa. Elas tinham que se virar mesmo, porque os homens estavam em outro país tentando a sorte, ou cavando o azar, vai saber. Elas tinham uma forma peculiar de cultivar a ‘espiritualidade’. Uma espécie de culto doméstico, com muitas mesclas de coisas que já ouvimos falar e de outras que até hoje eu não sei exatamente de onde é.

O fato é que elas não dependiam do ‘pároco/padre’ da cidade pra nada. Nem de médicos (aqui vai permanecer o masculino do gênero mesmo, porque sempre foram maioria principalmente no quesito ‘corpo das mulheres’. Uma hora volto nesse assunto). Muitas pessoas das cidades onde elas moravam as procuravam para que pudessem auxiliar nos mais diversos assuntos.

Cresci, por sorte a minha, sabendo dar conta da minha saúde, da minha sexualidade, das minhas dúvidas dialéticas, filosóficas e existenciais. E em parte, por ser EU, eu mesma, questionar me é um dom. E desde que me dei conta que eu era gente, me solidarizo com pessoas, animais e causas. E tinha uma em particular, que me levou a criar um grupo, era o das mulheres. Sob todos os aspectos.

Porque eu me achava sortuda por saber da minha sexualidade sem tabus, sobre como gerenciar e me auto-gestionar ginecologicamente longe das maleditas doutrinas médicas de saúde e domesticação do corpo. Eu supus que ‘deveria’ avisar a outras mulheres o caminho das pedras. Mas quero ressaltar aqui que, nunca em hipótese alguma, mesmo quando às vezes eu reproduzia algum discurso (sim, já fiz isso, também) eu pretendia mulheres dependentes, ou seja, que dependessem de mim ou do que eu dizia/ensinava/partilhava para se construir. Justamente ao contrário. Sempre tive pavor a dependências. Principalmente que alguém dependa de mim. Ui, tenho horror.

Bom, daí que eu criei um grupo/trabalho chamado “Clã dos Ciclos Sagrados”. Naquele momento achei que o lugar mais adequado, ou melhor, o ponto de vista mais interessante para ‘avisar às mulheres o caminho das pedras’ era o ‘movimento de círculos de mulheres’. Achei que era o mais inclusivo porque propunha uma troca ‘circular’, ou seja, não era hierárquico. Todas estariam equidistantes do centro. Era impressão que eu tinha naquele momento. Até acreditei durante muito tempo que era mesmo.

Foto de Life As Art no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Entendendo e aceitando as subjetividades

A abordagem que eu fazia era além do que é proposto biologicamente às mulheres cissexuais, que pudéssemos abrir o questionamento à vida de forma cíclica. Ora, e isso vai além do que se pode entender/vivenciar/construir dos ciclos das mulheres (cis) como a menstruação, gestação/parto e menopausa. Pode ir até a compreensão de que cada pessoa individualmente irá experimentar as suas estações pessoais. Poha, isso é vida. Era uma forma de entender que nem todo o tempo estamos felizes e que nem todo o tempo estamos tristes e que nem todo tempo somos ótimxs, quem nem todo tempo somos estupidxs, e que TUDO BEM.

Pronto, era para entender nossas subjetividades e aceitá-las, porque a indústria da felicidade mentia para gente. Era para entender que cada corpo era um corpo e, que a indústria da medicalização pretendia docilizar os corpos tratando-os sempre como iguais e/ou doentes. E isso também é uma grande mentira. Nem nossos corpos são iguais muito menos a experiência que temos com/a partir deles é igual. Era pra entender que mesmo nas religiões institucionalizadas onde as mulheres nunca, ou raramente, chegam em altos cargos, mesmo sendo maioria, poderiam ser protagonistas das próprias crenças. Daí, você deve estar pensando. Garota metida, essa aí, ela queria só isso? Tábom!

Eu falava, ou pelo menos pretendia, para as mulheres cissexuais (e só recentemente eu soube que falava para elas porque tenho aprendido sobre esse termo/conceito). Mas também, ou de novo — pretendia, falar para as mulheres cissexuais lésbicas. Eu queria, muito, que se sentissem incluídas. Mas ficaria mais feliz ainda que eu estivesse dando conta também de alcançar as que ora, eram hétero, ora eram lésbicas, ora eram assexuais whatever. Eu queria que TODAS se sentissem incluídas.

Porém, reconheço que minha abordagem na qual eu convocava as mulheres não deixava claro que se mulheres trans* também quisessem fazer parte, poderiam. Até porque eu falava de menstruação MUITAS vezes, ou a maior parte das vezes, como mote para todo o resto. Bom, nem por isso eu deixava claro que homens trans* também seriam bem-vindxs. Mas, sinceramente, eu não tinha bagagem para ser inclusiva a esse ponto. Não naquele momento.

Bom, para toda essa proposta eu fazia grupos de estudo. Além de encontros nas mudanças de estação e seguindo as luas, porque era para se ter a oportunidade de entender que a vida tinha altos e baixos e que cada uma iria experimentar essas mudanças de forma diferente. E o entendimento dependeria de como iria vivenciar sua experiência no corpo, e o corpo onde estavam. E que às vezes é escolha. Só que às vezes, não é.

Revendo conceitos e círculos

Atualmente, reconheço alguns erros que cometi, sempre tomei muito cuidado em algumas questões. Nunca, nunca usei de figuras de deusas especificas de panteão algum. Se as mulheres fossem escolher alguma figura, que fosse por conta própria. Porque de jeito nenhum eu queria configurar uma linguagem religiosa. Nunca quis influenciar a experiência que cada uma iria ter. Nunca terapeutizei os grupos. Nunca ditei vestimentas. As vezes pedia pra ir de saia quando usava nos grupos algum exercício especifico ligados à bacia, pernas, assoalho pélvico, etc. Nunca falava sobre sexualidade de um ponto de vista heteronormativo, ou pelo menos me policiava muito para não cometer esse erro.

Mais ou menos na mesma época que entrei no mestrado de Ciências da Religião pela PUC/SP, fiz uma das primeiras grandes revisões, depois de outras menores, no então “Clã dos Ciclos Sagrados”. Abrir esse ‘círculo’ para além do convívio físico. Por que eu tinha sacado que a maioria que estava nesse movimento eram grandes-pseudxs-detentorxs de grande conhecimentos inacessíveis e, a não ser que você pagasse uma quantia razoável por isso, você ficaria pairando em encontros curtos e públicos com quase nada de explicações do que era aquilo, afinal.

Iniciadas nas altas montanhas, sacerdotisas, esvoaçantes, vestidas com roupas purpurinadas à lá deusas gregas eram fadas que tratavam quase sempre as mulheres frequentadoras como crianças inábeis e muito longe de serem mulheres, realmente. Claro, afinal, havia uma produção de dependência em um nível quase “Gran-Sacerdotisas’ e/ou “Guruas-nas-artes-de-se-tornar-mulher’. Em sua grande maioria estavam mesmo preocupadxs na ‘disputa-dxs-melhores-focalizadorxs-das-galáxias’. Confesso que me vi presa nessa trama de disputa por algum momento.

Foi aí que abri o “Círculo de Visões Femininas”. Eu achava mesmo que estava sendo inclusiva ao dizer isso. Achava que ao orientar mulheres de todos os lugares do Brasil, e depois do mundo, de forma gratuita a formar seus próprios círculos de mulheres do jeito que elas achassem melhor fazer/ter a experiência, eu estava abrindo a possibilidade desse ‘movimento de círculos de mulheres’ sair dos centros urbanos, classe média, branca, tornando-o totalmente público e gratuito. Essa era minha real intenção. Mas ledo engano, porque se a única ferramenta que eu tinha para fazer isso era a internet, nem preciso explicar que não foi bem assim.

Rede de mulheres ou religião?

O que nos ligava era uma forma básica de se encontrar, e acontecia sempre no mesmo dia, e quando possível, na mesma hora. Todos os círculos ao mesmo tempo. No blog que criei para essa proposta, todo mês antes do dia do encontro eu escrevia uma espécie de editorial onde abordava os acontecimentos do mês ligados à saúde sexual, segurança e direitos das mulheres negras, brancas e índias. Tinha intenção implícita, por que eu as vezes não dizia, que elas pudessem falar e debater sobre esses e outros assuntos com autonomia e protagonismo. Além, claro, de experimentar a oportunidade ao estarem ali, de fazer uma pausa no corre-corre da vida e refletirem sobre ….qualquer coisa.

Foi, sem dúvida alguma, uma experiência interessantíssima. Enriquecedora. Durou três anos. Agradeço, claro a todas as que embarcaram essa experiência. Elas sabem disso, pois falei mais de uma vez. Eram mais de 20 círculos pela América do Sul e Europa. E eu estava mais do que nunca tão chafurdada no mestrado quanto no ‘movimento de círculos de mulheres’.

E, até ali, teria conseguido manter a proposta longe nas mentes mais ‘interesseiras’ em se autopromover. Todos os dias chegavam e-mail de terapeutas, psicólogas, sacerdotisas de todas as espécies. E, sinceramente eu só liberava (fazer parte da rede) para aquelas mulheres que, de preferencia, não sabiam nada sobre esses ‘tais círculos de mulheres’. E para quem não tinham aquelas duzentas iniciações das quais as “gran-focalizadoras-das-galáxias’ tinham. Mas claro, tudo tomou grandes proporções e aí…..

Bom, aí, um belo dia me dei conta que tudo estava mais configurado como uma ‘espécie de religião’. Muito embora, eu pessoalmente estivesse cada vez mais longe dessa possibilidade. Mas as então mulheres que organizavam os círculos por esse mundão à fora, em sua grande maioria, estavam ligadas à gurus, à doutrinas, à panteões, etc, etc….Isso sem falar que no contexto geral (Brasil e mundo) do ‘movimento círculo de mulheres’ muitas coisas que sempre me incomodaram estavam (e estão) cada vez mais dominantes.

Como, por exemplo, o essencialismo extremado que pretende doutrinar os modos, os corpos e resgatar as mulheres. Estava instaurado e legitimado uma imagem da mulher que necessita sob todas as coisas ser ‘feminina’. Que precisa re-construir a ‘feminilidade’. E nesse pacote tem uma conduta, modos, trejeitos, roupas, cabelos e palavras-chaves. Tudo misturado a muito moralismo. Isso sem contar que, lamentavelmente, pairava de uma forma velada a exclusão das mulheres cissexuais lésbicas dos círculos. E, recentemente, fiquei sabendo que esse padrão atingiu limites surreais. Nos círculos de mulheres dos EUA algumas ‘focalizadoras’ famosas resolveram dizer que mulheres trans* não entram, quando estas demonstraram intereresse em participar, tudo regado a muitas barbaridades vociferadas pela internet.

Cai doente quando me dei conta que 80% do que era tudo aquilo nem de longe me representava. E que na verdade eu estava me desgastando tentando de muitas formas dizer: “ei, cuidado com seu preconceito. Cuidado com o que você escreve, cuidado com o que você prolifera. Isso é um patriarcado de saia”. Mas para a grande maioria que olhava de fora, eu estava nesse meio. Não poderia continuar. Precisava sair.

Foto de naturalturn no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Mas e a feminilidade, a quem pertence?

Organizei estrategicamente a finalização de todos os grupos e a minha saída. Demorei quase seis meses pra isso. E, claro, o mais complicado foi a finalização do “Círculo Sagrado de Visões Femininas”, a rede de círculos. E se a proposta era a liberdade de escolha das mulheres, ela assim se fez. Pronto, elas estavam cada uma por si. E, lóoogico, se elas quisessem poderiam se organizar de modo a formar uma nova rede. Mas muitas continuam por aí com os círculos. E posso dizer que algumas tem feitos revisitações da proposta e de si mesmo, bem interessantes.

Mas voltando ao nosso questionamento: era essa a proposta inicial desse resgate simbólico de ancestralidade? E (d) essa (construção de) feminilidade? Quem pode falar dela? Quem tem autoridade para usar? Só as mulheres que tem útero? E quem não tem e é mulher, precisa dela (feminilidade) igualmente? Ou quem é mulher e não tem útero nunca chegará a ser – Feminina?

Por que diabos a humanidade leva tudo para o caráter religioso doutrinário? Bom, e tudo bem se for, mas, e se, pode ser religioso/espiritual, e o “resgate do sagrado feminino” é conceitual, porque não tomar para exemplo (também) alguns deuses e deusas que mitologicamente TRANSitavam entre gêneros?

E desse ponto de vista podemos dizer que respeitar os ritmos e sua cadencia tem a ver com os indivíduos e não exatamente com homens e mulheres, somente. E se o movimento “círculo de mulheres” e “sagrado feminino” prevê a quebra da dicotomia da subordinação ao capital/patriarcado/massificação por que normatizar? E, principalmente, por que algumas pessoas veem nesse momento uma chance insuportável de controlar as outras pessoas? Por que mesmo usando um discurso que prevê a autonomia das mulheres, outras mulheres e homens se acham no direito à subjugação e manipulação? Por que as pessoas tem tanto medo da diversidade? E precisam para se proteger, normatizar e tornar as coisas, animais e pessoas previsíveis?

Por que precisa-se “resgatar” tanto as mulheres? Me dei conta disso um dia fazendo um texto em que ia citar isso. Se por tanto tempo se precisa resgatar as mulheres, quando elas chegarão a ser? Ora se é pra elas serem protagonistas da própria história, elas não precisam ser salvas/resgatadas, elas são as próprias heroínas de si mesmas. Sim, claro, eu sei que muito precisa ser feito para que as mulheres tenham seu protagonismo reconhecido, mas é isso, elas já tem, não seria reafirmar que “elas AINDA não tem” lançando tantos workshops de resgate, cura e purificação?

Eu ainda não tenho essas respostas.

A única certeza que tenho até aqui é que, todxs, sem exceção, tem direito à dignidade, liberdade e um pouco de poesia, e podem experimentar isso da melhor maneira que puderem. Mas olhar em volta e reconhecer os próprios privilégios em que se está inseridx ajuda muito.

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Sabrina Alves não responde a perguntas como “qual a sua profissão”, “o que você faz” e nem a “qual a sua religião”. Às vezes, tenho planos de grandes revoluções, em outros momentos, só de fazer um bom pão glúten-free.

Depilação, quero ou tenho que fazer?

Me deparei com a reportagem de uma jovem que decidiu deixar a natureza de seu corpo fluir, em outras palavras, deixou seus pelos crescerem. O que mais me impressionou não foi a decisão dela em si, mas uma afirmação :

“Por que eu tinha que me depilar? Eu lembro de quando comecei a me depilar. Nos meus 14 anos, quando brotaram os primeiros pelos, eu não pensei, vou tira-los ou não? Eu só sabia que tinha que remove-los e pronto.”

Associei isso a milhares de coisas que inconscientemente fazemos sem nos questionar. Apenas seguimos os padrões pré-estabelecidos.

Para começo de conversa, eu me depilo, não vou ser hipócrita e nem estou lançando um manifesto das feministas peludas. O que quero é questionar, levantar o ‘por que?’.

Nós, animais racionais, às vezes auto-denominados humanos, temos pelos nascendo em nosso corpo independentemente do nosso gênero. Depois da puberdade, lá estão eles: buço, axilas, virilha e outras partes, talvez mais inconvenientes. Porém, apesar desses pelos nascerem em todos, só na mulher é considerado nojento. Sim, nojento, este é o termo que usam para nossos inconvenientes, ou não, pelinhos.

Emer O'Toole, 28 anos na tv inglesa. Imagem: divulgação.

Já nos homens, Tony Ramos não conta, os pelos são naturais. Veja só, NATURAIS. São ainda sinal da sua masculinidade e virilidade, dá até pra sentir o cheiro de Macho Alfa que eles pensam exalar quando finalmente seus bigodes dão os primeiros sinais de aparição.

Talvez, devido ao fato dessa associação a masculinidade e a necessidade feroz imposta da mulher ser feminina (no conceito que a cultura social criou), delicada e cor-de-rosa, nós nos incomodamos tanto com a idéia dos pelos. A grande questão que quero colocar com isso não é se você se depila ou não, mas: por que se depila? Quando nos questionamos, abrimos a possibilidade de nos conhecermos melhor, como mulher, como feminista e como ser pensante.

Não me importa necessariamente a resposta, desde que se sinta confortável com você mesm@ depois que a souber. Afinal, seu corpo, suas regras!

Às Mulheres Que Não Querem Direitos Iguais

Texto de Bia Cardoso.

Tem algum tempo que a Renata Correa mandou para nossa lista uma campanha da Revista Marie Claire chamada #eusouassim. Entre as diversas declarações de leitoras, a que mais chamou atenção é esta:

Campanha da Revista Marie Claire #eusouassim/Divulgação. Clique na imagem para ler outros depoimentos.

“Eu não quero direitos iguais. Eu quero que ele pague a conta. Eu quero me sentir especial, não quero me sentir igual. Homem é homem, mulher é mulher e eu acho que é assim que tem que ser. Sei que tem muita mulher de outras gerações que batalhou muito por espaço. Não tô criticando. Eu só quero que ele pague a conta quando a gente sair para jantar.”

Com todo respeito, só posso dizer uma coisa a você que escreveu esse depoimento: Você quer direitos iguais. Você pode exigir que o cara pague a conta do seu jantar, você pode escolher ficar só com caras que paguem a conta do jantar porque você pode fazer essas escolhas. O feminismo, quando iniciou a luta por direitos iguais, abriu caminho para que as mulheres façam suas próprias escolhas. Hoje você pode escolher casar com um homem que pague sua conta. E se ele por algum motivo parar de pagá-la, você pode se separar e encontrar outro homem que pague sua conta. Você só pode exigir isso porque você é livre. E, porque em algum momento, as mulheres passaram a ter os mesmos direitos que os homens num relacionamento. Essa liberdade ainda não atingiu todas as mulheres, mas nesse momento não estou aqui para criticar suas escolhas, quero que você perceba que ao exigir o pagamento da conta de um jantar por um homem, você quer direitos dentro de um relacionamento. Você quer que ele pague a conta porque você pode querer isso.

Os Direitos Iguais

Para quem sonha com a “época de ouro do romantismo” vale dizer que nas décadas de 1940/50/60/70 você não teria garantia que seu marido seria sempre gentil, que abriria a porta do carro todas as vezes. Você teria certeza que ele pagaria a conta, mas sabe por quê? Porque o dinheiro é dele, não porque você é especial. Talvez  a sua tão sonhada viagem com ele a Europa não pudesse se realizar, porque é o marido quem decide o que fazer com o dinheiro. Nessa época, mulheres casavam bem mais cedo e dificilmente conseguiriam se divorciar se apanhassem do marido. A primeira Lei do Divórcio do Brasil foi promulgada em 1977. Hoje, as mulheres podem trabalhar fora para depois descobrirem que o que realmente as realiza é ser mãe e dona de casa. Hoje, se o cara com quem você estiver não paga a conta do jantar, não é gentil, não lhe dá vestidos novos, não paga o corte de R$200 reais que você quer, você vai lá separa e arruma um que faz. E você só faz isso porque não é mais obrigada a só ter 3 possíveis funções na vida: ser mãe e dona de casa ou freira.

Tenho amigas que só saem com um cara se ele ganhar no mínimo R$xx.xxx,xx. Não concordo em pautar meus relacionamentos pela conta bancária das pessoas, mas se é o que elas querem, digo: vai fundo. Vá viver suas experiências. É uma opção que elas podem fazer, não querem viver sem conforto. Não estou aqui para dizer o que é certo ou errado. Os homens que se relacionarem com elas podem aceitar essas condições ou não. Elas podem fazer isso porque tem direitos de escolha em seus relacionamentos. Mas será que possuímos o mesmo respeito? Direitos iguais não se restringem a mercado de trabalho, salários e opções de cursos universitários. Também atingem as relações humanas e os direitos de ir e vir com a roupa que quiser, falando o que quiser, saindo da cama de alguém na hora que quiser.

Escuto mulheres dizerem que é culpa do feminismo o fim da gentileza dos homens. Que querem ser tratadas de forma especial e não como um homem. Querem de volta o romantismo que as vezes está presente no pagamento da conta de um jantar especial. Será mesmo tudo culpa do feminismo? Ou será que aspectos negativos cristalizaram-se ao redor do movimento feminista? Enxergamos que todas as pessoas são diferentes, com seus anseios, desejos e buscas. Porém, a busca do feminino não pode ser pautada apenas pelo anseio do casamento e da maternidade. E nem os homens podem ser medidos apenas por sua virilidade e competitividade. O mundo perdeu em gentileza e não foi o feminismo que causou isso. A brutalidade do individualismo afetou as relações humanas. Mulheres e Homens devem continuar servindo uns aos outros. Queremos sim que cada mulher se sinta especial num primeiro encontro, assim como queremos que cada homem se sinta especial. Há diversas formas de fazer isso. Queremos que mulheres abram as portas dos carros para outras mulheres. Que amig@s paguem a conta de outros amig@s. E que homens compartilhem experiências entre si sobre seus sentimentos. Gentileza não é cobrança.

Gentileza e Feminismo

É claro que em alguns momentos o feminismo parece um movimento agressivo, pois aponta o dedo na cara do machismo diário, questiona e provoca a reflexão sobre ações cotidianas, coloca as próprias feministas contra parede. Porém, pare e pense: o que significa querer direitos iguais? É claro que significa um mundo mais justo e igualitário, consequentemente, um mundo com mais gentileza. A gentileza tão necessária do poeta. Um mundo em que mulheres se tornam mais livres é um mundo em que todos ganham mais liberdade.

O que não se percebe nessas acusações é que a emancipação feminina mudou para melhor a cara do século XX. Para as mulheres, tratava-se de se libertar do jugo das determinações de papéis preestabelecidos, atribuídos por supostas características biológicas, nas quais cabia à mulher o privilégio da sensibilidade, a obrigação dos cuidados com a casa, o bem-estar do marido e dos filhos, e uma vida dedicada à esfera doméstica. Esse discurso, construído a partir do século XVII, tinha por base a produção de uma diferença opositiva entre os sexos . A partir do momento em que as mulheres se libertam, essa demarcação de papeis cai por terra e aos homens passa também a ser dado o direito de escrever os roteiros de suas próprias vidas. Relações de gênero igualitárias passam a beneficiar ambos os lados.

Então, Mulher, brinde em cada jantar pago sua liberdade. Comemore o fato das mulheres terem o poder de viver a vida que quiserem tomando seus bons drinks. E brinde por novas rotas para o feminismo que continuem abarcando seus desejos e anseios. A Amanda, numa reflexão bacana, perguntou se não era hora de abandonarmos o nome feminismo e usarmos antisexismo? Eu, particularmente, acho que o termo antisexismo não abarca tudo que o feminismo é capaz de significar. Fora todo arcabouço teórico produzido durante tantos anos e a homenagem que prestamos as grandes feministas. O que proponho é fortalecer idéias feministas que influenciem diretamente a vida das pessoas, que o feminismo se reaproxime das discussões cotidianas.

Em conferência realizada no Rio de Janeiro, a filósofa francesa Françoise Collin descreveu o movimento feminista como sendo 1) responsável pela ampliação da democracia, na medida em que permitiu que a outra metade da população tivesse direito a voto; 2) um movimento plural, sem hierarquia, dogmas, controle ou estruturas centralizadas, que não defende uma verdade, mas está em permanente processo de construção de uma agenda que evolui e se modifica. É importante ressaltar essa segunda característica para lembrar que, quando Badinter discute o feminismo, de fato só pode falar de um lugar específico, e não em nome de todo o movimento. Esse “todo”, felizmente, não existe no movimento, como bem aponta Bila Sorj: “Diferentemente dos demais movimentos políticos como o fascismo, o nacionalismo e o comunismo, o feminismo promoveu uma formidável mudança de comportamentos orientada para a promoção de mais liberdade e igualdade entre os sexos, sem aspirar à tomada do poder, sem utilizar a força e sem derramar uma gota de sangue”.

Esse parágrafo acima resume muito bem minhas definições de feminismo, essencialmente um movimento plural, como este blog pretende ser, um coletivo de diferentes vozes. Não é preciso carteirinha de clube ou vestibular para ser feminista. A gentileza permeia um movimento que nunca matou ninguém. E você, continua achando que não quer direitos iguais? O teste Você é Feminista? talvez ajude a ampliar mais as ideias.