Como Nossos Pais: um filme feminino que quer ser feminista

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Atenção! Esse texto contém spoilers!

Na maioria das críticas que li sobre o filme Como Nossos Pais, o feminismo foi pontuado: “anseios e conflitos da mulher neste século”; “os dilemas da supermulher”. Então, começo dizendo que não classifico como um filme feminista, mas isso não é importante. O bom de Como Nossos Pais é que ele é um filme feito por mulheres e onde elas são a história principal. Tudo gira num núcleo familiar, onde sabemos que decisões e ações não são fáceis de serem tomadas.

Ao avaliar o filme por um viés feminista, classifico-o como branco e burguês. Rosa (Maria Ribeiro) vive dramas de uma mulher branca de classe média, alguém que não parece ganhar muito bem, mas tem móveis assinados incríveis na sala. É difícil achar uma pessoa negra no filme, é difícil encontrar diversidade. Mas, dentro de todos os clichês, Rosa poderia ser eu ou uma de minhas amigas. Uma mulher entre 35 – 45 anos que lida com um marido esquerdomacho, uma mãe egoísta, um amante feministo. O filme acaba sendo divertido justamente por condensar tão bem tantos clichês do feminismo da internet atual.

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Por que o Ciberativismo é tão valioso para o feminismo?

Texto de Nathália Fonseca para as Blogueiras Feministas.

“Sai desse Facebook! Compartilhar textão feminista nas redes sociais não vai surtir efeito nenhum”, me disseram. Mas se a gente se dispor a analisar um pouco mais profundamente o quão significante é o fato de hoje nós, mulheres, ocuparmos esse espaço, fica bem fácil entender.

Antes de mais nada é sempre importante ressaltar que nenhuma de nós pode ser ingênua; a gente não pode, e nem deve pensar que a internet é algo que veio salvar e resolver todos os problemas (no entanto, ela ao menos nos abre espaço para apontar eles), porque afinal de contas: 1) ainda existe exclusão digital no brasil e no mundo; 2) todas nós estamos inseridas em uma diversidade incalculável de sistemas, e esses sistemas se mantém através de dispositivos — operadores materiais de poder — que interferem direta e indiretamente na nossa vida. Então sendo o computador — e a internet — um desses dispositivos, inevitavelmente, eles também estão inseridos em relações de poder, servindo como suporte pra algumas dessas essas relações. O poder, na atualidade, depende da tecnologia, seja no estabelecimento militar e de segurança, ou no setor financeiro, na mídia, e nas instituições de ciência e tecnologia, existe uma cultura virtual, isso é muito perceptível: a cibercultura está envolvida em todos os âmbitos da nossa vida, e isso se expandiu e alcançou a militância feminista.

Mas antes de entrar no ciberativismo feminista, um breve passeio pelo caminho trilhado desde a criação do computador até a sua ocupação pelos movimentos feministas, pois é muito significativo que a gente entenda o que existe de resistência em cada post que a gente replica, cada comentário, mensagem inbox ou até mesmo cada vez que um homem abusador é exposto nas redes sociais. Continue lendo “Por que o Ciberativismo é tão valioso para o feminismo?”

Duas palavrinhas sobre Trump, os protestos da inauguração e coquetéis molotov

Texto de Raquel Parrine para as Blogueiras Feministas.

Eu estou morando nos Estados Unidos há quase exatamente dois anos, por isso peguei praticamente todo o processo eleitoral americano – o misterioso processo eleitoral americano, aliás, que me surpreendeu cada vez mais a cada etapa. Estava aqui quando o Bernie Sanders foi apontado o rival da Hillary Clinton, um candidato abertamente socialista, que teve a campanha completamente financiada pelos eleitores. Fui num comício dele onde moro, em Ann Arbor, uma cidade universitária no estado de Michigan, famosa por seu protagonismo no ativismo de esquerda. Daqui, era fácil acreditar que o Sanders era uma oportunidade viável. Mas os EUA, assim como o Brasil, é feito de bolhas e eu logo vi que estava em uma. Os e-mails vazados da Hillary Clinton mostraram o quanto o partido democrata não levava Sanders a sério e não investiu em sua candidatura. Entretanto, as denúncias de Sanders a Hillary, o fato de ela estar casada com o capital, ressoaram nos ouvidos dos americanos, ressentidos com a recessão da que o país nunca se recuperou totalmente desde a crise de 2008.

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