Duas palavrinhas sobre Trump, os protestos da inauguração e coquetéis molotov

Texto de Raquel Parrine para as Blogueiras Feministas.

Eu estou morando nos Estados Unidos há quase exatamente dois anos, por isso peguei praticamente todo o processo eleitoral americano – o misterioso processo eleitoral americano, aliás, que me surpreendeu cada vez mais a cada etapa. Estava aqui quando o Bernie Sanders foi apontado o rival da Hillary Clinton, um candidato abertamente socialista, que teve a campanha completamente financiada pelos eleitores. Fui num comício dele onde moro, em Ann Arbor, uma cidade universitária no estado de Michigan, famosa por seu protagonismo no ativismo de esquerda. Daqui, era fácil acreditar que o Sanders era uma oportunidade viável. Mas os EUA, assim como o Brasil, é feito de bolhas e eu logo vi que estava em uma. Os e-mails vazados da Hillary Clinton mostraram o quanto o partido democrata não levava Sanders a sério e não investiu em sua candidatura. Entretanto, as denúncias de Sanders a Hillary, o fato de ela estar casada com o capital, ressoaram nos ouvidos dos americanos, ressentidos com a recessão da que o país nunca se recuperou totalmente desde a crise de 2008.

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Xanas on fire, ressaca e resistência: sobre a Marcha das Mulheres em Washington

Texto de Ana Rusche para as Blogueiras Feministas.

Xanas on fire

A primeira faísca veio do Havaí. Sem conseguir dormir bem com a vitória do Trump, Teresa vai lá desabafar no facebook: gente, e se no dia da posse, muitas mulheres marchassem para Washington? A aposentada vai lá e cria um evento. 40 pessoas confirmaram. Foi dormir preocupada com o futuro das netas. Quando acordou, a surpresa: seu evento tinha 10 mil confirmações! O segundo estouro foi visto em Nova York, quando Bob posta a foto com a legenda “Marcha de um milhão de bucetas – acho que a gente devia montar uma coalizão de t-o-d-a-s as aliadas marginalizadas e fazer isso”. Recebeu 31 curtidas e 4 comentários. A partir daí, não é possível traçar muito bem a genealogia do pussyfire que se alastrou. Aliás, se tem algo que o Trump fez de bom, foi colocar pussy na boca de todo mundo.

A palavra Pussy de pussycat pode designar gatinho, algo fofo e felpudo. Mas pussy é um termo pejorativo para buceta. Também designa mulher como mero objeto sexual. No português, será que a etimologia de “xana” indica esse caminho? Gatinha, bichana, xana? Os dicionários não estão nem aí com estas palavras, daí a gente pode fazer o que bem entender com elas. Pussy se tornou popular com um vídeo que viralizou durante a campanha presidencial. Nele, Trump diz a frase “Grab them by the pussy” (as agarro pela buceta) – expressão que resume o tratamento misógino dispensado às mulheres por parte do então presidenciável. De pussy para lá e pussy para cá, criou-se o pussyhat (gorro-buceta, no original rima com pussycat), indumentária rosa-choque que inundou todas as fotos que se vê da marcha.

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Produtoras culturais: empoderamento e resistência através da arte de realizar

Texto de Giordana Moreira para as Blogueiras Feministas. 

A indústria cultural do rock estourou enquanto os garotos americanos estavam com a cabeça na guerra as garotas financiavam o sucesso das bandas mais famosas do mundo. Elas, que desmaiavam na porta dos teatros lotados, amavam a música, e, por que não, os músicos. Logo foram chamadas de groupies, identificadas não como principais consumidoras daquela cultura, mas como objetos sexuais que atribuíam status ao rockstar.

A expropriação do trabalho e da sexualidade das mulheres no universo da arte e da cultura é um capítulo pouco contado da opressão sexista. Mulheres condicionadas ao espaço privado enquanto a cultura pede o espaço público não tem acesso aos meios de produção de cultura, por herança histórica, um domínio masculino. Hoje é possível ver, através dos números, a disparidade entre bandas compostas por mulheres e homens, o staff da produção lotado de mulheres e a técnica de homens. Publicidade sexista para shows com público feminino: damas gráࢢs e bebidas liberadas para facilitar o assédio. O show está lotado de trabalhadoras na sombra do canhão de luz e expectadoras aplaudindo seus namorados guitarristas. No entanto aquela garota que não vai montar uma banda nem virar poeta, atriz ou escritora ainda vai querer participar disso.

É recorrente que as namoradas e amigas dos artistas ajudem o boy no seu ofício: emprestam o telefone, divulgam os eventos, organizam a agenda, vendem fanzines no stand. Envolvidas passam a executar tarefas importantes, e se sentem incluídas numa história que ela respeita e curte. Quando a função de produtora se dá nas organizações coletivas, há diversas formas contidas na relação de gênero que reproduzem essa perspectiva subalternizada da mulher na produção. O espaço de fala e o reconhecimento são uma representação dos papeis marcados. Quando a direção é feminina é qualificada autoritária, mas quando é masculina é competente. A produtora cultural é vista com a marca do cuidado com o outro, não como realizadora. Isso está mudando, mas ainda não está nem perto da linha da equidade de gênero, tem muita coisa a fazer, como nas estruturas patriarcais no mundo todo.

Foto do site Roque Pense.
Foto do site Roque Pense.

A própria profissão de produção cultural ainda é recente. No entanto está crescendo e se desenvolvendo rapidamente nos últimos anos. No Brasil a regulamentação do investimento em cultura, a criação de cursos superiores, a disseminação do “faça você mesmo” e da periferia como produtora de cultura, reconheceram a função do produtor cultural como fundamental. Pense bem, é nesse lugar de realizar que as mulheres estão “depositadas” como secretárias e assistentes: no espaço de poder e decisão, dentro do universo da arte e da cultura.

Aquela que descola serviços bacanas e mais baratos, que carrega cenário no ônibus e fecha o borderô também é aquela que topa com as oportunidades de realização, de conexão entre publico, artista e sociedade. Esse duo de áreas operacionais e intelectuais se dá na concepção, na conceituação, na elaboração, na curadoria, na identificação de parceiros e recursos, no planejamento logístico e financeiro, na execução, na comunicação, na prestação de contas. E se ela topar com o feminismo no meio desse rolê vai poder analisar criticamente por que há tanta desigualdade entre gêneros neste processo. Estes espaços definem onde e como será o quê na indústria cultural ou mesmo a cultura que está fora dela. Porque então ainda há abismos de desigualdades entre homens e mulheres no rolê da cultura? Porque a estrutura e os processos ainda são patriarcais.

Em tempos que o feminismo é palavra fácil na indústria cultural, e a arte e a cultura somadas às novas tecnologias se colocam como canal de comunicação mais impactante entre a juventude, isso está catapultando protagonistas mulheres. No entanto as estruturas sexistas no processo de trabalho são profundas e concretas, naturalizam músicas machistas, comportamentos violentos, assédio e alienação, que coexistem no cotidiano da produção cultural.

Já existem inúmeras trajetórias de realizações femininas e feministas em redes e coletividades, mas ainda são os homens detentores desses meios de produção, e são muitos os casos de reação á esta produção, seja ceder o espaço “porque são legais”, descredibilizar o trabalho ou mesmo ignorar o debate porque “não tenho nada a ver com isso”. No entanto o diálogo e a relação com os detentores desses meios é algo inevitável quando a mulher fura a bolha e entra nesse universo. Quando você está numa posição de direção é comum em um palco só ter você de mulher, e que seus mestres e inspiradores da área sejam homens, afinal eles estão ali há décadas. Mas a histórica desigualdade nas relações traz a licença para o machismo se manifestar em diversos aspectos e, de forma mais dura quando você entra no meio, até então, dos privilegiados. A prática do feminismo impacta positivamente a mulher nesse ambiente, te empodera. Mas também desafia egos, tira privilégios, pois homens não foram preparados nessa década para lidar com equidade de gênero nos “seus” espaços. As feministas estão avançando nesta direção, mas no rolê ainda pouco se concretizou no sentido de alterar estruturas.

Nos últimos tempos tenho percebido uma grande pressa, um cansaço desse lugar subalterno. As velozes produções da rua e a avante sagacidade feminina tem apontado outras estratégias para essa relação. Estratégia pé na porta.

Reunir amigas e parceiras de trabalho, em grupos e redes, e realizar iniciativas assumidamente feministas na área da produção cultural têm crescido, mesmo que muitas das protagonistas ainda tenham que escalar os muros de classe e raça para ter acesso a esse tipo de empoderamento, olhem as realizadoras da periferia. No entanto avalio que essa ideia já revela o espaço de poder que estamos inseridas, e isso faz o patriarcado tremer porque, estrategicamente, o próximo passo é se apropriar. E isso é um convite.

Giordana Moreira é produtora cultural e feminista. Atua na Baixada Fluminense, periferia do Rio de Janeiro, através da Terreiro de Ideias. Realiza o Festival Roque Pense! de cultura antissexista e gosta de criar bandos com as garotas que vivem por lá.