Sobre julgamentos e juramentos

Texto de Amanda Andrade.

A espera acabou. Você está finalmente dando a luz e trazendo para o mundo aquela menina que você acalentou em seu ventre durante os últimos nove meses. Você jura que irá amá-la incondicionalmente, independente de qualquer coisa. Você volta a fitá-la em seus braços. Puxa, você tirou a sorte grande. Ela nasceu perfeitamente saudável e incrivelmente linda para os padrões da sociedade: a pele alva como a neve, gigantescos olhos azuis e finos cabelos dourados. Um bebê saído da propaganda de fraldas.

Puxa, ela será uma belíssima mulher e se casará com um homem importante. Não poderia ser mais fácil amar alguém assim. Ela começa a crescer. Seus cabelos começam a embolar como um emaranhado de lã. Você começa a alisá-los em busca de um aspecto melhor. Ela começa a cortar os cabelos de todas as Barbies na altura do pescoço. Você acha isso uma afronta, afinal gastou dinheiro naquelas lindas bonecas para no final ficarem parecendo soldados de um exército socialista.

Você, jurando o seu contínuo e eterno amor, começa a investir na carreira de sua pequena pérola aos cinco anos. Mas espera, ela está gordinha demais para fotografar como modelo. Então ela começa balé cinco vezes por semana. Puxa, essa garota é boa nisso. Pena que você faltou a todas as apresentações, dizendo estar ocupada demais financiando todos os seus juramentos de afeto.

Não demorou muito para ela estar nas principais rádios da cidade fazendo comercias para a sua marca. E mesmo tendo operado a garganta pelas inúmeras infecções e os repousos escassos, a garotinha conseguir ir com os comerciais para a televisão. Puxa que filha incrível você tem, ela merece mais uma Barbie.

Foto de Etienne no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Etienne no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Um dia, sufocada pelo rosa excessivo, ela descobre a biblioteca da escola e vê as histórias como um abrigo aquecedor. Depois, entra pro teatro. Você não proíbe, mas também não incentiva. Você nunca viu como ela era boa em cima de um palco. E, nesse exato momento, começam a se quebrar de vez todos os juramentos ao vê-la completar dez anos. Era uma garota inteligente, você nunca negou, mas era péssima com as tarefas domésticas, o que você julgava um defeito horrível.

A garota começou a pintar os cabelos de vermelho e faltar as aulas de catequese, pois não acreditava naquelas palavras escritas naquele sagrado livro. Você faz um escândalo, afinal, como ela conseguiria casar na Igreja, de véu e grinalda? Ela dá seu primeiro beijo num garoto desconhecido e não conta pra você. É claro que você iria julgá-la e castigá-la por não ter contado, e o fez assim que soube.

Começou a forçá-la a encontrar um namorado. Ela, depois de todo esse tempo, ainda não arrumou. Você continua a julgá-la, pois sinceramente, ela não deve passar de uma vadia fácil ou, pior ainda, deve gostar de beijar garotas. Como você poderia ter errado tanto?

Ela contava um plano ideológico, utópico, revolucionário e a animação brilhava em seus olhos. Você simplesmente virava e julgava: “Você não é capaz. Não consegue arrumar nem um namorado ou fazer um jantar decente, quem dirá ser alguém importante! Você já olhou as suas unhas”?

Você a chamou de merdinha, de filha ingrata, de puta por sair à noite. Puta por gostar de homens com o dobro da idade. Puta por ter uma penca de amigos gays. Puta por ser fluente em inglês e não na língua de forno e fogão. Ela não era mais seu orgulho ou era digna de seus juramentos. Era uma lunática de dezessete anos, cabelos descoloridos e uma tatuagem de coração no peito. Ela era só mais uma puta que Deus colocou por engano no seu útero, um karma que você iria ter que passar, o grande erro de toda a sua vida.

Os juramentos? Ficaram para o filho mais novo: Homem, forte, provável engenheiro, mas que anda um pouco fora do peso, então é melhor começar a emagrecer para ser dignos de suas juras de amor e orgulho eterno.

Mas a garota, bom, ela aguentava bem, obrigada. Algumas feridas ali, alguns porres aqui, e depois se dedicava a escrita. Você leu os textos, mas disse que todos eram um lixo. Políticos demais, sexuais demais, obscuros demais.

Então, teve o fatídico dia em que ela foi abusada. E você chorou, horrorizada, dizendo que daria sua vida para salvar a dela. Ela se recuperou lentamente, mas não totalmente. Mas você tratou de protegê-la: “Você não vai mais sair para lugar nenhum, afinal, é culpa sua isso ter acontecido. Você sai com roupas decotadas e shorts, sai a noite, não tem vergonha na cara. Tinha que ser violentada mesmo para aprender a se respeitar como mulher. Mas mamãe está aqui para te ajudar no que der e vier”.

E depois disso, a garota se cansou. Cansou de ser abusada física e emocionalmente. E decidiu não se calar, decidiu gritar para o mundo. Puxa mãe, você errou. Não na criação – não tenho direito de julgar nada e ninguém. Mas errou ao ter tido tanta oportunidade de conhecimento (afinal, você fez duas graduações, uma pós, e várias coisas que enchem o lattes) e não utilizar de forma correta ao acreditar numa sociedade machista opressora. Acreditar que o patriarcado era a única forma de verdade absoluta e por isso, qualquer outra forma de expressão deveria ser repreendida.

Caramba, mãe. Sua filha cresceu e não se tornou uma boneca Barbie. Ela cresceu, tomou bastante porrada, descobriu muita coragem e tornou-se feminista, graças a Deus.

Amanda Andrade.
Amanda Andrade.

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Amanda Andrade tem 17 anos, é futura estudante de Artes e eterna obcecada por histórias: de pessoas, de lugares, de superação. Acredita fielmente que o feminismo pode mudar a sociedade em questão de tempo. Amante da liberdade, da igualdade e da quebra de pré-conceitos.