Marcia Tiburi e o feminismo ético-político

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Outro dia, uma amiga me pediu indicações de livros feministas para presentear uma adolescente de 15 anos. Dei uma olhada em minha prateleira e a grande maioria são bem acadêmicos. Avistei Como Ser Mulher de Caitlin Moran e Má Feminista de Roxane Gay. Mas ainda não era o que queria. Entrei na internet e fuçando entre alguns posts com indicações de livros feministas, vi que Marcia Tiburi tinha lançado um novo livro. Passei para a amiga alguns nomes e disse que esse da Marcia eu não conhecia, mas ia procurar. A melhor notícia foi quando a editora topou enviar 1 exemplar para fazer essa resenha.

Feminismo em comum: para todas, todes e todos¹, é um bom livro para quem quer iniciar leituras refletindo sobre o que é o feminismo. Em 17 capítulos —- bem curtos pois o livro tem apenas 125 páginas — a filósofa Marcia Tiburi reflete sobre questões fundamentais para o feminismo atual, como: trabalho, autocrítica, solidão, diálogo, escuta, lugar de fala, identidade, violência, política. Não há um aprofundamento, vários temas são colocados apenas para pontuar a necessidade de serem mais discutidos, como a prostituição. É quase um glossário crítico de temas centrais do feminismo com uma linguagem simples. Como diz a orelha:

Com este livro, Marcia Tiburi nos convida a repensar essas estruturas e a levar o feminismo muito a sério, para além de modismos e discursos prontos. Espera-se que, ao criticar e repensar o movimento — com linguagem acessível tanto a iniciantes quando aos mais entendidos do assunto — Feminismo em comum seja capaz de melhorar nosso modo de ver e de inventar a vida.

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Simone de Beauvoir: o que é ser mulher?

Hoje é o aniversário de Simone de Beauvoir. Se estivesse viva, ela faria 104 anos. É dela uma das principais frases do movimento feminista: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” A mulher não tem um destino biológico, ela é formada dentro de uma cultura que define qual o seu papel no seio da sociedade. As mulheres, durante muito tempo, ficaram aprisionadas ao papel de mãe e esposa, sendo a outra opção o convento. Porém, a própria Simone rompe com esse destino feminino e faz de sua vida algo completamente diferente do esperado para uma mulher.

Simone de Beauvoir. Foto de Rex Features/Sipa Press

Nascida em uma família da alta burguesia francesa, Simone era a mais velha de duas filhas. Durante sua infância a família faliu e, por considerar que as filhas não conseguiriam bons casamentos, pois não havia dinheiro para um bom dote, George de Beauvoir se convenceu de que somente o sucesso acadêmico poderia tirar as filhas da pobreza. De fato, Simone de Beauvoir teve mais poder de escolha que muitas mulheres de sua época. A educação e o desenvolvimento acadêmico são até hoje maneiras de forjar mulheres mais independentes, que rompem com os padrões de sua época. Ela faz uma crítica aos valores burgueses nos quais foi criada no livro “Memórias de uma moça bem comportada”.

Simone de Beauvoir tinha 41 anos quando publicou “O Segundo Sexo”, em 1949. Já naquela época a obra levantou inúmeras polêmicas. Uma das principais acusações é que Simone ridicularizava os homens. Isso é uma acusação que muitos usam contra o feminismo. Porém, as pessoas parecem não querer compreender o que realmente se passa na vida das mulheres e como todo o poder está concentrado nas mãos dos homens. “O Segundo Sexo” não é uma fonte historiografica para conhecer a história da mulher desde a antiguidade. É uma obra de inspiração, fundamental para descortinar a maneira pela qual as mulheres são criadas justamente para serem menos que os homens. Você pode baixar “O Segundo Sexo” em .pdf no blog Livros Feministas.

Lendo algumas das críticas que foram feitas a “O Segundo Sexo”, muitas parecem absurdas, mas ainda lemos opiniões conservadoras e moralizantes em diversos cadernos de opinião da mídia brasileira, especialmente quando se trata da sexualidade feminina. Entre seus críticos estava François Mauriac, escritor francês, que em uma de suas enquetes no Figaro Littéraire perguntou: “Estaria a iniciação sexual da mulher no seu devido lugar no sumário de uma revista literária e filosófica séria?” A questão dividiu os intelectuais. Para muitos “O Segundo Sexo” é um “manual de egoísmo erótico,” recheado de “ousadias pornográficas”; não passa de “uma visão erótica do universo”, um manifesto de “egoísmo sexual.” Jean Kanapa insiste: “Mas sim, pornografia. Não a boa e saudável sacanagem, nem o erotismo picante e ligeiro, mas a baixa descrição licenciosa, a obscenidade que revolta o coração.” A polêmica mistura tudo. A contracepção e o aborto são ligados nas mesmas frases às neuroses, ao vício, à perversidade, e à homossexualidade. Segundo uma carta da enquete, “a literatura de hoje é uma literatura de esnobes, de neuróticos e de impotentes.” Claude Delmas deplora “a publicação por Simone de Beauvoir dessa enjoativa apologia da inversão sexual e do aborto.” Pierre de Boisdeffre em Liberté de l’ésprit assinala “o sucesso de O Segundo Sexo junto aos invertidos e excitados de todo tipo.” Leia mais em O Auê do Segundo Sexo de Sylvie Chaperon, publicado no Cadernos Pagu 12, de 1999.

Capa da edição brasileira de 2009 do livro O Segundo Sexo.

Nenhuma obra, literária ou acadêmica, de Simone de Beauvoir foi recebida com indiferença. Sua principal contribuição é sempre propor a discussão democrática e as rupturas das estruturas psíquicas, sociais e políticas. Por ser escrito por uma mulher e para mulheres, “O Segundo Sexo” levanta diversas questões, até mesmo no meio literário. Há muito tempo a literatura classificada como feminina é sinônimo de textos sem grande aprofundamento teórico. Além disso, não era comum tratar de assuntos como sexualidade, maternidade e identidades sexuais, mesmo na França do pós-guerra.

Em 2009, Fernanda Montenegro estreou a peça “Viver Sem Tempos Mortos”, baseada nas cartas autobiográficas de Simone de Beauvoir. A temporada de 2011 foi encerrada em dezembro, mas há a possibilidade da peça reestrear novamente no futuro. Em entrevista a Revista Bravo, Fernanda Montenegro respondeu algumas perguntas sobre sua relação com a obra de Beauvoir:

Qual o primeiro livro dela que você leu?

Foi O Segundo Sexo, que saiu em 1949 e se transformou num clássico da literatura feminista, sobretudo por apregoar que as mulheres não nascem mulheres, mas se tornam mulheres. Ou melhor: que as características associadas tradicionalmente à condição feminina derivam menos de imposições da natureza e mais de mitos disseminados pela cultura. O livro, portanto, colocava em xeque a maneira como os homens olhavam as mulheres e como as próprias mulheres se enxergavam. Tais ideias, avassaladoras, incendiaram os jovens de minha geração e nortearam as nossas discussões cotidianas. Falávamos daquilo em todo canto, nos identificávamos com aquelas análises. Simone, no fundo, organizou pensamentos e sensações que já circulavam entre nós. Contribuiu, assim, para mudar concretamente as nossas trajetórias.

De que modo alterou a sua?

Sou descendente de italianos e portugueses, um pessoal muito simples, muito batalhador, e me criei nos subúrbios cariocas. Desde cedo, conheci mulheres que trabalhavam. E reparei que, entre os operários, na briga pela sobrevivência, os melindres do feminino e as prepotências do masculino se diluíam. Era necessário tocar o barco, garantir o sustento da família sem dar bola para certos pudores burgueses. Nesse sentido, a pregação feminista de que as mulheres deviam ir à luta profissionalmente não me impressionou tanto. Um outro conceito me seduziu bem mais: o da liberdade. A noção de que tínhamos direito às nossas próprias vidas, de que poderíamos escolher o nosso rumo e de que a nossa sexualidade nos pertencia. Eis o ponto em que o livro de Simone me fisgou profundamente. Lembro-me de quando vi pela primeira vez a cena da bomba atômica explodindo. Ou de quando me mostraram as imagens dos campos de concentração nazistas. O impacto negativo que aquilo me causou foi parecido com o impacto positivo que O Segundo Sexo exerceu sobre mim. Garota, já suspeitava que não herdaria o legado de minha mãe e de minhas avós, que não caminharia à sombra masculina. O livro de Simone me trouxe os argumentos para levar a suspeita adiante. Continue lendo em A vida é um demorado adeus.

Justamente por ter uma lógica própria de se colocar no mundo, Simone decidiu escrever “O Segundo Sexo” ao perceber que nunca havia se perguntado: o que é ser mulher? Essa continua sendo uma pergunta atual, que deve ser feita por todas nós em algum momento da vida.

[+] Vídeos – Arquivo N, programa da Globo News especial sobre Simone de Beauvoir com entrevistas, imagens e declarações: Parte 1, parte 2 e parte 3.

[+] Não nasci mulher, e você? – Texto de Mari Moscou

[+] Parabéns, Querida Simone! Sempre! – Texto de Suely Oliveira

Lady Gaga, Foucault e a manutenção de nossas identidades

Texto de Catarina Corrêa.

Lady Gaga: Eu nasci desse jeito; Foucault: Não, você é um produto das relações de poder / Do tumblr “Theories of a Brown Monkey”

É tão fácil discordar tanto de um quanto de outro. Também é igualmente fácil concordar com ambos, ou alternar-se entre eles. De tempos em tempos, ou em diferentes situações, um pode fazer mais sentido do que outro, falar mais alto ao coração de pessoas que se afirmam com identidades múltiplas, superpostas, contrapostas ou dispostas de qualquer outra maneira.

À parte da clara crítica que a foto divulgada no Facebook faz à cantora Lady Gaga (na minha opinião, uma ofensa à deusa toda poderosa, um pecado quase), a brincadeira nos remete à uma longa e duradoura discussão acerca da formação e manutenção das nossas identidades. Não suponho que exista somente essa dicotomia tão díspar, nem pretendo questionar se temos ou não identidade, ou se tal categoria é ou não tão totalizante que oprime mais do que nos afirma como sujeitos (políticos ou sociais).

Pretendo, no entanto, me focar na afirmação de ambos os contrapostos na imagem e que me são tão caras, em espaços diferentes. Acho mesmo fantástica a observação de Foucault, ainda que a explore apenas superficialmente aqui, sobre como nos conformamos em função das relações de poder da sociedade. Assemelha-se, para mim, ao ‘tornar-se mulher’ de Beauvoir, pois parte da compreensão de que a expressão de cada pessoa está mais relacionada à sua trajetória e contexto social do que às suas características biológicas propriamente ditas. Neste sentido, pode-se nascer do sexo masculino e ser mulher, pode-se nascer do sexo feminino e ser homem, pode-se nascer do sexo feminino e tornar-se mulher, mãe, ou nascer do sexo feminino e tornar-se mulher, trabalhadora, é possível tornar-se ambos, qualificados tanto no sexo feminino, quanto no masculino, ou em qualquer outro que se suponha existir, ou que se queira fazer existir. Concordo, portanto, com Foucault. As relações de poder, a família, escola, trabalho, amigas e amigos, os espaços múltiplos de socialização nos quais estamos imersos fazem de nós mesmos quem somos, não só em termos de gênero, mas de gosto, de preferências políticas, de comportamento, na forma como expressamos nossa sexualidade, etc.

Qual o sentido, então, naquilo que Lady Gaga diz? Por que afirmar que nascemos assim, e como é possível concordar com ambos? Ora, se eu sou mulher, ou homem, se fosse negra ou negro, homossexual, se sou tatuada ou se me visto só com roupas xadrezes e se entendo que tudo isso é parte das relações de poder que me circundam (não necessariamente a condição destas características, mas a forma como as expresso), como dizer que eu nasci assim?

Lady Gaga sabe de onde vem seu poder / Cena do videoclipe de “Alejandro”.

Sendo a própria Lady Gaga um produto que se constrói e reconstrói, que se pensa a partir do pop derivativo, ela mesma compreende o tanto que não nasceu daquele jeito. Ela não nasceu Lady Gaga, sabe disso e expressa-o sempre que é escutada. Não se trata de pensar as categorias identitárias como essência de cada um que as possui, até por que tanto sua posse quanto sua expressão são diferenciadas em cada um.

Ainda assim, existe um processo de marginalização de determinadas identidades, estas que, entendidas como desvio, como erro, como subversão, tendem a ser suprimidas como identidades outras, diferentes, simplesmente aquilo que não é o que deve ser. Assim, numa quase oposição entre maioria e minoria, na qual a maioria seria não só absoluta como também um elemento de opressão e repressão de uma minoria diferente (que alguns tendem a chamar de hegemonia), é preciso pensar como ser minoria, como subverter a ordem e não deixar com que sua identidade seja entendida como desvio, como passível de correção?

Isto é o Born This Way de Lady Gaga, a afirmação de uma identidade marginalizada. A possibilidade de dizer ‘não me corrija, ainda que eu seja, como todas e todos, produto das relações de poder que me circundam’. Deixem-me ser eu mesma, assim como sou. Dizer “eu nasci assim” significa dar invisibilidade a processos de formação dos sujeitos e das preferências, mas significa, também, dizer que estou consciente de quem sou e assim quero ser. Mulher ou homem, homo ou heterossexual, independente da identidade de gênero, da expressão sexual, independente da cor, etnia, raça, religião.

Trata-se de afirmar-se sujeito, afirmar-se capaz num mundo que subalterniza as preferências de grupos e indivíduos minoritários sob o julgo da não informação, da vivência do gueto, marginal, formada a partir de espaços de socialização obscurantizados para a maioria.

É possível, portanto, entender-se a partir de relações sociais, mas afirmar-se, politicamente que seja, como essencialmente do jeito que se é. E, assim, meus desejos feministas para o ano que se inicia (independente do meu não reconhecimento do ano novo como uma data com qualquer relevância energética, mas, sim, meramente formal), é que saibamos cada vez mais afirmar-nos politicamente. Nascidos de uma série de formas, formados por uma série de relações, mas dispostos a ser quem somos essencialmente do jeito que somos, a fim de não termos nossas identidades subalternizadas. Feministas, sempre.