Lady Gaga, Foucault e a manutenção de nossas identidades

Texto de Catarina Corrêa.

Lady Gaga: Eu nasci desse jeito; Foucault: Não, você é um produto das relações de poder / Do tumblr “Theories of a Brown Monkey”

É tão fácil discordar tanto de um quanto de outro. Também é igualmente fácil concordar com ambos, ou alternar-se entre eles. De tempos em tempos, ou em diferentes situações, um pode fazer mais sentido do que outro, falar mais alto ao coração de pessoas que se afirmam com identidades múltiplas, superpostas, contrapostas ou dispostas de qualquer outra maneira.

À parte da clara crítica que a foto divulgada no Facebook faz à cantora Lady Gaga (na minha opinião, uma ofensa à deusa toda poderosa, um pecado quase), a brincadeira nos remete à uma longa e duradoura discussão acerca da formação e manutenção das nossas identidades. Não suponho que exista somente essa dicotomia tão díspar, nem pretendo questionar se temos ou não identidade, ou se tal categoria é ou não tão totalizante que oprime mais do que nos afirma como sujeitos (políticos ou sociais).

Pretendo, no entanto, me focar na afirmação de ambos os contrapostos na imagem e que me são tão caras, em espaços diferentes. Acho mesmo fantástica a observação de Foucault, ainda que a explore apenas superficialmente aqui, sobre como nos conformamos em função das relações de poder da sociedade. Assemelha-se, para mim, ao ‘tornar-se mulher’ de Beauvoir, pois parte da compreensão de que a expressão de cada pessoa está mais relacionada à sua trajetória e contexto social do que às suas características biológicas propriamente ditas. Neste sentido, pode-se nascer do sexo masculino e ser mulher, pode-se nascer do sexo feminino e ser homem, pode-se nascer do sexo feminino e tornar-se mulher, mãe, ou nascer do sexo feminino e tornar-se mulher, trabalhadora, é possível tornar-se ambos, qualificados tanto no sexo feminino, quanto no masculino, ou em qualquer outro que se suponha existir, ou que se queira fazer existir. Concordo, portanto, com Foucault. As relações de poder, a família, escola, trabalho, amigas e amigos, os espaços múltiplos de socialização nos quais estamos imersos fazem de nós mesmos quem somos, não só em termos de gênero, mas de gosto, de preferências políticas, de comportamento, na forma como expressamos nossa sexualidade, etc.

Qual o sentido, então, naquilo que Lady Gaga diz? Por que afirmar que nascemos assim, e como é possível concordar com ambos? Ora, se eu sou mulher, ou homem, se fosse negra ou negro, homossexual, se sou tatuada ou se me visto só com roupas xadrezes e se entendo que tudo isso é parte das relações de poder que me circundam (não necessariamente a condição destas características, mas a forma como as expresso), como dizer que eu nasci assim?

Lady Gaga sabe de onde vem seu poder / Cena do videoclipe de “Alejandro”.

Sendo a própria Lady Gaga um produto que se constrói e reconstrói, que se pensa a partir do pop derivativo, ela mesma compreende o tanto que não nasceu daquele jeito. Ela não nasceu Lady Gaga, sabe disso e expressa-o sempre que é escutada. Não se trata de pensar as categorias identitárias como essência de cada um que as possui, até por que tanto sua posse quanto sua expressão são diferenciadas em cada um.

Ainda assim, existe um processo de marginalização de determinadas identidades, estas que, entendidas como desvio, como erro, como subversão, tendem a ser suprimidas como identidades outras, diferentes, simplesmente aquilo que não é o que deve ser. Assim, numa quase oposição entre maioria e minoria, na qual a maioria seria não só absoluta como também um elemento de opressão e repressão de uma minoria diferente (que alguns tendem a chamar de hegemonia), é preciso pensar como ser minoria, como subverter a ordem e não deixar com que sua identidade seja entendida como desvio, como passível de correção?

Isto é o Born This Way de Lady Gaga, a afirmação de uma identidade marginalizada. A possibilidade de dizer ‘não me corrija, ainda que eu seja, como todas e todos, produto das relações de poder que me circundam’. Deixem-me ser eu mesma, assim como sou. Dizer “eu nasci assim” significa dar invisibilidade a processos de formação dos sujeitos e das preferências, mas significa, também, dizer que estou consciente de quem sou e assim quero ser. Mulher ou homem, homo ou heterossexual, independente da identidade de gênero, da expressão sexual, independente da cor, etnia, raça, religião.

Trata-se de afirmar-se sujeito, afirmar-se capaz num mundo que subalterniza as preferências de grupos e indivíduos minoritários sob o julgo da não informação, da vivência do gueto, marginal, formada a partir de espaços de socialização obscurantizados para a maioria.

É possível, portanto, entender-se a partir de relações sociais, mas afirmar-se, politicamente que seja, como essencialmente do jeito que se é. E, assim, meus desejos feministas para o ano que se inicia (independente do meu não reconhecimento do ano novo como uma data com qualquer relevância energética, mas, sim, meramente formal), é que saibamos cada vez mais afirmar-nos politicamente. Nascidos de uma série de formas, formados por uma série de relações, mas dispostos a ser quem somos essencialmente do jeito que somos, a fim de não termos nossas identidades subalternizadas. Feministas, sempre.

Existem mulheres filósofas, cientistas, intelectuais?

Texto de Marilia Moscou.

Façamos aqui, leitor/a, eu e vocês, um breve exercício. Sem pensar, em 30 segundos, digam o nome de dez grandes filósofos, cientistas, pensadores, homens ou mulheres. Valendo!!!

… [30 segundos depois] …

E aí? Desses dez quantos são mulheres? E se você fizer esse teste com as pessoas aí em volta, em casa ou no trabalho, quantas mulheres serão lembradas?

Esse assunto há certo tempo passou a me incomodar (e hoje estudo algo relacionado com isso no mestrado – www.mariliamoscou.com para conhecer mais), como imagino que esteja as incomodando agora. Acabo de conhecer o genial jogo “Filosofighters” (veja aqui) lançado pela revista Super Interessante no qual filósofos se encontram e este assunto voltou. Entre oito opções de “filósofos” com quem jogar – e os golpes são baseados em suas teorias e história – há somente uma mulher que nem é um personagem independente. Simone de Beauvoir aparece junto a Jean-Paul Sartre (que aparece com Simone, respectivamente) e, embora sua parceria amorosa não possa ser dissociada de ambas as obras, seus trabalhos enquanto autores e filósofos são bem distintos e até independentes. Além disso, a parceria amorosa é mais frequentemente lembrada e tomada como causa do sucesso intelectual quando se fala de Simone do que quando se fala de Jean-Paul. Ela é mais comumente tratada pelo primeiro nome e ele pelo último. Enfim, fica difícil dizer que a presença dela ali no jogo é, neste contexto, suficiente para se “incluir” as mulheres.

A presença e a obra de várias mulheres na filosofia, na ciência e enquanto intelectuais de forma mais abrangente, é muito pouco reconhecida e valorizada. Seus nomes são frequentemente “apagados” da história da ciência. Quando aprendemos física newtoniana no colégio, por que em momento nenhum é mencionada a obra de Émile du Chatelêt, grande comentadora de sua obra que foi a primeira pessoa a desenvolver a idéia de conservação de energia? Por que ao estudarmos sistemas binários e conceitos de programação raramente se fala do trabalho de Ada Lovelace, que foi a primeira pessoa a desenvolver um programa de computador e a noção de programação?

Hypatia, filósofa e matemática grega. Imagem: Bettmann/Corbis no The Guardian.

Embora possamos ter a impressão de que essa “ausência” das mulheres em nossas listagens no exercício que propus aqui se deva à sua ausência nesses campos de estudo ou à pouca relevância de seu trabalho, isto não é verdade. Uma boa busca e uma lida no documento que indico neste post do meu blog , ou no site Women Philosophers, podem elucidar de cara esta questão. Foi uma mulher que descobriu que o petróleo poderia ser usado como combustível mais eficiente ao invés do carvão e usou sua influência para que a indústria na Europa transformasse seus hábitos. Mulheres desenvolveram instrumentos, conceitos, aparelhos, cálculos, ferramentas, teorias. Raramente são lembradas por seu trabalho.

O jogo Filosofighters infelizmente peca neste aspecto, embora a ideia ainda que sem trema seja genial. Se pegarmos só o campo da filosofia,  veremos que não estao lá (no jogo) autoras cruciais como Hypatia, Emma Goldman, Hannah Arendt, Susan Blow… Se incluirmos intelectualidade em geral, faltariam pelo menos Pagu, Gertrude Stein, Virginia Woolf, Gilda de Mello e Souza, além de inúmeras outras que podemos listar nos comentários! Nesse ponto o jogo decepciona, apesar de que o golpe de sutiã e o beijinho entre Simone e Jean-Paul possam ser fofuchos e bem-humorados (ainda assim, a chatice da consciência feminista fica meio irritada de ver que o golpe da Simone não tem muito a ver com sua obra, mas com uma idéia equivocadíssima de feminismo).

Dê uma olhada e me avise se eu estiver exagerando. Mas acho que é bem por aí. Sem vergonha, contem lá: quantas mulheres nas listagens de vocês? Como foi esse exercício?

Feminismo? Já era!

Texto de Thayz Athayde.

Quantas vezes (só hoje) você já ouviu/leu que o feminismo já era? Mulher pode tudo, não precisa de mais nada. O vídeo trata de uma forma bem humorada a grande contradição desse discurso, será que a mulher tem liberdade de escolha mesmo?

Essa é a primeira parte do vídeo, logo farei a segunda. Aguarde e confie.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Ax2oA3B0kbE]

Assim como é preciso ponderar a condição da filosofia pós-psicanálise e pós-Auschwitz, a filosofia após a queda do muro no século em que a civilização encontrou de vez a barbárie, é preciso, do mesmo modo, perguntar sobre a existência de uma filosofia pós-feminismo. Não é possível entender as transformações da filosofia no século passado, cujos efeitos ressoam sobre o nascimento do século 21, sem levar em conta o que nele floresceu como feminismo afetando até hoje a construção do pensamento, da história cultural e do cotidiano de homens e mulheres. Não é possível deixar de perguntar se o feminismo afetou a filosofia ou se o feminismo é um efeito da filosofia. Que haja um feminismo filosófico a ser analisado como material para uma história da filosofia não é mais importante do que entender o que ainda pode ser tratado como filosofia após a crise da razão para o qual o feminismo contribui em grande medida ainda hoje.

Como qualquer movimento revolucionário tanto da teoria quanto da prática, o feminismo causa incômodo. Compreendê-lo é uma tarefa do nosso tempo, quando seu alcance prático ainda gera efeitos também teóricos. Hoje não podemos mais falar de um feminismo, mas de diversas correntes, posições e autores que ajudaram a levar adiante a causa feminista, inclusive pondo-a em xeque e definindo um rumo ainda mais crítico para o pensamento dos nossos dias.

Fonte: Feminismo e Filosofia no Século 20. Texto de Marcia Tiburi na Revista Cult, edição 133.