Nós Madalenas: uma palavra pelo feminismo

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Nós Madalenas é um projeto fotográfico com 100 retratos em preto e branco, naturais e sem edição em photoshop com o intuito de quebrar o padrão estético criado e imposto pela mídia. A proposta é pensar a beleza por meio de mulheres reais e únicas que se identificam como feministas.

Atualmente, o projeto busca financiamento coletivo para a publicação de um livro. O valor dessa obra está atrelado ao espaço que conquista, à quantidade de pessoas que tiverem acesso a esse material e forem levadas a uma reflexão acerca do tema. Portanto, registrar esse projeto em livro é uma forma de espalhar essa mensagem e alcançar um número cada vez maior de pessoas.

Você pode ajudar doando a partir de R$15 com boleto, cartão de crédito ou débito em conta por meio do site Benfeitoria, apoiando o projeto Nós Madalenas.

Imagem do projeto 'Nós Madalenas'. Para apoiar o lançamento do livro financeiramente basta ir ao site Benfeitoria - Nós Madalenas.
Imagem do projeto ‘Nós Madalenas’. Para apoiar o lançamento do livro financeiramente basta ir ao site Benfeitoria – Nós Madalenas.

Para saber mais, conversamos com Maria Ribeiro, fotógrafa responsável pelo projeto:

1. Por que trabalhar com palavras escritas no corpo em forma de protesto?

As palavras são uma forma de expressar a vivência pessoal de cada uma das participantes. Expressando uma palavra que representa o feminismo para ela, cada uma está compartilhando uma parte de sua história, a qual reflete muitas outras histórias, trazendo assim um “raio x” de toda uma situação de gênero na nossa sociedade.

Palavras como “acolhimento”, “poder”, “empoderamento”, “luta” expressam o que essas mulheres encontraram no feminismo e que muitas vezes transformou sua visão de mundo e sua própria vida. Mulheres começaram a se libertar das imposições sociais, das cobranças desmedidas e passaram a se amar e se aceitar de forma muito mais profunda.

Um outro aspecto do projeto que é questionador é a estética do mesmo. Eu sou fotógrafa e, além do projeto, faço ensaios femininos. A minha forma de trabalho é artística e naturalista, ou seja, não há photoshop, não há um processo de pós-produção para encaixar a mulher dentro de padrões irreais de estética que estão em voga na mídia. E eu trouxe essa linguagem para o “Nós, Madalenas” ou seja, tudo que é considerado como “imperfeição” é mostrado da forma mais natural possível: estrias, celulites, cicatrizes, formas, tudo é feito para mostrar que as mulheres são reais, e cada uma traz a sua própria beleza. Para mim é muito importante que haja imagens circulando que mostrem isso, pois o que eu mais vejo são mulheres sofrendo e deixando de se amar porque estão buscando um ideal de beleza impossível de ser alcançado, por ser totalmente irreal.

2. Quais os critérios pra definir a participação no projeto?

Não há uma seleção ou critérios, basta a mulher ser feminista e escolher uma palavra inédita para seu retrato. Foram feitos 100 retratos de mulheres de todas as idades, corpos, cores e vivências.

3. Como se dá o processo de realização da fotografia? Fale um pouco do comportamento e reação das mulheres participantes.

Cada participante é um caso diferente e cabe a mim ter tato e empatia para lidar com cada uma da forma que ela se sinta o mais confortável possível. Isso não é uma tarefa fácil, porque são pessoas que eu nunca vi na vida, que nunca me viram e eu tenho ali alguns minutos para fazer com que elas confiem em mim o suficiente para se abrirem e fazerem uma foto que transmita uma mensagem.

Pra elas também é um desafio pois são mulheres que não estão acostumadas a serem fotografadas (e a tensão que vem com uma lente apontada pra você não é fácil de lidar) e é uma experiência forte porque a foto traz um pouco da história dela, ela está realmente abrindo muito dela mesma.

Então, a gente começa com um papo, relaxa o corpo, vamos pro estúdio, fazemos alguns testes e aí que começa o processo de buscar naquela pessoa o retrato que simboliza aquela mensagem. Geralmente existe um minuto em que fotógrafo e fotografado se conectam e é naquela segundo que sai a foto. Parece que por uma fração de tempo aquela pessoa não está ali como modelo, não está tensa, não está auto- consciente, ela simplesmente se abre, e é aí que temos que pegar a foto. É um momento mágico que demanda habilidade e tato para ser atingido, mas é extremamente gratificante.

4. Como foi a repercussão das primeiras fotos publicadas?

O projeto começou pequeno e com algumas amigas. Fizemos um Tumblr para nós mesmas e não tinha divulgação. Mas as amigas fizeram, outras amigas quiseram fazer, aí as amigas das amigas também queriam e aí o projeto foi crescendo. Sem eu mesma saber ele começou a ser publicado em algumas plataformas virtuais e redes sociais e a repercussão foi bem grande. A partir desse ponto é que o projeto cresceu bastante e novas metas foram surgindo.

5. Como o livro pode expandir o projeto?

Primeiramente o livro vai trazer não apenas os 100 retratos feitos ao longo de um ano, mas também um relato de cada fotografada. O meu contato com todas essas mulheres me fez conhecer muitas de suas histórias, que são um material rico e envolvente e eu senti a necessidade de compartilhar isso também. E foi aí que surgiu a ideia do livro.

Além disso um material publicado é muito expressivo, ele traz uma marca e um sentimento de conclusão para o projeto, pelo menos de uma primeira fase dele. Como disse, considero muito importante encher essa mídia de imagens de mulheres reais, mostrar que o natural é belo e que não é preciso estar dentro dos padrões impostos pela mídia tradicional para ser bonita. Quero que as mulheres se amem e amem seu corpo independente da aprovação alheia.

E quero trazer o tema do feminismo e do seu impacto da vida das mulheres a tona, quero gerar discussão sobre o tema, gerar reflexão, quero que a questão de gênero se torne pauta cada vez mais presente em todos os ambientes pois é um tema que ainda precisa de muito trabalho de conscientização, tanto para homens quanto para mulheres.

E aí, vamos apoiar o projeto Nós Madalenas? Nós apoiamos!

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Vídeo: Nós Madalenas – Uma palavra pelo feminismo

Eu te desafio a me amar

Texto de Marcelo Caetano.

Foto de Diana Blok. Parte do projeto fotográfico "Eu te desafio a me amar".
Foto de Diana Blok. Parte do projeto fotográfico “Eu te desafio a me amar”.

A arte é sempre um bom caminho para se tomar em direção à libertação, embora se dê sob um processo bastante particular, resultando em efeitos diversos para cada indivíduo. As portas que se abrem para pensar e repensar o que fazemos e o que somos, uma vez abertas, já não podem ser mais fechadas. É a isso que Diana Blok se propõe.

Diana Blok é uma fotógrafa holandesa/uruguaia com raízes no Brasil. De uma sensibilidade incrível, a partir da câmera é capaz de escutar o que os olhos dizem. Com seu projeto “Eu te desafio a me amar” (veja programação), propôs-se retratar pessoas LGBT’s de Brasília e do Rio de Janeiro. Algo que parece muito simples, transforma-se em arte através das lentes de Blok.

Seus retratos não buscam exotismo ou afetação; retratam sujeitos, pessoas com trajetórias e identidades. E é justamente isso que nos leva a uma série de questionamentos: quem é o outro? Qual a diferença do outro que o faz diferente de mim? Por que essa diferença nos incomoda tanto?. As imagens nos permitem pensar sobre identidades, sobre como as construímos e como nos colocamos no mundo a partir delas, e, ainda, sobre como todos nós partilhamos aspectos muito simples da vida: casa, família, sonhos, trabalho, enfim, cotidiano.

Tendo sido fotografado para o projeto, tive a sensação de não estar sozinho, de ter o meu lugar no mundo compartilhado por outros tantos que também questionam seu lugar no mundo, mas que, nem por isso, furtam-se a estar nesse mundo. Além disso, durante os meses de elaboração, tive algumas oportunidades de conversar com Diana. Seu processo de escuta dos indivíduos que fotografa me parece ser bastante importante, e mesmo constitutivo, daquilo que a artista busca trabalhar: a sensibilidade para enxergar além de si mesmo.

Serviço

A exposição será inaugurada hoje em Brasília e depois seguirá para o Rio de Janeiro. Além disso, o INESC – Instituto de Estudos Socioeconômicos promoverá uma série de atividades paralelas a exemplo da Roda de Conversa com jovens do projeto Onda, que contou com a participação da Professora Doutora Flávia Teixeira, do Ambulatório Saúde das Travestis e Transexuais do HC/UFU. Tais atividades formativas e de debates seguirão até dezembro de 2014.

BRASÍLIA

Museu da República

• 14 de maio, 20h00: Abertura da exposição de fotografias “Eu te desafio a me amar”, de Diana Blok.

• 15 a 30 de maio, 9h30 às 18h00: Exposição aberta ao público.

• 29 de maio, 16h00: Cinema e política: debate aberto ao público sobre direitos humanos LGBT no Brasil.

Cidade Estrutural – Coletivo da Cidade

• 31 de maio, 16h00: Abertura da exposição de fotografias “Eu te desafio a me amar”, de Diana Blok, no Sarau das Coletivas.

• 31 de maio a 15 de Junho, 9h00 às 17h00: Exposição aberta ao público.

RIO DE JANEIRO

Complexo de Favelas da Maré/Observatório de Favelas

• 25 de abril, 18h00: Abertura da exposição de fotografias “Eu te desafio a me amar”, de Diana Blok.

• 26 de abril a 09 de maio:, 9h00 as 18h00 Exposição aberta ao público.

• 26 de abril, 10h00 às 13h00: Oficina de fotografia com a artista visual Diana Blok (inscrições no local).

Anistia Internacional

17 de maio: Dia Internacional Contra a Homofobia e Transfobia.

• 10h a 19h30 – Exposição de fotografias “Eu te desafio a me amar”

• 16h – Mesa de Debates sobre liberdade de expressão e direitos humanos de minorias sexuais.

• 19h30 – exibição do filme “Eu te desafio a me amar”, de Diana Blok.

Vivian Maier: a fotógrafa anônima

Texto de Danielle Pereira.

Descobrir esta mulher, esta artista, foi, para mim, um daqueles momentos em que você precisa parar para digerir o que te alimenta. À medida que via suas fotografias e lia sobre sua suposta história, um arrepio insistia em percorrer incessantemente minha espinha. Me vi, por vezes, respirando fundo e olhando para o vazio, tentando assimilar o que me chegava. A identificação com seu trabalho foi imediata. A reverência foi absoluta.

Foto de Vivien Maier.
Foto de Vivian Maier.

Vivian Maier é uma descoberta recente. Anônima em vida, ganhou notoriedade e reconhecimento post-mortem. Morreu há poucos anos, em 2009. E, somente agora sua obra está sendo conhecida e, ainda, avaliada. Por 40 anos ela se sustentou como babá. E, nas horas vagas, perambulava pelas ruas de Chicago (antes Nova Iorque) fotografando pessoas e situações. Pouco se sabe sobre ela. Alguns relatos garantem sua afinidade com o socialismo e o feminismo. Dá para notar! Suas imagens me parecem bem emblemáticas, cheias de simbolismos e insinuações, me trazem inúmeras leituras. Representando e, ao mesmo tempo, renegando alguns dos valores daquela sociedade na qual ela aparentemente se inseria.

Crianças, adultxs, idosxs, negrxs, brancxs, imigrantes, trabalhadorxs, ricxs, pobres, opressor(a), oprimidx. No olhar humanista desta despretensiosa fotógrafa autodidata, a presença de mulheres é constante e diversificada. Por vezes ela parece retratá-las de forma a exaltar sua emancipação ou a denunciar o machismo, o racismo e os conflitos nas relações entre diferentes extratos sociais. As mulheres da alta sociedade, por exemplo, nunca são fotografadas “por completo”; ela mostra apenas um relance ou um detalhe (o rosto, as pernas, algum ornamento indicativo de seu status), deixando claro um distanciamento. Já àquelas marginalizadas costumam aparecer por completo dentro de uma composição que escancara uma crítica ao modus operandi da sociedade.

Foto de Vivien Maier.
Foto de Vivian Maier.

Porém, o que mais me chamou a atenção foram seus autorretratos, que me chegam como uma ilustração do pouco que sabemos sobre ela: fragmentos de uma pessoa. Quase sempre um reflexo da mulher; seja no espelho, seja no vidro (multifacetada!), seja uma silhueta… A sombra da dúvida que paira sobre sua existência. No entanto, é emblemático o uso do autorretrato por ela e por várias fotógrafas feministas como uma forma de representação da mulher, como maneira de se auto-afirmar e reconhecer-se, tendo consciência de seu lugar e de seu protagonismo.

Talvez seja pelo fato de Maier ser uma fotógrafa entusiasta e retratar o cotidiano de uma sociedade da qual se sentia integrante… me surpreendi ao perceber sua relação com os fotografadxs. Ela usava uma Rolleiflex, um tipo de câmera que você segura na altura do abdômen, com duas lentes na frente. Ao contrário das câmeras popularmente conhecidas, que posicionamos no meio da cara, no caso da Rolleiflex, precisamos olhar para baixo. Assim, tenho a sensação de que tanto fotógrafa quanto fotografadxs ficam igualmente expostos e vulneráveis, com seus rostos e olhares à mostra em pé de igualdade.

Foto de Vivien Maier.
Foto de Vivian Maier.

Curioso foi reparar que, no caso de Vivian Maier, suas personagens quase sempre olhavam para a câmera, como se ela fosse o único objeto estranho naquele contexto, capturando a atenção da criadora e da criatura. Isso me trouxe uma sensação de horizontalidade e de quebra desse campo de força que distancia o olhar dx artista. Nada mais propício para embasar a experiência humanista da fotografia documental, retratando a verdadeira natureza das pessoas e situações.

Lamentavelmente (e talvez resida aí o fascínio por seu trabalho), sua trajetória não foge à regra dos típicos casos de artistas que morrem no abandono e na pobreza. Como herança para o mundo, Maier deixou, num guarda-volumes, uma caixa com milhares de negativos arrematados (num golpe de sorte) por um historiador interessado apenas e inicialmente em registros da cidade de Chicago.

O projeto de John Maloof, no entanto, voou pelos ares quando ele percebeu a riqueza dos registros de Maier e passou a divulgar sua obra e a tentar desvendar a artista por traz dela. Para culminar essa busca por valorizar (e rentabilizar) o legado da fotógrafa, Maloof lançou, na semana passada, no Festival de Toronto um documentário sobre a vida de Vivian Maier, chamado: ‘Fiding Vivian Maier’.

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Num mundo instantâneo e de instantâneos, de Flickrs e Instagrams, uma aficionada da fotografia registrou a vida cotidiana com eloquência e brilhantismo. Na noite em que descobri o trabalho de Vivian Maier, perdi o sono. Mas ganhei uma referência de fotógrafa humanista, documental, socialista e feminista.

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Danielle Pereira é jornalista de formação, fotógrafa e viajante por paixão. Autora e idealizadora do Miradas.