Projeto Unbreakable

O Projeto Unbreakable (“inquebrável”) começou em outubro de 2011, por iniciativa de Grace Brown, que fotografa vítimas de abusos sexuais. Nas fotos, mulheres, mas também homens, seguram cartazes com frases proferidas por seus abusadores. Algumas delas mostram todo rosto, outras apenas os olhos e existem aquelas que preferem permanecer no anonimato. Compreensível.

Há de se ter coragem para participar deste corajoso projeto. O objetivo de Grace Brown é levar consciência às vítimas de abuso sexual e, quem sabe, ajudá-las na cura dessa dor. Segundo Yvonne Moss, sobrevivente de estupro e defensora das vítimas de abuso sexual, o projeto seria uma maneira das vítimas tomarem de volta o poder das palavras que outrora já foram usadas contra elas.

O resultado é ousado e, ao mesmo tempo, aterrador.  Com uma ampla diversidade de perfis, até abuso sexual de mãe para filha, vamos ficando com uma sensação de agonia, de falta de ar, de dignidade jogada no lixo ao vermos as fotos. E lembrar que isso acontece todos os dias…

Triste… muito.

Algumas das fotos:

Foto de 02 de Janeiro de 2012. "Você teve sorte que era eu e não algum verme!"
Foto de 08 de Fevereiro de 2012. "Se alguém descobrir, eu vou te matar." Meu pai
Foto de 14 de Fevereiro de 2012. "Nós não podemos confrontar seu tio" ~ meus pais (eu tinha dez anos)
Foto de 11 de Janeiro de 2012. "Desculpas por aquilo. Nós estamos legais apesar disso, certo?". 2 dias depois... "Você está me evitando ou alguma coisa do tipo?!"
Foto de 09 de Fevereiro de 2012. "Eu te odeio por me fazer fazer isso com você"
Foto de 09 de Janeiro de 2012. "Sorria para mim, amor..." ("Não dói tanto assim.")
Foto de 09 de Dezembro de 2011. "É sua culpa por ser atraente."
Foto de 08 de Fevereiro de 2012. "Pare de chorar, e se você contar, nós vamos matar você, sua mamãe e papai e irmão. Até aquela nova irmã bebê."
Foto de 06 de Fevereiro de 2012. "Não se preocupe, meninos devem gostar disso"
Foto de 05 de Janeiro de 2012. "Eu achava que você gostava quando as pessoas te comem." Minha mãe

Nudez Feminina

O corpo feminino é um assunto meio espinhoso de se falar, ainda mais quando falamos do corpo feminino nu e exposto. Na história da arte podemos ver o quanto é complicada a relação do nu feminino com a sociedade.

Vênus de Urbino, 1538 do Pintor veneziano Ticiano - Wikimedia Commons, em CC.

No Renascimento, mulher nua em alguma pintura só se tivesse um motivo, um tema “superior”, a apenas mostrar um belo corpo feminino nu. Pinturas com temas do período Clássico da Grécia eram comuns para retratar mulheres nuas. Depois, o Academicismo trouxe a pintura de nu com o propósito de estudo anatômico, mantendo ainda um tema para o nu na arte.

Essa obrigação de um tema para retratar o corpo nu (não só o feminino) durou até o Impressionismo, onde as pinturas Olympia (nome da prostituta retratada pelo artista) e Le déjeuner sur l’herbe (em português, O almoço sobre a relva ou O piquenique no bosque), ambas do pintor Manet, do ano de 1863. Essas pinturas foram chocantes para a época, ao mostrar mulheres nuas sem nenhum tema além do simples nu.

Nu na Arte Contemporânea, mais liberdade para falar da sexualidade feminina. Étant Donnès (1946-1966) escultura do artista Marcel Duchamp - Wikimedia Commons, em CC.

Outra coisa que sabemos é que mulheres que posavam para pinturas de nu, nessa época, eram na sua maioria, prostitutas. Afinal, a nudez não era coisa de mulheres de família. Foi também no Século XIX que começamos a ver alguns artistas retratarem modelos que não fossem mais prostitutas. Auguste Rodin retratou inúmeras amantes dele, uma delas, Camille Claudel, uma artista promissora e bem mais liberal que a maioria das mulheres de sua época. Ainda assim, mulheres que posavam para artistas, independente de quem fosse, eram vistas como prostitutas. Podemos notar o preconceito com mulheres artistas ou modelos vivas no filme Camille Claudel, em várias passagens ela sofre preconceito por ser amante de Rodin, como se o trabalho dela fosse medido não por sua genialidade e sim por fazer sexo com um homem mais velho e casado. Ela e qualquer outra modelo  de Rodin, eram vistas como prostitutas por inúmeros auxiliares do escultor. Camille Claudel foi esquecida como escultora por muito tempo.

Na contemporaneidade, o nu começou a ser tratado de forma mais comum na arte. Tão comum a ponto de lotar museus de arte em todo o mundo. A obra contemporânea com nu que mais me apaixona é o Étant Donnès de Marcel Duchamp, sempre visto como um artista que não sabia trabalhar com imagens realistas, deixou como obra póstuma um belo exemplar de nu feminino. Uma obra curiosa, no mínimo, uma pintura tridimensional, onde o expectador é um voyeur, que assiste do buraquinho de uma porta, um momento íntimo de uma mulher. Ao que parece, seria um momento pós sexo, o ângulo é bem revelador e explícito.

O nu no Impressionismo fez uma revolução na Arte. Pintar Olympia, uma prostituta, sem temática específica. Olympia do pintor Manet - Wikimedia Commons, em CC.

Chegando em um momento muito mais próximo dos dias de hoje, o nu volta a ser assunto, mas em um protesto de artistas e ativistas feministas. As mulheres do Guerrilla Girls perguntam “Do women have to be naked to get into the Met. Museum?” (Mulheres precisam ficar nuas para entrarmos no Met. Museum?). Questionando porque encontramos mais quadros de nus femininos que quadros assinados por mulheres artistas dentro dos museus.

Bem, fiz esse mapa histórico para falar de como é vista a nudez feminina hoje em dia. Somos bombardeados por inúmeras imagens de mulheres nuas, mas na maioria das vezes com uma conotação muito objetificada. O que transforma uma revista com mulheres nuas em poses sensuais em algo machista? Acho que essa pergunta me assombra há muito tempo. Antes eu via a revista como um problema. Agora, tento encontrar qual é o problema, se é a revista, se é a procura por essas revistas ou se é esse tipo de revista ser comercializada apenas para homens (revistas de homens nus são para o público gay, na sua maioria).

Tradução: "Mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu Met? Menos de 3% dos artistas nas salas de arte moderna são mulheres, mas 83% dos corpos nus são femininos". Guerrilla Girls, foto de Hanako Hiro no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Acredito que continuamos a viver em um mundo onde a nudez feminina é algo sujo, impuro e errado. Seja por medo de ser julgada como vadia ou por medo de enfrentar o seu próprio corpo, temos sempre medo de que nos comparem com as mulheres ditas como beleza universal pela mídia. Mulher bonita não tem celulite, mulher bonita não tem pneuzinho, mulher bonita não tem peito caído. Mas nem toda mulher bonita é mulher direita, afinal, qual mulher direita apareceria nua em uma revista? Mulher direita no máximo mostra seu corpo nu ao seu marido.

Hoje em dia vejo uma necessidade de desmistificar o nu, a mostrar que mulher “perfeita” não existe, o padrão midiático é uma mentira alimentada pela edição de foto e vídeo, que tira estria, celulite, barriga, cicatriz, tatuagem e a realidade de uma mulher. Quantas mulheres têm medo de se olhar no espelho graças a isso? Eu já tive medo de me encarar no espelho, eu já detestei tirar fotografias, eu já me senti feia por não ser como as mulheres que aparecem nas revistas e na televisão.

Também precisamos tirar esse resquício de preconceito em relação a mulheres que não têm pudor, que tem vontade e coragem de se mostrar como são, de expor seus corpos. Seja em revistas masculinas, na televisão, em fotografias artísticas ou pinturas. O corpo nos pertence e o nosso caráter não é medido pelo tamanho de nossas roupas ou porque fomos fotografadas sem roupa, com biquíni ou com lingerie.

Quando eu comecei a perder o medo de ser fotografada. Morning por João Miranda - Acervo pessoal

O nu feminino em uma obra de arte, para muitos é aceitável, mas se não for artístico é ruim por quê? Todo nu não é igual? Alguns nem assim aceitam a nudez feminina, olham para a(s) mulher(es) que não têm esse tipo de pudor como olhavam para as modelos dos pintores de séculos atrás. Continuamos acreditando que certos tipos de nudez são aceitáveis e outros não, continuamos acreditando que podemos julgar mulheres porque posaram sem roupa, no final das contas, não mudamos muito não é?

O interessante trabalho de Katie West

As pessoas as vezes acham estranho que eu coloque fotos minhas nuas na internet. Sim, talvez seja estranho. Mas, qual o problema?” [Katie West]

Fotografia é um assunto que sempre me atraiu bastante. Muitas vezes, imagens dizem mais do que palavras, sobretudo quando são bem feitas e conceituais. E conheci através de um amigo o trabalho muito interessante de uma fotógrafa chamada Katie West.

Katie é canadense, tem 25 anos e suas fotos têm como focos  principais  a nudez e a sensualidade. Mas ao contrário do que vemos em boa parte das mídias voltadas para o tema, não são modelos de corpos esculturais que são retratadas. Ora são  pessoas comuns, que poderíamos ver em qualquer lugar, ora são fotos dela mesma. Sim,  Katie faz fotos dela mesma nua. É também ela mesma quem as produz e distribui.

Katie West. Foto de Katie West no Tumblr

Alguns de seus trabalhos foram feitos em parcerias com outros fotógrafos, onde ela pode fotografá-los e ser fotografada.  E em vários deles, temos a impressão de que não houve a montagem de qualquer cenário, pois parece que foram feitos em espaços comuns, como um apartamento por exemplo. E Katie sempre procura criar uma atmosfera de espontaneidade e de naturalidade em torno de suas composições, o que faz com que a sua proposta seja única e diferenciada.

Esta fotógrafa sempre buscou estimular as pessoas a aceitarem seus corpos como eles são e a sentirem-se à vontade com eles.  Para ela, a nudez não deve  ter uma conotação de indecência ou de apelação.  Tampouco um parâmetro que determine o que é bonito ou não, tanto que podemos notar em boa parte de seus trabalhos a presença de muita gente – mulheres principalmente – considerada fora dos padrões estéticos vigentes.  São retrata@s negr@s, pessoas consideradas acima do peso, pessoas muito tatuadas ou com cabelos multicoloridos…

O que mais me agrada no trabalho de Katie é justamente esta diversidade que ela propõe. E admiro demais a coragem, a liberdade e a ousadia dela enquanto profissional. O fato dela expor-se tão abertamente ao mundo faz com que eu a perceba como alguém versátil e autêntica, que inspira muita gente a ser feliz sendo exatamente como é. E enxergo uma nudez genuínamente artística em seu portifólio, que vale a pena ser bastante prestigiado.

Katie nunca assumiu-se como feminista. Mas o simples fato dela romper com tantos paradigmas e proporcionar uma visão diferente das coisas para muitas pessoas já faz com que o trabalho dela seja válido e interessante. Para conhecer um pouco mais o trabalho de Katie West, confiram o Tumblr e o Flickr dela.