Infância e o desrespeito masculino

Texto de Paula Carvalho.

Outro dia estava vendo um filme, desses tipo Sessão da Tarde. Uma hora a menina reclamou para uma senhora sobre um garoto que vivia a provocando, no que essa senhora respondeu que ele provavelmente gostava da garota. Daí fiquei pensando em quantas vezes já não ouvi alguém falando isso. Quantas vezes eu mesma não reproduzi esse pensamento. E como começa ainda na infância essa tentativa de justificar os piores comportamentos masculinos.

Alguns podem achar exagero, mas não vejo muita diferença entre essa atitude dos meninos e a violência cometida por homens contra as mulheres. O garoto puxa o cabelo da menina porque gosta dela, um desconhecido passa a mão em uma mulher na rua porque achou ela bonita. Quando homens matam suas namoradas, diz-se que eles cometeram crimes passionais. Devemos ficar lisonjeadas?

Pode até ser que o garoto realmente goste da menina. Pode ser que ele não conheça outra forma de expressar seus sentimentos, já que nossa sociedade exige dos homens essa não-afetividade. Mas, a partir do momento em que apenas justificamos isso para elas, ao invés de ensiná-las a se defender e de ter uma conversa com eles, estamos apenas dizendo: “é assim que as coisas são, eles não vão mudar”.  E, daí para um “se você se  incomoda, é você quem deve mudar” é um pulo.  E esse pulo pode seguir para caminhos perigosos, como culpar a vítima pela violência. Quem mandou ela estar sozinha na rua de noite? Os homens, coitadinhos, simplesmente não conseguem se controlar ao verem uma saia.

Há sempre uma justificativa para as atitudes masculinas, há sempre uma razão por trás de sua agressividade, mas alguém já se perguntou como essas meninas e mulheres se sentem ao ver os homens disporem de seus corpos e espaço como bem entenderem?

Quando estava na terceira ou quarta série, estudava em uma escolinha no meu bairro que tinha uma quadra nos fundos. Na hora do recreio as professoras dividiram os dias em que meninas e meninos podiam jogar. Só que, sempre que chegava o nosso dia, os garotos invadiam a quadra e não deixavam a gente jogar. Essa situação durou alguns dias até chegarmos a um acordo. No dia deles, eles jogavam, no nosso dia… todos jogavam. Na época pareceu uma boa solução. Tenho quase certeza que fui eu quem propôs esse absurdo. Mas hoje eu lembro disso e só consigo pensar: What the fuck???  Cadê as professoras? Elas não ouviram a gente reclamar? Por que elas não fizeram nada?

Daí eu me lembro de uma pesquisa sobre violência escolar, que li enquanto procurava algum artigo para embasar este texto. Os professores estavam preocupados com os índices de violência no ambiente escolar, inclusive por parte das meninas. Quando perguntados sobre quem é mais violento, a maioria citou que as meninas estão brigando muito, mas quando perguntados sobre um episódio específico de agressão grave, a maioria lembrava de brigas envolvendo garotos. Não sei vocês, mas a minha matemática não bate.

A questão é que a agressividade masculina é muito mais aceita — e até incentivada — pela sociedade. Esse episódio na escolinha me fez perguntar: por que as brincadeiras tinham que ser separadas em primeiro lugar? A resposta parece óbvia. Meninas e meninos gostam de brinquedos diferentes. Meninos são agressivos por natureza e vão machucar as meninas com suas brincadeiras. Voltamos para o que já falei sobre justificar o comportamento masculino ao invés de educar para a convivência.

No livro ‘Cinderella ate my daughter‘ (Cinderella engoliu a minha filha), que  desconstrói vários mitos sobre o universo feminino e seu gosto “natural” por coisas mais delicadas, como rosa e brincar de boneca, a jornalista Peggy Orenstein argumenta que aumentar a diferença entre os gêneros é uma das maneiras mais fáceis de segmentar o mercado, aumentando o consumismo. Se você tem que comprar brinquedos diferentes para a sua filha e seu filho, ao invés de um só para os dois, o mercado sai lucrando. Mas ela alerta para as conseqüências que isso traz à convivência entre os gêneros.

Segundo a autora, brinquedos diferentes desencorajam a amizade entre os sexos, fazendo com que meninas e meninos deixem de brincar juntos. Essa seria uma questão de saúde pública, pois é prejudicial para relacionamentos e para a saúde mental quando essas crianças não aprendem a conversar entre si. Parte da razão dos altos índices de divórcio, violência doméstica, comportamentos obsessivos e assédio sexual, explica Orenstein, se dá por causa da falta de habilidade de comunicação entre mulheres e homens.  Crianças que têm amigos do sexo oposto transitariam de forma mais positiva para adolescentes com namorados e manteriam melhores relacionamentos amorosos.

Fazer vista grossa a determinados comportamentos masculinos, como se agressividade e desrespeito fossem características naturais e, até mesmo, formas de demonstrar sentimento, não somente não faz muito sentido,  como ainda pode trazer péssimos resultados no futuro.

Gênero neutro

Texto de Barbara Lopes.

A discussão sobre a forma presidenta vem nos lembrar que não existe neutralidade na nossa língua, como não existe na nossa sociedade. Se eu for ao cinema com alguém e meu marido me ligar, vou necessariamente dizer o gênero da pessoa que está comigo, “um amigo” ou “uma amiga” – e o significado desse passeio pode mudar completamente por isso. Em outras línguas, como no inglês, a frase ficaria ambígua, mas em português é muito difícil fugir – inclusive porque as fugas nos denunciam prontamente.

Mas há quem diga que não: que o masculino funciona como masculino mesmo, mas também como neutro. Nossa língua funciona assim, no plural (“amigos” pode ser um grupo com apenas um homem e muitas mulheres) e nas formas que não flexionam (“moça meio distraída”). E também nossa sociedade funciona assim. O que precisa ser marcado é o feminino; é o que notamos primeiro, é a diferença.

O mesmo acontece com outros grupos “diferentes”. No campo da sexualidade, falamos da heteronormatividade, a expectativa é que o “normal”, o “default” é ser hétero e que a diferença é que é notada, marcada. No O que é racismo, o Joel Rufino dos Santos conta (cito de memória) de um jogo de futebol, em que toda vez que um jogador tal errava um lance, um torcedor gritava “Preto burro!”. Daí, quando um jogador branco errou, um amigo do autor gritou, para espanto de todos, “Branco burro!”.

Esses dias, um amigo criticando um comportamento no trânsito disse que achava que mulheres faziam isso mais do que homens, e me perguntou se fazia sentido. Estatísticas são complexas, talvez haja mais mulheres dirigindo; talvez mulheres realmente se comportem desse jeito. Mas me ocorreu que talvez ele repare mais quando é uma mulher e que quando homens fazem a mesma coisa, caia pra uma gaveta “neutra”.

O nosso trabalho é duplo: desconstruir esse neutro-normativo (homem, branco, hétero) e reconstruir um sentido neutro real, em que as pessoas sejam notadas pelo que são e não pelo grupo no qual foram inseridas. Nessa luta, não há campo neutro.

Update – dois links fresquinhos sobre o caso “presidenta”:

Poder, gênero e presidência

Texto de Cecilia Santos.

Escrevo este texto no dia da posse da Presidenta Dilma Roussef, 01 de janeiro de 2011. Dia de muita emoção, de me sentir ainda mais ligada às mulheres deste grupo. Desejo de abraçar todas as mulheres brasileiras.

Revendo as imagens, penso no agora ex-presidente Lula e em minha própria história. Em 2010, participei da sexta eleição para presidente da minha vida. Ou seja, todas as eleições do período pós-ditadura. E ano passado, pela primeira vez, não votei no Lula, mas na candidata do PT, Dilma Roussef.

Nesses 21 anos muitas coisas mudaram na minha vida. Só não mudou o fato de que, a cada eleição, era preciso enfrentar o preconceito e a má fé em tudo o que se referia ao PT e especialmente a Lula.

Bom, hoje terminou o seu mandato e, como vimos, nenhuma das muitas previsões estapafúrdias e catastróficas de seus críticos se concretizou. Pelo contrário. Apesar de críticas à direita e à esquerda do espectro político nacional, é consenso que Lula deu um grande passo para diminuir a desigualdade social. Por isso, é simbólico que, ao descer a rampa do Planalto, Lula tenha se abraçado e chorado com esse povo que ele entende tão bem e que o venera.

Vocês devem estar pensando: por que eu resolvi enaltecer a biografia desse homem num post de temática feminista? Porque, em primeiro lugar, sem ignorar seus erros ou omissões, tenho grande admiração por ele. E minha admiração decorre também de sua iniciativa de indicar e apoiar Dilma para presidente. Se houve motivações ocultas e cálculos políticos, eu não sei. Se Lula é machista em sua vida privada, também ignoro. Mas acho realmente relevante que o primeiro operário a se tornar presidente tenha trabalhado para eleger uma mulher para sucedê-lo.

Embora as conquistas femininas ainda tenham sido modestas em seus 8 anos de governo, comparado aos governos anteriores do período democrático, a diferença é enorme. Fiz uma pesquisa rápida na internet, levantei os números de ministras em cada governo, e o resultado, em forma de gráfico, é o seguinte:

Os dados sobre o número de ministros foram obtidos na Wikipedia e, portanto, são passíveis de erro, mas certamente se aproximam da realidade. A tabulação e o gráfico foram feitos por Cecilia Santos.

Como se vê, Lula teve o maior número de mulheres ocupando pastas ministeriais, um total de 10 mulheres ao longo de 8 anos. Durante o mesmo período, o ex-presidente FHC teve apenas 2, a mesma proporção que Sarney e menos até, proporcionalmente, que Collor e Itamar.

Infelizmente, ainda neste início de século as mulheres, mesmo organizadas, continuam a ter muita dificuldade para romper barreiras. Infelizmente tivemos que contar com a figura masculina para lançar a candidatura da Dilma. Infelizmente seu mandato será sempre julgado por aqueles que acreditam que Dilma é uma invenção de Lula, por mais competente que ela tenha sido, seja e venha a ser em suas funções públicas.

O que eu quero dizer é que não devemos esperar que os homens nos façam ‘concessões’ na vida pública ou privada. A luta feminista é das mulheres, sem dúvida. Mas pode e deve ser também dos homens, pois é inegável que, com um pouco mais de consciência da parte deles, o acesso igualitário e justo dos gênero às posições de poder é possível.