Gênero neutro

Texto de Barbara Lopes.

A discussão sobre a forma presidenta vem nos lembrar que não existe neutralidade na nossa língua, como não existe na nossa sociedade. Se eu for ao cinema com alguém e meu marido me ligar, vou necessariamente dizer o gênero da pessoa que está comigo, “um amigo” ou “uma amiga” – e o significado desse passeio pode mudar completamente por isso. Em outras línguas, como no inglês, a frase ficaria ambígua, mas em português é muito difícil fugir – inclusive porque as fugas nos denunciam prontamente.

Mas há quem diga que não: que o masculino funciona como masculino mesmo, mas também como neutro. Nossa língua funciona assim, no plural (“amigos” pode ser um grupo com apenas um homem e muitas mulheres) e nas formas que não flexionam (“moça meio distraída”). E também nossa sociedade funciona assim. O que precisa ser marcado é o feminino; é o que notamos primeiro, é a diferença.

O mesmo acontece com outros grupos “diferentes”. No campo da sexualidade, falamos da heteronormatividade, a expectativa é que o “normal”, o “default” é ser hétero e que a diferença é que é notada, marcada. No O que é racismo, o Joel Rufino dos Santos conta (cito de memória) de um jogo de futebol, em que toda vez que um jogador tal errava um lance, um torcedor gritava “Preto burro!”. Daí, quando um jogador branco errou, um amigo do autor gritou, para espanto de todos, “Branco burro!”.

Esses dias, um amigo criticando um comportamento no trânsito disse que achava que mulheres faziam isso mais do que homens, e me perguntou se fazia sentido. Estatísticas são complexas, talvez haja mais mulheres dirigindo; talvez mulheres realmente se comportem desse jeito. Mas me ocorreu que talvez ele repare mais quando é uma mulher e que quando homens fazem a mesma coisa, caia pra uma gaveta “neutra”.

O nosso trabalho é duplo: desconstruir esse neutro-normativo (homem, branco, hétero) e reconstruir um sentido neutro real, em que as pessoas sejam notadas pelo que são e não pelo grupo no qual foram inseridas. Nessa luta, não há campo neutro.

Update – dois links fresquinhos sobre o caso “presidenta”:

Poder, gênero e presidência

Texto de Cecilia Santos.

Escrevo este texto no dia da posse da Presidenta Dilma Roussef, 01 de janeiro de 2011. Dia de muita emoção, de me sentir ainda mais ligada às mulheres deste grupo. Desejo de abraçar todas as mulheres brasileiras.

Revendo as imagens, penso no agora ex-presidente Lula e em minha própria história. Em 2010, participei da sexta eleição para presidente da minha vida. Ou seja, todas as eleições do período pós-ditadura. E ano passado, pela primeira vez, não votei no Lula, mas na candidata do PT, Dilma Roussef.

Nesses 21 anos muitas coisas mudaram na minha vida. Só não mudou o fato de que, a cada eleição, era preciso enfrentar o preconceito e a má fé em tudo o que se referia ao PT e especialmente a Lula.

Bom, hoje terminou o seu mandato e, como vimos, nenhuma das muitas previsões estapafúrdias e catastróficas de seus críticos se concretizou. Pelo contrário. Apesar de críticas à direita e à esquerda do espectro político nacional, é consenso que Lula deu um grande passo para diminuir a desigualdade social. Por isso, é simbólico que, ao descer a rampa do Planalto, Lula tenha se abraçado e chorado com esse povo que ele entende tão bem e que o venera.

Vocês devem estar pensando: por que eu resolvi enaltecer a biografia desse homem num post de temática feminista? Porque, em primeiro lugar, sem ignorar seus erros ou omissões, tenho grande admiração por ele. E minha admiração decorre também de sua iniciativa de indicar e apoiar Dilma para presidente. Se houve motivações ocultas e cálculos políticos, eu não sei. Se Lula é machista em sua vida privada, também ignoro. Mas acho realmente relevante que o primeiro operário a se tornar presidente tenha trabalhado para eleger uma mulher para sucedê-lo.

Embora as conquistas femininas ainda tenham sido modestas em seus 8 anos de governo, comparado aos governos anteriores do período democrático, a diferença é enorme. Fiz uma pesquisa rápida na internet, levantei os números de ministras em cada governo, e o resultado, em forma de gráfico, é o seguinte:

Os dados sobre o número de ministros foram obtidos na Wikipedia e, portanto, são passíveis de erro, mas certamente se aproximam da realidade. A tabulação e o gráfico foram feitos por Cecilia Santos.

Como se vê, Lula teve o maior número de mulheres ocupando pastas ministeriais, um total de 10 mulheres ao longo de 8 anos. Durante o mesmo período, o ex-presidente FHC teve apenas 2, a mesma proporção que Sarney e menos até, proporcionalmente, que Collor e Itamar.

Infelizmente, ainda neste início de século as mulheres, mesmo organizadas, continuam a ter muita dificuldade para romper barreiras. Infelizmente tivemos que contar com a figura masculina para lançar a candidatura da Dilma. Infelizmente seu mandato será sempre julgado por aqueles que acreditam que Dilma é uma invenção de Lula, por mais competente que ela tenha sido, seja e venha a ser em suas funções públicas.

O que eu quero dizer é que não devemos esperar que os homens nos façam ‘concessões’ na vida pública ou privada. A luta feminista é das mulheres, sem dúvida. Mas pode e deve ser também dos homens, pois é inegável que, com um pouco mais de consciência da parte deles, o acesso igualitário e justo dos gênero às posições de poder é possível.

Há 30 anos: TV Mulher

Texto de Cecilia Santos.

Em dezembro de 1980, eu e meus colegas da 8ª série nos abraçávamos chorando em clima de despedida quando chegou a notícia de que John Lennon havia sido assassinado.

Foi também em 1980 que o atual presidente Luís Inácio Lula da Silva foi preso por liderar greves de metalúrgicos na região do ABC Paulista. No mesmo ano foi criado o PT – Partido dos Trabalhadores. No Brasil e em toda a América Latina militantes de esquerda estavam presos ou exilados, ou simplesmente haviam desaparecido.

Claro que nenhuma discussão crítica desses fatos da vida política passava pela escola, apelidada na região de ‘colégio dos padres’, e a TV mostrava a sua versão conservadora dos fatos. Por isso, só bem mais tarde eu fui entender o que significou esse período.

E foi com muita surpresa que, dias atrás, assisti a este vídeo da Marília Gabriela, apresentadora da TV Mulher, um programa feminino de variedades criado justamente no ano de 1980, ainda em plena vigência da ditadura militar, paradoxalmente levado ao ar pela emissora conhecida por apoiar o golpe militar, a Rede Globo.

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No vídeo, Marília Gabriela fala dos problemas da mulher, que ‘vão desde a tradicional discriminação (…) no trabalho até a validade ou não da legalização do aborto, passando pela necessidade de creches e da divisão do trabalho doméstico’.

O momento mais emocionante de sua fala é uma referência ao problema da seca que assolou o Nordeste nessa época, condenando o uso dos termos ‘invasão’ ou ‘saque’ para se referir a ‘outros brasileiros que estão querendo comer’.

Era um chamado para que as mulheres assumissem o seu protagonismo não só em relação aos múltiplos problemas de gênero que persistem até hoje, mas também no que diz respeito à vida social e política do país.

O programa tratava de uma variedade de temas, de telenovelas, moda e culinária e direito da mulher e do consumidor.

Mas talvez um dos quadros mais memoráveis foi Comportamento Sexual, dirigido pela Marta Suplicy. Foi a primeira vez que se falou na TV de orgasmo, ejaculação precoce, masturbação e gravidez na adolescência.

É claro que @s conservador@s não gostaram. O grupo que ficou conhecido como Senhoras de Santana chegou a acampar em frente ao estúdio da Rede Globo exigindo que o quadro fosse retirado do ar.

Felizmente não foram atendidas, e o programa continuou até 1986, quando foi substituído pelo programa infantil Xou da Xuxa e, mais tarde, por outro programa feminino, Mais Você, apresentado por Ana Maria Braga.

E eu me pergunto: o programa foi uma tentativa ousada de discutir questões de gênero com um público mais amplo? Isso teve alguma influência nas (poucas) conquistas dos últimos 30 anos? Mas principalmente, por que o conservadorismo conseguiu praticamente varrer as discussões de gênero da TV aberta?