Sobre o limbo entre a invisibilidade e o ridículo

Texto de Gabriela de Jesus.

“Capoeira que é bom sabe cair.”

Há uns anos atrás frequentei um projeto de capoeira em Guarulhos e a princípio entrei no grupo para aprender a tocar os instrumentos, mas a professora e o mestre primavam que todos tinham que saber fazer tudo, então comecei a treinar. Logo no primeiro treino, levei um golpe e cai, óbvio. FOI HORRÍVEL!

Nossa, não queria nunca mais entrar na roda, não queria ter que passar por aquilo de novo e constatei uma coisa muito interessante: EU TENHO PAVOR DE CAIR. Ninguém é afeito a cair infinitamente, mas enquanto os outros caiam e riam de si, se animavam em continuar, eu ficava eternamente envergonhada, sem saber como lidar e passei a refletir sobre essa diferença. Percebi que por ser gorda, cair é quase que um pavor constante por ser justamente a hora que as pessoas mais usam para nos ridicularizar.

Quer ver um exemplo? Quando uma pessoa magra entra num bar/ restaurante/sala de aula ela olha a cadeira e analisa se vai aguentá-la ou não? Toda vez, toda vez? Pois bem, se um magro sentar na cadeira e ela quebrar é porque a cadeira estava quebrada, agora se uma pessoa gorda sentar na cadeira e cair ela deixa de ser um “corpo invisível” para o “corpo ridículo”: Também olha o tamanho dela, não se enxerga. Come feito um boi, quer o quê? (Mesmo que nem tenha ideia do quanto a pessoa coma e isso realmente não tem a ver com ela). Também pra essa pessoa a cadeira tem que ser de ferro!!! RISOS RISOS RISOS INFINITOS RISOS nunca a alternativa da cadeira estava quebrada aparece.

Tenho refletido muito sobre como ser gorda desde sempre afetou a construção da minha subjetividade e como tenho como situações desagradáveis algo que para as pessoas é comum e até banal.

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Diversidade de corpos não pode ficar só no slogan

Texto de Flávia Durante.

A nova campanha da marca de roupas C&A mostra total falta de tato e responsabilidade. Pode ser linda, sexy, plus size, curvilínea, sim. Gorda, jamais! Mais um exemplo de grande marca querendo surfar na onda do empoderamento feminino e da diversidade sem incluir de fato pois, o plus size da C&A é até tamanho 48.

O problema de uma campanha mentirosa – não nas palavras, mas na imagem – é que ela reafirma para todas as mulheres que AQUILO é o aceitável de ser gorda. Quer dizer então que ser magra é só se você vestir 38? Qualquer coisa acima do corpo de uma modelo de passarela, já pode ser considerada gorda?! OI?!?! Na verdade, o bonito pra gorda é na verdade ser magra… DE NOVO, GENTE?! Quando vamos parar?  Onde vamos parar? C&A e a propaganda ENGANOSA: close erradíssimo! Por Ju Romano.

Não iria mais falar sobre esse assunto mas só pra colocar um ponto final.

Em todas as camadas da sociedade, as mudanças só acontecem pois as pessoas “mimizentas” compram briga para depois todas poderem desfrutar de suas conquistas. No caso do universo da moda plus size no Brasil foram as blogueiras, empreendedoras e modelos “briguentas” que pressionaram e lutaram para que nosso país tenha hoje um mercado que movimenta mais de 6 bilhões de reais/ano.

Se dependesse do mundo brasileiro da moda — que despreza quem não é 36 — ainda teríamos como única opção lojas de “tamanhos especiais” com roupas horríveis e nomes medonhos como “A Porta Larga” e “A Gorda Elegante” ou a seção de gestantes das grandes redes.

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Sobre o corpo e a dicotomia entre subjetivo e material

Texto de Éris Grimm.

Vamos falar sobre essa dicotomia que algumas pessoas insistem em manter:

(1) subjetividade, amigues, não é uma alminha desencarnada que paira como se fosse nossa sombra, só para ser objeto de juízo: “você vai pro céu / você vai pro inferno / você reencarna / etc”. Subjetividade é algo que existe no corpo. Se expressa pelo corpo. É algo que afeta o corpo, que muda o corpo. Sendo mais radical: subjetividade É corpo. Portanto, subjetividade é Material.

E corpo, amigues, é um objeto de interesse por parte de TUDO o que constitui as tramas econômicas da nossa sociedade capitalística. Porque é através do corpo que as pessoas trabalham nas fábricas, escritórios, lojas, etc. É através do corpo que as pessoas realizam trabalhos domésticos (limpeza, comida, cuidados, etc.). É através do corpo que as pessoas se reproduzem (e por conseguinte reproduzem mais corpos pras engrenagens do capital). É através do corpo que as pessoas formam unidades domésticas e instituições (tais como a família) encarregadas de educar/preparar outros corpos para serem socialmente úteis.

Foto de galaxies and hurricanes no Flickr em CC. alguns direitos reservados.
Foto de galaxies and hurricanes no Flickr em CC. alguns direitos reservados.

Se a gente entender que corpo e subjetividade são duas coisas intimamente ligadas
tudo o que afeta a subjetividade afeta o corpo, afetando assim fluxos de trabalho e consumo, tornando-se assim parte dos cálculos que estruturam a sociedade que nós vivemos.

(2) Você talvez seja bitoladamente incapaz de entender isso. Mas, a despeito do que você queira pensar, essa ligação entre subjetividade e economia é algo que praticamente todos os administradores de grandes empresas já entenderam. E fazem uso disso. É algo que todas grandes articulações políticas já entenderam. E fazem uso disso.

Não é à toa. Existe uma diversidade de sistemas midiáticos que investem PESADAMENTE (muita grana) veiculando imagens que atuam no nosso imaginário, nos nossos sentimentos de insegurança/bem-estar. Bem como, para além da mídia temos também aparelhos pedagógicos (escolas, igrejas, redes familiares) que trabalham constantemente a forma como nos comportamos, como sentimos, como nos afetamos.

Para dar só alguns exemplos: se existem imagens que bombardeiam constantemente as mulheres para que sintam-se mal com seus corpos, para que sintam desprezo pela gordura, para que aprendam que magreza é bonito (instituindo um contexto generalizado de gordofobia), isso se dá porque existem MUITOS interesses econômicos (da indústria médica, da indústria farmacêutica, dos profissionais de saúde) em lucrar com a gordofobia.

Que pessoas trans sintam-se constantemente humilhadas, inseguras… é uma questão subjetiva, sim. Mas há também um interesse farmacêutico, médico e das indústrias na fabricação desse medo e terrorismo em nossos corpos para nos venderem tratamentos, terapias, cosméticos, etc. que prometem corrigir todos os corpos que desviam do padrão prometido.

O medo constante que pessoas não-homens sentem em transitar pelos espaços públicos não nos afeta apenas emocionalmente — afeta também a transitabilidade dos nossos corpos pelo espaço, coisa que interfere diretamente nas nossas possibilidades econômicas.

A possibilidade constante de pessoas trans — bem como das pessoas bissexuais, lésbicas, gays — serem rechaçadas por suas famílias, não é apenas um “drama privado e individual”, mas afeta diretamente redes de apoio social e financeiro, forçando muitas dessas pessoas a situações de precariedade e subemprego.

Os efeitos “subjetivos” da transfobia, bifobia, da gordofobia (pra citar só alguns sistemas de opressão que costumam ser tomados como “meramente individuais”) não são simplesmente “dramas individuais”. São efeitos estruturantes de todo um sistema social/econômico no qual vivemos.

Lutar contra esse sistema implica lutar contra essas opressões. E lutar contra essas opressões implica construir mecanismos de resistência TAMBÉM contra os efeitos subjetivos dessas opressões. Que passa por construirmos outras formas de nos subjetivarmos, buscando modos de empoderamento que transgridam aqueles já cooptados pelas redes de trabalho e consumo do capital. Isso não é liberalismo. É luta anticapitalista mesmo, levada às últimas conseqüências. É luta antipatriarcal, também levada às últimas conseqüências.

O que algumas pessoas fazem, ao dizer que certas questões são “meramente subjetivas” frente a outras que seriam “verdadeiramente materiais” é criar uma hierarquia de opressões apagando a vivência de boa parte dos corpos que são oprimidas pelo patriarcado e pelo capital. Esse apagamento de vivências NÃO é anticapitalismo. Nem antipatriarcal. Não possui nada de transformador, nada de radical.

Resistência anticapitalista e antipatriarcal se fazem construindo apoio e potência TAMBÉM aos afetos e aos modos de subjetivação que possibilitem fugir e desviar daquilo que é lucrativo a quem está no controle. “O pessoal é político”.

Autora

Éris Grimm é graduada em Gêmeos, com mestrado em Aquário, doutoranda em Peixes, pelo Programa de Sobrevivência ao Saturno em Escorpião. Lésbixa trrransmutante, pornoterrorista em potencial. Aprendiz de dançarina e massoterapia na escola da auto-gestão. Esse texto foi originalmente publicado em seu perfil no Facebook no dia 05/06/2015.