Materialidade e subjetividade: o direito ao aborto

Texto de Iara Paiva para as Blogueiras Feministas.

Há pouco menos de 3 meses, eu sofri um aborto. Uma gravidez não planejada, mas muito bem recebida e acolhida. Em uma consulta de rotina, descobri que os dois corações de meus futuros filhos (eram gêmeos) já não batiam. Passei por uma aspiração intrauterina e, fisicamente falando, esse episódio já está superado. Mas ainda estou elaborando tudo o que vivi e desconfio que algumas coisas mudaram em mim para sempre. Uma delas, porém, permanece intacta: a certeza de que o aborto voluntário deveria ser legalizado em todo o mundo.

RJ - Véspera do Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, feministas em ato na Praça XV, defendem a descriminalização do aborto e destaca o alto índice de mortes em abortos clandestinos. Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil.
RJ – Véspera do Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, feministas em ato na Praça XV, defendem a descriminalização do aborto e destaca o alto índice de mortes em abortos clandestinos. Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil.

Nossas vidas são feitas de materialidade e subjetividade. Ou seja, nós sonhamos, projetamos, reagimos à realidade. E temos que encaixar os nossos sentimentos aos fatos. Já li muito sobre como as mães de recém nascidos têm de dar conta do impacto de ter um bebê real, depois de meses idealizando como seria o bebê que gestaram, por exemplo. Eu não sonhava em ser mãe. Nem agora, nem no futuro, mas há mulheres que sonham com isso a vida toda. Elas, provavelmente, gestam a ideia da maternidade muito antes de estarem grávidas de fato. Eu, não. Não havia essa criança idealizada por anos, mas ela estava sendo gestada junto com as crianças reais. E com certeza seriam diferentes.

Isso tudo pra dizer que há gente que, como eu, não sonha em ter filhos, mas lida bem com uma gravidez real. E gente que diz que jamais faria uma aborto, mas se vê obrigada a interromper uma gestação não planejada, porque a vida real é muito diferente dos nossos sonhos e, por vezes, atropela nossas convicções. Cada gestante é que pode saber se tem condições de se tornar mãe ou não naquele momento.

Os fetos que eu perdi seriam meus filhos. Já tinham um pai orgulhoso, avós, primos, tios, todos sonhando com eles. E todos esses planos eram tão reais quanto o fato de que eles não tinham um sistema nervoso formado ainda e portanto não sentiram dor quando pararam de se desenvolver na nona semana. Quem sofreu foram as pessoas que conferiram subjetividade a eles. E eu, principalmente, que entreguei o meu corpo a todas as mudanças que já estava sofrendo – e continuou a sofrer mesmo depois da gestação interrompida. Independentemente dos sentimentos envolvidos, minhas dores e meu sangramento foram bem materiais…

Internada no hospital concluí que meu sofrimento não me fazia mais digna de um atendimento humano do que uma pessoa que interrompe uma gestação porque quer. Materialmente falando, meus fetos não eram indivíduos ainda, uma vez que eram completamente dependentes do meu corpo – e apenas dele – para se desenvolverem. Levei um susto imenso ao descobrir a gravidez gemelar, não só porque ter dois bebês de uma vez não deve ser fácil, mas porque teria uma gravidez com mais riscos. Porque as pessoas contrárias ao direito ao aborto não gostam de comentar, mas toda gestação implica risco. De morrer, inclusive. E adivinhem? Os riscos são maiores em gestações de múltiplos.

Tenho o privilégio de viver em um país em que o aborto é legalizado e teria acesso ao procedimento com toda a segurança. Se tivesse decidido interromper minha gestação por qualquer motivo, provavelmente passaria pela mesma aspiração uterina, que apesar de ser um procedimento que também implica riscos, pode ser mais seguro do que um parto — sobretudo um parto gemelar. Ainda assim, ciente dos muitos riscos, minha escolha era levar a gestação adiante. Mas pensava todo tempo: e se eu não fosse uma mulher de 35 anos, em uma relação sadia, em um contexto socio-econômico privilegiado, o que eu faria? Aqueles que querem controlar a vida das mulheres dizem que todas deveriam “assumir a responsabilidade” da falha de um anticoncepcional. Mesmo? Não podemos ter vida sexual se não estivermos dispostas a sermos mães de gêmeos? Por que quem disse que o risco é de ter “só” uma criança? Só pode transar quem está disposta a parir, sustentar e educar três crianças de uma vez?

Isso dito, parte da dor da perda gestacional é fruto da sensação de viver um luto sem rosto. Então a minha defesa do direito à escolha não minimiza minha dor e a de tantas outras mulheres que tiveram suas gestações interrompidas contra sua vontade. Meu luto é tão legítimo quanto o direito de outra mulher de viver sua história à sua maneira. Minha inveja — sim, inveja, sou humana — de alguém que está gestando, ainda que contra a vontade, não pode ser maior que o reconhecimento do direito de cada uma de escrever sua própria história, de tomar sua própria decisão.

É perturbador passar pelo que eu passei e eu não desejo isso a ninguém. Como não desejo a ninguém o desespero de ter que buscar um aborto clandestino. Ao aceitar que a minha dor é legítima mas o aborto voluntário não, a sociedade reforça o discurso misógino de que o sofrimento dignifica a mulher.

Na cama do hospital, lembrei de Jandira, Elizângela e tantas outras. Lembrei de minhas amigas que precisaram fazer um aborto clandestino. Lembrei da ex-colega de trabalho que, ao chegar em um hospital com sangramento, foi destratada pelos profissionais de saúde que acharam que seu aborto fora provocado. E no meio da dor e do luto pensava no quanto ainda temos que militar para ter direito a uma atenção à saúde que não nos discrimine, que seja capaz de nos acolher na dor e na escolha com respeito e dignidade.

Se você é contra o aborto, não aborte!

Texto de Elisangela Dalmazo para as Blogueiras Feministas.

Na China há leis rígidas de planejamento familiar e controle de natalidade, a conhecida “política do filho único”. Por causa dessa política de governo, gestantes sem permissão para engravidar podem ser obrigadas a realizar um aborto no caso de uma segunda gravidez ou quando são solteiras, porque o Estado chinês não permite às mulheres solteiras registrarem os seus filhos, negando-lhes acesso à educação, saúde e outros direitos.

O Estado chinês não respeita a decisão das pessoas para que as autoridades consigam atingir as suas metas de controle populacional, sem se preocupar com a vontade das mulheres. Aqui no Brasil “democrático” vivemos uma realidade diferente, mas tanto o Estado como a sociedade intervêm nas escolhas das mulheres, obrigando-as muitas vezes a ter uma gestação indesejada, condenando-as a se arriscarem em abortos clandestinos e até mesmo morrerem por não as darem direito à escolha. Mas o que esses casos distintos têm em comum? A falta de domínio dessas mulheres sobre o próprio corpo.

Marcha das Vadias na praia de Copacabana, Rio de Janeiro. Foto de Júlio César Guimarães/UOL.

A cultura machista é o grande vilão desses abusos contra as mulheres. A luta por espaço, por respeito, por dignidade ainda será árdua para a maioria delas. A discussão contra o aborto é o meio mais direto e ditador da sociedade impor o seu poder de controle sobre a vida das mulheres, determinando como elas devem se comportar, o que podem fazer e como devem se calar. No entanto, o que os “defensores da vida” não percebem é que existem problemas muito mais graves acontecendo em torno desse “crime” que tanto condenam. A negligência está aí o tempo todo, mas somente as grávidas são responsabilizadas por isso.

O governo é negligente quando não dá apoio e estruturas a essas mulheres e suas famílias. A sociedade é negligente quando não faz nada para mudar essa realidade e exigir mais políticas públicas. As pessoas não se importam em saber como essas mulheres engravidaram, como vivem ou porque se arriscam a realizar procedimentos clandestinos colocando em risco a própria vida. Muitos homens são negligentes quando não assumem seu papel de apoiar as mulheres, deixando-as sob a custódia de uma sociedade machista e preconceituosa. Muitas pessoas estão abortando nesse momento, ao condenar uma mulher e decidir o que ela deve fazer com o próprio corpo e com a própria vida.É fácil ser contra, principalmente para os homens, que em sua maioria não passarão pela experiência de engravidar sem querer. Afinal, a culpa é sempre da mulher!

Essas mulheres, vítimas de preconceitos sociais desumanos e de um sistema político patriarcal, precisam ter seus direitos respeitados. Políticas de planejamento familiar, acesso a métodos contraceptivos, atendimento especializado em casos de violência sexual e aborto legal e seguro. Porém, o que ocorre é que são obrigadas a salvar a própria vida dos julgamentos de uma sociedade hipócrita, que ao mesmo tempo que condena o aborto apoia medidas de extermínio da juventude, especialmente negra. Os ditos “pró-vida” vão estar sempre em defesa da “vida” do feto, mas são essas mulheres que estão inseridas na sociedade, são elas que têm família, são elas que têm uma vida real que pode mudar drasticamente, são elas que precisam de defesa.

Mas ai sempre vem aquela pergunta machista: “por que não se cuidou se não queria engravidar?”. E eu respondo: pelo mesmo motivo que você nasceu com esse pré-conceito deformado sobre a vida alheia. Por mais que existam formas de prevenir uma gravidez, elas acontecem, as pessoas são humanas e não seres perfeitos. Acidentes simplesmente acontecem. Isso quando não é um estupro ou outros casos de violência sexual. Ter um filho deve ser uma decisão com ampla possibilidade de escolha, justamente porque isso reforça a responsabilidade das pessoas em relação as crianças.

Defender a vida é um discurso vazio, porque ninguém é a favor da morte. E, em casos como o do Brasil, em que as mulheres são obrigadas a realizar abortos clandestinos, quem morre muitas vezes é uma mulher que tem outros filhos. No que sua opinião contrária a legalização do aborto está ajudando nas vidas das mulheres? No que a criminalização do aborto no Brasil tem ajudado a sermos uma sociedade mais justa e igualitária?

Todos são a favor da vida, por isso que o aborto deve ser legalizado. Isso garante não apenas dados mais confiáveis em relação a prática que geram políticas públicas melhores para evitar que as mulheres cheguem na decisão de fazer ou não um aborto, mas também pode garantir a vida de muitas de mulheres que morrem todos os anos, vítimas de abortos ilegais. Iria garantir o respeito e a liberdade a todas as mulheres.

Pra você que é contra o aborto, não aborte! No Brasil é crime ser obrigada a fazer um aborto e continuará sendo, mesmo com a legalização. Faça o que acha certo para sua vida. Aproveite a liberdade que tem de ter sua escolha. Mas não condene uma vida que desconhece e um corpo que não te pertence.

Autora

Elisangela Dalmazo é estudante de Música na UFPR. Produtora audiovisual desde 2010. Acredita que a conscientização de um mundo melhor pode ser algo levado às pessoas através das palavras e das artes.

O que acontece depois que uma mulher jovem e grávida decide não abortar?

Recebemos esse texto e a autora nos pediu para não se identificada porque teme reações. Segundo ela, essa é apenas a sua visão sobre o que acontece com as jovens grávidas no país. 

Foto de Georgie Pauwels no Flcikr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Georgie Pauwels no Flcikr em CC, alguns direitos reservados.

Texto de M. O.

O que acontece depois que uma mulher jovem e grávida decide não abortar?

Eu posso responder essa pergunta.

Em um domingo comum, durante o café-da-manhã, com gentilezas habituais e poucos assuntos, parti o coração dos meus pais. Eu tinha 19 anos e estava grávida. Minha voz soou tranquila, mas eu estava desesperada.

Eu era uma menina como tantas outras, nada de especial. Recebia todos os mimos que uma menina de classe média pode receber, tinha uma ótima educação e era um orgulho. Inteligente e muito responsável.

E como tantas outras meninas, eu transava. Até que alguma coisa falhou, não deu certo, eu errei.

Ao descobrir que estava grávida vi todos os meus sonhos indo embora, correndo para longe sem despedidas. Entrei na faculdade com 16 anos, estava quase me formando, faltava tão pouco. Tinha planejado por meses um intercâmbio, tudo certo, tudo pago.

Não mais.

Eu não queria ter um filho, mas não tinha a menor ideia de como parar uma gravidez. Eu sabia que se não fizesse alguma coisa me arrependeria para o resto da vida, mas eu não fiz. Eu tive meu filho. E me arrependi.

Acho que não consegui sair ilesa de toda a formação católica que recebi. Queria abortar, mas a culpa me consumia.

E quanto à pergunta no começo do texto?

Bom, as jovens que decidem não abortar recebem o mesmo tratamento dado as jovens que abortaram.

Durante toda a minha gravidez eu fui recriminada, questionada, julgada, sem a menor consideração. Por vizinhos, amigos, familiares, professores, médicos, vendedores, por todos.

A minha barriga era o sinal verde que dava a todas as pessoas a minha volta o direito de me insultar. Eu era uma menina comum, um orgulho para os meus pais e virei uma puta. Uma puta grávida.

Vivi os piores dias da minha vida, me tranquei em um buraco emocional difícil de sair. Eu não sentia nada por aquele bebê, eu não queria aquele bebê.

Quando meu filho nasceu eu chorei, mas não foi por ter sido consumida pelo maior amor do mundo, pelo amor que cura todas as feridas e te recompensa pelos percalços que virão. Eu não senti nada disso, eu estava desesperada por ter um bebê para cuidar.

Com tempo e muita persistência/insistência esse amor chegou. Foi difícil, mas ele veio e é sim algo muito especial. O doce de cada dia.

Mas não é gratuito é conquistado. Ser mãe não é maravilhoso é um trabalho ardoroso, muitas vezes ingrato. Um trabalho que só deveria ser executado por quem realmente tem vontade e fim.

Meus sonhos fugiram mesmo, não consegui recuperar. Hoje tenho uma vida boa, moro com meu filho e sou independente.

Todos os dias são difíceis. Tenho 23 anos e ter decidido não abortar não me fez melhor, não gerou compreensão e ainda sou muito recriminada por isso.

Não abortar não fez de mim uma pessoa digna de respeito para a maioria dos conservadores de plantão. O motivo principal de toda a revolta que se estabelece em torno do aborto é a mulher ter o direito de querer transar e não o bebê em si. Isso é só uma máscara.