Jogo digital educativo e feminista: Lutas e Conquistas Femininas

Texto de Sonia Beatriz Leite Ferreira Cabral para as Blogueiras Feministas.

Em 2000, quando começamos a produzir jogos educacionais utilizávamos os CD-ROM como dispositivos de armazenamento. A mudança para o suporte digital, trouxe consigo as necessidades de se adaptar à nova linguagem e às exigências do mercado. Nesse período, passei a frequentar um grupo de estudo e pesquisa sobre gênero e tecnologia e acabei realizando uma pesquisa sobre a história das mulheres no Brasil, ficando fascinada pelo tema. Percebi que era necessário ampliarmos a circulação desses conhecimentos e possibilitar que os estudos sobre as mulheres ultrapassem o mundo acadêmico e fossem disponibilizados para um público mais jovem.

Incorporar pressupostos de gênero ao processo de construção de um jogo exige um compromisso com a pluralidade, com a linguagem inclusiva, e com utilização de imagens não sexistas e estereotipadas. Nesse sentido, produzimos o jogo de tabuleiro lúdico-pedagógico “Lutas e Conquistas”:

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A trajetória de exclusão da educação feminina no Brasil

Por Tati Andrade para as Blogueiras Feministas.

Apesar das conquistas femininas ao longo da história brasileira, alguns pontos continuam maquiados na luta por direitos na área da educação.

A história da mulher brasileira, como a de tantas no mundo, é marcada pela ordem patriarcal familiar que, legitimada pela religião e pelo Estado, transmitiu o silenciamento do feminino em todas as esferas sociais. Desde menina, a mulher era ensinada a ser mãe e esposa; sua educação limitava-se a aprender tarefas estritamente domésticas sem qualquer participação na vida urbana. Sua circulação em espaços públicos só acontecia em ocasiões especiais e ligadas as atividades da igreja como missa, procissão e afins. Na obra 500 anos de educação no Brasil, uma coletânea com 24 artigos, Arilda Ines Miranda Ribeiro apresenta um texto intitulado “Mulheres Educadas na Colônia” em que afirma que, no início da história do Brasil, a mulher carregava o estigma da fragilidade e imbecilidade. No ensaio, ela declara que o sexo feminino fazia parte do chamado “imbecilitus sexus” a qual também pertenciam os doentes mentais e as crianças.

Durante 327 anos – de 1500 a 1827, a educação brasileira era permitida somente a homens. Mulheres brancas, negras, indígenas, ricas ou pobres, de qualquer faixa etária, eram proibidas de estudar. Alguns autores chegam até a dizer que a primeira reivindicação pela instrução feminina partiu dos indígenas brasileiros. Segundo eles, os índios haviam solicitado ao Pe. Manuel da Nóbrega que instruísse também as mulheres. Para os indígenas, a mulher era vista como sua companheira, não havendo justificativa nas diferenças que as mantinham ignorantes. O trabalho e o prazer do homem, como o da mulher indígena, eram considerados equitativos e socialmente úteis. Visto que as mulheres indígenas eram muito devotas, o padre decidiu enviar uma carta a Portugal pedindo licença para instruí-las também, porém o pedido foi negado pela então rainha, Dona Catarina.

Apesar da proibição ao estudo, no ensaio “Mulheres Educadas na Colônia”, a autora sustenta que algumas indígenas conseguiram burlar a regra. Ribeiro cita a índia Catarina Paraguassu, também conhecida como Madalena Caramuru, que parece ter sido a primeira brasileira a ler e escrever. Diz-se que no dia 26 de março de 1561 ela escreveu uma carta de próprio cunho ao Pe. Manoel da Nóbrega.

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O que todas as ‘Divas’ brasileiras precisam investigar: para que(m) serve o teu conhecimento?

Texto de Tati Andrade para as Blogueiras Feministas.

Lamentavelmente, desde o início da educação no Brasil-colônia a instrução não incluía as mulheres. A história conta que, mesmo quando foi permitido que elas frequentassem a sala de aula, eram somente ensinadas técnicas manuais e domésticas. Nesse período, educar era um ato pedagógico coercitivo, baseado na ação bruta da obediência severa e algo restrito ao sexo masculino. Em linhas gerais podemos afirmar que na formação da sociedade brasileira, as mulheres, assim como outras camadas sociais desprotegidas, estiveram apenas a serviço dos “donos do poder”. Esta ignorância era imposta de forma a manter o sexo feminino subjugado desprovendo-o de conhecimentos que lhe permitissem pensar em igualdade de direitos.

Além de ter uma representação social de inferioridade perante o homem, é possível observar uma luta imposta entre mulheres de mundos e situações econômicas diferentes. O preconceito instalado impregnava o imaginário através de contos, versos, poemas transmitidos oralmente pela colônia. Assim, a literatura era um instrumento de reprodução a favor da hegemonia dominante que veiculava o status de ser branca a sua condição social privilegiada. É daí que vem o sentido pejorativo atribuído às mulheres negras. Elas eram vistas como espertas, sedutoras e malvadas. As moças brancas como ingênuas e sem maldades.

Essas mulheres de condição inferior, índias, negras, e até mesmo brancas empobrecidas, carregaram sobre si a imagem da promiscuidade e ignorância, pois, se a maioria das mulheres brancas de elite era considerada casta, isso só foi possível devido à prostituição e ao abuso, em todos os sentidos, das outras mulheres, que, submissas e de condição social inferior, tornaram-se prisioneiras dos desejos sexuais dos senhores. Dessa forma, tanto as mulheres brancas como as outras mulheres, aprendiam, através de suas experiências de vida, os conhecimentos necessários a suas representações dentro da sociedade, ficando de mãos atadas diante do pensamento dominante e sem conseguir vislumbrar maneiras de rompê-lo.

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