Saia, batom, flor e glitter na barba

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Nas últimas semanas observei várias falas, posts e atitudes pondo em xeque uma tal figura já bastante conhecida para o ativismo feminista: o “Esquerdomacho”, também conhecido como “Feministo”. Aliás a gota d’água para eu me aventurar a tocar no assunto foi o compartilhamento de imagens traçando o perfil destas tais figuras, algumas postagens vindas de páginas bem preconceituosas e cheias de discurso de ódio mas que foram largamente compartilhadas no facebook por mulheres que se identificam com o feminismo.

Quero pontuar aqui que quando falo desses caras, estou falando daqueles homens cis que se aproveitam de alguns espaços e pessoas feministas ou de outros movimentos sociais para ganhar algum tipo de vantagem. Seja para alimentar o próprio ego, seja para se aproveitar da vulnerabilidade de algumas mulheres, seja até mesmo para encobrir violências praticadas. Toda ativista já conheceu uma ou várias dessas histórias.E minha maior crítica, não é sobre passar a mão na cabeça desses caras, mas evitarmos buscar um perfil de comportamento e vestimenta facilmente identificável dessas figuras.

Eu, particularmente, gostaria muito que o feminismo se preocupasse menos com homens dentro ou fora do movimento do que com os próprios objetivos e ações que podemos tomar. Mesmo achando que é importante a lembrança de que os homens que compartilham dos nossos espaços não estão isentos de seus privilégios concedidos pelo patriarcado. Mas vamos combinar uma coisa? Se todo cara é esquerdomacho ou feministo. Nenhum cara é esquerdomacho ou feministo.

Mas o que eu quero dizer com isso?

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Quando o feminismo é uma marca

Texto de Kitty Stryker. Publicado originalmente com o título: ‘When Feminism Is a Brand’ no Medium em 28/11/2015. Tradução de Tassia Cobo para as Blogueiras Feministas.

Precisamos falar sobre o número cada vez maior de homens como James Deen, que utiliza o feminismo como uma identidade comercial para camuflar seu comportamento abusivo.

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Quando a artista e roteirista Stoya twittou que seu ex, o queridinho da indústria pornô, James Deen, havia ignorado suas palavras de segurança(1) e a estuprado, eu tenho que admitir que não fiquei horrivelmente surpresa. Sendo alguém que faz parte dessa indústria, eu já tinha ouvido rumores que ele não era uma pessoa muito confiável com quem se trabalhar, algo que me fez levantar as sobrancelhas a respeito do trabalho dele sobre consentimento, mas nada específico, que eu pudesse apontar. Uma outra ex-namorada, Joanna Angel, também postou no Twitter em apoio a Stoya, que não voltou à rede desde sua declaração. Deen e sua equipe de relações públicas ficaram notavelmente em silêncio.

Seus dois tweets lançaram a hashtag #solidaritywithstoya, com uma enxurrada de pessoas manifestando decepção, choque e um sentimento de traição. Ele deveria ser “um dos caras bonzinhos” – afinal de contas, Deen passou algum tempo se cultivando como uma marca, a de um homem feminista na indústria pornográfica. Ele foi uma parte ativa do Project Consent (Projeto Consentimento), inclusive. Ele ficou muito bravo com os casos de racismo no meio pornô. Ele foi chamado de “a cara aceitável do pornô” e aclamado por ser um astro pornô que as mulheres se sentiam bem em assistir, justamente por ser tão ético.

Bem.

Algumas pessoas já estão usando esse caso como uma prova de que o pornô é abusivo. Eu realmente acredito que precisamos discutir a maneira com que as intersecções entre capitalismo, patriarcado e supremacia branca se entrelaçam para criar um ambiente particularmente tóxico na indústria do sexo, um dos poucos segmentos no qual uma “posição” estreante normalmente paga às mulheres um salário bem mais alto que o dos homens. As pessoas na indústria que passaram por estupro, abuso e coerção tendem a permanecer em silêncio, por medo de perder trabalhos (como foi visto com o Kink.com há alguns anos). As pessoas que tomam a frente e falam são frequentemente assediadas, as vítimas são culpabilizadas e por fim têm os discursos desconstruídos, como se fosse “uma invenção”. Produtoras de filmes e os diretores, incluindo alguns muito descolados que se dizem “feministas”, têm a política de “se não aconteceu no set de filmagens, não é meu problema”. Esta, definitivamente, é uma questão que precisa ser discutida e abordada seriamente, não apenas por razões éticas (embora isso devesse ser bom o bastante), mas por razões trabalhistas.

Eleve isto para a “positividade do sexo”(2), em geral, e eu posso lhe contar que quando eu levei depoimentos para a Consent Culture sobre abuso no BDSM, muitos agressores reincidentes eram “pilares da comunidade”, como líderes, palestrantes, anfitriões de festas. Enquanto os homens brancos cis têm o poder de conseguir sexo sem consequências, e enquanto ignorarmos o impacto desse privilégio na indústria do sexo, eu acredito que o termo “positividade do sexo” tem sido mal utilizado e isso pode ser um escudo que protege os assediadores de serem responsabilizados.

No entanto, não podemos esquecer que já vimos esse comportamento antes, em ambientes que não tem nada a ver com a indústria do sexo, ou até mesmo com o sexo em geral. Lembram-se de Hugo Schwyzer? Ou de Hart Noecker? Ou Kyle Payne? Todos, supostamente, auto-intitulados como homens feministas, aliados, autores de textos sobre justiça social(3) e ativistas. Todos acusados de estupro e/ou de abusarem de mulheres na surdina.

Isto não diz respeito ao sexo. Isto diz respeito ao poder. E esse poder, misturado com uma masculinidade tóxica, é um veneno que afeta todos os aspectos da vida, não apenas a indústria do sexo. Enquanto a indústria pornográfica não pode e não deveria ignorar isso, e precisa parar de fingir que o pornô não é político, a questão estrutural desse problema é muito mais abrangente.

Quero acrescentar que isso também diz respeito, em minha opinião, a quanto valorizamos e encorajamos o narcisismo quando conversamos sobre como os homens deveriam se comportar. Esses homens aparentemente compartilham tendências narcisistas, sejam identificáveis ou não. A maioria deles (senão todos) se recusam a ceder espaço para vozes mais marginalizadas que as deles, algo que demonstraria que eles agem como aliados. E muitos deles fazem questão de mostrar o quão vulneráveis são, como têm problemas, a fim de garantir que atraiam cuidadores como uma chama atrai mariposas. Eles podem se alimentar da empatia de um cuidador enquanto garantem que esse cuidador, (frequentemente uma mulher), duvide de sua própria mente quando começa a desconfiar que talvez esteja sendo manipulada.

Pensando em meu próprio histórico de namoros, algumas de minhas relações mais complicadas foram com homens que contavam essa historinha. O ex que me jogou de um lance de escadas e me aterrorizou (e a sua mãe) jogando pratos era um ativista do feminismo, passando grande parte de seu tempo em trabalhos voluntários em espaços feministas. O ex que usava seu capital erótico para manter suas amantes (muito menos privilegiadas) se sentindo inseguras e instáveis… quem as colocou em casos de gaslighting(4) e as negligenciou quando confrontado? Ele disse todas as coisas certas sobre racismo institucionalizado e sexismo. Eu permaneci nessas relações porque eu acreditei que eles estavam lutando contra a opressão, desculpei suas manipulações e seu abuso emocional como se fossem questões de saúde mental com as quais eu devesse ter paciência. Talvez eles estivessem tentando compensar os desequilíbrios de seus privilégios… mas eles certamente se aproveitaram muito desses privilégios quando lhes serviu.

Em uma ocasião eu fui avisada para “tomar cuidado” com o que eu dizia, porque ele era “mais discreto” do que eu. Em outra, fui ameaçada se viesse a público falar. Os homens que colocam a justiça social no centro de sua identidade podem se tornar perigosamente defensivos se suas ações são criticadas. Eles se tornam dependentes de ter mulheres em suas vidas para apoiá-los, para que eles não percam sua credibilidade feminista – e então, exigem nosso silêncio. Ouso dizer que eles dependem de nosso próprio entendimento de suas falhas, das maneiras como o patriarcado machuca os homens, para se prevenirem que estraçalhemos sua fachada. Vir a público falar é, de qualquer maneira, aterrorizante e necessário, e espero que Stoya tenha todo o apoio que precisa para falar suas verdades e começar a se recuperar.

Você, como homem – quer fazer algo a respeito disso? Fale com outros homens. Ouça os marginalizados e suas experiências, mesmo que (talvez especialmente quando) o acusado “pareça ser um cara legal” ou “é um amigo”. Vocês precisam se confrontar uns aos outros. Vocês precisam tomar a frente e falar quando veem assédio nas ruas. Vocês precisam parar com as piadas sobre estupro. Vocês precisam dizer a outros homens que falar sobre nós, mulheres, como se fôssemos prêmios sexuais a serem conquistados não é legal.

Não se intitule como um aliado. Seja um.

Autora

Kitty Striker é escritora e artista pornô plus size. Trabalha na Trouble Films, uma empresa que produz filmes pornô com temática queer e indie. É cofundadora do Kinky Salon London e fundadora do ConsentCulture.com. Twitter: @kittystryker. Você pode apoiar seu trabalho fazendo doações em dinheiro via Patreon.

Notas da Tradução

(1) Palavra de segurança ou safeword é uma ferramenta de comunicação em relações BDSM. Pode ser uma palavra ou gesto que será usada no momento em que alguém quiser parar a sessão imediatamente. O acordo da palavra de segurança é levado muito a sério, ao ser ignorado constitui comportamento antiético e estupro. Para saber mais: Você sabe o que é BDSM? – Parte 1Você sabe o que é BDSM? – Parte 2, por Jarid Arraes.

(2) Positividade do Sexo ou Sex Positivity é um movimento que considera qualquer interação sexual saudável e prazerosa, desde que tenha consentimento. É uma atitude que incentiva o prazer sexual e a experimentação, criticando o controle sobre os desejos sexuais das pessoas. Também prega que o sexo é libertador e empoderador. Para saber mais: Sex-positive movement.

(3) O conceito de justiça social surgiu em meados do século XIX para fazer referência à necessidade de alcançar uma repartição equitativa dos bens sociais. A justiça social diferencia-se da ideia da justiça civil. Enquanto a justiça civil busca a imparcialidade em seu julgamento, sempre partindo dos aparatos legais para justificar suas ações, a justiça social busca a remediação de desigualdades por meio da verificação das dificuldades particulares de cada grupo e da implementação de ações que venham remediar a situação. Para saber mais: Justiça Social.

(4) Gaslighting é a violência emocional por meio de manipulação psicológica, que leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz. É uma forma de fazer a mulher duvidar de seu senso de realidade, de suas próprias memórias, percepção, raciocínio e sanidade. Para saber mais: O machismo também mora nos detalhes.

Todas as pessoas precisam do feminismo

Texto de Camilla Machuy para as Blogueiras Feministas.

Está sendo muito compartilhado na internet um vídeo em que uma garota americana fala que não precisa do feminismo e explica suas razões. Ao ver, percebi que é um dos vídeos mais feministas que já assisti. Todos os dados apresentados sobre violência contra homens são resultados do machismo.

Ela pode não saber, mas entre as pautas do feminismo está o direito de os homens terem o mesmo tempo de licença paternidade que as mulheres e a desobrigação ao serviço militar masculino. Sobre guarda das crianças… Já ouviu falar sobre guarda compartilhada? É uma grande conquista para as pessoas frente casos de alienação parental. Já ouviu falar sobre o novembro azul? É uma grande campanha mundial de alerta a saúde masculina. Já frequentou algum site e leu lá vários casos de homens estuprados? O dilema deles também é grande quando passam por abuso. Por que? Porque ninguém dá atenção a eles. Porque a sociedade julga que eles não foram “homem o suficiente pra lutar por sua honra” e frequentemente são motivo de escárnio. Isso sem contar a quantidade de casos que jamais serão denunciados porque as vítimas masculinas não se permitem de forma alguma tocar no assunto. Isso é o quê? Machismo!

Marcha das Vadias. São Paulo, 2013. Foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil.
Marcha das Vadias. São Paulo, 2013. Foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Um caso clássico de opressão machista acontece quando você é obrigado a se calar perante uma situação de agressão, porque você não cumpriu o papel que a sociedade espera do seu gênero. Então, especialmente em casos de violência sexual, essa lógica cruel torna a vítima de abuso culpada pela agressão que sofreu. No caso em debate, essa lógica reza que a culpa é do homem agredido, porque ele tinha que “ser homem” e, obrigatoriamente, saber se defender, não ser um fraco. Além disso, na concepção machista, o homem é um ser que não pode demonstrar sofrimento, nem dor, sob pena de ser considerado fraco. O pior pesadelo de um homem: a fraqueza. Uma fraqueza inconsistente, implacável e, de maneira realista, inevitável. Porque todo ser humano em algum momento passará por alguma situação de vulnerabilidade e, o medo de demonstrar essa fraqueza mantém esses mesmos homens silenciados e paralisados, com receio de serem julgados.

O machismo oprime homens e mulheres, mas de forma diferentes. Mesmo assim, homens e mulheres são julgados e culpabilizados em situações de vulnerabilidade. O acolhimento a vítima é sempre relativizado. É por isso que o feminismo não é o contrário do machismo. O feminismo é um movimento social e político que propõe não desprezar a dor, especialmente das mulheres, mas também dos homens. O feminismo, por meio do desejo de criar uma sociedade mais igualitária, diz que os homens tem o mesmo direito de expressar suas dores e temores. Ninguém precisa estar enquadrado num comportamento X ou Y para serem respeitado como homem. Quer um exemplo? Não precisa dar cantada numa mulher na rua para afirmar sua masculinidade para os outros ou pra si. Você não precisa provar nada a ninguém!

Além disso, o feminismo serve para afirmar que não existe essa tal “responsabilidade de homem”, esse fardo pesado que muitos insistem em carregar sem motivo, porque assim foi incutido pela sociedade. Existem responsabilidades, sim, e elas podem ser carregadas por todos os gêneros, por todas as pessoas. A responsabilidade de tornar o mundo um lugar mais igualitário para qualquer gênero e/ou expressão de sexualidade é uma delas. O feminismo está aí para aliviar os ombros dos homens da pose ridícula que o machismo obriga todos eles a ter e, é claro, empoderar as mulheres.

Ainda sobre o vídeo, a garota levanta várias pautas feministas sem nem se dar conta. Temos muita desinformação sobre o feminismo por aí, por isso me parece haver tanta confusão sobre quais seus objetivos. E, vale lembrar, que ótimo que essa garota vive numa sociedade em que as mulheres podem expressar seus pensamentos livremente, podem postar um vídeo com um alcance global sem serem penalizadas por isso. Nem sempre foi assim, Miga! O feminismo é sobre igualdade de direitos e respeito. Se não fosse assim, não existiriam no mundo vários homens feministas. Obrigada pelo vídeo.

Autora

Camilla Machuy tem 28 anos e mora no Rio de Janeiro. É jornalista, faz mestrado e estuda as redes sociais. Um de seus piores pesadelos é ver que essa importante ferramenta está sendo usada para a disseminação do discurso de ódio. Por isso, faz o que pode para tornar o mundo um lugarzinho mais agradável e consciente. Esse texto foi originalmente publicado em seu perfil do Facebook em 27/10/2015.