Carta para meu amigo artista

Texto de Laís Ferreira para as Blogueiras Feministas.

Meu querido amigo artista,

Hoje eu lhe escrevo com as costas doendo, mil ideias, a lista de tarefa que só aumenta e a sensação que a gente nunca fez muito. Você sabe, quem inventou que isso de “ser artista” é fácil é porque, obviamente, nunca tentou. Mas sabe, meu amigo, acho que você possa ter aproveitado um pouco mais desse lugar tão privilegiado que criaram para os artistas: alguém que cria, que pensa, que põe no mundo algo que não existia antes. Aproveitado até muito, eu diria. Porque, meu amigo, eu preciso te dizer: você é homem. Você, meu amigo, achou que, por ser artista, deveria ser compreendido. E aí, meu amigo, você fez como todo mundo privilegiado faz: não olhou, de verdade, para os outros. E se esse outro for mulher… Vixe, meu amigo, eu só consigo te imaginar forçando tudo que a ordem do seu desejo, desse mundo onírico que esses deuses-artistas-fabricados levam podem pedir: o sexo do seu jeito, as ideias do seu jeito, o trabalho, o seu, sempre maior. Sabe, meu amigo, ser artista não te faz menos suscetível a nenhuma doença: esse lugar de deus que você quis criar não é tão forte assim. Você pode contrair doenças sexualmente transmissíveis como qualquer pessoa que, pela vida, só pode criar o jeito de chegar até o fim do dia. Então, meu amigo, esse seu desejo não é especial assim não. Não, meu amigo, você não pode pressionar qualquer mulher para transar sem camisinha e isso não será perdoado pelo seu grande raio iluminador: esse ego é seu, não uma blindagem das vicissitudes do mundo. E, veja só, meu amigo: não é possível dizer que o sexo, tão perto da vida e da morte, tão próximo a pulsão da arte, deve circular em torno do seu tesão. Porque, meu amigo, veja só, outra vez: ser artista não te inibe de ser gente. E, deixa eu te contar: uma mulher também deseja. Então, meu amigo, eu preciso te dizer que tesão, sexo, não é só seu: não é para ter, nas mãos de uma mulher, uma personagem para o que você criou. Porque, veja uma novidade: mulheres também criam. Na cama, em seus sonhos, em seus desejos, nas suas angústias. Então, meu amigo, preciso te dizer: nem mesmo a sua fama pode passar por cima disso. Porque ser artista não te inibe de ser gente. Não te inibe de ter consequências sobre os seus gestos, não te protege de nada. Na verdade, eu preciso te contar: ser artista é um trabalho. Um trabalho. E, por isso, eu preciso te dizer: há mulheres também nesse mercado. Mulheres que criam, que trabalham, que estudam. Muitas mulheres. E, eu preciso te dizer, meu amigo, com sensibilidades e ideias às vezes mais potentes que aqueles que o signo do privilégio masculino ajudou a chegar no mundo. Então, meu amigo, não pense que uma mulher precisa de você para alguma coisa. Ela não precisa não, meu amigo. E mais, ela não precisa trabalhar com você para adquirir experiência. Ela tem um mundo de oportunidades e desafios pela frente, para enfrentar do jeito que a vida permitir agora. E não, meu amigo, uma mulher não precisa de alguém para inseri-la em nada. Tampouco tem menos potencial. Acontece, meu amigo, que as mulheres artistas tem mais dores nas costas porque, em momentos de trabalho, precisam mostrar o que sabem duas vezes. Porque, meu amigo, você é pequenino. Acha que é grande, mas morre de medo de entender que ser artista não te inibe de ser gente, não te faz diferente e, veja só, uma mulher pode trabalhar como você. Então, meu amigo, mude: se ser artista é algo tão iluminado assim, destrua, com as mãos em gestos, as trevas do seu machismo e sexismo.

Autora

Laís Ferreira é escritora, pesquisadora, jornalista e fotógrafa. É autora de Caderno de Bolsa (Chiado Editora, 2015) e Canções do Porto e do Mar (Multifoco, 2017). É editora da Revista Moventes.

Imagem: Máscaras/Notitarde.

Aos queridos homens que desejam ser aliados das mulheres

Texto de Lisa M. O’Neill. Publicado originalmente com o título: “Dear Men Who Wish To Be Allies to Women”, no site Medium em 11/10/2016. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Olá, eu estou feliz que você se preocupa com os direitos das mulheres e quer ser um aliado! Isso faz de você um ser humano decente. Sem mencionar estar do lado correto da história. Você pode ter testemunhado um aumento da masculinidade tóxica ultimamente — digamos, por exemplo, durante o último debate presidencial americano — chamando sua atenção para o que sempre esteve aqui na superfície, mas talvez nem sempre tenha sido tão visível para você. Você pode até ter experimentado algum grau de culpa ou vergonha por ser um homem quando alguns homens estão agindo de maneiras tão infames, repugnantes e tomando decisões para as mulheres sem realmente ouvir as mulheres. Estamos todos tentando dar o nosso melhor para sermos boas pessoas no mundo e essa merda é complicada. Mas há algumas coisas que você pode querer saber. Eu escrevi isso para você.

1. Não é responsabilidade das mulheres educar você. Aprenda você mesmo sobre sexismo, misoginia e sobre como recriar nossa cultura para eliminá-los. Assim como é responsabilidade das pessoas brancas educar-se e descobrir como desmantelar a cultura racista que construímos, vocês, homens, os beneficiários de nossa cultura patriarcal, precisam descobrir como desfazer suas idéias sexistas e misóginas, sistemas de crenças e comportamentos . Você precisa descobrir como mudar internamente e externamente para que vivamos em uma cultura que verdadeiramente valoriza e apóia as mulheres. Aqui está um ótimo lugar para começar (em português, temos vários sites em nossa biblioteca).

2. Não peça às mulheres que façam trabalho emocional adicional. As mulheres foram socializadas para serem cuidadoras e protetoras. Algumas de nós abraçam este papel e outras de nós não, mas nenhuma de nós quer fazer isso o tempo todo. Mas o que é o trabalho emocional? Ouvir os outros falarem sobre seus problemas, pensar as questões e fornecer aconselhamento; cuidar dos sentimentos dos outros, oferecendo espaço e tempo e, por vezes, afeto físico na forma de abraços ou segurando suas mãos. Pelo fato das mulheres terem sido condicionadas socialmente para ver este trabalho como parte do nosso papel sendo mulheres e, porque as pessoas de todos os gêneros foram condicionadas a ver as mulheres como cuidadoras, você pode não perceber quando você está pedindo às mulheres para fazerem isso. Verifique como estão as mulheres em sua vida antes de pedir-lhes para fornecer apoio emocional; certifique-se de que elas têm tempo, energia e recursos para oferecê-lo. Certifique-se de ter a permissão delas. Observe a quantidade de espaço que você ocupa em uma conversa. Isso soa cansativo? E é. E este é o trabalho que as mulheres fazem o tempo todo. Fazemos este trabalho em cima do trabalho de caminhar pelo mundo sendo mulher e, eu lhe asseguro, é demorado, trabalhoso, duro e muitas vezes desmoralizante. Por fim, não envolva mulheres que você não conhece ou mal conhece em intensas revelações emocionais. Eu não preciso saber sobre os recentes traumas de um homem na fila no mercado. Eu não preciso lidar com uma incômoda enxurrada sobre o dia horrível de um estranho. Você está esvaziando uma lixeira emocional por todas nós. Cuide de suas próprias necessidades emocionais.

3. Pense no espaço que você ocupa. Em conversas. Em reuniões de trabalho. Em eventos públicos. Em painéis de conferência. Caminhando pela rua. Pense na sua proximidade com as mulheres. Pergunte a si mesmo se você está dando espaço suficiente para elas: falarem, se moverem, existirem. Isso é especialmente conveniente se você encontrar uma mulher sozinha. Dê a ela espaço.

4. Faça sua lição de casa e procure as perspectivas das mulheres. Leia artigos e livros sobre o feminismo interseccional. Leia artigos e livros que não têm nada a ver com o feminismo, mas que são escritos por mulheres. Olhe para a sua estante. Está cheia de livros escritos por homens? Pense porque isso acontece. Em seguida, comprometa-se a ler exclusivamente o trabalho de mulheres — de todos os países, com origens e identidades diferentes — por uma semana, um mês, um ano ou mais. Pergunte às mulheres em sua vida por recomendações de livros que mudaram suas vidas, livros onde elas se sentiram profundamente ouvidas ou vistas. Leia esses livros.

5. Peça às mulheres em sua vida para compartilharem suas histórias com você. Fique bem se elas não quiserem. E, se elas quiserem, realmente ouça. Essas histórias quando vem em cascata são muitas vezes tensas, violentas e profundamente tristes. Você pode se sentir chocado, com raiva, ou cheio de tristeza que alguém que você conhece e ama teve que passar por essas experiências. Não encerre a conversa porque você se sentiu desconfortável ou mesmo cúmplice. Não fique tentando ver o lado bom das histórias. Não descarte a importância das palavras das mulheres em sua mente ou para a mulher que você está escutando. Não encontre razões para desculpar o mau comportamento dos outros. Escolha estar presente. Escolha continuar a ouvir.

6. Se você é um criador, pense sobre as coisas que você faz. Lembre-se que o trabalho que você oferece ao mundo como artista, escritor, cineasta, músico ou outro processo criativo reflete uma determinada perspectiva: a sua. Pense sobre o que você está criando e o que isso diz para as pessoas que se envolvem com seu trabalho. Todas as suas personagens femininas são unidimensionais? Elas são sempre culpadas pelas desgraças de seu protagonista masculino? Quantas mulheres você está entrevistando para o seu documentário? Você combinou uma mistura de vozes em termos de etnia, nacionalidade, classe socioeconômica, níveis de habilidade, tamanho e forma, sexualidade e possibilidades além do gênero binário? Quais são suas canções e que visão de mundo refletem? A arte que você faz reforça narrativas culturais problemáticas?

7. Encontre outros homens fazendo este trabalho. Aprenda com eles, compartilhe recursos. E então, — e isso é realmente importante — tenha conversas com seus amigos, colegas e vizinhos sobre sexismo e misoginia. Instigue as conversas difíceis. Faça perguntas difíceis a vocês mesmos e uns aos outros. Você provavelmente viveu a maior parte de sua vida sem ter que pensar sobre essas coisas. As mulheres não tiveram esse luxo. Seja desconfortável. Mas também, encontre apoio para fazer este trabalho.

8. Respeite os limites das mulheres. Não significa não, ponto final. Você não tem direito ao corpo de uma mulher, tempo, energia, atenção, respeito, e assim por diante. Além disso, se uma mulher dá sinais evidentes, verbais ou não, de que ela não quer que você interaja com ela, deixe-a sozinha.

9. Não policie os corpos ou vozes das mulheres. As mulheres são seres autônomos e, contrariamente às mensagens culturais que reforçam o oposto, nós não existimos para o prazer dos outros. O que nós vestimos, onde caminhamos, o que fazemos ou não fazemos com nossos corpos não é preocupação de ninguém além de nós mesmas. Da mesma forma, as mulheres podem ter suas próprias perspectivas (e articulá-las da maneira que escolherem), então, apenas porque uma mulher discorda de você não significa que ela não compreende as complexidades da situação e precisa de uma explicação.

10. Fazer esse trabalho não faz de você um herói, mas faz de você um ser humano melhor. Todos nós devemos ser feministas porque ser feminista significa que você acredita que as mulheres são iguais e devem ser tratadas como tal. Você está fazendo a coisa certa. Mas você não merece elogios ou aplausos, assim como um pai não merece isso por mudar a fralda de seu filho. Você recebe a recompensa de ser um homem que acordou, um homem que está se movendo através do mundo com integridade.

11. Perceba que fazer este trabalho não é um desafio com apenas uma jogada. Se você quer ser um aliado, isso significa que você se compromete com uma vida de educação continuada. Isso significa que você terá que olhar duramente para suas próprias cagadas. Isso significa que você terá que procurar maneiras de apoiar as mulheres em sua vida. Isso significa que você terá que estabelecer formas de trabalhar de maneira comunitária e sistêmica. Você se sentirá incomodado a maior parte do tempo. Você provavelmente ficará na defensiva. Mas continue tentando.

12. Escolha criar uma cultura que valorize inerentemente as mulheres. Torne essa lista obsoleta.

Autora

Lisa M. O’Neill é uma escritora e jornalista que cobre as interseções entre cultura pop e política, gênero e feminismo, o sistema de justiça criminal, e os relacionamento dos seres humanos com o espaço. Já publicou nos sites The Feminist Wire, Edible Baja Arizona, Salon e Good Housekeeping, entre outros.

Imagem: Audra Wolowiec, “(h)ear”, 2016.

Saia, batom, flor e glitter na barba

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Nas últimas semanas observei várias falas, posts e atitudes pondo em xeque uma tal figura já bastante conhecida para o ativismo feminista: o “Esquerdomacho”, também conhecido como “Feministo”. Aliás a gota d’água para eu me aventurar a tocar no assunto foi o compartilhamento de imagens traçando o perfil destas tais figuras, algumas postagens vindas de páginas bem preconceituosas e cheias de discurso de ódio mas que foram largamente compartilhadas no facebook por mulheres que se identificam com o feminismo.

Quero pontuar aqui que quando falo desses caras, estou falando daqueles homens cis que se aproveitam de alguns espaços e pessoas feministas ou de outros movimentos sociais para ganhar algum tipo de vantagem. Seja para alimentar o próprio ego, seja para se aproveitar da vulnerabilidade de algumas mulheres, seja até mesmo para encobrir violências praticadas. Toda ativista já conheceu uma ou várias dessas histórias.E minha maior crítica, não é sobre passar a mão na cabeça desses caras, mas evitarmos buscar um perfil de comportamento e vestimenta facilmente identificável dessas figuras.

Eu, particularmente, gostaria muito que o feminismo se preocupasse menos com homens dentro ou fora do movimento do que com os próprios objetivos e ações que podemos tomar. Mesmo achando que é importante a lembrança de que os homens que compartilham dos nossos espaços não estão isentos de seus privilégios concedidos pelo patriarcado. Mas vamos combinar uma coisa? Se todo cara é esquerdomacho ou feministo. Nenhum cara é esquerdomacho ou feministo.

Mas o que eu quero dizer com isso?

Continue lendo “Saia, batom, flor e glitter na barba”