Feminismo pra quê?

Texto de Marília Cairo para as Blogueiras Feministas.

Ser mulher por si só remete a muitos rótulos. Esperar que a mulher atenda à padrões estéticos que não a representam, ou que assuma quase que integralmente a educação dos filhos são exemplos corriqueiros. É como uma promessa, como se alguns padrões já estivessem definidos no nosso DNA. Se é mulher, logo…

Mas, no universo de mulheres possíveis, que conquistaram o direito de decidir por si próprias, cabem muitos perfis. Dona de casa. Mãe. Sim. Mas também empreendedora, chefe de família, solteira por opção, e mais o que vier. Mulheres que os antigos modelos já não dão conta mais.

No entanto é fácil ver que, apesar do legado deixado pelas lutas sociais femininas, apesar das suas próprias batalhas pessoais, muitas mulheres ainda se desdobram para atender às pesadas expectativas sociais. É lugar comum falar do sentimento de culpa que acompanha a liberdade de decidir. Seja a culpa por trabalhar e não poder estar com os filhos em tempo integral ou, na contramão, a culpa por priorizar a família, deixando de lado importantes metas individuais.

Uma melhor qualidade de vida da mulher implica na tomada de consciência do seu próprio direito legítimo de escolher, e também na formação de uma estrutura social que acompanhe as conquistas femininas, passando pela igualdade de oportunidades de trabalho e de salários, e pelo compartilhamento de responsabilidades no seio familiar. Então quem sabe poderemos ver relações mais equilibradas e saudáveis para homens e mulheres.

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Um fórum, muitas janelas abertas à igualdade de gênero

Texto de Fernanda Favaro para as Blogueiras Feministas.

Estocolmo sediou em abril um encontro mundial sobre igualdade de gênero: The Stockholm Forum on Gender Equality. O evento contou com presença de cerca de 600 especialistas de institutos de pesquisa, departamentos da ONU, organizações sociais, movimentos de mulheres e coletivos feministas, pesquisadores e jornalistas de mais de 100 países. A iniciativa de agências e governo sueco inaugurou um movimento de convergência de ideias sobre a implementação da Agenda 2030 a partir da perspectiva da garantia de igualdade de gênero – ela mesma um dos “novos” objetivos do milênio.

Participei do encontro como blogueira feminista a convite do Swedish Institute, uma agência pública que cria pontes entre a Suécia e outros países em várias áreas. Como brasileira e “nova sueca”, propus a mim mesma uma dupla tarefa: coletar ideias interessantes para o debate feminista e de gênero no Brasil, e refletir sobre minha posição, como mulher do Sul Global, em relação aos avanços e retrocessos da luta de mulheres no mundo. Uma “missão paralela” teve a ver com o minha pesquisa de mestrado sobre feminismo e empreendedorismo materno, por isso centrei foco nas mesas em que foram debatidos temas como: justiça financeira, empoderamento econômico e reconhecimento político e institucional do trabalho doméstico e da cuidadora.

Considero um privilégio viver a experiência de morar num país capaz de ensinar tanto sobre perspectivas feministas até então desconhecidas para mim. Para começar, estar aqui é viver na própria pele a dupla discriminação por ser mulher e carregar outra etnia e origem, com seus conhecidos desenvolvimentos em termos de exclusão do mercado de trabalho, pouca ou nenhuma legitimidade em diversos âmbitos, baixa representatividade e invisibilidade social. É ver nascer novos movimentos de resistência de feministas em regiões empobrecidas em nome de todas as mulheres que sofrem com o radicalismo religioso por um lado, e com o ódio neonazista por outro, tais como as corajosas mulheres do coletivo Förortfeminismen (Feminismo da Periferia). Mas também é usufruir da luta de feministas suecas históricas, como as incríveis mulheres do Grupp 8, por direitos que agora são de todas as mulheres que aqui habitam, entre eles o aborto descriminalizado e seguro, leis trabalhistas protetivas e antidiscriminatórias, creche gratuita e universal e uma ampla rede de proteção contra abuso e violência doméstica, apenas para citar alguns.

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Sobre um dia de trabalho e o que podemos fazer contra o machismo

Texto de Emilia Hamam de Figueiredo para as Blogueiras Feministas.

Ao contrário do que possa parecer, o quadro abaixo não foi tirado de um blog pseudo-satírico-de-conteúdo-machista. Está na parede de uma sala usada para fins recreativos, pela Associação de Empregadas e Empregados em uma empresa real, situada na cidade do Rio de Janeiro.

Foto de Emilia Hamam de Figueiredo.
Foto de Emilia Hamam de Figueiredo.

Nessa mesma empresa, em um dia comum de trabalho, onde todos se cumprimentam com aparente cordialidade, ao entrar no elevador ouço um representante “Alfa” filosofar que “a boa de hoje é a baranga de amanhã”. Me limito a fazer cara de poucos amigos e engolir (“se estivesse na rua, esse cara ia ouvir”, penso).

Já na minha sala de trabalho, abro o correio eletrônico corporativo e estranho ao ler na caixa de entrada um e-mail cujo título é: “A destruição da família”. O remetente, trabalhador na mesma empresa que eu, desconheço. No corpo do e-mail vinha escrito que “na região da grande Porto Alegre, muitos pais tiraram seus filhos da escola e contrataram professores particulares para dar aulas em casa, por medo de colocar seus filhos em escolas que dizem que irão EDUCAR mas que na realidade estão simplesmente transformando seus filhos, netos, sobrinhos etc em verdadeiros vilões de uma educação imoral (sic)”. Em anexo, um vídeo de conteúdo com forte tendência fundamentalista, que deturpa de maneira vil e antiética os conceitos de gênero e transexualidade, baseado em teorias preconceituosas, disseminadoras de discriminação. Dessa vez levei o assunto à Administração da empresa, que prometeu tomar as providências cabíveis.

Na empresa onde trabalho, de ano em ano, no dia das mães e no dia das mulheres, muitas trabalhadoras reivindicam rosas e bombons. A Associação representante das empregadas e dos empregados distribui flores e mensagens carinhosas, daquelas que reforçam os estereótipos de gênero, um dos alvos de nossa luta constante.

Aqui na empresa, no entanto, existe um grupo de mulheres e homens que realiza um trabalho árduo, mas quase invisível, muitas vezes desprezado, buscando incentivar uma mudança substancial nas relações de trabalho, eliminar todo tipo de discriminação, garantindo a livre expressão das diversidades e sua representação apropriada no mundo do trabalho. Esse grupo de trabalhadoras e trabalhadores atua nos Comitês Nacional e Regionais Pró Equidade de Gênero e Raça, que são parte do Programa Pró Equidade de Gênero e Raça, conduzido pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República(1).

Lutamos diariamente pela diminuição das desigualdades de gênero e raça no âmbito do trabalho, tarefa nada fácil quando, antes de tudo, precisamos transformar  a mentalidade de homens e mulheres da empresa, ainda, em sua maioria com fortes raízes na sociedade patriarcal.

Travamos batalhas diárias contra esses pequenos golpes, como os acima narrados, que tanto afetam as lutas a favor da diversidade e da igualdade. Tentamos responder com números, estatísticas, estudos e muita paciência aos trabalhadores e trabalhadoras que não só desprezam, como constroem críticas negativas ao trabalho dos Comitês.

Para alguns colegas, trata-se de um “clube da Luluzinha”. Para outros, grupos de feministas, histéricas e mal amadas, reforçando o velho estereótipo, os velhos clichês.

Às trabalhadoras e aos trabalhadores que  se interessam em entender os motivos pelos quais lutamos, fazemos tornar visíveis, por exemplo,  os tetos de vidro que impedem a ascensão das mulheres aos cargos com maior poder de decisão e confiança, ainda que as estatísticas apontem maior ou igual grau de escolaridade destas em relação aos homens. Diferença esta que se torna mais gritante no caso das mulheres negras e pardas.

Mas ao contrário do que possa parecer, quanto maior o desafio, maior o estímulo para continuarmos travando nossas batalhas contra o preconceito, a discriminação e a favor da igualdade.

Continuemos na luta!

Referência

Ministra Eleonora Menicucci, in “ Trabalho precisa ser também expressão dos sujeitos e elo social”. Programa Pró Equidade de Gênero e Raça – 4ª edição – Práticas de Igualdade (Ações de Destaque na 4ª Edição).

Autora

Emilia Hamam de Figueiredo é advogada, feminista e membro do Comitê Regional Pró Equidade de Gênero e Raça de empresa pública situada da cidade do Rio de Janeiro.