Maria Schneider e a solidão da mulher que denuncia

Texto de Fabiana Motroni.

A violência contra a mulher não tem data de validade, não caduca, não prescreve. Não desiste nem quando suas vítimas não vivem mais. O tempo não apaga e não faz justiça. Ao contrário, o próprio tempo a emerge em suas ondas vez e outra, cadáver ocultado que reaparece boiando no rio do tempo, na linha do tempo, a denúncia, a confissão, a chance de enxergar, de se saber, a chance de se investigar, de se fazer justiça, de interromper o ciclo, de cessar a dor: a chance sempre desperdiçada, sempre negligenciada.

Semana passada a internet e as redes sociais ficaram agitadas por causa de uma notícia de bastidores sobre umas das cenas de sexo mais famosas do cinema. Só que a notícia não era nova, era notícia de 2013. E essa notícia, por sua vez, dizia respeito a outra mais antiga ainda, mais exatamente de 2007. E sobre essas contas de tempos e de silêncios, eu queria deixar com vocês umas palavras direto das minhas vísceras sobre Maria Schneider e “O Último Tango em Paris”.

Em 2007, a atriz Maria Schneider contou a imprensa que a famosa ‘cena da manteiga’ não estava no script e não tinha sido combinada com ela: ela foi literalmente pega de surpresa, humilhada, submetida, estuprada e contou o quanto aquilo foi devastador pra vida dela e pra sua carreira que se iniciava. Ponto, ela contou e isso deveria ter sido o suficiente. Mas não, nunca é suficiente uma mulher contar o que viveu, o que sentiu, o que doeu. A verdade dita por uma mulher nunca é suficiente.

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Bebo sim e continuo dona do meu corpo

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.

Eu bebo sim. E bebendo ou não, meu corpo é meu.

Foto de Mista Boos no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Mista Boos no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Eu, minhas amigas, sua mãe, suas amigas, a colega de faculdade, a chefe e qualquer uma que beba, exagere ela ou não. Somos todas donas de nossos corpos. E essa autonomia inclui o direito de usar as substâncias que desejar e, ainda que sob efeito dessas substâncias, de reivindicar que meu corpo continuará sendo meu.

MAS

Bebendo ou não, usando drogas ou não, estando na balada ou não, continuo podendo ser vítima de um estupro. Meu comportamento pode até ser incoveniente, ou incorreto de alguma forma nessa cena, mas NUNCA como fator de causa do estupro, mas SIM como mais um meio utilizado pelo estuprador para alcançar a demonstração de poder pretendida. Por isso mesmo, o Código Penal reconhece que há esses casos em que o estupro é mais grave, por haver o aproveitamento de uma situação de vulnerabilidade da vítima — o “estupro de vulnerável”, que é crime, independente de consentimento ou não.

A manchete do jornal diz: “Risco de estupro triplica com embriaguez, diz levantamento”. Em seguida os dados: Mulheres que abusam do álcool têm 3,6 vezes mais chances de serem vítimas de estupro, revela um novo recorte do Levantamento Nacional de Álcool e
Drogas. Quando as mulheres já têm um diagnóstico de dependência de álcool, as chances de sofrerem violência sexual sobem para cinco vezes.

“”Risco de estupro”, portanto, é uma expressão perigosa, equivocada e culpabilizadora. Dizer que uma mulher bêbada corre mais “risco de ser estuprada”, como corre mais risco de ser atropelada aquela que atravessa fora da faixa (sim, a comparação com o “sair da linha” foi proposital) é colocar o foco — e a culpa, ela aqui de novo, sempre! — na mulher estuprada e não no estuprador. É ignorar que não há aí uma “situação de risco” criada pelas mulheres que se embriagam, mas sim um fator a mais na gravidade da conduta do autor do crime, que se utiliza justamente dessa condição vulnerável — momentânea ou não.

Então, há uma nova pesquisa, ainda não publicada, que diz que o “Risco de estupro triplica com embriaguez”. Ou melhor, se a pesquisa diz assim, com essas letras, não sei. Mas a mídia decidiu publicizar desse jeito. Pesquisas polêmicas sobre mulheres parecem que rendem assunto, não é mesmo? Sem crítica, sem aprofundamento, sem debate, sem acesso ao link para pesquisa — que nem foi lançada ainda — que aí o barulho é rápido, a desinformação é garantida e o desserviço também.

“Sob efeito do álcool, 89% das mulheres não evitam situações de risco”. E são as mulheres que precisam “evitar situações de risco”? Uma frase dessas, com aparente pretensão de servir como “alerta” ou “proteção” às mulheres só reforça a culpabilização, agora somada com o discurso moralista sobre “o aumento do consumo do álcool”.

Aliás, pergunto para que serve a parte final da matéria senão para condenar as mulheres que saem da linha? “Segundo Ronaldo Laranjeira, professor titular de psiquiatria da Unifesp e coordenador do levantamento, o aumento do consumo de álcool por mulheres reflete a maior frequência do ato de beber socialmente, e não em casa. ‘Mulheres que socializam como homens estão bebendo tanto quanto eles’.”

Voltemos pra casa, socializemo-nos “como mulheres” — sempre nos mantendo na linha — e estaremos seguras. Claro, estupros só acontecem porque as mulheres se colocam vulneráveis, estupradores apenas fazem o que se espera deles.

Resultado do Sorteio: Caros Amigos – A Era da Mulher

Revista Caros Amigos lançou uma edição especial nesse mês de março, A Era da Mulher: conquistas e desafios. Já está nas bancas de todo Brasil.

Recebemos 6 exemplares para sortear. Você pode conferir na planilha quem está concorrendo e seus respectivos números. Muito obrigada a todas e todos que se inscreveram. E aqui quem ganhou:

Entraremos em contato via email com cada um que ganhou. Se houver qualquer problema e alguém não puder receber a revista, faremos um novo sorteio para esse exemplar e publicaremos o resultado aqui. Mais uma vez obrigada a todas e todos que participaram! E obrigada a Revista Caros Amigos!

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