Aquarius: um filme político, mas também um filme sobre Clara

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Em meio a todas as polêmicas envolvendo Aquarius (2016), acredito que seja O filme brasileiro a ser visto esse ano. Isso não significa que achei o filme ótimo, nem que seja o melhor filme do ano, nem que deveria ter sido indicado ao Oscar. Para mim, em O Som ao Redor (2012), o diretor Kleber Mendonça trata com mais sutilezas as relações sociais desiguais brasileiras e o poder do mercado imobiliário. Porém, a luta de Clara (Sônia Braga) para permanecer em seu apartamento representa o atual momento político em que vivemos, em que é preciso deixar transparente de que lado estamos.

Porém, Aquarius é sobre Clara. Uma personagem feminina que foge do convencional, que junto com suas músicas apresenta uma interessante representação feminina para o cinema brasileiro. Clara convive com muitas mulheres e todas elas mostram um pouco do que é ser mulher nos dias atuais. O foco da história é Clara, uma mulher na faixa dos 60 anos, que se recusa a vender o apartamento em que viveu durante grande parte da vida para uma construtora que pretende fazer um grande prédio na orla da praia de Boa Viagem, em Recife. O filme é uma grande caixa de lembranças de Clara. Acompanhamos seus momentos no passado e também suas relações no presente com a família e amigos. Sua principal aliada é a empregada doméstica Ladjane (Zoraide Coleto).

Continue lendo “Aquarius: um filme político, mas também um filme sobre Clara”

Ser quem se é: o feminismo que liberta

Texto de Michelle Karen Santos para as Blogueiras Feministas.

Sou filha de Pastor e nasci em uma família onde todas e todos são evangélicos/as, e assim me identifiquei até os 15 anos. Sempre ia para a igreja, cantava, orava e fazia parte de todos os grupos que ali se formavam. Eu era a filha do pastor, a garota que deveria dar exemplo para todos/as, principalmente para as outras garotas.

Cresci vendo as lideranças da igreja sendo ocupadas por homens, e o máximo que uma mulher poderia alcançar era a liderança do grupo de crianças ou senhoras. Os espaços eram ocupados por pastores que diziam que as mulheres deviam ser submissas, comportadas como uma “dama”, cuidadosas, menos fofoqueiras, que deveriam manter relações sexuais com seus maridos mesmo sem querer, que deveriam ter filhos mesmo sem vontade, que deveriam ser sábias e edificar suas casas, que todas as mulheres deveriam ser o que a igreja dizia para elas serem.

E, com o tempo, fui vendo todas as mulheres da minha vida deixando de ser quem elas eram, escondendo suas vontades e servindo aos homens e à um deus, e me tornei a questionadora. Meu pai me dizia que eu não devia fazer tantas perguntas, e que todas as minhas discordâncias em relação à igreja só demonstravam o tanto que eu estava fora da presença de deus, e isso me irritava, porque tudo que ele dizia não respondia minhas perguntas.

Eu não entendia o motivo da nossa vontade não ser respeitada; da nossa existência ser negada todos os dias; de eu ser obrigada a arrumar um marido e ter filhos; de eu não poder me vestir da forma que eu queria; de não poder transar antes do casamento e de me descobrir. Eu era uma jovem que estava fechada em um ambiente cristão, sem poder conhecer nada de diferente, e eu não entendia porque me impediam de ser o que eu queria, até que um dia as minhas perguntas foram respondidas.

Continue lendo “Ser quem se é: o feminismo que liberta”

Duas mulheres viajando sozinhas… Como assim? Como uma mulher quer viajar sem companhia?

Texto de Lara Ramos para as Blogueiras Feministas.

Fiz uma viagem de 50 dias nas férias, passando cerca de 20 dias pela Bolívia e quase um mês no norte do Brasil (Acre, Rondônia, Amazonas e Pará). Ainda estou processando mais da metade das coisas que vi e vivi. Mas, pensei em escrever um pouco sobre como foi. Escrever sobre como foi viajar sendo mulher.

Começamos nos planejando uns quatro meses antes. Nas aulas, nas festas, conversando em casa. Eu queria conhecer o norte do Brasil, a Amazônia, viajar de barco descendo o maior rio do mundo. A Thais queria o deserto de sal na Bolívia, as paisagens do Peru e o norte da Argentina. O Willy queria ir sem direção. E assim fomos juntando mais pessoas interessadas.  No final, entraram no grupo o Edi, a Ana e o Fellipe. A Ana comprou a mochila um dia antes, o Fellipe tomou a vacina (obrigatória) no dia da viagem e o Edi chegou de skate no aeroporto. Quase perdemos o vôo (ainda bem que a Thais estava atenta), mas conseguimos embarcar.

Chegando na Bolívia, estava tranquila. Primeiro mochilão, com pessoas que eu confiava, eram zoeiras e gostavam de dormir. Já na primeira parada encontramos o Michel, mestre em medicina chinesa de Belo Horizonte, que se identificou com o grupo e continuou a viagem com a gente. Virada do ano, comidas tradicionais, cultura, ônibus infinito, van lotada, bebês bolivianos. O tempo passava rápido e devagar ao mesmo tempo. Íamos seguindo com o roteiro “planejado”, mas era muito mais interessante deixar as coisas acontecerem.

O plano era ir pro Acre depois, tentar chegar a Rio Branco antes do vôo já marcado do Fellipe. O Edi e a Ana acabaram indo pro Peru com o Willy e a Sté (que encontramos no meio do caminho, em La Paz). Eu e Thais queríamos aproveitar mais os lugares no Brasil.

Se você ainda está lendo o texto deve estar se perguntando porque não estou fazendo as reflexões acerca do fato de ser mulher. É que até o momento, antes do Fellipe ir embora, não tinha me questionado sobre o fato de ser um problema ser mulher e querer viajar. Por que pensaria nisso antes? Estávamos em cinco pessoas, grupo grande, com dois homens. Dois homens. Seguro. Podíamos andar na rua, chegar tarde, pegar carona, conversar com todo mundo. “Podíamos”, olha o verbo que tive que usar.

Continue lendo “Duas mulheres viajando sozinhas… Como assim? Como uma mulher quer viajar sem companhia?”