A autoestima da mulher negra

Texto de Fernanda Pedroza para as Blogueiras Feministas.

Fernanda, carioca, moreninha, cabelo ruim, companheira e amorosa. Essa foi a definição simplificada do que consigo me lembrar de como me considerava quando criança, estudando em uma escola quase que exclusiva de pessoas brancas em Curitiba.

Poderia falar de mil maneiras que essa definição afetou minha autoestima. O fato de ser “moreninha de cabelo ruim” não me afetou tanto quanto em algumas crianças que se esfregam com a bucha para ficarem brancas, mas me afetou de outras maneiras… Quando adolescente não me sentia bonita ou atraente com meu cabelo natural, o que me levava a fazer escova para me sentir mais autoconfiante. E quando me elogiavam pela beleza eu não acreditava ou questionava, não por modéstia, mas porque eu não me sentia assim.

As revistas de beleza, de moda ou até catálogo de produtos tinham várias mulheres, mas não tinha mulher negra. Como eu podia me sentir bonita ou gostar de mim se não me via representada em lugar nenhum? Acho que se eu apenas não visse não seria tão ruim… Acontece que, não só eu não via mulheres negras em lugares de destaque, como quando aparecia era sempre no papel de empregada ou sendo humilhada e rebaixada. Durante a infância e adolescência absorvemos muitas coisas que vemos no mundo. Que tipo de coisa você acha que eu pude absorver sobre “ser mulher negra”?

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Cutia feminista

Texto de Adla Georginni para as Blogueiras Feministas.

Eu deveria ter uns seis ou sete anos quando um dia, ao sair do trabalho, meu pai me levou até um sebo que acabara de abrir na cidade. Naquela época, morávamos em Anápolis (GO), e ele sempre teve o hábito de comprar livros para mim, tanto que se hoje sou viciada em leitura, a maior parcela de culpa é dele.

Chegando ao sebo, meu pai deixou que eu escolhesse alguns livros, não me lembro dos outros, mas um deles escolhi pelo título engraçado. Era algo como “O noivo da cutia”. Levei para casa. Como eu tinha gostado tanto, resolvi ler primeiro.

Capa do livro 'O Noivo da Cutia' de Joel Rufino dos Santos. Editora Ática.
Capa do livro ‘O Noivo da Cutia’ de Joel Rufino dos Santos. Editora Ática.

A estória é basicamente assim: o jabuti e o teiú vivem competindo pela mão da cutia, um diz ser mais rápido, o outro mais forte e em nenhum momento um deles pergunta se a cutia está interessada, simplesmente continuam brigando e se desafiando. Até que uma hora os dois cansam e decidem confrontar a cutia. Eles vão até a casa dela e dizem autoritários que eles estão cansados de competir e que ela precisa pedir para o pai dela escolher um deles para ser seu marido. Mas eis que aí está melhor parte. A cutia responde que ela não vai escolher ninguém, pois não tem obrigação de casar com nenhum deles, que o tempo em que o pai escolhia o marido da filha havia passado e que hoje as mulheres têm o direito de escolher com quem vão casar, se querem casar ou não, que as mulheres têm a liberdade de fazerem o que quiserem e não o que o marido ou qualquer outro homem deixa ou manda. Então, ela terminou dizendo que não queria casar, virou as costas e seguiu seu caminho. Simples assim.

Quando eu terminei de ler, havia ficado sem palavras. Reli a fala da cutia várias vezes. Achei aquilo sensacional. Imagine para uma criança de seis ou sete anos que somente obedecia aos pais (muito religiosos), o que significava ter um pouco de liberdade. Eu não sabia o que era ser feminista naquela época, mas hoje sei que foi no momento em que terminei de ler o livro que uma faísca do feminismo se ascendeu em mim.

Encontrei tanto da cutia em mim, eu queria ser a cutia, queria ter a coragem de dizer que eu era dona de mim mesma, das minhas escolhas. Que quando eu crescesse casaria se quisesse, seria escritora e viajaria pela Europa. Foi naquele instante que eu descobri que tinha vontade própria, que eu poderia abraçar minha liberdade.  Foi ali, naquela última página, que tive minha primeira experiência com o feminismo.

Autora

Adla Georginni é uma feminista recém-formada, estudante de jornalismo e metida a blogueira. Rainha do drama em tempo integral, é fã de Agatha Christie e do mundo policial. Apaixonada por história, reclama da vida no @adlageorginni e escreve seus dramas reais (ou não) em http://adlageorginni.blogspot.com.br/

Rostinho de boneca e loirinha de tudo. Quem não queria?

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

Demorei mais de um ano pra pensar direito sobre isso. E, agora mesmo, sigo refletindo enquanto escrevo. Sem conclusão. Este será um texto incompleto, portanto.

Dos 4 aos 10 anos de idade devo ter sido uma das crianças mais solicitadas pra entrar como daminha nos casamentos em Pirapora (MG), minha cidade natal. No entanto, o que sempre foi um detalhe cômico, mas lá com um certo charme provinciano das historias de infância do interior, acabou caindo num desses lugares comuns frustrantes e constrangedores. E já nem sei direito o que fazer com essa lembrança.

Depois de bem uns 5 anos sem voltar (desde a morte do meu pai), passei uns dias de julho na casa da minha mãe. Num sábado de tarde, na manicure, entra uma mulher acompanhada de duas filhas adultas, me olha, me cumprimenta com ternura e diz:

“Você se lembra de mim, né?!”

Não me lembrei de onde, mas sabia que sim, a conhecia. Numa segunda olhada, momentos depois, tudo me veio à memória. Ela tinha sido uma das noivas, bem uns 35 anos antes. Uau.

“Claro que me lembro!”

E partimos pras reminiscências. E ela dizendo que naquela época só dava eu nos casamentos. Que no dela eu usei um vestido branco com vermelho, inesperado pras pessoas. Que ela condicionou o casamento à minha presença e que eu era grife. Quase pé quente pros casórios.

Criança vestida de anjo olha para cima num local rodeado de árvores. Foto de Alba Soler no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Criança vestida de anjo olha para cima num local rodeado de árvores. Foto de Alba Soler no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Tá. Nesse momento eu já queria me enfiar no tubo de acetona. Mas, né. “Sorria e acene” é meu lema em situações assim. E estava carinhoso, apesar de tudo. Até que ela completou. E foi aí que me descolei daquela conversa. E foi aí que me veio meu pequeno nó, que carrego ainda.

“Também, com rostinho de boneca e loirinha de tudo. Quem não queria?”

Sei com toda certeza que desmanchei meu sorriso simpático na hora. Aliás, posso perfeitamente me colocar fora de mim e visualizar minha reação facial, como se tivesse acontecido com outra pessoa. Não sei o que mais me afetou. Se o racismo daquela frase que, embora mais no subtexto, é estrutural e suficientemente potente pra me agredir, ou mesmo o quanto aquela imagem da “menina loirinha” já me parecia tão longe de mim.

Já contei aqui do meu processo de auto identificação étnica e racial, que se tornou mais urgente e inexorável nos últimos anos, no qual reflito sobre meu embranquecimento, meu enegrecimento e acontecimentos difusos, mas contínuos, de preconceito que vivenciei ao longo da vida, culminando com o meu filho negro que já foi vítima de uma situação muito violenta de racismo. E essa menina, que era a  escolhida como daminha também pela cor da sua pele e cabelo, vai se tornando cada vez mais estranha em minha lembrança.  Um dia eu fui. Não sou mais.  E isso é tão flagrante pra mim que sempre espero que o seja para o outro.

E não mais sê-la, mesmo tendo sido e sabendo o quanto isso impactou muito da minha trajetória, ainda está aqui, cutucando meu processo, me apontando as contradições, meus privilégios, meus conflitos e paradoxos — meus, do mundo —, minhas vivências, minhas lembranças e a pessoa que sou hoje.

Nesse caminhar só posso agradecer às mulheres negras incríveis que me acolhem em minha busca, que me apoiam, me legitimam e me reconhecem. Agradeço às amigas e companheiras do Círculo de Mulheres Negras, que realizamos todos os meses na Casa de Lua, à Bianca Santana, que me deu a mão no caminho e nunca soltou, e à Jarid Arraes, que quando me conheceu disse: “Nem precisa dizer que você se autodeclara negra. Eu olho pra você e vejo.” <3

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.