Revenge Porn: “Eu estava totalmente exposta”

Texto de Caren Miesenberger. Publicado originalmente na revista alemã Missy Magazine em janeiro/2017. Tradução de Karen Polaz para as Blogueiras Feministas.

Com os “revenge porns”, mulheres são constrangidas em público com suas fotografias e vídeos íntimos — a maioria vazada por ex-parceiros.

Milly* estava andando pelo calçadão quando um homem estranho falou com ela. “Eu acho ótimo o que você está fazendo com suas fotos”, ele disse. A moça de Bremen, então no começo dos seus 20 anos, ficou desconcertada. “Que fotos?”, ela perguntou. “Bem, suas fotos nuas!”, o homem respondeu. Desta maneira, Milly veio a saber que suas fotos íntimas foram colocadas na internet — sem o seu conhecimento ou consentimento. Nesse meio-tempo, já se passaram 6 anos.

O que aconteceu com Milly tem nome: revenge porn ou pornô de vingança. O termo refere-se a fotos ou vídeos de conteúdo sexual transmitidos a terceiros ou enviados para a rede através de aplicativos de mensagens ou páginas da internet, sem o consentimento da pessoa retratada. O fenômeno foi muito comentado quando a jornalista dinamarquesa Emma Holten tornou públicas, em 2015, suas experiências com revenge porn. Quatro anos antes, sua conta de e-mail e seu perfil do Facebook foram hackeados, de lá suas fotos nuas foram roubadas e, sem seu consentimento, publicadas na internet. Holten, na época com 17 anos, passou a ser atacada massivamente na esfera digital. Para retomar o controle sobre as fotos de seu corpo, Holten partiu para a ofensiva: ela se uniu à fotógrafa Cecilie Bødker e publicou, em 2015, a série de fotos “Consentimento”, na qual Holten foi fotografada nua — auto-determinada e sob suas próprias regras. As imagens viralizaram, juntamente com um vídeo em que ela fala sobre suas experiências com o pornô de vingança.

O termo “revenge porn” pode ser facilmente mal compreendido: O ex-parceiro se “vinga” e tenta chantagear a pessoa atingida — ou para não se separar ou para sabotar seus novos relacionamentos. Ativistas também falam de violência sexual visual, uma vez que o “revenge porn” é uma relativização do que, realmente, se trata: manipulação, slut-shaming e humilhação.

Milly não sabia quem estava por trás da ação. Sua suspeita recaiu sobre seu ex-namorado: “Seu ego foi ferido por causa da separação. Vingança é o mais provável nesse caso”, diz ela na entrevista. Visto que na época ela era muito ativa na internet, tendo conversado com vários homens e enviado a eles fotos nuas, não é mais possível rastrear quem realmente vazou as fotos. No total, foram publicadas cinco fotos, nas quais Milly está nua, em um site de pornografia, e as imagens podiam ser avaliadas pelos usuários. “Era possível me dar de uma a cinco estrelas. Eu achei um completo absurdo. Eu era um número”, lembra-se Milly.

Após o encontro inesperado com o estranho na rua, Milly se sentiu impotente. “Eu estava totalmente exposta e não sabia a quem devia recorrer para me defender”. No final das contas, ela se abriu com seu pai. Imediatamente ele foi com ela para a polícia. “O lema ‘amigo e ajudante’ definitivamente não se comprovou lá”, disse Milly. Os policiais, com quem ela então falou, tiraram sarro dela. “Um deles me passou um sermão sobre como alguém podia fazer isso e que, hoje em dia, não é de se ficar surpreso que fotos como essas são reencaminhadas. Eu me senti culpada”. Apesar de tudo, a denúncia contra desconhecidos foi acatada pelo policial.

Três das fotos de Milly acabaram sendo removidas do site pornô, mas duas ainda permaneceram online por anos. Se sua denúncia fez alguma diferença? “Não, porque ela foi suspensa. Quando eu fui novamente para a polícia, eles disseram que a denúncia não tinha dado em nada, não havia indícios suficientes. Eu acho que, na época, eles não estavam com saco para cuidar disso”, assim julgou Milly. Ela também tentou entrar em contato com o site da operadora para remover as imagens, mas sem sucesso.

Mas como alguém pode se defender quando confrontado com revenge porn? Dagmar Freudenberg, Presidente da Comissão de Direito Penal da Associação de Advogadas Alemãs, aconselha as pessoas afetadas, em primeiro lugar, a manter a calma. Depois é importante documentar os acontecimentos: “Fazer print de tela com indicação de data e URL. Salvar as mensagens e as fotos enviadas, especialmente em relação a terceiros que, talvez, tenham recebido o material. E então deve-se considerar ir atrás, talvez, de assessoria jurídica e, mais precisamente, alguém da área de Direito Pessoal que conheça de Direito da própria imagem. O tempo também desempenha um papel: quanto mais rápido a pessoa fizer as reivindicações, mais rápido se pode eliminar o revenge porn”.

De acordo com uma decisão da justiça alemã de 2014, pessoas retratadas em imagens e gravações íntimas podem exigir do ex-parceiro, depois do fim de um relacionamento, que essas sejam apagadas ou destruídas. “A Suprema Corte reconhece assim que, nas fotos muito íntimas, em oposição a fotos ‘normais’ do dia-a-dia ou de férias, a mera posse destas imagens e gravações pelo ex-parceiro dá um certo poder de domínio e manipulação sobre a pessoa retratada, mesmo quando não se tem em vista uma divulgação ou transmissão a terceiros”, afirma Verena Haisch, advogada e membro da força-tarefa Violência contra as Mulheres na Internet da Associação de Advogadas Alemãs.

Para Milly, a experiência do revenge porn foi além da sensação de impotência após a divulgação involuntária e o reconhecimento na rua: “Aqui onde eu moro, é muito rural, por isso o falatório sobre as fotos se espalhou muito rapidamente. Uma pessoa, em quem eu confiava, deve ter repassado adiante. Para me humilhar, três meninos estamparam uma das fotos em camisetas e foram vestidos com elas em uma festa. Graças a Deus eu não estava lá, senão teria entrado em colapso ou perdido a cabeça”. Ainda hoje, seis anos após os eventos, Milly se sente mal quando pensa sobre isso. Desde então, ela parou de interagir na internet e se atenta meticulosamente sobre quais fotos ela encaminha a quem. Milly também tira algo positivo da experiência: “Isso me fez mais forte. Eu não admito que mais nada me aconteça e me defendo legalmente”. Ela acredita que, na época, suas fotos foram publicadas na internet também para fazer dinheiro. “Quem quer que tenha feito isso, não pensou em mim, não pensou nas pessoas afetadas e em seus sentimentos”.

*Os nomes da matéria foram trocados para preservar a identidade da pessoa.

[+] No Brasil, pode-se conseguir orientação jurídica para casos de pornô de vingança na ONG Marias da Internet.

Autora

Caren Miesenberger é jornalista freelancer e geográfa. Mora em Hamburgo e no Rio de Janeiro.

Imagem: Fábio Tito/G1.

Textos + Lidos de 2016

Em 2016, esse blog publicou bem menos que nos outros anos. A maioria das mulheres sabe como é difícil conciliar ativismo com a vida cotidiana, prazos, necessidades, demandas, não só pessoais mas também das pessoas com quem convivemos.

Seguimos nos reorganizando, ainda com mais perguntas que respostas, mas sabendo que é preciso reaproximar-se, colar nas manas, escutar o que cada uma tem para dizer, gritar: Nenhuma Menos!

Seguimos no caminho do feminismo interseccional, buscando amar sem temer. A lista de textos mais lidos desse ano mostra essa reflexão sobre a inclusão no feminismo. Quem está faltando em nossos protestos? Em nossas palavras de ordem? Todas tem voz? Não queremos que o feminismo seja a mãe de todos os movimentos sociais. Queremos fazer dele um movimento social que visibilize todas as pessoas e seus contextos na sociedade.

1. Angela Davis sobre racismo, feminismo e Beyoncé.

2. O “desconstruído” se relacionaria com mulheres trans?

3. “A senhora lacra, mulher”: O ativismo narcisista e a escuta autoritária.

4. As musas que foram estupradas e os debates que nunca acontecem.

5. Pode o cisgênero falar?

6. Crise política, grelo duro e um olhar feminista.

7. Uma Conversa sobre Feminismo Negro.

8. Mulheres indígenas e as formas modernas de violência contra a mulher.

9. A visibilidade trans em 2016.

10. Feminismo radical e liberalismo.

Maio/2016. Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Foto de Reinaldo Canato/UOL.

Ó que coisa, essa menina! Biografias de mulheres para meninas

Carolina Taboada nos escreveu para falar sobre seu projeto “Ó que coisa, essa menina!”, que tem como objetivo divulgar biografias de mulheres importantes para as crianças. Achamos a proposta bem bacana e conversamos com Carolina para saber mais:

1. De onde surgiu a ideia de criar o projeto?

Uma breve introdução sobre mim: eu não sou historiadora, mas sou formada em relações internacionais e sempre li muito sobre história tanto por interesse próprio quanto por necessidade. Nos últimos meses, comecei a ler bastante sobre a história da Inglaterra, e um dos períodos que mais me interessa é o da Dinastia Tudor. Dos cinco monarcas Tudor duas foram mulheres, e uma delas foi uma das governantes mais importantes da história da Inglaterra: Elizabeth I. Mas, o momento dessa história que mais me chamou a atenção foi na verdade a coroação de sua irmã mais velha (que a antecendeu), Mary I (que mais tarde ficou conhecida como Bloody Mary). O cortejo de coroação tinha a sua frente três mulheres, as três primeiras pessoas na linha sucessória naquele momento: Mary, que estava sendo coroada; sua irmã mais nova, Elizabeth, que veio a ser Elizabeth I; e a quarta mulher de seu pai, Henrique VIII, que por uma história enorme e fascinante acabou sendo colocada como terceira na linha sucessória. Essa imagem foi muito impactante para mim: fiquei imaginando em 1553 a Europa inteira se curvando diante de três mulheres. Comecei então a conversar com meu namorado sobre como as figuras femininas da história parecem ser sempre colocadas como coadjuvantes, mesmo quando são protagonistas. E foi assim que nasceu a ideia de contar para crianças as histórias dessas mulheres.

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