Mulheres, machos e blogs de sucesso

Texto de Nessa Guedes.

Até que ponto devemos nos preocupar com determinados tipos de conteúdo em sites masculinos de renome?

Leio blogs direcionados para o público masculino. Alguns falando sobre comportamento sob a óptica masculina, há uns seis anos. Em Porto Alegre, a maioria dos meus amigos é homem. E muitos deles lêem esses mesmos blogs e, recentemente, passaram a comentá-los comigo. Vira e mexe alguém me manda um link de vídeo, ou de post, me perguntando se a opinião é muito machista, pouco machista, nada machista, etc. Às vezes até me vejo como um oráculo sobre feminismo contemporâneo, mas nem de longe sou especialista. Normalmente respondo esses emails com pequenas observações e mando um link para algum texto de alguma feminista modernosa que tenha falado sobre o assunto.

Nós sabemos que, nessa era da web inserida em todos os nichos deste país, a expressão “formador de opinião” tem a maior validade quando falamos de alguns sites e blogs. As estatísticas e números de comentários e visitações podem nos dar uma boa idéia da visibilidade que um site está alcançando. Conquistando um grande público, a pessoa percebe que com isso vem uma certa responsabilidade. Desde o básico dever de citar fontes, para manter a credibilidade do blog, até mesmo cuidar, pesquisar e desenvolver melhor os textos e posts — afinal, milhares de pessoas estarão de olho. E, com tudo isso, o blogueiro se vê na irreverente posição de… formador de opinião.

Nos últimos meses tivemos um boom de sites com conteúdo voltado para o público masculino e uma avalanche de blogs enaltecendo o “ser macho”, acompanhados de blogs escritos até mesmo por mulheres, marcando uma tentativa mesquinha de se posicionarem como anti-feministas, como se isso fosse algo a se orgulhar.

Vamos usar como exemplo  a revista online Papo de Homem. Muito bem escrita. Muitos autores contribuem com conteúdo de temática geral com boa qualidade; seja falando de relacionamento, economia, virais, direito e viagens. Existem posts criados com o único objetivo de criar polêmica, tenho absoluta certeza. O PdH deve pagar as contas de algumas pessoas, tem um bom investimento, precisa manter seu número de acessos crescendo, mesmo que tenha cativado um público fiel. Porém, peca muito ao publicar um tipo específico de post, como um que teve há pouco tempo, enaltecendo um possível prazer que as mulheres sentem ao ouvir uma cantada na rua vinda de um desconhecido. E é sobre esse tipo de post —- e a responsabilidade da sua publicação — que eu quero falar.

Nós só recebemos elogios — seja pelas costas, ou seja na nossa frente — quando estamos sozinhas. Ou com outra mulher. Se estamos com outro homem, isso não acontece. Não há um esquema de posse aí, não? Eu acho o fim essa “etiqueta masculina”. Porque não posso revidar.

Se eu xingo, sou mal-amada, mal-comida, etc. Se eu baixo a cabeça constrangida, fica tudo normal, de boa. Seu eu faço elogio para um homem na rua, sou a maluca, ou aquela que “atira para todos os lados”. Se vou atrás do cara que elogiou para pegar o telefone dele, sou fácil, atirada ou desesperada. Não há escolha a não ser o silêncio, o rubor, o sorrisinho sem graça.

Acredito que elogios masculinos na rua sejam uma forma muito sutil de dominação. De mostrar quem manda. Seguidamente tento projetar minha mente para longe ao caminhar na rua e passar perto de um grupo de homens, porque o olhar deles queima. Formiga a minha pele, queima o meu peito, engasga minha voz, me deixa nervosa. Porque eu sei que eles vão passar os olhos por cada milimetro do meu corpo, vão me avaliar de cima a baixo, como se eu fosse uma boneca cara que eles estivessem botando o preço. É impossível sair ilesa desse olhar. E pergunto: que direito eles tem de terem essa atitude naturalmente aceita comigo? Por que não tenho direito de reclamar sem me acharem mal-amada? Quero ter o meu direito de andar na rua tranquilamente, sem me sentir sob constante vigilância.

Uma menina que deve gostar de ser avaliada quando passa na rua é a Acid Girl. O desfavor que essa mulher faz às nós, mulheres, é algo de se ter vontade de vomitar. A garota posa de inteligente, moderna, esperta, mas de que adianta se não é crítica? Ela reclama do feminismo em um dos seus vídeos, mas não tem noção de que se ela está ali no youtube, mostrando que é competente, trabalha, estudou, fez faculdade, etc. é por causa das feministas que lutaram com unhas e dentes para que ela tivesse esse direito hoje.

Se ela pode votar, é porque um dia alguma mulher foi para a rua brandar uma bandeira que reclamava pelos nossos direitos. Lanço a pergunta: será que qualquer mulher se sente bem em falar mal do feminismo depois de se dar conta de que é por causa desse “ismo” que elas tem o direito de trabalharem fora — como e quando bem entenderem, independente de serem casadas, divorciadas, solteiras, mães?

Há também um outro tipo de blog, aquele de homens ensinando as mulheres como serem perfeitas. Como o Manual do Cafajeste (para mulheres).  Este blog ajudou muitas meninas a se darem conta de que a vida não deve ser levada em função dos homens, ninguém pode negar. Mas será que vale a pena a iniciativa quando os posts continuam rebaixando as mulheres a seres sem cérebro, sem senso crítico, e que julga uma mulher só por ela usar flores na cabeça ou bermuda jeans?

Um cara falando besteira na internet e se achando o bã-bã-bã porque pega todas e “sabe valorizar uma mulher de verdade” não é novidade. Agora, e aquelas milhares de leitoras fiéis que escrevem para lá com a autoestima no chão e imediatamente jogam fora suas bermudas jeans depois que o Cafa disse que aquilo as tornava idiotas?

É disso que falo quando menciono a palavra “reponsabilidade” para esses blogueiros que atingem um grande público. Por que eles fazem sucesso? Porque jogam contra nós opiniões do senso comum, simplesmente repaginadas com linguagem bem montada, classe média alta. Eles pouco contestam, pouco acrescentam, mas vestem com roupa de butique e contemporaniedade antigos conceitos.

Mesmo sites que falam sobre assuntos diversos — e vez ou outra se aventuram nos temas de sexo, comportamento, relacionamento — pecam muito pelo lugar-comum de “dama na rua e puta na cama”. Esses sites prestam o mesmo deserviço que o Pedro Bial fez ano passado, num episódio do Big Brother, ao dar um conselho para um participante que estava tentando conquistar uma menina que sempre lhe dizia ‘não’: “As mulheres nunca dizem não. Sempre falam sim ou talvez”. Imagina a irresponsabilidade de uma pessoa falar isso em rede nacional, em um país onde precisamos criar uma lei própria (Lei Maria da Penha) para proteger as mulheres da violência.

Sei que muitas leitoras e leitores daqui também lêem sites como estes que citei. Convido todos a lerem os posts com um pouco mais de senso crítico. Há muita coisa boa e aprendizados utéis para se tirar destes sites, não tenho dúvida, mas saibam fazer o filtro. Enxerguem nas entrelinhas. Às vezes nem precisa. Às vezes está escancarado.

Nesse mundo de caça e caçador, não se enganem, nós sempre fomos a caça. Se não aprendermos a avaliar bem as informações que chegam até nós, viramos presas fáceis. Presas de uma idéia de que somos modernas e descoladas, enquanto estamos só fazendo crescer dentro de nós o preconceito e o conservadorismo que tanto lutamos para desassociar da nossa imagem.

“Quem não se movimenta, não sente as amarras que o prendem.” Rosa Luxemburgo.

Mulheres na Campus Party: assumir o feminismo ou não?

Texto de Nessa Guedes.

Feminista.

Essa palavra soa tão pesada que muitas vezes ensaiei pronunciá-la, mas me calei. Estava participando da Campus Party Brasil, semana passada, em São Paulo. É o São Paulo Fashion Week dos nerds e geeks. Um acampamento coberto, com 6.000 e poucos participantes, todos conectados numa internet de 10gb, promovendo palestras, eventos, cursos, oficinas, debates, mesas-redondas e promoções, na área de robótica, desenvolvimento, midias sociais, software livre, música, e games. Dá para imaginar o quanto masculino é o evento e a quantidade de modelos usadas nos stands das empresas patrocinadoras, né?

Sendo assim, haviam 27% de mulheres participando. Vesti a armadura da coragem e me preparei para os absurdos que eu sabia que rolaria — tipo concursos valorizando somente a beleza das participantes, os comentários de baixo calão no meio das bancadas, etc.

Mas não foi tão tenso quanto eu imaginei.

Salvo três coisas irritantes que rolaram:

1) promoções sexistas do Coruja de TI, envolvendo o nome do nosso grupo, GarotasCPBr, que é super sério;

2) Ben Hammersey fazendo comentários infelizes sobre as mulheres brasileiras;

3) um menino me chamando de ‘nerd peituda’ no acampamento… não fiquem revolta@s, preguei uma peça nele de castigo… amarrei todos os zíperes da barraca dele com nós cegos, com ele dentro!hehe), de resto, o evento foi bem legal. Tinha muita mulher entre os palestrantes, se formos comparar com a proporção geral. Também teve bastante espaço e atenção para a crescente evolução dos blogs de maquiagem e moda, que estão profissionalizando muitas blogueiras por aí, e abrindo oportunidades de divulgação, propaganda e fonte de renda totalmente novas.

Conheci as excelentes Lulus, do Luluzinhacamp – acho que é a maior comunidade de mulheres na internet brasileira, ganha até da nossa, Blogueiras Feministas. Nem todas as lulus são feministas, mas lá na CP tinham muitas. Elas são tão unidas quanto as B.F., contrariando o mito de que mulheres estão sempre competindo. Pelo contrário, o apoio mútuo rola solto lá, inclusive as meninas estão sempre fazendo parceria em trabalhos e trocando currículos, empregando umas às outras.

Participei de uma mesa-redonda sobre a carreira de mulheres na TI, mas até agora não obtive o link do video – quando aparecer eu publico aqui. Foi lindo e interessante. Apesar de ter acontecido em pleno sábado às 9h, tinha bastante gente assistindo e interagindo – homens incluídos. Algumas pessoas na platéia comentaram sobre o Blogueiras Feministas – mais precisamente nossa amiga Anna Frank e a irmã da Tica Moreno, a Carol – e me deram o gancho que precisava para falar em feminismo. Foi bacana.

Eu, @nessoila, e a Cissa Gatto, @cissagatto representando as Garotas CPBr.

Abaixo, reproduzo partes de um post que escrevi na CampusParty, para vocês saberem um pouco do que rola entre as mulheres no mundo geek.

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Então, quando eu entrei no grupo GarotasCPBr, temi que o objetivo do grupo fosse fazer um albúm de fotos especiais no Flickr para os campuseiros, ou que fosse um modo de agregar meninas que queriam conversar sobre quem iria levar chapinha e quem iria levar secador de cabelos para a CampusParty. Felizmente, o objetivo do grupo estava muito longe de ser qualquer um destes – ainda bem. E todas as integrantes e autoras do blog são excelentes profissionais e acadêmicas seríssimas. Além de cultivarem a desmitistificação do mito eterno de que mulheres não podem ser amigas.

Bullshit.

Nós somos super unidas.

E foi através do GarotasCPBr que eu acessei o link do blog Garotas Geeks, que também estariam participando da CampusParty. Ao abrir a página, me deparei com um blog cujo cabeçalho aparecia o desenho de uma

menina toda fresca, com um notebook aberto na frente. As cores do tema, apesar de serem azul e roxo, me pareciam muito girly para pertencer um blog de meninas tr00 hardcore dos games e etc. Na hora pensei “Putz, mais um site dessas meninas que se dizem geeks, mas só querem se aparecer e pagar de smart-but-hot“. Fechei a janela sem pestanejar, e passei a torcer o nariz para citações a elas em qualquer lugar da internet.

Então, hoje, tentando cobrir algumas atividades da CampusParty para postar no blog do GCPBr e na EquipeTenso, passei por um telão onde estava o tal cabeçalho do blog das “garotas geeks”, e embaixo do telão estavam as próprias, rindo e falando em microfones para uma platéia modesta. Como elas tem banner publicado no blog das CPBr, eu não poderia ignorá-las, e fui até lá, na maior má-vontade, tirar algumas fotos delas para fazer um postzinho sobre a passagem delas no evento.

Acabou que eu fiquei assistindo-as até o fim. E em pé. A platéia aumentou exponencialmente em poucos minutos. E as meninas começaram um grande show.Tirei o chapéu.

O Garotas Geeks é um blog de primeira. Tem só quatro meses de idade, mas conta com mais de 1500 acesso diários, chegando a picos de 9000 visualizações em um só dia – segundo uma das meninas da equipe, a Minhoca. Rola um humor de primeira, e releases de qualidade sobre games recém-lançados e até os mais antigos, como os feitos para Super Nintendo. Mas nem só de bits se fala por lá. Existem artigos sobre RPG de mesa, cinema, trollagem, comportamento, etc. Quando perguntada sobre o preconceito que rola sobre meninas falando de jogos e os xingamentos que elas recebem nos comentários, a Babs não perde a oportunidade de lascar os marmanjos “Na hora de jogar vocês usam o pênis para usar o controle? Pois é, eu não uso meu útero. Então é headshot na igualdade.” Depois dessa declaração, a platéia veio a abaixo, e eu quase choro – not – de emoção.

Tá, vou dizer que fiquei emocionada de verdade. Porque né. Não é todos os dias que a gente encontra alguém que consegue ter essa lucidez toda para sintetizar esse tipo de problemática. Entre o grupo animado, também tinha a menina-que-gosta-da-apple-e-nintendo, a Gaby, mais a menina que empatizou meu coração por causa do rpg de mesa, Livia, e uma jornalista de Guarulhos, Deborah, muito simpática – e super entendida do assunto, já que recém publicou um livro sobre a “cultura nerd” e o fenômeno geek nos últimos anos, se eu não me engano, foi seu TCC.

As Garotas Geeks me ensinaram hoje que existem outras mulheres na faixa dos vinte anos que tem muito conteúdo a oferecer, que gostam de trabalhar fazendo o que gostam,e não tem medo de serem tachadas de caçadoras de marido. Porque elas não são.

Existe uma veia feminista pulsante ali, embora talvez nem todas elas devam admitir a palavra “feminismo” como uma constante relacionada à elas, tão descontraídas e leves. O peso do feminismo não parece combinar com elas. Mas quem disse que feminismo tem peso? Lutar pela igualdade de gêneros, do jeito eficiente e convicto que elas fazem, é exatamente o que te faz uma ativista pelos direitos das mulheres. Essas meninas me encheram de orgulho.

Link legais de dar uma olhada, que mostram bem o cenário:

Gurias Nerds

GarotasCPBr

Garotas Geeks

A revolução de cada uma

Texto de Mari Moscou.

Hoje resolvi compartilhar com vocês uma vitória.

É uma vitória para mim quando leitoras do meu blog entram em contato comigo. É uma vitória maior ainda quando contam como encontraram o blog e como o blog lhes encorajou a fazer alguma coisa (começar um blog, por exemplo). Algumas das minhas colegas aqui sabem do que estou falando. A sensação é demais.

Há algum tempo entrou em contato comigo uma leitora, Cynara, que me contou de forma linda sua própria vida e como a leitura do meu e de outros blogs feministas a estava encorajando a retomar projetos e sonhos, como o de cursar uma universidade depois de terminar o supletivo. Esta leitora, para mim, se tornou uma heroína. Penso que, como vivemos cada um as nossas vidas, às vezes não nos damos conta de que nossas experiências não são ordinárias mas fantásticas, para as pessoas que não as tiveram (e às vezes pra quem teve experiências parecidas).

Ontem, uma outra leitora entrou em contato comigo, já de madrugada, quando eu me preparava para dormir. Marina é Terena, e participou de organizações e órgãos que trabalham com as questões das mulheres indígenas. Um mundo novo se abriu pra mim na curta conversa que tivemos. E estou cada vez mais curiosa com esse mundo — quero mergulhar.

Fazer um blog crítico, tentar despertar o espírito de crítica em leitoras e leitores, é uma via de duas mãos de positividade. Quem lê aprende com quem escreve, quem escreve aprende com quem lê. Quem lê se anima a escrever, quem escreve se anima cada vez mais a ler.

Embora os “grandes blogs” feministas, aqueles mais conhecidos, sejam excelentes portas para a nossa causa e para outros blogs menores, como o meu e o de outras companheiras aqui, penso que nossa nobre missão enquanto blogueiras feministas é às vezes deixada de lado por nós, quando nos atemos somente a esses blogs/blogueiras e sua repercussão.

Faço aqui um apelo, às amigas blogueiras, twitteiras, grandes, médias, pequenas, prospectos: ao encorajarmos, lermos, comentarmos, linkarmos novos espaços de gente que está começando, damos proporções exponenciais ao crescimento de uma blogosfera feminina e feminista que seja crítica. Ampliamos as opções de leitura de nossas leitoras e de nossos leitores. Mostramos que é possível ler blogs de moda, culinária, unhas, maquiagem mas também de política, viagem, feminismo – todos feitos por mulheres, com todo o mérito que isso tem.

O feminismo pode ser, também assim, um trampolim para cada revolução pessoal.