Interseccionalidade na prática: descobertas e táticas

Texto de Debora Albu para as Blogueiras Feministas.

Saindo de uma conferência sobre feminismo e enfrentamento à violência contra a mulher nesse contexto de 21 dias de ativismo só consegui sentir uma felicidade enorme, apesar do peso e da dor que esses temas nos trazem.

A felicidade vinha da materialidade que o conceito de interseccionalidade tinha tomado ali. Uma mesa composta por mulheres de diferentes gerações, cores, territórios, ancestralidades e experiências concretizou aquilo que a teoria, muitas vezes, fica aquém de dar conta.

O conceito de interseccionalidade – palavra que meu Word não reconhece — foi cunhado pela professora e ativista do movimento negro norte-americano Kimberlé Crenshaw, em 1991, no artigo “Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics and Violence Against Women of Color” (Mapeando as margens: interseccionalidade, política de identidade e violência contra mulheres não-brancas; tradução livre*) na Stanford Law Review. A interseccionalidade seria como uma lente, um dispositivo metodológico para ler uma diversidade de opressões incidindo sobre cada pessoa — e cada mulher — de formas diferentes, gerando não um somatório de opressões, mas sim, novas formas de opressão qualitativamente distintas.

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Crônicas Nada Diárias de Uma Feminista Interseccional

Texto de Camila Cerdeira para as Blogueiras Feministas.

Fui convidada a escrever essa coluna pro Blogueiras Feministas e como estou trabalhando a síndrome do impostor que habita em mim, não irei falar agora sobre a surpresa pelo convite e o fato de me achar sem talento de escrita, porém isso vai ficar para outro dia, outra coluna.

Eu pensei, preciso começar com um texto bom, sabe chegar chegando. E a confusão se instalou, do que eu iria falar? Entendam, sou uma mulher cis negra bissexual nordestina nerd e bipolar. Eu grito bingo no jogo da opressão, eu literalmente só não sofro transfobia e capacitismo físico. Por isso, me é tão natural ser uma feminista intersecional.

Dentro da comunidade negra a minha vivência como mulher não hetero é muitas vezes ignorada. Na comunidade LGBT, além de da bifobia que eu sofro de gays e lésbicas, eu ainda preciso lidar com o racismo velado ou não que existe na comunidade. O meio nerd é ainda um espaço muito masculino, branco e hetero, ainda que eu participe de grupos só pra minas ainda serão grupos muito brancos e heteros e eu vou continuar deslocada.

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Interseccionalidade: como faz para não reproduzir mais exclusão para quem já está marginalizada?

Texto de Raíssa Éris Grimm.

Interseccionalidade.

Localizar e levar em conta os diferentes recortes de opressão e privilégio que nos situam. É um campo de tensão constante… Por um lado, a gente precisa nomear quem nos oprime. A gente precisa nomear os privilégios que se constroem às custas do que nos violenta. Ao mesmo tempo, saber que esse lugar não é fixo, que a pessoa que nos oprime também pode ser oprimida, inclusive pela nossa própria forma de apontar a opressão dela.

É uma parada na qual eu sou bem ruim. Eu sou branca, de classe média, ao mesmo tempo recortada por uma vivência de travestilidade, desde a qual eu me vejo apontando privilégios relacionados a cisgeneridade de pessoas que não são brancas, nem de classe média.

Falar das opressões que eu vivo, dar visibilidade a elas, não é um exercício teórico, é uma necessidade vital. É vital pra mim apontar e falar do poder que pessoas cisgêneras exercem, enquanto grupo, na minha vida. E implica falar dos privilégios que isso constrói. Ao mesmo tempo, várias vezes, a minha forma de fazer isso pesa junto com os tantos recortes de privilégio e minha luta contra a opressão pode se tornar opressora.

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