Kimberlé Crenshaw sobre intersecionalidade: “Eu queria criar uma metáfora cotidiana que qualquer pessoa pudesse usar”

Texto de Bim Adewunmi. Tradução de Bia Cardoso. Publicado originalmente com o título: Kimberlé Crenshaw on intersectionality: “I wanted to come up with an everyday metaphor that anyone could use” no site New Statesman em 02/04/2014.

Intersecionalidade — a teoria que fala como os diferentes tipos de discriminação interagem — trouxe atenção global para a professora de Direito Kimberlé Crenshaw. Nesse texto, ela conversa com Bim Adewunmi sobre o fato de que tanto as campanhas feministas como as antirracistas tem deixado as “mulheres de cor invisíveis na visão geral”.

Kimberlé Crenshaw com Eve Ensler. Photo: Getty images.
Kimberlé Crenshaw com Eve Ensler. Photo: Getty images.

As orelhas de Kimberlé Crenshaw devem estar queimando com uma regularidade e intensidade alarmantes ao longo dos últimos dois anos. Nós nos encontramos numa das salas de jantar de um hotel no centro de Londres, sua base, enquanto ela está em uma turnê de palestras. Dois dias antes do nosso encontro, ela falou na School of Oriental and African Studies e, mais tarde, naquela noite, ela iria falar na London School of Economics. Seu tema é intersecionalidade e feminismo. Nos últimos tempos, a teoria da intersecionalidade — o estudo de como diferentes estruturas de poder interagem nas vidas das minorias, especialmente das mulheres negras, uma teoria que ela deu nome em 1980 — tem desfrutado de um ressurgimento de interesse por parte do feminismo popular e acadêmico. Seu nome e seu trabalho tornaram-se um ponto introdutório para feministas de todas as linhas.

É evidente, diz ela, que o conceito de intersecionalidade não é exatamente novo. “Muitos dos antecedentes para formar esse conceito são tão antigos quanto Anna Julia Cooper e Maria Stewart no século 19 dos Estados Unidos, e continuam seu caminho por meio de Angela Davis e Deborah King”, ela diz. “Em cada geração, em cada esfera intelectual e até mesmo em cada momento político, existiram mulheres afro-americanas que se articularam a partir da necessidade de pensar e falar sobre raça através de uma lente que observe a questão de gênero, ou pensar e falar sobre femininsmo através de uma lente que observe a questão de raça. Portanto, esse conceito é uma continuidade disso”.

Angela Davis chega ao tribunal em 1972. Foto: Getty Images.
Angela Davis chega ao tribunal em 1972. Foto: Getty Images.

Para Crenshaw, professora de Direito na UCLA e Columbia, a teoria da intersecionalidade surgiu, especificamente, para resolver um problema particular. “É importante esclarecer que o termo foi usado para verificar a aplicabilidade do feminismo negro em leis antidiscriminação”, diz ela. Na palestra realizada na LSE naquela noite, ela trouxe o caso de Degraffenreid vs General Motors, em que cinco mulheres negras processaram a GM por discriminação de raça e gênero. “O principal desafio da lei é a forma como foi fundamentada, porque a lei antidiscriminação olha para raça e gênero como elementos separados”, diz ela. “A conseqüência disso, é que as mulheres negras americanas — ou quaisquer outras mulheres não-brancas — vivem a experiência de uma discriminação por sobreposição ou conjunta. A lei, inicialmente, não estava lá para vir em sua defesa”.

A interpretação dos tribunais foi de que as mulheres negras não podiam provar a discriminação de gênero, porque nem todas as mulheres foram discriminadas, e também não puderam provar a discriminação racial, porque nem todas as pessoas negras eram discriminadas. Uma associação de discriminações seria, aos olhos dos tribunais, constituir um tratamento preferencial, algo que ninguém poderia fazer. Crenshaw ri quando acrescenta: “É claro, ninguém mais tinha que fazer isso. Intersecionalidade foi uma forma de chamar a atenção para o que os tribunais não estavam vendo”.

Casos como este refletem muito seus trabalhos iniciais sobre intersecionalidade — tentando mostrar como essas disputas das queixosas afro-americanas falavam sobre a capacidade de revelar que a discriminação que elas estavam passando era a combinação de dois tipos diferentes de políticas. Mas, também havia uma questão adicional à teoria: apontando que a ferramenta usada para remediar a discriminação por sobreposição — a lei antidiscriminação — foi, ela mesma, inadequada. “Você tem que mostrar que o tipo de discriminação que as pessoas têm conceituado é limitado, porque barra o seu pensamento quando uma discriminação encontra outro tipo de discriminação”, diz ela. “Eu queria criar uma metáfora cotidiana que qualquer pessoa pudesse usar para dizer: é muito bom para mim entender os tipos de discriminações que ocorrem ao longo desta avenida, ao longo deste eixo, mas o que acontece quando ele flui para outro eixo, outra avenida?”.

Colocada dessa maneira, pode parecer desconcertante que tantas pessoas tivessem um problema com a ideia da intersecionalidade. O que é, perguntei a Crenshaw, que torna tão difícil para as pessoas compreenderem? Ela faz uma breve pausa antes de responder. “Eu só estou especulando, mas há muitas razões diferentes. Quero dizer, intersecionalidade não é fácil”, diz ela. “Não é como se as estruturas existentes que temos — de nossa cultura, nossa política ou nossas leis — automaticamente levassem as pessoas a estarem familiarizadas e instruídas a respeito da intersecionalidade”.

Quanto a acusação de que intersecionalidade não é um conceito novo, ela filosofa: “Bem, um monte de coisas não são novas”, diz ela. “Classe não é um conceito novo e raça também não é novo. Porém, continuamos a debater e falar sobre esses assuntos, então, o que há de tão incomum no fato da intersecionalidade não ser um conceito novo? Por esse motivo não deveria haver razões para falar sobre isso? A intersecionalidade chama a atenção para invisibilidades que existem no feminismo, na luta contra o racismo, nas políticas de classe, então, obviamente é preciso muito trabalho, já que somos constantemente desafiados para estar atentos aos aspectos do poder que não fazem parte de nossas experiências pessoais”. Mas, ela enfatiza, esse tem sido o projeto do feminismo negro desde seu início: chamar a atenção para as lacunas, para as maneiras que “as mulheres de cor são invisíveis na visão geral”.

“Dentro de qualquer sistema de poder”, ela continua, “há sempre um momento — que às vezes dura um século — de resistência a conclusões como essa. Portanto, nós não devemos estar realmente surpresos quanto a isso”.

Há, às vezes, uma incapacidade de fazer analogias, diz ela. As feministas que têm respostas para as questões sobre políticas de classe e como elas se relacionam com questões de gênero, por vezes, demonstram uma falta de vontade de aplicar os mesmos princípios em relação a feminismo e raça. “Essa capacidade de ser intersecional — mesmo que não se chame assim — não é replicada nessa [específica] discussão”, diz ela. Eu acho que o mesmo tipo de abertura, fluidez e vontade de interrogar o poder que nós, como feministas, esperamos dos homens com quem nos aliamos quando discutimos questões de classe, também deve ser a expectativa que as mulheres de cor tem em relação as feministas brancas aliadas”.

Eu apresento um tweet que li recentemente, sobre os “perigos de gritar com mulheres brancas como meio de ganhar a vida”, para perguntar qual tem sido as respostas das pessoas ao se discutir intersecionalidade no feminismo. “No fim das contas, é realmente uma questão de poder: quem tem o poder de acabar com o debate? Para ir embora? Para dizer: “Eu estou farta de falar sobre isso, posso continuar com a minha retórica “mais do mesmo” como tipo de resposta?” Ela sorri. “Às vezes, parece que quem está no poder coloca-se numa posição como se estivesse sendo tremendamente desempoderado por uma crítica. Uma crítica a opinião de alguém não está retirando sua voz. Se o princípio subjacente a categoria “mulheres” ou “feminista” é que nós somos uma coligação, então, é preciso haver práticas de aliança e alguma forma de responsabilidade”.

Mas, ela também destaca a importância de feministas negras serem as autoras de relatos sobre suas próprias experiências. “Quando eu estava escrevendo no final dos anos 80, houve uma distorção do discurso entre as mulheres que não eram assunto no feminismo tradicional, para simplesmente fazer uma distinção crítica”, diz ela. “Então, afirmar ser apenas “mulher” ou “feminista” levou algumas mulheres de cor a dizerem: “mas isso não é sobre mim”. Bem, sim — isso pode não ser sobre você. Mas, diga quais questões não se referem a você — que diferença faz e que tipos de intervenções podem ser propostas a um feminismo que não discute a questão racial?”. Ela faz uma pausa, estende as mãos. “Essa é a nossa responsabilidade. Isso cabe a nós. Após ser concedido, o espaço tem que ser aberto e é preciso haver um sentimento de receptividade misturado com sororidade, mas eu realmente não quero que outras mulheres sintam que é sua responsabilidade teorizar sobre o que está acontecendo conosco. Cabe a nós dar consistência ao relatar essas histórias, articulando quais distinções fazem a diferença, como isso é incorporado dentro do feminismo e dentro da luta antirracista. Eu acho que é importante que façamos isso separadamente, porque não queremos ser suscetíveis a ideia de que isto é apenas sobre políticas de reconhecimento”.

Nenhuma discussão sobre a obra de Crenshaw pode ser completa sem discutir as audiências que aconteceram no Congresso em outubro de 1991, organizadas para lidar com a alegação de que Clarence Thomas, candidato a uma nomeação na Suprema Corte, tinha assediado sexualmente sua colega, Anita Hill. Em sua negação das alegações, Thomas disse que isso era um “linchamento por meio de técnicas avançadas”. Crenshaw fez parte da equipe de advogados que representou Hill — e, sem dúvida, mudou o curso da história no que diz respeito ao reconhecimento do assédio sexual no local de trabalho. O documentário, Anita, foi feito sobre os acontecimentos da época, um período que Crenshaw descreve como um “divisor de águas”.

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Manifestante a favor de Clarence Thomas. Foto: Getty Images.

“Quando estávamos defendendo Anita Hill, a sensação era de que havia 10 de nós contra o mundo inteiro”, diz ela. “Havia críticas esmagadoras sobre Anita Hill vindas do lado de Clarence Thomas, do exército republicano, da Casa Branca, do comitê jurídico do Senado. E os democratas não estavam defendendo-a. O comentário de Thomas sobre ‘linchamento’, diz ela, transmite a muitos afro-americanos que esta era uma questão racial — deixando Hill sem nenhuma base responder aos ataques. “Linchamento é uma representação por excelência de racismo — e que, por sua vez, é central em experiências masculinas de afro-americanos”, diz ela.

Crenshaw fala sobre uma espécie de “amnésia coletiva” — o fato de que as mulheres negras não foram poupadas de linchamentos por elas mesmas, e a maneira como o sexismo racista atinge as mulheres negras envolvidas em casos de violência sexual que nunca são processados judicialmente. Rosa Parks, diz ela, “foi uma defensora de vítimas de estupro antes de se sentar naquele ônibus em Montgomery. O próprio fato de que há uma série de experiências em torno do racismo sexualizado que não são lembradas — e só lembramos de uma experiência — é o que, então, foi repetido na década de 1990”.

Ela descreve um momento em que saiu do Capitólio e encontrou-se rodeada por um grande número de mulheres afro-americanas “de mãos dadas, cantando músicas gospel em apoio a Clarence Thomas. Era como um desses momentos em que você, literalmente, sente que foi expulsa da sua comunidade, tudo porque você está tentando apresentar e falar sobre a maneira com que as mulheres afro-americanas são vítimas de assédio sexual e violência. Foi um momento decisivo”.

Uma conseqüência disso, foi a reivindicação de Anita Hill sendo apoiada por feministas brancas convencionais — só que ela foi despojada de sua raça, reforçando a ideia de que o caso era uma questão de raça contra gênero. “Ela simplesmente se tornou uma mulher sem cor, e nós, como mulheres afro-americanas feministas estávamos tentando dizer: “você não pode falar sobre isso apenas em termos de gênero — você tem que ser intersecional — há uma longa história que você não pode ignorar”, mas elas não tinham as ferramentas para serem capazes de falar sobre isso”, diz ela. Isso nos levou a um outro grande momento: o momento em que, como Crenshaw coloca, as feministas afro-americanas tiveram que “comprar o seu lugar dentro dessa conversa”.

Quase 2.000 feministas afro-americanas, de todos os cantos dos Estados Unidos, levantaram coletivamente $60.000 dólares e compraram um espaço publicitário no jornal The New York Times. O anúncio, chamado de ‘Mulheres Afro-Americanas em Defesa de Nós Mesmas’, foi assinado por 1.600 mulheres, e estampou, entre outras coisas, a discriminação histórica contra as mulheres negras, assim como o que estava acontecendo nas audiências. “Aquele foi um momento em que as mulheres negras se apresentaram à frente”. Vinte anos mais tarde, diz Crenshaw, isso tem sido esquecido. “O legado do caso Anita Hill é um fator que vai beneficiar as gerações subsequentes de mulheres nos locais de trabalho. Muitas mulheres que falam sobre o caso de Anita Hill celebram o que aconteceu com as mulheres em geral: o fato de que agora temos mais funcionárias públicas eleitas, porque as pessoas ficaram indignadas quando viram o que os homens faziam, a proposta política da Emily’s List foi aprovada e realmente ajudou as mulheres a serem eleitas e assim por diante. Então, assédio sexual agora é um assunto conhecido; o que não está indo tão bem é o reconhecimento de experiências únicas das mulheres negras em relação a discriminação”.

É importante destacar esse esquecimento. Crenshaw recorda o intenso trabalho contra o assédio realizado pelos movimentos de direitos civis e fala de uma “certa falta de historicidade” em algumas das conversas e trabalhos que relacionam o feminismo e a luta antirracista… “Intersecionalidade foi algo que eu escrevi em 1986, 1987 e agora há toda uma geração que chegou nessa conversa depois que o feminismo negro e outras formas de pensamentos intersecionais cultivaram o solo”, diz ela. “E eu acho que, as vezes, é difícil para as pessoas imaginarem como era o mundo quando nenhuma dessas ações tinham sido realizadas. Então, eu acho que é útil fazer genealogias que incluam históricos sociais — para que as pessoas tenham a noção de que a forma como nós discutíamos sobre isso esbarrava nas restrições da época. E, a maneira como falamos sobre isso agora foi construída em cima disso. Há muitas coisas que são esquecidas e muitas outras coisas que são aumentadas”.

Autora

Bim Adewunmi é jornalista freelancer e blogueira. Especializada em cultura pop, feminismo e raça. Blog: http://www.yorubagirldancing.com/ Twitter: @bimadew

‘Feminismo Intersecional’. Que diabos é isso? (E porque você deveria se preocupar)

Texto de Ava Vidal. Tradução de Bia Cardoso. Publicado originalmente com o título: ‘Intersectional feminism’. What the hell is it? (And why you should care) no site do jornal inglês The Telegraph em 15/01/2014.

Atualmente, dizem que o movimento feminista corre o risco de perder fôlego, a menos que reconheça que nem toda feminista é branca, classe média, cisgênera e sem deficiências. Ava Vidal dá pistas sobre a intersecionalidade, que tem sido a palavra polêmica e controversa do momento.

Feminismo Intersectional reconhece que certos grupos de pessoas têm facetas múltiplas camadas de vida que eles têm de lidar, como o racismo eo sexismo - como este projeto de fotografia de Kiyun mostrou ano passado Foto: Jezebel
O Feminismo Intersecional reconhece que certos grupos de pessoas têm facetas múltiplas e camadas de vida com as quais tem de lidar, como o racismo e o sexismo — como é mostrado nesse projeto de fotografia de Kiyun. Foto: Jezebel.

Intersecionalidade é um termo cunhado pela professora norte-americana Kimberlé Crenshaw em 1989. O conceito já existia, mas ela deu um nome a ele. A definição segundo seu livro é:

A visão de que as mulheres experimentam a opressão em configurações variadas e em diferentes graus de intensidade. Padrões culturais de opressão não só estão interligados, mas também estão unidos e influenciados pelos sistemas intersecionais da sociedade. Exemplos disso incluem: raça, gênero, classe, capacidades físicas/mentais e etnia.

Em outras palavras, certos grupos de mulheres têm que lidar com múltiplas facetas na vida, que possuem diferentes camadas. Não há um tipo de feminismo tamanho único. Por exemplo, eu sou uma mulher negra e, como resultado, enfrento tanto o racismo como o sexismo ao caminhar em minha vida cotidiana.

Mesmo com o conceito de intersecionalidade rondando o femininsmo há décadas, parece que ele só foi incluído no debate majoritário no ano passado ou alguns anos atrás. E, ainda assim, muitas pessoas estão confusas com o seu significado ou o que ele representa.

Não ajuda em nada que, nos últimos meses, as mensagens difundidas sobre o feminismo intersecional tenham sido um pouco confusas. No último programa “Hora da Mulher de 2013” da BBC Radio 4, a feminista negra Reni Eddo-Lodge foi convidada para debater como foi o ano do feminismo. Ela começou a falar sobre intersecionalidade e racismo estrutural, mas foi seguida por Caroline Criado Perez, que escolheu aquele momento para falar sobre insultos que ela havia recebido na internet vindos de pessoas que a atacaram sob o pretexto, segundo ela afirmou, da intersecionalidade.

Eu preciso avisar que Eddo-Lodge não foi responsável por nenhum dos insultos que ela recebeu, mas a conversa descarrilou e a oportunidade que ela teve de falar sobre o assunto para uma grande audiência, num programa popular de rádio, foi perdida.

Caroline Criado Perez, posteriormente, se desculpou.

Independentemente disso, o que realmente importa aqui é: as pessoas estão interessadas em saber o que é intersecionalidade e como isso as afeta? Estou ansiosa para redirecionar essa conversa de volta ao tema da intersecionalidade no feminismo e o que isso realmente significa.

Para mim, o conceito é muito simples. Como feminista negra, eu não desculpo Chris Brown por agredir fisicamente sua (então) namorada Rihanna, mas sou contra que alguém o descreva como um ‘preto s****o’ , do mesmo modo que uma mulher branca fez comigo. Isso não significa que eu apoio a violência doméstica, como ela, então, me acusou de fazer. Isso significa que eu, como a maioria das mulheres negras, não suporto o racismo.

A principal coisa que a ‘intersecionalidade’ está tentando fazer, eu diria, é evidenciar que o feminismo, que é excessivamente branco, classe média, cisgênero e capacitista, representa apenas um tipo de ponto de vista — e não reflete sobre as experiências de diferentes mulheres, que enfrentam múltiplas facetas e camadas presentes em suas vidas.

Roqayah Chamseddine é uma feminista e escritora que explica isso melhor, dizendo: “O feminismo branco é extremamente reticente e se recusa a reconhecer os obstáculos que as mulheres não-brancas enfrentam sistematicamente, já que elas não são visíveis. Nossas vozes precisam ser ampliadas porque o feminismo branco nos trata como um troféu e usurpa nossas vozes.”

Então, até que o movimento feminista majoritário comece a ouvir os diferentes grupos de mulheres dentro dele, ele vai continuar a estagnar e não será capaz de seguir em frente. O único resultado disso é que o movimento torna-se fragmentado e continuará a ser menos eficaz.

Racismo no feminismo

Sempre que o tema do racismo é levantado no feminismo, não é diferente de quando esse tema é proposto em qualquer outro espaço de debate. Os discursos banais habituais são usados ​​e a acusação de “dividir o movimento” é muitas vezes atirada ​​ao redor.

A frase “verifique seus privilégios” que geralmente acompanha muitas discussões sobre intersecionalidade, é um exemplo. No Twitter, no início de janeiro, houve uma hashtag iniciada por uma feminista branca: #ReivindicandoIntersecionalidadeEm2014; que levou muitas feministas negras a questionarem como ela pretendia recuperar algo que nunca tinha sido dela em primeiro lugar.

Mas isso prova que o conceito realmente tornou-se popular, agora que há o risco de ser apropriado.

Há a crença equivocada de que o único “privilégio” que você pode ter se refere à cor da pele. Este não é o caso. Você pode ser privilegiado por causa de sua classe social, formação educacional, religiosa, ou pelo fato de que você tem capacidades mentais e físicas ou é cisgênero. Um monte de mulheres negras podem e têm privilégios também.

Um usuário do Twitter disse: “O fato de que um importante conceito feminista foi… empurrado para dentro das discussões majoritárias irrita as feministas brancas que se recusam a reconhecer que elas se beneficiam de um sistema patriarcal, supremacista, heteronormativo e branco.”

Veja esta citação da famosa feminista negra e mulherista Alice Walker, que disse: “Parte do problema com as feministas ocidentais, eu acho, é que elas se comparam com seus irmãos e seus pais. E isso é um problema real.”

Eu lembro de uma discussão que tive com uma senhora muçulmana que me disse: “Eu odeio o feminismo. Não há necessidade para isso existir e eu não quero ter que carregar caixas pesadas só porque vocês, mulheres, querem lutar para serem iguais aos homens.”

O quê?! Eu tive que enumerar algumas coisas para ela. Primeiro de tudo, o feminismo não é sobre ter o direito de carregar caixas pesadas. E, como uma mulher negra que mede 1,80m de altura, posso assegurar-lhe que ser vista como fraca fisicamente não foi um problema que eu tive que enfrentar na minha vida adulta. Na verdade, nas poucas ocasiões em que pedi ajuda a homens por causa de um objeto pesado, eles riram de mim e disseram coisas como: “Vamos lá, amor! Não finja que você não consegue lidar com isso. Uma moça robusta como você!”

Enquanto conversávamos, ficou evidente que o problema dela era com o feminismo majoritário. Ou seja, o feminismo que é esmagadoramente branco, classe média, cisgênero e capacitista. Quando vozes são marginalizadas dentro de um movimento, até o ponto em que há mulheres que nem sequer pensam que o feminismo é para elas, o único resultado disso é que o movimento está enfraquecido e cada vez menos eficaz. Por exemplo, tenho ouvido as feministas tradicionais que estão tentando proibir o véu apesar da resistência de mulheres muçulmanas, afirmam que elas não sabem o se passa em suas próprias mentes, e querer usar o véu é o resultado óbvio dessa doutrinação.

Então, o que podemos aprender com tudo isso? Como vimos, em discussões acaloradas numa rádio no final do ano passado, é fácil nos atolarmos em palavras e em discussões no estilo ele-disse-ela-disse, o que isso significa e o que aquilo significa.

Intersecionalidade ainda é um termo relativamente novo para as massas — mas, sua mensagem é algo com o qual certamente qualquer feminista pode estabelecer uma relação ao começar a ouvir e incluir diferentes grupos de mulheres, suas múltiplas facetas e experiências de vida nos debates em geral e respeitá-las.

Autora

Ava Vidal é uma divertida comediante britânica de stand-up. Desde que foi uma das finalistas do BBC New Comedy Awards sua presença na televisão é constante. Ava se tornou mãe aos 18 anos e passou cinco anos trabalhando como guarda de prisão em Pentonville. Ela escreve de maneira prazerosa sobre cultura toda semana no site Wonder Women. Twitter: @thetwerkinggirl.

Mulher negra e feminismos

Texto de Ana Rita Dutra com colaboração de Bia Cardoso.

Incômodo, desacomodação, inquietação, creio que estas foram sensações presenciadas ao ser questionada sobre feminismo, violência e mulheres negras em uma atividade com adolescentes algum tempo atrás. Lembro até hoje da minha cara de parede quando rapidamente fui buscar referências na minha mente e não as encontrei. Após discussões sobre o que é ser uma mulher, sobre o que legitima a violência contra as mesmas, esse assunto marcou presença entre os adolescentes e trouxe-me inquietações. Como militante me pus a refletir, mais uma vez, sobre as bases do meu feminismo, sobre as bases dos diversos feminismos que compõe o movimento de mulheres. Esse processo que começou ali, segue até hoje.

Conversar sobre a realidade das mulheres negras, juntamente com estas jovens levou-me a uma discussão pessoal. Me fez pensar novamente, sobre minha própria realidade enquanto mulher militante, feminista, não-negra. Ao participar de algumas discussões, me parece que o feminismo ainda engatinha no que tange a incorporação da diversidade das mulheres.

De acordo com Lelia González (BAIRROS, 2000), as concepções do feminismo brasileiro:

Padeciam de duas dificuldades para as mulheres negras: de um lado, o viés eurocentrista do feminismo brasileiro, ao omitir a centralidade da questão de raça nas hierarquias de gênero presentes na sociedade, e ao universalizar os valores de uma cultura particular (a ocidental) para o conjunto das mulheres, sem as mediações que os processos de dominação, violência e exploração que estão na base da interação entre brancos e não-brancos, constitui-se em mais um eixo articulador do mito da democracia racial e do ideal de branqueamento. Por outro lado, também revela um distanciamento da realidade vivida pela mulher negra ao negar toda uma história feita de resistências e de lutas, em que essa mulher tem sido protagonista graças à dinâmica de uma memória cultural ancestral – que nada tem a ver com o eurocentrismo desse tipo de feminismo.

Sueli Carneiro utiliza a expressão “enegrecer o feminismo” buscando assinalar a identidade branca e ocidental da formulação clássica feminista. Por outro lado, também revela a insuficiência teórica e prática para integrar as diferentes expressões do feminino construídos em sociedades multirraciais e pluriculturais.

O feminismo de hoje deveria ser plural. Se o feminismo é um movimento das mulheres, ele deve ser tão plural quanto as mulheres são plurais. Nesta perspectiva de pluralidade, a pesquisadora Sueli Carneiro (CARNEIRO, 2003), coloca que o feminismo brasileiro em muito não contemplou as mulheres negras: 

Porém, em conformidade com outros movimentos sociais progressistas da sociedade brasileira, o feminismo esteve, também, por longo tempo, prisioneiro da visão eurocêntrica e universalizante das mulheres. A conseqüência disso foi a incapacidade de reconhecer as diferenças e desigualdades presentes no universo feminino, a despeito da identidade biológica. Dessa forma, as vozes silenciadas e os corpos estigmatizados de mulheres vítimas de outras formas de opressão além do sexismo, continuaram no silêncio e na invisibilidade.

Foto de Nina Vieira no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Nina Vieira no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A realidade trazida por Sueli Carneiro vai ao encontro com a dificuldade que me deparei ao ser questionada por aquelas jovens. Minha formação tinha um grande vazio sobre as relações entre gênero e raça, minha jovem militância feminista não encontrou uma rotina onde estas questões fossem trabalhadas. O movimento feminista que me contempla enquanto mulher não-negra, não percebe-se ainda em plenitude para contemplar a mulher negra. Enquanto, sobre nós mulheres, mesmo que afrodescendentes, recaia o sexismo, o machismo, as desigualdades de gênero, preconceitos e violências, sobre a mulher negra recai essas mesmas opressões baseadas no gênero considerado feminino, somando-se a esta “lista de violências”, o racismo.

Enquanto os movimentos feministas não incorporarem a pluralidade legítima das mulheres em sua militância, não estaremos lutando efetivamente pelos direitos das mulheres. Lutar pelos direitos das mulheres negras, indígenas, lésbicas, transgêneros ou transexuais passa por abrir mão de privilégios. Privilégios autenticados pela existência da mulher considerada sujeito de direitos, que é uma mulher branca, heterossexual, de classe média e alfabetizada. Olhar além do contexto privilegiado em que estou dentro de um movimento feminista, que condiciona suas bandeiras há uma mulher padrão que é sujeito de direitos, é um desafio e necessidade fundamental para qualquer mudança efetiva no atual quadro de violações de direitos humanos das mulheres em suas especificidades.

Os coletivos de mulheres negras tem aberto caminhos e diálogos para pensar um feminismo mais plural e enegrecido. A ONG Criola produz diversas publicações. Coletivos como o Pretas Candangas realizam ações sistemáticas de combate ao racismo, machismo e sexismo. O portal Geledés tornou-se referência na internet.  E, recentemente, tivemos a criação do coletivo Blogueiras Negras.

Essas são algumas iniciativas marcantes que contribuem para ampliar o lugar da mulher negra dentro do feminismo, mas é preciso sempre abrir mais e mais espaços. Conversando sobre isso com Charô, Larissa Santiago e Verônica Rocha — coordenadoras das Blogueiras Negras — temos uma noção mais ampla de alguns elementos que motivam a criação de um grupo de mulheres negras e como elas veem a presença das mulheres negras na internet:

Em nome da comunidade Blogueiras Negras, agradecemos a lembrança e a oportunidade de falar sobre a participação da mulher negra no mundo e na internet, assunto tão importante não somente para a comunidade feminista, mas para todos aqueles que tem pensado e lutado pelos direitos humanos.

Nossa presença na rede é incomensurável. Há inúmeras poderosas da rede que são negras e afrodescendentes, falando de assuntos diversos como política, negritude, literatura, beleza, racismo, psicologia, maternidade. E certamente estamos sendo muito breves nessa descrição. A cada dia descobrimos novas autoras, cheias de ideias e bons projetos acontecendo.

Porém, essa produção muita vezes passa em brancas nuvens, não recebe o destaque que merece. Em alguns casos atrai um grupo muito específico de pessoas devido a sua uma visão de mundo diferenciada em relação às questões da negritude, da mulher negra. Reunir essas pessoas, ou pelo menos parte delas, nos pareceu ser o primeiro passo para aumentar a visibilidade dessa produção.

Assim surgiu o Blogueiras Negras, logo após a experiência bem-sucedida da Blogagem Coletiva da Mulher Negra em 2012. Um coletivo que ama escrever e o fazem muito bem. Um grupo feito de maravilhosas, falando sobre aquilo que nos alimenta, aflige e movimenta. Um espaço de discussão feito de gente que falando sobre diversos assuntos, de diversos pontos de vista mas que compartilhando identidade, visões de mundo e amor pela escrita.

Fica um grande desafio pessoal e coletivo. Pensar um movimento de mulheres onde as reflexões e intervenções nas relações de gênero e raça estejam presentes, imersas e atuais. Ttanto no cotidiano do feminismo de rua, como no acadêmico, no feminismo organizado ou autônomo. É refletindo sobre nossos privilégios, na relação, na conversação e reconhecimento do outro enquanto legítimo que poderemos pensar estratégias e avançar por um feminismo cada vez menos branco, menos elitizado, menos europeu, mais autônomo e que faça real diferença na vida das pessoas.

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Referências

BAIRROS, Luiza. “Lembrando Lelia Gonzalez”. Em WERNECK, Jurema; MENDONÇA, Maisa e WHITE, Evelyn C. O livro da saúde das mulheres negras – nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro, Criola/Pallas, 2000.

CARNEIRO, Sueli. Mulheres em movimento (em .pdf). Revista Estudos Avançados. N. 17 (49): 117-32, 2003.

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero (em .pdf).