Casa TPM 2015: menos glamour, mais debates

Texto de Janethe Fontes para as Blogueiras Feministas.

Para a 4ª edição da Casa TPM, confesso que não tinha grande expectativa; ao contrário do que aconteceu no ano passado, quando, devido ao sucesso da 2ª edição da Casa TPM, da qual participaram feministas importantes como Clara Averbuck, Nadia Lapa e Elisa Gargiulo, eu estava bastante curiosa para participar.

Casa TPM 2015. Imagem: divulgação.
Casa TPM 2015. Imagem: divulgação.

O local do evento foi o mesmo dos anos anteriores, o Nacional Club. Um lugar muito chique, bonito e bem localizado: no aristocrático bairro do Pacaembu, com sede à Rua Angatuba, 703. É um dos clubes sociais mais tradicionais de São Paulo, fundado na década de 50, para congregar a elite dos homens de negócios de São Paulo. Ou seja, era um ‘clube dos bolinhas”. Por isso, só em saber que o local havia sido “concebido” para que apenas homens o frequentasse, já torna o local “especial” para esses eventos proporcionados pela revista TPM!

Agradeço especialmente às meninas das Relações Públicas: Luiza Nascimento e Monalisa Oliveira pelo convite e também a todos aqueles que organizaram e trabalharam no evento. Afinal, um evento desse porte deve dar uma trabalheira danada e, mais uma vez, a recepção estava impecável.

Mas, obviamente, o que mais interessava no evento eram os conteúdos dos debates e de seus convidados/convidadas. Só que, desta vez, como eu disse, não estava tão empolgada quanto no ano passado. Por isso, quando a lista dos participantes foi divulgada no site da revista, apenas um ou dois dias antes do evento, fiquei feliz ao saber que a Juliana de Faria, do Think Olga, e a atleta Joanna Maranhão participariam de um dos debates: Empoderamento feminino na internet.

Os assuntos principais da Casa TPM deste ano foram a relação da mulher com a tecnologia e o consumo consciente. E como convidad@s para os debates, foram levadas personalidades como: Monica Moreira, Catmita Abdo, Miá Mello, Milly Lacombe, Geisy Arruda, Karina Buhr, Ronaldo Lemos, Maria Ribeiro, Bia Paes Barros, Arthur Bueno, Renata Leão e as já citadas Juliana de Faria e Joanna Maranhão, entre outros. As apresentações musicais ficaram por conta de Marcelo Jeneci e Ana Cañas.

Ainda assim, eu senti falta de mais personalidades reconhecidas na luta feminista. Mas, ao menos no primeiro dia do evento (não fui no segundo dia), os debates foram realmente bons e bem-humorados.

Segundo Joanna Maranhão, sobre “a importância de participação num evento como o da Casa TPM”, ela me disse o seguinte:

Eu procuro estar sempre presente (desde que seja possível conciliar com os treinos) em eventos que abram espaço para mulheres e verbalização, o que fazer com o espaço que estamos conquistando, saber usar essa liberdade e expressar nossos pontos de vista. Me sinto realizada quando surgem oportunidades como essa. A TPM é a cara da mulher independente, autônoma, mas isso não quer dizer solitária, porque ninguém faz nada sozinho. Mas é a cara da mulher segura e que busca o melhor pra si, me identifico com isso.

Concluindo, apesar de ter considerado mais qualificativos os debates promovidos neste ano na Casa TPM, volto a argumentar que uma revista como a TPM, que sempre teve essa “aura” feminista, e é contra clichês femininos e “velhos estereótipos, que cismam em se reinventar desde o tempo de nossas avós…”, que diz que é contra “qualquer tentativa de enquadrar a mulher em um padrão, cercar seu desejo e diminuir suas possibilidades”, não deve mudar o foco e ceder às velhas formas publicitárias de outras revistas, que tanto critica; corretamente, claro! Portanto, fica aqui o meu apelo para que, nas próximas comemorações da revista, convide mais pessoas que possam representar os anseios feministas.

Nota: O evento ocorreu nos dias 29/08 e 30/08/15.

Autora

Janethe Fontes é escritora e tem, atualmente, 4 livros publicados: Vítimas do Silêncio, Sentimento Fatal, Doce Perseguição e O Voo da Fênix.

Dia Internacional da Mulher – A pergunta prevalece: comemorar o quê?

Texto de Janethe Fontes.

Eu gostaria que nós, mulheres, tivéssemos bons motivos para comemorar o Dia Internacional da Mulher. Gostaria mesmo! Mas o fato é que há ainda tanta coisa a avançar, tanta, que fica realmente difícil qualquer comemoração.

E, se em março de 2014, eu iniciei meu texto dizendo que não tínhamos o que comemorar neste dia, “porque o ano de 2013 foi marcado pelo conservadorismo, e vários setores que representam as minorias tiveram que se mobilizar muito, mas muito mesmo, para não perder direitos que já estavam garantidos na constituição”. O ano de 2014 não foi diferente e o de 2015 também não promete mudanças. Ao contrário!

Na verdade, tenho a impressão que a luta por respeito e igualdade tende até a aumentar nos próximos anos, tendo em vista que nas últimas eleições o povo brasileiro elegeu o congresso mais conservador desde 1964!

E, se o ano de 2013 também foi marcado pela divulgação de estatísticas assustadoras: segundo apontamentos, há três anos, o Brasil ocupa a 7ª posição na listagem dos países com maior número de homicídios femininos”. Em 2014, a coisa não foi nada diferente. Apesar de não ter estatística mais recente em mãos para confirmar essa informação, é perceptível, a qualquer um que queira ver, que a violência contra a mulher está aumentando significativamente, sobretudo a violência psicológica.

Marcha das Vadias 2012. Foto: Agencia Estado.
Marcha das Vadias 2012. Foto: Agencia Estado.

Vejam os diversos casos de mulheres que sofreram ameaças de estupro “corretivo” e morte ao defender o empoderamento e direito da mulher nas redes sociais. É simplesmente AS-SUS-TA-DOR!!

E não, não é nenhum exagero dizer que o machismo, a misoginia têm crescido nas redes sociais. Tem sim. E muito. Conforme a matéria ‘Misoginia na internet’, no ano passado a misoginia online entrou na roda com o chamado “GamerGate”, quando diversas mulheres na indústria dos jogos, principalmente as desenvolvedoras Zoe Quinn e Brianna Wu, além da blogueira Anita Sarkeesian, foram alvo de uma onda de ataques machistas. No Twitter, no Reddit e em imageboards como o 4chan, as mulheres receberam ameaças de estupro e morte. Há também o caso da jornalista australiana Alanah Pierce, que ficou famosa por enviar printscreens das ameaças que recebia para as mães de seus assediadores, em sua maioria adolescentes.

Há algumas semanas, a jornalista Ana Freitas publicou um texto sobre misoginia em chans e imageboards brasileiros. Nos comentários da página, as manifestações de algumas pessoas — principalmente homens, mas não só — confirmaram perfeitamente as críticas expostas no texto. Para esses comentaristas, pedir respeito é “mimimi” e as mulheres seriam aceitas nesses espaços desde que não se identificassem publicamente como mulheres. Nada contraditório vindo de quem, por exemplo, se refere a mulheres como “depósito de esperma”.

Em relação ao mercado de trabalho, tudo continua notoriamente sem qualquer mudança. A mulher permanece ganhando um salário menor que o homem, continua sendo uma mão de obra barata, ‘dócil’, instruída (já que conforme pesquisas, mulheres têm mais anos de estudos que os homens) e de autoestima reduzida por uma cultura misógina, que lucra muito pregando inseguranças às mulheres (a ‘ditadura da beleza’ instituiu dois grandes medos para dominar o público feminino: o medo de envelhecer e de engordar, e isso gera altos lucros às ‘indústrias da beleza’)”. E continuamos com a dupla ou tripla jornada de trabalho, tendo em vista que a maioria das mulheres trabalha fora e em casa.

Há ainda a necessidade cada vez mais premente de questionar velhos mitos que nos infligiram ao longo do tempo e que em nada nos engradecem ou privilegiam, ao contrário, nos colocam em uma posição que nos torna subordinadas a tradições patriarcais. É costume ver nas redes, em datas como essa, uma enxurrada de mensagens com fotos de flores e asneiras que parecem “elogiar” as mulheres, mas que, infelizmente, só ressaltam expectativas machistas.

Enfim, ratifico que temos uma batalha muito grande pela frente nas mudanças dessas e de outras tantas situações e também na desconstrução desses mitos que nos abatem diariamente, nos inferiorizam, nos tiram a autonomia e nos limitam a papéis de dependência dentro da sociedade.

A violência contra a mulher é REAL e diária. Está nas redes sociais, nas ruas das cidades e dentro de muitas empresas e inúmeras residências. Por isso é tão importante provocarmos o debate nesse dia 08 de março e estendermos para os demais dias do ano, para o dia a dia. Por isso é tão importante que homens e mulheres se unam na desconstrução de mitos e na conquista pela igualdade de direitos. Afinal, mudanças desse porte não ocorrem do dia para a noite e nem muito menos num único dia. Pensem nisso!

Autora

Janethe Fontes é escritora e tem, atualmente, 4 livros publicados: Vítimas do Silêncio, Sentimento Fatal, Doce Perseguição e O Voo da Fênix.

Príncipe? Você ainda acredita nisso?

Texto de Janethe Fontes.

Em pleno século XXI, muitas mulheres (jovens e também adultas) insistem em acreditar nos ‘príncipes encantados’, por quê? Vou ‘tentar’ explicar essa pergunta, mas antes gostaria de mencionar uma frase que vi, não faz muito tempo, em um site. A pergunta era mais ou menos assim: “Que mulher não sonha com um homem rico, lindo, gentil e educado?”. Faltou sarado, né? E, no mesmo site, dizia-se que “esse mocinho mexe com o imaginário das mulheres, principalmente as mulheres de hoje, que tem vários papéis a desempenhar em um mundo que cobra cada vez mais por resultados…” (!) Não entendi exatamente o que uma coisa tem a ver com a outra, mas, deixa pra lá! Não vem ao caso.

Simone de Beauvoir afirmava que:

“tudo encoraja ainda a jovem a esperar do ‘príncipe encantado’ fortuna e felicidade de preferência a tentar sozinha uma difícil e incerta conquista… Os pais ainda educam suas filhas antes com vista ao casamento do que favorecendo seu desenvolvimento pessoal. E elas veem nisso tais vantagens, que o desejam elas próprias; e desse estado de espírito resulta serem elas o mais das vezes menos especializadas, menos solidamente formadas do que seus irmãos, e não se empenham integralmente em suas profissões; desse modo, destinam-se a permanecer inferiores e o círculo vicioso fecha-se… o trabalho é hoje uma corveia ingrata; para a mulher não é essa tarefa compensada por uma conquista concreta de sua dignidade social, de sua liberdade de costumes, de sua autonomia econômica; é natural que numerosas operárias e empregadas só vejam no direito ao trabalho uma obrigação de que o casamento as libertaria…” (BEAUVOIR, 1970, p.176)¹.

Imagem de Dina Goldstein, parte do projeto fotográfico 'Fallen Princessess'.
Imagem de Dina Goldstein, parte do projeto fotográfico ‘Fallen Princesses’.

É difícil encontrar uma menina que nunca tenha se maravilhado e brincado de princesa, que não tenha sonhado com um príncipe encantado e um lindo castelo, que não tenha se fantasiado de princesinha. Isso faz parte do imaginário infantil. O problema é quando isso avança na idade… E as garotas continuam atrelando o feminino à docilidade, à submissão e ainda se expondo a um ideal de beleza (da princesa) que, na grande maioria das vezes, é impossível conseguir.

Naomi Wolf, em seu livro ‘O mito da Beleza’, afirma que: “quanto mais numerosos foram os obstáculos legais e materiais vencidos pelas mulheres, mais rígidas, pesadas e cruéis foram as imagens da beleza feminina a nós impostas” (WOLF, 1992, p.11)². Ela afirma ainda que a maioria das mulheres, mesmo trabalhando e sendo bem sucedidas, é imersa em conceitos de beleza que promovem o ódio a si mesmas, obsessão com o físico e pânico de envelhecer, através da reprodução de milhões de imagens do que seria considerado ideal.

Além de tudo isso, penso que a perpetuação da ‘princesa que espera pelo seu príncipe encantado’ é um método cruel de apresentar o conservadorismo machista com uma ‘roupagem de encanto e beleza’. É uma forma “astuciosa” (nem um pouco inocente) de retroceder no tempo, onde a mulher, aquele ser submisso, ficava aguardando o seu “super-herói”, o seu “príncipe” vir salvá-la da solidão, dos desencantos da vida. Nada mais distante da realidade de outrora e do mundo moderno.

Fico até constrangida em ver tanta gente “intelectual” pregando essa ideia de príncipes e princesas. Até porque isso não existe na vida real. E parece até um contrassenso pensar que, hoje em dia, a mulher que trabalha, estuda, dirige, faz tantas outras coisas e que busca sua autonomia, está de alguma forma “aguardando por um príncipe”!

Também fico constrangida com tantos pais “criando/tratando” suas filhas (sobretudo adolescentes) como “princesas”, e em vez de educar, instruir essas garotas para que desenvolvam seus próprios potenciais e consigam obter autonomia financeira e emocional, reforçam a ideia de dependência que só as prejudicará no futuro, incentivam suas filhas a buscarem um “príncipe encantado”, um “salvador”, que jamais existiu e nem existirá.

É até compreensível que muitas mulheres, independentemente da idade, associem a felicidade ao amor, mas é imprescindível entender que para ser feliz não é necessário abrir mão dos seus objetivos, da sua independência. Muito pelo contrário!

“Elas [as princesas] também tinham lindos cabelos dourados, e Tiffany não. Seu cabelo era marrom, simplesmente marrom. Sua mãe dizia que era castanho ou, às vezes, castanho acobreado, mas Tiffany sabia que era marrom, marrom, marrom igual aos seus olhos. Marrom como a terra. E o livro trazia alguma aventura pra quem tinha olhos marrons e cabelo marrom? Não, não, não… só os loiros de olhos azuis e ruivos de olhos verdes ficavam com as histórias. Quem tivesse cabelo marrom provavelmente era um criado, lenhador ou algo assim. (…) Não poderia ser o príncipe e nunca seria a princesa. Ela não queria ser o lenhador, então seria a bruxa e saberia das coisas.” (PRATCHETT, 2010)³.

Referências:

¹ BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo – Fatos e Mitos. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1970.

² WOLF, Naomi. O mito da beleza. como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

³ PRATCHETT, Terry. Os pequenos homens livres. Conrad do Brasil, 2010.

+ Sobre o assunto:

[+] Reflexões de uma mãe feminista sobre a cultura das princesas por Ludmila Pizarro.

[+] Feminismo e príncipes encantados: a representação feminina nos filmes de princesa da Disney (.pdf) por Fernanda Cabanez Breder.

Autora

Janethe Fontes é escritora e tem, atualmente, 4 livros publicados: Vítimas do Silêncio, Sentimento Fatal, Doce Perseguição e O Voo da Fênix.