A distância para a paz

Texto de Bia Cardoso.

Esses dias estamos vendo, ouvindo, lendo e nos chocando com diversas atitudes que demonstram a violência, o desprezo pela vida do outro e a falta de humanidade de várias pessoas. A crueldade e a intolerância parecem encontrar cada vez mais espaço em nosso cotidiano.

Já falamos aqui no blog do caso de Lucimar, empregada doméstica que foi atropelada na calçada por Ana Luiza Fabero, Procuradora do Trabalho. Numa esquina movimentada e sinalizada do Rio de Janeiro, um carro entra na contramão e imprensa Lucimar contra uma árvore. No vídeo vemos a criminosa debochando e rindo, sem demonstrar nenhum tipo de dor ou arrependimento pelo que fez, sem nem ao menos tentar socorrer a vítima. A impunidade continua a reinar neste caso, pois Lucimar sofre com suas dores, enquanto a Procuradora está passando por um processo administrativo.

Na última sexta-feira, 25/02, ciclistas do grupo Massa Crítica de Porto Alegre faziam uma manifestação pelo uso da bicicleta como meio de transporte e pelo respeito no trânsito, quando um carro avançou e atropelou mais de 20 pessoas. No vídeo podemos ver o momento do atropelamento, uma atitude absurdamente criminosa em um evento pacífico, que tinha como objetivo justamente chamar atenção para a falta de respeito no caótico trânsito das grandes cidades.

No fim do ano passado, Elaine César, diretora de vídeo do Teatro Oficina viu seu ex-marido retirar dela a guarda de seu filho Théo de 3 anos, porque o pai a acusa de expor a criança a cenas de sexo e nudez durante a montagem da peça Dionízicas. Sabemos muito bem que filhos de artistas convivem livremente com a arte em seu cotidiano. Ela também teve seu computador confiscado com fotos e gravações do trabalho realizado no Teatro Oficina, trabalhava em um documentário. Elaine também descobriu que está grávida de seu segundo filho e que está com câncer. Elaine está relatando estes momentos em seu blog Câncer, Gravidez e Alienação Parental:

Não quero que esse blog se torne um espaço para defesa, e sim um espaço onde se possa também trocar experiências com pessoas que já viveram ou vivem situações ligadas a alienação parental, falsas acusações de abuso sexual e implantação de falsas memórias, um crime muito comum que a sociedade e parte da justiça não estão preparados para enfrentar.

Pensar um mundo mais feminista significa pensar um mundo mais igualitário. Um mundo em que as pessoas não sejam privilegiadas legalmente apenas por terem bons contatos nos tribunais ou bons empregos. Um mundo em que a impunidade não é o primeiro sentimento após um crime. Um mundo em que as pessoas possam se respeitar mais, pensando juntas na sociedade e no mundo que estão constantemente transformando.

O feminismo também é uma forma de tentar enxergar e propor um mundo melhor. Uma sociedade mais justa e igualitária em que o carro não seja uma arma e a justiça não haja de forma arbitrária. Estes são apenas alguns casos que vimos recentemente, também não podemos esquecer que o machismo mata todos os dias, enquanto o feminismo nunca matou ninguém.

Ou a igualdade é para todas, ou não é igualdade

Texto de Tica Moreno.

Esse post é parte da blogagem coletiva pelo fim da impunidade, organizada como uma reação a esse caso: A procuradora e a empregada.

A procuradora do Trabalho Ana Luiza Fabero fechou um ônibus, entrou na contramão numa rua de Ipanema, no Rio de Janeiro, atropelou e imprensou numa árvore a empregada doméstica Lucimar Andrade Ribeiro, de 27 anos. Não socorreu a vítima, não soprou no bafômetro. Apesar da clara embriaguez, não foi indiciada nem multada. Riu para as câmeras. Ilesa, ela está em licença médica. A empregada, com costelas quebradas e dentes afundados, voltou a fazer faxina.

A que atropelou ainda foi parar na delegacia mas não se pode fazer nada contra ela, porque está previsto na lei que uma procuradora não pode ser indiciada em inquérito policial.

Classe. Taí um conceito que a gente não pode nunca esquecer. Ainda mais nós, que estamos o tempo todo falando sobre um outro conceito, o de gênero. Foi nisso que fiquei pensando quando vi o caso que e, talvez por isso eu saia um pouco do assunto proposto pela blogagem coletiva.

É importante para nós, feministas, nos vermos frente a situações que expõe um tipo de relação social que não é a de gênero. Uma mulher atropela outra e sai impune. A impunidade é legitimada pela profissão da que atropelou. A atropelada tem que voltar a trabalhar ainda com dores e nem tem motivação para processar a que a atropelou. Porque tem medo, sabe que vai dar um trabalhão e pode não dar em nada. É fácil, as vezes, pensarmos o que uma pessoa tem que fazer nessa situação. Mas não fui eu que tive que ir fazer uma faxina ainda cheia de dores no corpo.

Fico aqui pensando no que uma e outra tem em comum, como mulheres. Devem ser mães, com certeza já sofreram alguma discriminação por serem mulheres, podem ter sido vítimas de violência doméstica, podem ter feito um aborto — uma pagando caro em uma clinica da zona sul do rio, outra de outra forma mais barata. Uma deve ter empregada doméstica. Outra é empregada doméstica.

Sem dúvida as nossas lutas como mulheres pelo fim da violência, pelo direito ao aborto legal e seguro, pelo direito a viver livremente nossa sexualidade, pelo fim das discriminações e contra a mercantilização do nosso corpo são comuns a todas. Porém, não é possível pra apagar isso que é gritante na sociedade brasileira, que marca as relações sociais e o Estado: a desigualdade.

Entre homens e mulheres, brancos/as e negros/as, rico/as e pobres. A Daniele Kergoat e a Helena Hirata chamam a combinação desses elementos de coextensividade ou consubstancialidade das relações de gênero, classe e raça. Não é que um ou outro elemento define o que é a relação, mas explica um sistema em que tudo está imbricado.

[+] Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais por Daniele Kergoat.

Não conseguimos alterar um aspecto da desigualdade se não muda os outros. Não dá para gente falar em igualdade pras mulheres em um mundo com pobreza e exploração, porque enquanto uma pequena parcela de mulheres está entre as camadas exploradoras, a imensa maioria tá sendo explorada para garantir o bem estar dos ricos. Não dá pra falar em igualdade para as mulheres se as brancas tem privilégios sobre as negras, por sua cor.

E as mudanças não são automáticas, que nem tem gente na esquerda que ainda não aprendeu com a história e insiste em dizer: “a gente acaba com o capitalismo e depois vê o que faz com o patriarcado”. Não dá para ser ingênua do ponto de vista do feminismo, achando que dá para ter igualdade e liberdade para todas as mulheres nos marcos de um mundo capitalista e racista. Tem que pensar as estratégias para combater todos os elementos que compõem a dominação, opressão e desigualdade.

Se a gente não olha para esse aspecto central das relações sociais do nosso presente, vamos fazer um feminismo distorcido, para pouquíssimas, que não é um projeto diferente de futuro.

“Ou a igualdade é para todas, ou não é igualdade” . Essa frase é das feministas espanholas e diz tudo.

Este post faz parte da blogagem coletiva pelo fim da impunidade proposta pela Renata Correa.

[+] Inimputáveis. Texto de Renata Correa.

[+] Das Promessas. Textos de Camilla Magalhães.

[+] Lucimar, mais uma vítima da impunidade. Texto da Srta. Bia.