Tomates Verdes Fritos

Texto de Kori Ramos.

Oi, eu sou a Kori e apesar do título culinário, não errei de blog *Insira aqui uma bateria de Stand-up*. Talvez você já tenha assistido ao filme numa reprise da Globo, um clássico dos anos 90, mas que, pra variar, não se compara ao livro, que, do alto da minha falta de experiência em resenhas críticas e de imparcialidade, digo: é MUITO bom.

Foto de bastidores do filme Tomates Verdes Fritos (1991).

O livro, escrito por Fannie Flag, conta a história da cidadezinha da Parada do Apito, através de uma velhinha muito simpática e sábia e da senhora que a ouve, uma dona de casa em crise. As personagens principais da cidade e da história são um casal lésbico (mas no filme são apenas amigas, tendo apenas um subtexto homossexual), que trabalham no principal lugar da cidade, um café que serve tomates verdes fritos.

O enredo apesar de simples é cativante, mas também discute assuntos mais sérios com uma leveza que é o tipo de livro que você começa a ler e se envolve emocionalmente com as personagens, duvidando da existência não real, mas fictícia delas.

Ninny: vive numa casa de repouso, no meio de suas histórias e bom humor vem sempre alguma observação perspicaz, seja sobre a condição dos idosos nos asilos – muitas vezes precária e abandonada ou sobre como o importante não é ter um corpo magro e bonito, mas sentir-se saudável e feliz.

Evelyn: ouve as histórias de Ninny, sendo essa a melhor parte de seu dia.

É casada faz anos, mas sente-se impotente com a menopausa chegando, um marido que não foge do padrão e filhos que ocuparam a maior parte da sua vida e a fizeram ficar com os três papéis que uma sociedade conservadora exija que a mulher exerça: mãe carinhosa, esposa exemplar e dona-de-casa.

Idgie: desde criança sempre foi rebelde, durona e todas as características dignas de uma tomboy. Aos 16 anos apaixona-se por Ruth, mas não só nesse ponto mostra seu lado sensível, pois ajuda a todos.

Ruth: uma mulher meiga que chega de visita na Parada do Apito, conquista a todos e acaba ficando, mas que, não fossem os contra-tempos, resumiria sua vida a se encaixar nos padrões: ter filhos e casar e assim ficar para o resto da vida mesmo se significar infelicidade.

O livro, como se passa lá pelos anos 30, não deixa de falar do racismo e da segregação da época. Negr@s, Sem-tetos, Portadores de necessidades especiais. Todos no Café da Parada do Apito tem entrada livre. Um best-seller, antigo, talvez até já até possua a conotação negativa de “leitura de mulher”, mas, como todo bom livro, é livre de gênero e ainda por cima feminista*! 😀

* Partindo do preceito, claro, de que pra ser feminista basta dar à mulher a condição de indivíduo, não precisando, necessariamente, citar autores e teoria.

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Algumas frases do livro:

“Portanto, no fim pouco importa ser boa ou não. As garotas da faculdade que ‘faziam de tudo’ não terminaram, como ela pensava, cheias de vergonha e desgraça por terem se desviado; estavam todas casadas, felizes ou infelizes, como todo mundo. E todo o esforço para se manter pura, o medo de ser tocada, de deixar um rapaz louco de paixão a um simples gesto, além do pior de todos os medos – engravidar -, fora perda de tempo  e energia. […] Na noite em que ela e Ed foram à trigésima reunião anual da turma da faculdade, Evelyn esperou encontrar alguém com quem pudesse conversar sobre o que sentia. Mas todas as mulheres presentes estavam tão confusas quanto ela, presas aos maridos e ao copo para evitar desaparecer. Sua geração parecia estar sobre uma cerca, sem saber para que lado saltar.”

“(…) E, quanto a seu peso, você não quer ser magra. Dê só uma olhada em todos estes velhos que estão aqui, a maioria só pele e ossos. Ou então vá ao Hospital Batista e visite a ala de pacientes de câncer. Eles dariam tudo por uns quilinhos a mais. Os coitados lutam para manter o pouco peso que têm. Então, pare de se preocupar com isso e agradeça pela sua saúde!”

“Buddy conheceu Eva quando tinha 17 anos e ela, 19. Sabia que ela já dormira com muitos homens, desde os 12 anos, e que gostava muito. Mas Buddy não se importava. Eva era muito  à vontade com seu corpo, assim como com tudo o mais, bem diferente das garotas da Igreja Batista da Parada do Apito. (…) Não conhecia o significado da palavra ‘vergonha’ e era realmente uma amiga para os homens.(…) Eva tinha na vida o extremo luxo de nunca se importar com o que pudessem pensar dela.”

Fun Home – Uma Tragicomédia em Família

Texto de Kori Ramos.

Oi, eu sou a Kori e hoje eu vou escrever sobre uma Graphic Novel, Fun Home – Uma Tragicomédia em Família por Alison Bechdel.

Fun Home de Alison Bechdel.

Graphic Novel, simplificando, é o termo designado para diferenciar histórias em quadrinhos com temas adultos das de super heróis. Pra variar, é uma atividade em sua maioria com destaque masculino, como Neil Gaiman (Sandman), Alan Moore (V de Vingança, Watchmen), Will Eisner (Spirit), esse último sendo homenageado com a premiação de quadrinhos Eisner Awards, que em 2007 deu o prêmio à Fun Home.

A história é auto-biográfica e fala desde a infância da autora até sua juventude. Na infância, Alison cresceu numa casa antiga em constante reforma, decorar era a obsessão de seu pai, sempre distante.

Na relação entre pai e filha, é ela que gosta das chamadas “coisas de meninos”: confortável em roupas largas e despreocupada com a aparência; e o pai, das “coisas de meninas”: decoração, jardinagem, moda. A troca de papéis entre os dois é visível, um dá contraste ao outro.

Sua mãe é uma artista brilhante, é atriz e pianista, mas deixa seus planos de lado, engravida, volta com o pai de Alison para o interior e toca com ele os negócios da família, o que dá nome a história: uma casa funerária, “o lar da graça”. Fun Home.

Seus pais, apesar de terem dado uma boa educação aos filhos, possuem uma relação fria um com o outro. No decorrer da história, Alison explica que nem sempre foi assim, que, movidos por cartas inspiradas em livros de Fitzgerald, ambos pareciam apaixonados e felizes, mas que essa deterioração se dá, em grande parte, a vida dupla do pai: homossexual, mas no armário até morrer, mantém casos com garotos mais novos, incluindo o babysitter dos filhos. Alison expõe a teoria de que, sufocado com a vida dupla, a morte de seu pai pareceu ter sido um acidente, mas na verdade foi um suicídio planejado.

Todas as tentativas de esconder o que o pai de Alison era, inspiraram nela, felizmente, o contrário. Já na faculdade ela se assumiu lésbica e contou para os pais, encorajada por grupos militantes que frequentava, pelo feminismo e pelos livros que lera. Entre as autoras estão Simone de Beauvoir, Virginia Woolf, Anais Nin e essa influência parece ter dado força à ótica feminista com a qual ela conta a história com questões de gênero, a submissão do casamento a qual a mulher é destinada e o feminismo e o movimento LGBT, inclusive com uma memória marcante de quando ela visitou Nova York pós Stonewall.

Infelizmente, não sei se pela tradução, mas quando ela descreve seu pai como gay, soa bastante preconceituoso, se há uma ironia ali, não captei e como me disseram, às vezes tentando ser irônica se dá voz ao preconceito.
De qualquer forma, um excelente livro, com desenhos lindos em tons azuis, detalhes, citações de livros e muito humor, afinal nada no livro é só trágico, e sim uma tragicomédia.

+ Sobre o assunto

Alison Bechdel  é autora do site/tirinhas http://dykestowatchoutfor.com/ e criadora da já citada aqui Lei de Bechdel. 😀

Pra quem se interessar, dois sites sobre Graphic Novels e Mulheres

http://www.squidoo.com/graphic-novels-for-girls (com uma lista ótima de livros)

Outro site em português: http://ladyscomics.com/

Tarantino e o Feminismo

Texto de Kori Ramos.

Bom, tenho experiência com blog de assuntos pessoais, amores, desabafos e essas coisas. Mas falar de feminismo e de filmes é algo que, apesar da falta de experiência, me agrada, por isso estou aqui.

Bom, é inegável que, quanto mais você conhece o feminismo, mais ele cria um filtro em você. O que é ótimo, e, apesar de gerar revolta com tanto machismo, também me alegra quando percebo algo feminista, principalmente quando se trata de mídia e temas geeks, como seriados e filmes.

Feita a introdução, estou aqui para escrever sobre Quentin Tarantino e o feminismo. Claro que, na internet, existem muitos textos sobre ele. Não sou nenhuma expert, mas gostaria de compartilhar minha opinião com todas as 2 pessoas que provavelmente estão lendo este texto já prolixo e nem na metade.

Pois bem, Tarantino, um grande diretor, começou sua carreira como mais um homem numa área masculina, que é o cinema (assim como muitas outras, infelizmente), com um bom filme, Cães de Aluguel, mas que é de um homem para homens.

Logo após veio Pulp Fiction, com uma personagem mais forte, Mia Wallace, feita por Uma Thurman, que iria posteriormente trabalhar novamente com ele e nesse filme mesmo sendo minoria, ganhou voz.

Em 1997, com Jackie Brown, o papel feminino nos filmes de Tarantino, ganha, finalmente, uma protagonista. Jackie Brown (Pam Grier, de L Word) faz uma comissária de bordo que trafica dinheiro. O filme foi escrito especialmente para ela no papel (particularmente, gosto da atriz e do roteiro, do filme não gostei muito, mas o fato de eu ter visto dublado porque a legenda não pegou, provavelmente  ajudou).

À esquerda, cena de Kill Bill, volume I (2003). À direita, cena de Bastardos Inglórios (2009).

Depois vieram Kill Bill volumes 1 e 2. Uma Thurman de volta, agora como a Noiva, uma assassina em busca de vingança. E seria um tema batido se fosse um papel masculino, mas esse, além de ser uma homenagem aos filmes de kung fu antigos, tem muitas personagens fortes. Além da própria noiva, suas inimigas: Vernita Green (Vivica A. Fox), uma ex-assassina agora mãe de uma menina, Elle Driver (Daryl Hannah), que apesar de ter perdido um olho por ter desafiado seu mestre, não se intimida com nada. Oren Ishi (Lucy Liu, das Panteras),  que viu sua família ser massacrada e então tornou-se uma guerreira – e isso é mostrado num anime dentro do filme -, vira uma mafiosa e, depois de colocar um exército de homens contra a noiva, é só com a sua protegida, Gogo, que a luta é tensa. Essa luta acontece numa festa com uma banda de mulheres tocando: 5.6.7.8’s

A Noiva também é enterrada viva, livra-se e ainda vinga-se de um enfermeiro que “cuidava” dela no hospital (e por cuidar leia-se cobrar para outros a estuprarem enquanto ela está em coma). Depois de livrar-se do cara, ela foge com o carro dele, o infame Pussy Wagon (que Lady Gaga usou em Telephone, mas aí já rende um outro post).

Seu último filme, Bastardos Inglórios fala sobre guerra e isso geralmente faz com que a mulher seja, se tiver alguma notoriedade, a mulher que ama o soldado que está na guerra, uma enfermeira ou a enfermeira que é a mulher que o soldado ama, mas nesse, uma das personagens principais, Shoshanna (Mélanie Laurent), é uma judia que apesar de reconstruir a vida dentro de uma Europa nazista, quer vingança contra o coronel que matou sua família.

Ela troca de identidade, vai para Paris, vira dona de um cinema e taca fogo em tudo enquanto uma sessão de filme nazista é exibida (e que ela aceitou passar justamente para esse fim). A película ainda é modificada e ela introduz um recado para todos que estão lá dentro, num revisionismo histórico excelente.

Mas de todos os filmes de Tarantino, o que considero mais feminista é seu penúltimo, Death Proof – À Prova de Morte. A ideia nele é homenagear filmes de baixo orçamento dos anos 70 com mortes e carros exibidos nas sessões dos Drive-ins americanos (uma forte influência é mais uma exceção desse gênero: Faster, Pussycat! Kill! Kill!, com três strippers que fazem racha com um cara e sequestram a namorada dele). O filme fala sobre um misógino, Stuntman Mike (Kurt Russel), que com seu carro blindado de dublê, gosta de matar mulheres.

Cena de ‘Death Proof’ (2007).

Na primeira parte, temos a mórbida visão do seu deleite: mulheres perseguidas e mortas; na segunda, a reviravolta. É devido a essa parte que eu chamo Death Proof de Thelma & Louise Sanguinário. Mais um grupo de meninas é perseguido pelo Stuntman Mike, só que essas percebem a tempo e dão uma lição nele (melhor falar desse jeito ou começo a sessãodatardear, falando que é grupo que se mete em confusão que até Deus duvida e etc). E aí, o filme é todo delas, os diálogos Tarantinescos, os carros, a ação, tem tudo lá, mas agora com mulheres exercendo os papéis principais: discutindo conforme as regras da Lei de Bechdel sobre um filme que valha a pena ser visto por mulheres:

– tem mulheres,

– que conversam umas com as outras,

– sem ser sobre homens.

É claro que existem cenas machistas e dispensáveis nos filmes que citei, mas algum valor tem que ser dado para esse diretor que adora Xena, A Princesa Guerreira.