“Já que não me entendes, não me julgues, não me tentes”: um relato sobre a II Caminhada de Mulheres Lésbicas, Bissexuais e Transexuais de Campinas

Texto de Julia Kumpera e Daniele Biscoito, Mulheres do Grupo Identidade.

Um relato sobre a II Caminhada de Mulheres Lésbicas, Bissexuais e Transexuais de Campinas – 25 de junho de 2016.

Você, sapatona, acha importante pautar a sua lesbianidade politicamente? Ou estamos falando apenas de expressão de um desejo individual?

Na sociedade em que vivemos, ser lésbica significa romper com o pressuposto da heterossexualidade (compulsória) e com o sexo centrado no falo. Ser lésbica escancara que sentimos desejo a partir do nosso próprio corpo e que não precisamos de um homem para ter orgasmos. Quando adentramos neste imenso mar que é a sexualidade lésbica, descobrimos que podem existir mil possibilidades de (re)inventar o sexo e que o desejo brota em qualquer parte do nosso corpo.

Entendendo a importância de valorizar e dar visibilidade às mulheres lésbicas e de escancarar nossa potência juntas, nos reunimos para a construção da II Caminhada de Mulheres Lésbicas, Bissexuais e Transexuais de Campinas/SP. Entendemos que este seria um importante momento para dar visibilidade às questões lésbicas, além de celebrar nossas ferramentas de resistência contra o cis-tema patriarcal. Este ano nossa homenageada foi a sapa-diva Cássia Eller!

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SENALE/SENALESBI: 20 anos de luta e desconstrução do machismo, do racismo e da LBfobia

Texto de Marinalva Santana para as Blogueiras Feministas.

Entre os dias 09 e 12 de junho de 2016, Teresina, capital do Piauí, sediou o 9° Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais – SENALESBI. Esta edição do Seminário foi a primeira a garantir o co-protagonismo das mulheres bissexuais, inclusive no nome e na sigla.

Como sabemos, da primeira à 7° edição do evento usava-se o nome: Seminário Nacional de Lésbicas – SENALE. No 8° Seminário, realizado em 2014, na cidade de Porto Alegre, usou-se o nome: Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais, mas a sigla SENALE foi mantida. Na plenária final de Porto Alegre, reconhecendo que as mulheres bissexuais estiveram presentes desde a primeira edição do evento, mas eram invisibilizadas, inclusive no nome do Seminário, deliberou-se pela mudança do nome, que passaria a ser chamado, a partir desta edição do Piauí: SEMINÁRIO NACIONAL DE LÉSBICAS E MULHERES BISSEXUAIS – SENALESBI.

Em duas décadas de existência, o Seminário se consolidou como o maior e mais importante evento do segmento de lésbicas e mulheres bissexuais no Brasil. Além de favorecer o encontro de idéias e proposições, oportuniza a elaboração de estratégias de atuação conjunta que visam garantir e ampliar direitos de lésbicas e mulheres bissexuais.

O 9° SENALESBI aconteceu em uma conjuntura adversa, posto que o avanço das pautas conservadoras tem contribuído para a ameaça de muitas conquistas alcançadas ao longo de nossa organização. Com o tema “20 anos de luta e desconstrução: desafios e perspectivas”, o Seminário mobilizou mais de 170 mulheres de todas as unidades Federação, exceto Amapá e Rondônia.

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La Belle Saison – Entrevista com a diretora Catherine Corsini

Entrevista com Catherine Corsini, diretora do filme francês La Belle Saison (2015), feita por Claire Vassé. Publicada no material de divulgação oficial do filme (.pdf). Tradução de Lettícia Leite para as Blogueiras Feministas. Aviso! Há spoilers sobre o filme.

La Belle Saison tem temática lésbica e conta a história de amor entre duas jovens francesas nos anos 70. Teve sua exibição esse mês na França e não há previsão para estrear no Brasil.

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O que te levou a escolher ambientar La Belle Saison nos anos 1970?

Eu tinha um desejo profundo de homenagear as feministas, que foram frequentemente menosprezadas, tratadas de “mal comidas”… Eu mesma, que não fui uma grande feminista naqueles anos, não estava longe de partilhar essa imagem que se tinha delas. Mas logo me dei conta de que, muitas das conquistas das quais eu desfruto hoje, nós devemos a essas mulheres que lutaram por nós, engajaram-se. Uma boa parte delas era homossexual. Enfim, graças a esse movimento, elas conseguiram fazer ouvir as suas vozes. As lésbicas fizeram muito em prol da emancipação de todas as mulheres.

Havia também uma vitalidade, uma insolência no movimento feminista que me seduziu. Hoje eu não vejo nada parecido. Compreendi que o feminismo colocava o humano no centro. E isso foi o grande princípio propulsor da escrita do filme.

Como foi seu processo de pesquisa?

Primeiramente, agradeço a figura maravilhosa de Carole Roussopoulus, a primeira cinegrafista a filmar as lutas das mulheres, a primeira marcha homossexual, que aconteceu às margens das manifestações do 1° de maio de 1970. Muito próxima de Delphine Seyrig, elas dirigiram juntas filmes militantes radiantes. O que me motivou a chamar as minhas heroínas de Carole e Delphine.

Além disso, eu entrevistei várias feministas, dentre elas Catherine Deudon, que desde o início fotografou as ações do movimento. Entrevistei também Anne Zelensky e Cathy Bernheim. Todas elas participaram daquele que é considerado como o primeiro ato feminista: o depósito de uma coroa de flores no túmulo, em homenagem à “mulher desconhecida do soldado”, no Arco do Triunfo[1]. Ato no qual a questão posta era: “quem seria mais desconhecida que o soldado desconhecido? A sua mulher!”.

Eu também li tudo o que pude encontrar, entre outros, o jornal Le Torchon Brûle. E todo esse material escrito e filmado que eu pude reunir, compartilhei com as atrizes, para que todas elas pudessem se investir dessas palavras, desse discurso, da importância das lutas como aquelas em prol da legalização do aborto, do direito de dispor do próprio corpo.

Transmitir essa energia me parecia essecial, foi isso que me encorajou durante as filmagens.

E o trabalho de reconstituição? O filme é um verdadeiro mergulho em uma época mas ele jamais faz uma representação redutora da mesma…

Eu, Jeanne Lapoirie, a diretora de produção, e Anna Falguères, a diretora de arte, ficamos atentas a isso. Optamos por escolher sempre o que havia da mais básico, mesclando aspectos modernos para a época com coisas ultrapassadas. Atentamos para que o carro que passasse na rua não fosse tão visível e tampouco demasiado marcado como “carro de época”, idem para as escolhas do figurino: seja o chapéu do camponês ou as roupas usadas pelas jovens feministas… Era necessário encontrar, naturalmente, uma precisão para a época. Mas também uma certa neutralidade, evitar um excesso de calças pata de elefante, de túnicas floridas… Felizmente as cenas de ruas são rápidas, o que diminui a atenção dada aos elementos datados. Além do mais, em filmes de época, temos frequentemente a tendência a querer “decorar” tudo de acordo com a época na qual o filme se passa. No entanto, haviam várias pessoas que nos anos 1970 se vestiam como nos anos 1950, e cujas casas não eram revestidas por papéis de parede.

A minha obsessão era de não reproduzir de forma rígida as ações feministas. Por isso eu me permiti algumas liberdades, mesmo que as ações não reflitam muito ou exatamente como as coisas se passaram. Desse modo, revisitei algumas ações, como a cena em que elas jogam tripas de vitela no Professor Chambard. Também escolhi deliberadamente não reproduzir as cenas mais previsíveis como o ato no Arco do Triunfo. O meu desejo primordial era captar a vitalidade desse período histórico. Daí a escolha de misturar uma ação do FHAR (Frente Homossexual de Ação Revolucionária) – que libertou um jovem que se encontrava internado em um hospital psiquiátrico na Itália – com as ações feministas.

Neste sentido, a cena da reunião política no anfiteatro da Sorbonne é triunfante.

Eu queria fazer essa cena no anfiteatro, reunir todas essas mulheres, vê-las discutindo, brigando. Evidentemente isso não era simples, pois para uma mulher que nunca o havia feito, tomar a palavra e se fazer ouvir não era fácil. Ainda mais porque elas não estavam dispostas a ter uma liderança que impusesse uma ordem! Essa energia de grupo é muito bonita, alegre e iconoclasta. É preciso também considerar que elas se colocavam em risco em algumas de suas atividades militantes. Frequentemente eram levadas à delegacia.

Eu imaginei essa cena, misturando todas as versões que me foram relatadas. Não há registro algum destes encontros, em parte alguma. Até mesmo saber como era o anfiteatro era complicado. Pois cada uma me contava uma versão diferente. Logo, nós reinventamos tudo, levando em conta todo o material que eu havia reunido, e, no meio disso tudo, deixamos espaço para pequenas improvisações. No começo da discussão, as meninas encontravam-se já alimentadas por esse material, o que garantiu um verossimilhança. Nós também procuramos escolher com cuidado o elenco da figuração, dando preferência à mulheres que participam de fato de movimentos feministas ou LGBT’s, todas pessoas efetivamente comprometidas. No que se refere ao grupo de amigas da Carole, o processo de escolha foi maravilhoso para mim, todas são formidáveis, em particular, Laetitia Dosch, que é uma atriz genial. Esse dia de filmagem foi intenso, febril, eu tinha a sensação de que todas as pessoas estavam contentes em participar. Nós nos rendemos definitivamente, eu e toda a equipe, ao ouvir as garotas cantarem o “Hino do MLF – Mouvement de Libération des Femmes.

Essa matéria histórica esteve intrinsecamente ligada às trajetórias íntimas de Delphine e Carole…

A questão de relacionar o íntimo ao histórico encontrava-se no centro de nossos debates ao longo da escrita do roteiro. Como podemos nos engajar politicamente, ser corajosas com relação aos outros e, no entanto, ter dificuldade para defender as nossas próprias “causas” no âmbito da nossa vida privada? Essa oposição tocou-me profundamente e trouxe a ficção, a dramartugia para a trama. Delphine é hesitante na sua vida íntima, mas ao mesmo tempo ela tem coragem para participar da ação de libertação do jovem gay que se encontrava internado, de jogar tripa de vitela em um médico antiaborto.

Como se deu a escolha do elenco?

Quanto a escolha de Cécile de France, eu escrevi o papel de Carole para ela, eu a via interpretando essa personagem. Foi uma evidência. Eu gosto de sua franqueza, de sua valentia, de sua atitude. Quando já temos um ator em mente, é fácil. Para o papel de Delphine, foi mais complicado. Para contracenar com Cécile, eu não queria alguém insconsistente, mas alguém forte. Uma garota que não se parecesse muito com uma parisiense, para que fosse convincente quando a víssemos em cima de um trator. Izïa Higelin tinha esses traços, esse lado bruto, selvagem. Trata-se de uma questão de temperamento. Creio que, para ela, interpretar é algo difícil, e é isso que lhe confere tanta emoção.

Das duas personagens, Delphine é a aquela com quem eu mais me identifico. E talvez seja por isso que para mim foi mais difícil encontrar uma atriz para interpretá-la.

Como foi o processo de direção?

Querer que um ator corresponda a personagem ideal, aquela que eu imaginei, sempre gera uma espécie de decepção. Assim, ao invés de lutar contra os atores para levá-los a personagem, eu tento enxergá-los como eles são, para depois aproximar a personagem deles. E é esse último que revela algo de íntimo deles.

O que se passa entre o papel e o ator é como uma reação química. Mas o que é certo, é que o ator fica atravessado pela personagem, ele nunca sai ileso desse processo.

Foi a primeira vez que eu filmei em digital. Isso me permitiu não ficar completamente colada ao roteiro, de filmar um pouco a parte os momentos que sustentam o filme, de inventar novas cenas, de ter algumas liberdades, mais flexibilidade, e mesmo, às vezes, de reintroduzir cenas que eu havia escrito em parceria com a minha roteirista Laurette Polmanss, e deixado de lado, mas já com a ideia de reutilizá-las.

Você faz ecoar sem cessar nas suas personagens questões políticas e íntimas, particularmente na cena em que Manuel diz para Carole que, por um lado ela luta para ser livre e, por outro, ela entra em uma história de amor que lhe provoca dependência…

Eu gosto muito do personagem Manuel. Acho interessante, pois ele confronta Carole às suas contradições. Lembra-lhe que o engajamento não deve ficar restrito a um anfiteatro entre amigas, de modo que somos capazes de concordar com ele. Ele se apaixonou por Carole, porque ela era livre e ele observa isso… Eu não queria que esse personagem fosse um canalha, um homem ciumento, exclusivamente focado nos seus problemas, apesar de magoado. Os dois são professores, frutos de maio de 68, ele é maoísta, eles devem ter militado juntos no passado. Esse casal põe em prática a ideia de que é possível viver fora do modelo burguês. Quando a relação termina, a coisa não se passa de forma violenta. Manuel procura convencer Carole a mudar de ideia pela reflexão, a qual ele incita de forma racional.

La Belle Saison é um filme feito com mulheres, sobre o movimento de mulheres e conta uma história de amor entre duas mulheres. Paralelamente, eu não queria representar homens mesquinhos. Mas sim homens atenciosos com as mulheres, não simplesmente antagonistas. Como Carole diz no começo: “Não somos contra os homens, mas pelas mulheres”.

E retratar o campo?

Eu reencontrei lembranças, sensações da minha infância. Pois passei parte da minha juventude em Corrèze. Eu queria contrapor a agitação de Paris à intemporalidade do campo. Como aliar esse dois movimentos ao longo do filme? Como esses mundos poderiam se aproximar, se refletir, se contaminar? Quanto a esse aspecto, ainda uma vez, eu pude contar sobretudo com a ajuda de uma amiga, Anne Bouthry, uma filha de camponeses que veio para Paris no começo dos anos 1970. Ela inspirou-me muito, ajudando-me a fazer a ligação entre esses dois mundos. Foi também conversando com ela que eu pude ter elementos para construir essa história. Eu também revi vários filmes de Georges Rouquier, Farrebique e Biquefarre, testemunhos preciosos sobre o mundo camponês, filmes onde se encontram misturados documentário e ficção. Ao longo do processo de pesquisa eu pude conversar com camponeses cuja juventude se passou naquela época. Eles falaram das duras condições nas quais alguns deles viveram e vivem ainda hoje.

Além disso, no campo, havia o personagem Antoine. Kevin Azaïs foi um parceiro muito elegante e extremamente cativante. E interpreta o personagem rejeitado. Aquele que olhamos e dizemos, é injusto, mas as coisas não darão certo para ele.

E o desejo de filmar a liberdade dos corpos?

Brincar com a nudez fazia quase parte da lógica e do processo de escrita sobre aqueles anos. De repente, passou a ser normal expor a nossa nudez, ter pêlos nas axilas! Mas, estranhamente, esse desejo foi aparecendo aos poucos, com o decorrer das filmagens. No começo eu tinha sobretudo o desejo de mostrar a beleza das paisagens, o trabalho dos campos. Eu estava quase no plano da pintura, de Manet…

Foi Cécile que aos poucos foi me trazendo isso. Eu adorei o visual que construímos para a sua personagem, com aquela basta cabeleira loira. Quando decidimos que sua personagem não usaria sutiã, rapidamente esboçou-se o perfil da parisiense liberada, que se sente completamente a vontade com o seu corpo, que anda nua pelo seu apartamento. Cécile trouxe-me essa liberdade que ela tem, a qual eu aprecio muito. Traço que combinava bem com a sua personagem, Carole, uma mulher ousada e sem tabus.

A cena na qual Carole aparece de vestido aberto, correndo atrás das vacas, foi um improviso de Cécile. Eu achei engraçado, isso me parecia muito com a Carole, levar uma baforada de liberdade para a austeridade do campo. Carole não tem problemas com a nudez, ao contrário de Delphine, que não se sente nada a vontade com o seu corpo. Talvez por que ela se saiba lésbica e não o assuma.

Quanto à cena em que elas fazem amor no campo. Ela tinha escrito apenas um esboço. Trata-se de um momento carnal, cru, que acaba ficando engraçado graças às vacas mugindo ao redor.

Minha roteirista também me apresentou Le Bonheur de Agnès Varda, um filme inspirador para representar o amor de forma pudica, mas livre.

Há uma grande história de amor entre Carole e Delphine…

Sempre me criticaram pela melancolia das minhas personagens. Eu tinha vontade de fazer um filme no qual as personagens tivessem um belo caráter, um alto astral, que fossem extremamente generosas e receptivas ao outro. O que não impede que tenham também um lado sombrio e conflitos, que no entanto lhes são íntimos. Podemos sentir bem que o primeiro inimigo de Delphine é ela mesma. Sua mãe é com certeza um obstáculo, mas Delphine não se atreve a confrontá-la, assim como ela não ousa afirmar o seu próprio desejo. A maneira como, de certo modo, ela fantasia a autoridade da mãe, é isso que torna o drama mais doloroso.

Quando as duas fazem um piquenique juntas, com a mãe de Delphine, temos a sensação que ela poderia abrir espaço para os argumentos e para a liberdade de Carole…

O momento que você menciona trata-se na verdade de uma pequena improvisação ao final de uma cena, no qual Noémie e Cécile trazem essa sensibilidade às personagens, permitindo que imaginemos uma possibilidade de mudança e, evitando que tenhamos uma imagem dessa mãe como uma mulher completamente fechada.

Isso faz com que a cena, bastante violenta, ao final pareça mais aceitável, pois já não estamos mais na caricatura.

Noémie Lvovsky é uma grande atriz e a sua maior preocupação era justamente saber se essa cena seria convincente: “Você é um demônio nessa casa”. É o medo que faz com que essa mãe reaja dessa maneira tão violenta. Medo diante do desconhecido que lhe parece inconcebível e anormal: a homossexualidade da sua filha.

Para interpretar essa cena, foi primeiramente necessário que ela se desvencilhasse dos estereótipos da mãe amarga. Os atores atuam também um pouco como diretores do filme. Para tornarem seus personagens verossímeis, eles precisam construir algo. Fazia tempo que eu queria trabalhar com Noémie. Fazer uma camponesa dos anos 1970 era um desafio, porque normalmente lhe são dados papéis que lhe são bem mais próximos.

O filme traz uma perspectiva alegre e otimista sobre aquela época, porém mais melancólica quando nos aproximamos do íntimo das personagens, o que aliás é acompanhado por um fundo musical mais doloroso…

Por um lado há canções da época: Janis Joplin, Colette Magny, Joe Dassin; por outro, músicas decididamente mais modernas. The Rapture, um grupo atual, que expressa a modernidade que Carole leva para o campo. E há ainda a música original de Grégoire Hetzel, que traz um lirismo que vai ao encontro dos sentimentos íntimos de Delphine e de Carole, do modo como por vezes elas se encontram prisioneiras delas mesmas.

Com Grégoire trabalhamos com muita hesitação. Ele veio muito cedo, e muito rápido pensamos em um movimento arrebatador, escutamos várias músicas de filme, composições de Grieg. É a terceira vez que trabalhamos juntos. Ele é muito flexível, ele tem muito lirismo e delicadeza.

E o final do filme?

Por trás da recusa de um final feliz. pelo menos muito afirmativo, creio que se encontra a ideia de que o combate das mulheres em prol da sua emancipação e a luta para se conhecer melhor, implicam um caminho longo. Se Delphine tivesse conseguido deixar a sua fazenda tão rápido, diríamos que não haveria porque fazer toda uma história! Ao final do filme eu fiquei com a sensação de que ela ainda tem muito pelo que lutar. Além disso, eu adoro essas histórias de amor em que nos sabotamos porque não estamos em um bom momento. É o meu lado melodramático, mas a vida é assim.

Falar do MLF hoje é pertinente?

Hoje mais do que nunca, sobretudo quando eu vejo o destino de algumas mulheres no nosso mundo. As mulheres precisam se mobilizar, pois elas continuam a ser as primeiras vítimas de estados totalitários. Elas ainda são oprimidas. Na Espanha, no ano passsado, o direito ao aborto foi colocado em questão… Penso que as revoluções e as mudanças do amanhã devem ser feitas pelas mulheres.

Na época do filme, as mulheres reivindicavam igualdade, salários iguais aos dos homens, “que as mulheres não sejam objetos publicitários”. Ainda hoje essas questões permanecem. Apesar dos avanços, as mentalidades ainda não evoluíram o bastante. Estamos numa época de regressões terríveis, e é vital que tenhamos consciência disso para agir. Sempre que eu participo de uma reunião, fico cada vez mais atenta para que as mulheres tenham suas vozes ouvidas. Eu não entendo porque as pessoas ainda têm medo das mulheres, porque queremos impedi-las de pensar, porque elas não têm os mesmos direitos. Por que?

E com relação à homossexualidade, nós avançamos mais?

Penso que as pessoas encondem-se menos, mais ainda é bastante doloroso para algumas pessoas declarar e viver a sua homossexualidade. Nas manifestações horríveis que tivemos aqui na França contra o “casamento para todos”, no ano passado, vimos várias famílias dilaceradas. Alguns pais participavam da manifestação, apesar de saberem da homossexulidade dos seus filhos e filhas.

Um filme incentivou-me a fazer o meu: Les Invisibles de Sébastien Lifshitz. Achei os testemunhos das pessoas homossexuais contidos ali exemplares. Suas histórias de amor são magníficas. Sentimos o dilaceramento vivido por algumas mulheres, como o de uma mulher casada, que teve filhos e que descobriu-se homossexual muito tempo depois. Essas mudanças de vida são incríveis, eu fico maravilhada. De modo que eu senti vontade de traduzir a emoção que isso me provocou em um filme de ficção.

Trata-se da sua primeira colaboração com a produtora Elisabeth Perez, que também é sua companheira.

Eu havia feito três trabalhos com a minha produtora Fabienne Vonier, que faleceu faz dois anos. Fabienne era muito atenciosa, nós nos dávamos muito bem, e era difícil encontrar alguém par substituí-la.

Com Elisabeth, a coisa é muito intuitiva. Eu adorei a sua exigência, misturada a uma enorme generosidade. Nossa colaboração foi igualmente muito rica, agradável, respeitosa. Eu fiquei com a impressão de que nós realmente compartilhamos o filme, em todas as suas etapas, com muita confiança.

La Belle Saison é para mim como uma espécie de recomeço, e eu procurei compartilhar esse sentimento com toda a equipe. No começo das filmagens eu escrevi algumas palavras para a equipe, para lhes dizer que esse filme era muito especial para mim, pois era a primeira vez que eu trabalhava com Elisabeth e tratava de forma tão direta da homossexualidade. Fazia muito tempo que eu desejava contar essa história, mas foi Elisabeth que me incentivou a trabalhar sobre esse tema, que me encorajou. Eu devo esse filme inteiramente a ela.

Referência

[1] Considerado o ato fundador do Movimento de Liberação das Mulheres, o MLF, essa ação ocorreu em Paris, no dia 26 de agosto de 1970. A frase que alude ao “soldado desconhecido” faz alusão à inscrição que se encontra no epitáfio.

Sinopse

Delphine, filha de camponeses, vem para Paris para se emancipar do julgo familiar e conquistar sua independência financeira. Carole é parisiense. Ela tem uma relação com Manuel e vive ativamente o começo do movimento feminista na França do início dos anos 70. Do encontro das duas vai nascer uma história de amor que vai mudar as suas vidas.

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Vídeo – Trailer do filme La Belle Saison (2015)