Invisibilidade Lésbica: uma reflexão sobre a lesbofobia e o descaso do Estado

Texto de Ana Carolina Delgado para as Blogueiras Feministas.

Proponho um debate sobre o interesse político em não fazer política para mulheres lésbicas. A invisibilidade dentro da sociedade se reflete em falta e inexistência de ações e políticas públicas para esse grupo marginalizado.

Faço da minha experiência pessoal uma motivação para fazer esse texto ganhar vida, mas não faço das minhas experiências verdades absolutas, tendo em vista que meu objetivo não é trazer uma certeza ao final da escrita, mas sim, várias incertezas e inquietudes que possam mobilizar novos debates e ideias. Que discordem comigo, mas não me deixem falando sozinha sobre lesbofobia. É importante pensar de uma maneira interseccional para construir uma nova realidade no Brasil, onde mulheres lésbicas sejam colocadas no mapa, pelo menos das políticas públicas.

A problemática da Invisibilização

Os primeiros registros sobre lesbianidade no Brasil foram no período da Inquisição, pois nessa época eram julgados casos de “sodomia” (seriam casos de relações homossexuais). Porém, após grandes debates, decidiram que mulheres que mantinham relações com outras mulheres não poderiam ser julgadas, pois segundo eles: duas mulheres não poderiam transar, já que não possuiam pênis. Apesar de parecer contraditório criticar que as mulheres lésbicas não eram julgadas, é notável que isso só ocorreu pois as relações entre mulheres sempre foram infantilizadas e suas relações sexuais invisibilizadas. Até hoje o pênis é a figura central do sexo, ou seja, só existe sexo com pênis.

Tais problemas como a infantilização, fetichização e “preparação para a vida adulta” são manifestações de ódio que diferenciam a homossexualidade feminina da masculina. As mulheres lésbicas também sofrem com a misoginia que existe em nossa sociedade. E, não se pode falar de opressão de maneira interseccional sem falar das mulheres negras lésbicas, que além de toda lesbofobia e misoginia, também sofrem preconceito racial.

Lesbofobia: o que o Estado tem a ver e as políticas públicas

Podemos partir do princípio concreto de que não há políticas públicas para mulheres lésbicas e bissexuais e, que não existem dados para fazer levantamentos necessários para que se possa criar qualquer política pública. Basicamente, não se sabe as formas mais frequentes de violência que as mulheres lésbicas sofrem, nem por onde andam e como estão se relacionando com sistemas de saúde e educação, por exemplo. O Estado permanece ignorando a existência não só dessas mulheres, como também das violências que sofrem.

De maneira geral, o Estado fecha os olhos para toda população LGBT. E esse descaso do Estado resulta em mais invisibilidade. Qual seria então o obstáculo que o Estado enfrenta em falar de mulheres lésbicas e lesbofobia? Mesmo nos governos mais progressistas não houve debates amplos e grandes preocupações com esses assuntos. Seria o medo de um rompimento do status quo, já que reconhecer relações entre duas mulheres destrói discursos misóginos e heteronormativos? Reconhecer as relações lésbicas não romperia, pelo menos em parte, o discurso da assexualidade da mulher e seu corpo apenas usado em serviço do homem? São questões que não podem ser respondidas com certezas, mas podem abrir um debate e produzir não só políticas públicas, mas reflexões que perpassam a questão da mulher lésbica e criam grandes possibilidades de ação e movimentos.

Há iniciativas como o Projeto de Lei Estadual 269/2915, que dispõe sobre o estabelecimento dos parâmetros para a inclusão dos itens “orientação sexual”, “identidade de gênero” e “nome social” nos boletins de ocorrência e nos Termos Circunstanciados emitidos por autoridades policiais do Estado do Rio Grande do Sul. Porém, não iniciativas nacionais nesse sentido. O Estado, além de ignorar a violência contra as mulheres lésbicas ao não criar nenhum tipo de sistema que possa gerar estatísticas desses casos, também ignora a lesbianidade como fator a ser analisado em caso de morte ou violência, especialmente em casos que aconteceram recentemente.

Um deles é o da Luana dos Reis, mulher negra e lésbica morta por policiais após recusar revista que iria ocorrer de forma abusiva. Outro caso é da Rafinha, morta com requintes de crueldade recebendo 17 tiros. Nesses dois casos foram ignoradas qualquer possibilidade da lesbianidade ter influenciado na motivação dos crimes, mesmo sendo mulheres lésbicas que desviavam os padrões heterossexuais esperados pela sociedade. Ambas, além da lesbofobia, também sofriam com o racismo. No caso de Luana acrescenta-se a violência institucional da polícia contra a população negra. Outro exemplo é o da Fabiane Hilário, em que foi descartado lesbofobia, pois o agressou negou ter sido essa a motivação.

O que todos esses casos tem em comum são sua grande invisibilidade, poucos grupos ouviram falar desses assassinatos, porque não há divulgação dessas mortes. E, se não há divulgação dessa violência, também não há debate sobre lesbofobia e vai se perpetuando a ideia de que mulheres lésbicas não sofrem violência. O Estado faz questão de ignorar essas mortes, ignorar essa população e ignorar que existe a necessidade de mapear essas violências para que elas deixem de acontecer.

Estupro corretivo: Um crime que ninguém conhece

O estupro corretivo é um estupro motivado tanto pela misoginia como pela lesbofobia, é a violência usada para punir essa mulher por não desejar homens, por amar e desejar mulheres. Já sabemos que os dados de espancamento e morte de mulheres lésbicas são questionáveis devido à falta de investigação e ao descaso em relação aos levantamentos de dados, mas esses crimes, mesmo que de maneira ínfima existem em debates e pesquisas. Porém, o estupro corretivo é uma violência que não existe e não há esforço nenhum para que se inicie um debate sobre isso.

Ao fazer uma pesquisa rápida, descobre-se que, em 2012, 6% das vítimas de estupro que procuraram o Disque 100 foram mulheres homossexuais vítimas de violência. De acordo com a Liga Brasileira de Lésbicas, parte deste índice é de estupros corretivos, porque a entidade tem como referência outros dados do Ministério da Saúde que permitem fazer um comparativo percentual coincidente. Esse cenário é preocupante, já que o rastro dos estupros corretivos que violentam as mulheres lésbicas estão num extremo: a contaminação por doenças sexualmente transmissíveis. Portanto, isso nos leva a refletir que esse é um percentual muito inferior ao número real da ocorrência desses estupros.

A falta de dados específicos sobre os estupros corretivos e a inexistência de um sistema seguro e não-hostil para que as mulheres possam denunciar seus agressores, gera dados insuficientes e distantes da realidade. Com poucas informações e poucos dados é difícil confrontar o Estado e justificar políticas públicas. Outra barreira é a invisibilidade presente também nos movimentos sociais. O movimento LGBT, que pouco faz em relação às mulheres lésbicas, empurra para o movimento feminista tal responsabilidade. Ao mesmo tempo, o movimento feminista também não está aberto para debater lesbofobia, pois suas pautas giram majoritariamente em torno de um feminismo branco e heterossexual.

Meu objetivo com esse texto é demonstrar as diversas formas de invisibilidade que a mulher lésbica sofre na sociedade e como isso afeta na sua qualidade de vida. Ou seja, a invisibilidade na sociedade e, consequentemente, nas políticas públicas faz com que esse grupo siga marginalizado, cada vez mais violentado e sem proteção. Mas, também quero propor debates sobre a falta de políticas para esse grupo. Será que a invisibilidade social leva à uma invisibilidade nas Políticas Públicas? Ou, a falta de políticas públicas para lésbicas é uma manifestação intencional para que permaneçam invisibilizadas e marginalizadas?

Além de tudo que já foi dito, podemos também citar a falta de políticas sexuais para mulheres lésbicas que, quando existem, não são aplicadas e tampouco divulgadas. Não há métodos de proteção específicos para o sexo lésbico, por exemplo. Não existe preocupação do Estado com a saúde sexual dessas mulheres, com suas contaminações e consequentemente suas mortes. Mas isso ficará para um próximo texto.

Um grande passo na construção de políticas públicas para a população lésbica é o mapeamento de suas necessidades e violências que esses corpos sofrem. Os poucos dados e a falta de iniciativas do Estado para fazer um banco de dados eficaz sobre essa população resulta em falta de “munição” para que os grupos de pressão cobrem do Estado providências. Porém, mesmo sem informações precisas, não é difícil ver que as mulheres lésbicas mais marginalizadas e que carregam mais opressão em seus corpos são as que mais sofrem com a lesbofobia em todas suas faces. Também é uma violência que o Estado feche os olhos para isso.

Referências

CONEGATTI, Daniela. O que podem fazer duas vulvas: lesbianidades no Tumblr. 2015.

DWORKIN, Andrea; MACKINNON, Catharine. Pornography and civil rights: A New Day for Womens’ Equality. 1988.

GONZALES, Lélia. Racismo e Sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984.

PRÁ, Jussara Reis; EPPING, Léa. Cidadania e feminismo no reconhecimento dos direitos humanos das mulheres. Estudos feministas, Florianópolis, 20 (1): 33 -51, janeiro-abril/2012.

VAINFAS, Ronaldo. Homoerotismo feminino e o Santo Ofício. In: Del Priore, Mary; Bassanezi, Carla; Bassanezi, Carla. História das mulheres no Brasil. São Paulo, Contexto, 2001.

Autora

Ana Carolina Delgado tem 24 anos. É estudante de Políticas Públicas na UFRGS. Lésbica, Feminista e sagitariana.

Imagem: Março/2017. 8M no DF. Mídia Ninja no Flickr, alguns direitos reservados.

La Belle Saison – Entrevista com a diretora Catherine Corsini

Entrevista com Catherine Corsini, diretora do filme francês La Belle Saison (2015), feita por Claire Vassé. Publicada no material de divulgação oficial do filme (.pdf). Tradução de Lettícia Leite para as Blogueiras Feministas. Aviso! Há spoilers sobre o filme.

La Belle Saison tem temática lésbica e conta a história de amor entre duas jovens francesas nos anos 70. Teve sua exibição esse mês na França e não há previsão para estrear no Brasil.

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O que te levou a escolher ambientar La Belle Saison nos anos 1970?

Eu tinha um desejo profundo de homenagear as feministas, que foram frequentemente menosprezadas, tratadas de “mal comidas”… Eu mesma, que não fui uma grande feminista naqueles anos, não estava longe de partilhar essa imagem que se tinha delas. Mas logo me dei conta de que, muitas das conquistas das quais eu desfruto hoje, nós devemos a essas mulheres que lutaram por nós, engajaram-se. Uma boa parte delas era homossexual. Enfim, graças a esse movimento, elas conseguiram fazer ouvir as suas vozes. As lésbicas fizeram muito em prol da emancipação de todas as mulheres.

Havia também uma vitalidade, uma insolência no movimento feminista que me seduziu. Hoje eu não vejo nada parecido. Compreendi que o feminismo colocava o humano no centro. E isso foi o grande princípio propulsor da escrita do filme.

Como foi seu processo de pesquisa?

Primeiramente, agradeço a figura maravilhosa de Carole Roussopoulus, a primeira cinegrafista a filmar as lutas das mulheres, a primeira marcha homossexual, que aconteceu às margens das manifestações do 1° de maio de 1970. Muito próxima de Delphine Seyrig, elas dirigiram juntas filmes militantes radiantes. O que me motivou a chamar as minhas heroínas de Carole e Delphine.

Além disso, eu entrevistei várias feministas, dentre elas Catherine Deudon, que desde o início fotografou as ações do movimento. Entrevistei também Anne Zelensky e Cathy Bernheim. Todas elas participaram daquele que é considerado como o primeiro ato feminista: o depósito de uma coroa de flores no túmulo, em homenagem à “mulher desconhecida do soldado”, no Arco do Triunfo[1]. Ato no qual a questão posta era: “quem seria mais desconhecida que o soldado desconhecido? A sua mulher!”.

Eu também li tudo o que pude encontrar, entre outros, o jornal Le Torchon Brûle. E todo esse material escrito e filmado que eu pude reunir, compartilhei com as atrizes, para que todas elas pudessem se investir dessas palavras, desse discurso, da importância das lutas como aquelas em prol da legalização do aborto, do direito de dispor do próprio corpo.

Transmitir essa energia me parecia essecial, foi isso que me encorajou durante as filmagens.

E o trabalho de reconstituição? O filme é um verdadeiro mergulho em uma época mas ele jamais faz uma representação redutora da mesma…

Eu, Jeanne Lapoirie, a diretora de produção, e Anna Falguères, a diretora de arte, ficamos atentas a isso. Optamos por escolher sempre o que havia da mais básico, mesclando aspectos modernos para a época com coisas ultrapassadas. Atentamos para que o carro que passasse na rua não fosse tão visível e tampouco demasiado marcado como “carro de época”, idem para as escolhas do figurino: seja o chapéu do camponês ou as roupas usadas pelas jovens feministas… Era necessário encontrar, naturalmente, uma precisão para a época. Mas também uma certa neutralidade, evitar um excesso de calças pata de elefante, de túnicas floridas… Felizmente as cenas de ruas são rápidas, o que diminui a atenção dada aos elementos datados. Além do mais, em filmes de época, temos frequentemente a tendência a querer “decorar” tudo de acordo com a época na qual o filme se passa. No entanto, haviam várias pessoas que nos anos 1970 se vestiam como nos anos 1950, e cujas casas não eram revestidas por papéis de parede.

A minha obsessão era de não reproduzir de forma rígida as ações feministas. Por isso eu me permiti algumas liberdades, mesmo que as ações não reflitam muito ou exatamente como as coisas se passaram. Desse modo, revisitei algumas ações, como a cena em que elas jogam tripas de vitela no Professor Chambard. Também escolhi deliberadamente não reproduzir as cenas mais previsíveis como o ato no Arco do Triunfo. O meu desejo primordial era captar a vitalidade desse período histórico. Daí a escolha de misturar uma ação do FHAR (Frente Homossexual de Ação Revolucionária) – que libertou um jovem que se encontrava internado em um hospital psiquiátrico na Itália – com as ações feministas.

Neste sentido, a cena da reunião política no anfiteatro da Sorbonne é triunfante.

Eu queria fazer essa cena no anfiteatro, reunir todas essas mulheres, vê-las discutindo, brigando. Evidentemente isso não era simples, pois para uma mulher que nunca o havia feito, tomar a palavra e se fazer ouvir não era fácil. Ainda mais porque elas não estavam dispostas a ter uma liderança que impusesse uma ordem! Essa energia de grupo é muito bonita, alegre e iconoclasta. É preciso também considerar que elas se colocavam em risco em algumas de suas atividades militantes. Frequentemente eram levadas à delegacia.

Eu imaginei essa cena, misturando todas as versões que me foram relatadas. Não há registro algum destes encontros, em parte alguma. Até mesmo saber como era o anfiteatro era complicado. Pois cada uma me contava uma versão diferente. Logo, nós reinventamos tudo, levando em conta todo o material que eu havia reunido, e, no meio disso tudo, deixamos espaço para pequenas improvisações. No começo da discussão, as meninas encontravam-se já alimentadas por esse material, o que garantiu um verossimilhança. Nós também procuramos escolher com cuidado o elenco da figuração, dando preferência à mulheres que participam de fato de movimentos feministas ou LGBT’s, todas pessoas efetivamente comprometidas. No que se refere ao grupo de amigas da Carole, o processo de escolha foi maravilhoso para mim, todas são formidáveis, em particular, Laetitia Dosch, que é uma atriz genial. Esse dia de filmagem foi intenso, febril, eu tinha a sensação de que todas as pessoas estavam contentes em participar. Nós nos rendemos definitivamente, eu e toda a equipe, ao ouvir as garotas cantarem o “Hino do MLF – Mouvement de Libération des Femmes.

Essa matéria histórica esteve intrinsecamente ligada às trajetórias íntimas de Delphine e Carole…

A questão de relacionar o íntimo ao histórico encontrava-se no centro de nossos debates ao longo da escrita do roteiro. Como podemos nos engajar politicamente, ser corajosas com relação aos outros e, no entanto, ter dificuldade para defender as nossas próprias “causas” no âmbito da nossa vida privada? Essa oposição tocou-me profundamente e trouxe a ficção, a dramartugia para a trama. Delphine é hesitante na sua vida íntima, mas ao mesmo tempo ela tem coragem para participar da ação de libertação do jovem gay que se encontrava internado, de jogar tripa de vitela em um médico antiaborto.

Como se deu a escolha do elenco?

Quanto a escolha de Cécile de France, eu escrevi o papel de Carole para ela, eu a via interpretando essa personagem. Foi uma evidência. Eu gosto de sua franqueza, de sua valentia, de sua atitude. Quando já temos um ator em mente, é fácil. Para o papel de Delphine, foi mais complicado. Para contracenar com Cécile, eu não queria alguém insconsistente, mas alguém forte. Uma garota que não se parecesse muito com uma parisiense, para que fosse convincente quando a víssemos em cima de um trator. Izïa Higelin tinha esses traços, esse lado bruto, selvagem. Trata-se de uma questão de temperamento. Creio que, para ela, interpretar é algo difícil, e é isso que lhe confere tanta emoção.

Das duas personagens, Delphine é a aquela com quem eu mais me identifico. E talvez seja por isso que para mim foi mais difícil encontrar uma atriz para interpretá-la.

Como foi o processo de direção?

Querer que um ator corresponda a personagem ideal, aquela que eu imaginei, sempre gera uma espécie de decepção. Assim, ao invés de lutar contra os atores para levá-los a personagem, eu tento enxergá-los como eles são, para depois aproximar a personagem deles. E é esse último que revela algo de íntimo deles.

O que se passa entre o papel e o ator é como uma reação química. Mas o que é certo, é que o ator fica atravessado pela personagem, ele nunca sai ileso desse processo.

Foi a primeira vez que eu filmei em digital. Isso me permitiu não ficar completamente colada ao roteiro, de filmar um pouco a parte os momentos que sustentam o filme, de inventar novas cenas, de ter algumas liberdades, mais flexibilidade, e mesmo, às vezes, de reintroduzir cenas que eu havia escrito em parceria com a minha roteirista Laurette Polmanss, e deixado de lado, mas já com a ideia de reutilizá-las.

Você faz ecoar sem cessar nas suas personagens questões políticas e íntimas, particularmente na cena em que Manuel diz para Carole que, por um lado ela luta para ser livre e, por outro, ela entra em uma história de amor que lhe provoca dependência…

Eu gosto muito do personagem Manuel. Acho interessante, pois ele confronta Carole às suas contradições. Lembra-lhe que o engajamento não deve ficar restrito a um anfiteatro entre amigas, de modo que somos capazes de concordar com ele. Ele se apaixonou por Carole, porque ela era livre e ele observa isso… Eu não queria que esse personagem fosse um canalha, um homem ciumento, exclusivamente focado nos seus problemas, apesar de magoado. Os dois são professores, frutos de maio de 68, ele é maoísta, eles devem ter militado juntos no passado. Esse casal põe em prática a ideia de que é possível viver fora do modelo burguês. Quando a relação termina, a coisa não se passa de forma violenta. Manuel procura convencer Carole a mudar de ideia pela reflexão, a qual ele incita de forma racional.

La Belle Saison é um filme feito com mulheres, sobre o movimento de mulheres e conta uma história de amor entre duas mulheres. Paralelamente, eu não queria representar homens mesquinhos. Mas sim homens atenciosos com as mulheres, não simplesmente antagonistas. Como Carole diz no começo: “Não somos contra os homens, mas pelas mulheres”.

E retratar o campo?

Eu reencontrei lembranças, sensações da minha infância. Pois passei parte da minha juventude em Corrèze. Eu queria contrapor a agitação de Paris à intemporalidade do campo. Como aliar esse dois movimentos ao longo do filme? Como esses mundos poderiam se aproximar, se refletir, se contaminar? Quanto a esse aspecto, ainda uma vez, eu pude contar sobretudo com a ajuda de uma amiga, Anne Bouthry, uma filha de camponeses que veio para Paris no começo dos anos 1970. Ela inspirou-me muito, ajudando-me a fazer a ligação entre esses dois mundos. Foi também conversando com ela que eu pude ter elementos para construir essa história. Eu também revi vários filmes de Georges Rouquier, Farrebique e Biquefarre, testemunhos preciosos sobre o mundo camponês, filmes onde se encontram misturados documentário e ficção. Ao longo do processo de pesquisa eu pude conversar com camponeses cuja juventude se passou naquela época. Eles falaram das duras condições nas quais alguns deles viveram e vivem ainda hoje.

Além disso, no campo, havia o personagem Antoine. Kevin Azaïs foi um parceiro muito elegante e extremamente cativante. E interpreta o personagem rejeitado. Aquele que olhamos e dizemos, é injusto, mas as coisas não darão certo para ele.

E o desejo de filmar a liberdade dos corpos?

Brincar com a nudez fazia quase parte da lógica e do processo de escrita sobre aqueles anos. De repente, passou a ser normal expor a nossa nudez, ter pêlos nas axilas! Mas, estranhamente, esse desejo foi aparecendo aos poucos, com o decorrer das filmagens. No começo eu tinha sobretudo o desejo de mostrar a beleza das paisagens, o trabalho dos campos. Eu estava quase no plano da pintura, de Manet…

Foi Cécile que aos poucos foi me trazendo isso. Eu adorei o visual que construímos para a sua personagem, com aquela basta cabeleira loira. Quando decidimos que sua personagem não usaria sutiã, rapidamente esboçou-se o perfil da parisiense liberada, que se sente completamente a vontade com o seu corpo, que anda nua pelo seu apartamento. Cécile trouxe-me essa liberdade que ela tem, a qual eu aprecio muito. Traço que combinava bem com a sua personagem, Carole, uma mulher ousada e sem tabus.

A cena na qual Carole aparece de vestido aberto, correndo atrás das vacas, foi um improviso de Cécile. Eu achei engraçado, isso me parecia muito com a Carole, levar uma baforada de liberdade para a austeridade do campo. Carole não tem problemas com a nudez, ao contrário de Delphine, que não se sente nada a vontade com o seu corpo. Talvez por que ela se saiba lésbica e não o assuma.

Quanto à cena em que elas fazem amor no campo. Ela tinha escrito apenas um esboço. Trata-se de um momento carnal, cru, que acaba ficando engraçado graças às vacas mugindo ao redor.

Minha roteirista também me apresentou Le Bonheur de Agnès Varda, um filme inspirador para representar o amor de forma pudica, mas livre.

Há uma grande história de amor entre Carole e Delphine…

Sempre me criticaram pela melancolia das minhas personagens. Eu tinha vontade de fazer um filme no qual as personagens tivessem um belo caráter, um alto astral, que fossem extremamente generosas e receptivas ao outro. O que não impede que tenham também um lado sombrio e conflitos, que no entanto lhes são íntimos. Podemos sentir bem que o primeiro inimigo de Delphine é ela mesma. Sua mãe é com certeza um obstáculo, mas Delphine não se atreve a confrontá-la, assim como ela não ousa afirmar o seu próprio desejo. A maneira como, de certo modo, ela fantasia a autoridade da mãe, é isso que torna o drama mais doloroso.

Quando as duas fazem um piquenique juntas, com a mãe de Delphine, temos a sensação que ela poderia abrir espaço para os argumentos e para a liberdade de Carole…

O momento que você menciona trata-se na verdade de uma pequena improvisação ao final de uma cena, no qual Noémie e Cécile trazem essa sensibilidade às personagens, permitindo que imaginemos uma possibilidade de mudança e, evitando que tenhamos uma imagem dessa mãe como uma mulher completamente fechada.

Isso faz com que a cena, bastante violenta, ao final pareça mais aceitável, pois já não estamos mais na caricatura.

Noémie Lvovsky é uma grande atriz e a sua maior preocupação era justamente saber se essa cena seria convincente: “Você é um demônio nessa casa”. É o medo que faz com que essa mãe reaja dessa maneira tão violenta. Medo diante do desconhecido que lhe parece inconcebível e anormal: a homossexualidade da sua filha.

Para interpretar essa cena, foi primeiramente necessário que ela se desvencilhasse dos estereótipos da mãe amarga. Os atores atuam também um pouco como diretores do filme. Para tornarem seus personagens verossímeis, eles precisam construir algo. Fazia tempo que eu queria trabalhar com Noémie. Fazer uma camponesa dos anos 1970 era um desafio, porque normalmente lhe são dados papéis que lhe são bem mais próximos.

O filme traz uma perspectiva alegre e otimista sobre aquela época, porém mais melancólica quando nos aproximamos do íntimo das personagens, o que aliás é acompanhado por um fundo musical mais doloroso…

Por um lado há canções da época: Janis Joplin, Colette Magny, Joe Dassin; por outro, músicas decididamente mais modernas. The Rapture, um grupo atual, que expressa a modernidade que Carole leva para o campo. E há ainda a música original de Grégoire Hetzel, que traz um lirismo que vai ao encontro dos sentimentos íntimos de Delphine e de Carole, do modo como por vezes elas se encontram prisioneiras delas mesmas.

Com Grégoire trabalhamos com muita hesitação. Ele veio muito cedo, e muito rápido pensamos em um movimento arrebatador, escutamos várias músicas de filme, composições de Grieg. É a terceira vez que trabalhamos juntos. Ele é muito flexível, ele tem muito lirismo e delicadeza.

E o final do filme?

Por trás da recusa de um final feliz. pelo menos muito afirmativo, creio que se encontra a ideia de que o combate das mulheres em prol da sua emancipação e a luta para se conhecer melhor, implicam um caminho longo. Se Delphine tivesse conseguido deixar a sua fazenda tão rápido, diríamos que não haveria porque fazer toda uma história! Ao final do filme eu fiquei com a sensação de que ela ainda tem muito pelo que lutar. Além disso, eu adoro essas histórias de amor em que nos sabotamos porque não estamos em um bom momento. É o meu lado melodramático, mas a vida é assim.

Falar do MLF hoje é pertinente?

Hoje mais do que nunca, sobretudo quando eu vejo o destino de algumas mulheres no nosso mundo. As mulheres precisam se mobilizar, pois elas continuam a ser as primeiras vítimas de estados totalitários. Elas ainda são oprimidas. Na Espanha, no ano passsado, o direito ao aborto foi colocado em questão… Penso que as revoluções e as mudanças do amanhã devem ser feitas pelas mulheres.

Na época do filme, as mulheres reivindicavam igualdade, salários iguais aos dos homens, “que as mulheres não sejam objetos publicitários”. Ainda hoje essas questões permanecem. Apesar dos avanços, as mentalidades ainda não evoluíram o bastante. Estamos numa época de regressões terríveis, e é vital que tenhamos consciência disso para agir. Sempre que eu participo de uma reunião, fico cada vez mais atenta para que as mulheres tenham suas vozes ouvidas. Eu não entendo porque as pessoas ainda têm medo das mulheres, porque queremos impedi-las de pensar, porque elas não têm os mesmos direitos. Por que?

E com relação à homossexualidade, nós avançamos mais?

Penso que as pessoas encondem-se menos, mais ainda é bastante doloroso para algumas pessoas declarar e viver a sua homossexualidade. Nas manifestações horríveis que tivemos aqui na França contra o “casamento para todos”, no ano passado, vimos várias famílias dilaceradas. Alguns pais participavam da manifestação, apesar de saberem da homossexulidade dos seus filhos e filhas.

Um filme incentivou-me a fazer o meu: Les Invisibles de Sébastien Lifshitz. Achei os testemunhos das pessoas homossexuais contidos ali exemplares. Suas histórias de amor são magníficas. Sentimos o dilaceramento vivido por algumas mulheres, como o de uma mulher casada, que teve filhos e que descobriu-se homossexual muito tempo depois. Essas mudanças de vida são incríveis, eu fico maravilhada. De modo que eu senti vontade de traduzir a emoção que isso me provocou em um filme de ficção.

Trata-se da sua primeira colaboração com a produtora Elisabeth Perez, que também é sua companheira.

Eu havia feito três trabalhos com a minha produtora Fabienne Vonier, que faleceu faz dois anos. Fabienne era muito atenciosa, nós nos dávamos muito bem, e era difícil encontrar alguém par substituí-la.

Com Elisabeth, a coisa é muito intuitiva. Eu adorei a sua exigência, misturada a uma enorme generosidade. Nossa colaboração foi igualmente muito rica, agradável, respeitosa. Eu fiquei com a impressão de que nós realmente compartilhamos o filme, em todas as suas etapas, com muita confiança.

La Belle Saison é para mim como uma espécie de recomeço, e eu procurei compartilhar esse sentimento com toda a equipe. No começo das filmagens eu escrevi algumas palavras para a equipe, para lhes dizer que esse filme era muito especial para mim, pois era a primeira vez que eu trabalhava com Elisabeth e tratava de forma tão direta da homossexualidade. Fazia muito tempo que eu desejava contar essa história, mas foi Elisabeth que me incentivou a trabalhar sobre esse tema, que me encorajou. Eu devo esse filme inteiramente a ela.

Referência

[1] Considerado o ato fundador do Movimento de Liberação das Mulheres, o MLF, essa ação ocorreu em Paris, no dia 26 de agosto de 1970. A frase que alude ao “soldado desconhecido” faz alusão à inscrição que se encontra no epitáfio.

Sinopse

Delphine, filha de camponeses, vem para Paris para se emancipar do julgo familiar e conquistar sua independência financeira. Carole é parisiense. Ela tem uma relação com Manuel e vive ativamente o começo do movimento feminista na França do início dos anos 70. Do encontro das duas vai nascer uma história de amor que vai mudar as suas vidas.

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=zWwVAgOr7fs]

Vídeo – Trailer do filme La Belle Saison (2015)

Quando o casamento passa a ser uma causa da esquerda

Texto de Lettícia Leite para as Blogueiras Feministas.

Em janeiro de 2013, motivada pelas manifestações que se multiplicavam de maneira notável no território francês a favor e contra o casamento entre lésbicas e gays, durante o período de discussão e votação da lei que o autorizaria — aprovada em abril daquele ano —, publiquei aqui neste espaço um texto sobre o assunto: Pelo casamento entre um homem e uma mulher?!

Passados quase dois anos em que a lei foi aprovada na França, as manifestações contrárias jamais cessaram, é preciso contudo ressaltar que algumas questões associadas aos direitos desses novos casais – que no último ano representaram uma fatia de 13% dos matrimônios feitos na capital francesa — ainda estão longe de encontrar uma solução. Dentre elas, destaco o direito à RMA (Reprodução Medicamente Assistida) para casais de lésbicas.

No entanto, não é meu objetivo tratar diretamente do estado atual desta e de outras questões na França, no Brasil ou em outro país. O que gostaria é de apresentar um exemplo de uma voz minoritária, vinda do cenário feminista e lésbico francês, que coloca em cheque não apenas a pertinência das reivindicações em prol da extensão do direito ao matrimônio para casais de gays e lésbicas — pauta que nos últimos anos ganhou destaque mundo afora nas agendas dos movimentos LGBT’s ; mas também coloca críticas e questionamentos relativos aos recursos que, para além da adoção clássica, hoje podem permitir aos casais constituídos por mulheres ou homens a se tornarem mães e pais. Neste sentido, um outro exemplo mencionado ao longo da entrevista, para além da RMA, será o recurso à chamada barriga de aluguel — que também é buscado por casais heterossexuais, mas cujas implicações éticas e jurídicas encontram-se em debate em vários países (1).

No texto outrora publicado, mencionei rapidamente o argumento principal que motiva algumas feministas a este questionamento relativo à pertinência da luta pela extensão do direito ao casamento e, cujas justificativas não vêem ao encontro daqueles apresentados pelos grupos que hoje, no Brasil, buscam impedir o reconhecimento deste (a meu ver) importante direito recém-adquirido. Visto que estes últimos pautam-se na ideia da família como um núcleo social formado exclusivamente a partir da união entre um homem e uma mulher.

Como forma de apresentar aspectos deste debate potencialmente controverso, tomei a iniciativa de traduzir uma entrevista feita com a historiadora e militante feminista lésbica francesa Marie-Josèphe Bonnet, publicada no jornal Libération em fevereiro de 2014. Entrevista concedida por ocasião do lançamento do seu livro publicado em janeiro do mesmo ano: Adieu les rebelles !. Ensaio ao longo do qual a autora trata justamente dos motivos que a levam a se opor à pertinência destas reivindicações que, a seu ver, apontariam para um preocupante desejo de normalização pautado em um modelo familiar patriarcal, heteronormativo e burguês. Pontos que ela trata ao longo da entrevista que segue.

Ademais, diante dos dados recém-publicados pelo IBGE apresentando o número de casamentos entre gays e lésbicas que foram realizados ao longo do ano de 2013 no Brasil, creio que talvez seja pertinente não perdemos de vista esse debate. A tradução é livre e o objetivo não é concordar plenamente com as ideias apresentadas, mas sim refletir sobre os modelos familiares e sociais que os novos casais pretendem ou não (re)produzir.

“Um paradoxo inacreditável: quando o casamento passa a ser uma causa da esquerda!”

Texto de Natalie Levisalles. Tradução de Lettícia Leite. Publicado originalmente com o título: ‘Le mariage est devenu de gauche, un paradoxe incroyable!’ no site Liberátion em 07/02/2014.

Marie-Josèphe Bonnet. Foto de Jean-Luc Bertini para a revista Elle francesa em 2013.
Marie-Josèphe Bonnet. Foto de Jean-Luc Bertini para a revista Elle francesa em 2013.

Militante, homossexual e feminista, a historiadora Marie-Josèphe Bonnet considera a aquisição do direito ao casamento para todas as pessoas a vitória de uma norma pequeno-burguesa sobre a contracultura e seus ideiais emancipatórios.

Marie-Josèphe Bonnet é historiadora, militante homossexual e feminista. Nos anos 1970, ela fez parte do Movimento de Liberação das Mulheres (MLF), foi co-fundadora do Fhar (Frente homossexual de ação revolucionária) e do grupo lésbico les Gouines rouges. Atualmente, no momento em que milhares de militantes saem às ruas pelo direito ao casamento, e que a França se bate em torno da “teoria do gênero”, ela publica ‘Adieu les Rebelles !’. Nesse livro bastante estimulante, a autora nos coloca uma questão: a extensão do direito ao casamento para todas as pessoas representa de fato um progresso social, ou trata-se de uma vitória de uma antiga ordem patriarcal?

Você é contra o casamento homossexual?

Eu sou contra o casamento em geral. Para mim, como feminista, o casamento representa historicamente um instrumento de dominação das mulheres. Mesmo que hoje o direito entre os cônjuges seja igual, o casamento ainda é uma instituição herdada do código napoleônico e que por muito tempo significou o tutelamento das mulheres. Para ter acesso a um estatuto social a mulher tinha que ser casada, uma mulher solteira era uma “beata”, uma mulher incompleta. Certo, isso mudou. No entanto, é necessário que saibamos que formas de associação herdamos: libertadoras ou alienantes. Na nossa sociedade são os direitos do indivíduo que estão na base da constituição, e não os direitos do casal. Fundar os direitos no casamento é um retrocesso.

Qual a sua opinião sobre as pessoas que ainda se manifestam contra a extensão do casamento para todos os casais, pautadas no argumento do princípio do “interesse da criança”?

Que as coisas fiquem claras de uma vez por todas: este debate não está mais na ordem do dia. A lei já foi votada e devemos aceitá-la. Não vejo como o direito de uma criança poderia ser afetado por causa da extensão do direito ao casamento para todos os casais. Todo mundo é capaz de educar uma criança, qualquer que seja sua orientação sexual, homem ou mulher, isto é incontestável.

O que significa o princípio do “interesse da criança”, comumente oposto ao “direito à criança” ?

Não me posiciono nesta polêmica. Porém, fico preocupada quando percebo em alguns casais homossexuais um desejo de ter uma criança sem a participação do outro sexo. Para mim, foi a procriação que permitiu o diálogo entre os sexos. Precisamos do outro sexo para nos reproduzirmos. E, felizmente, porque caso contrário as mulheres teriam sido exterminadas. Temos sorte que a sociedade seja mista. As pessoas as vezes se assustam quando eu digo isto, mas sei que possuo um lado masculino, e eu o aceito. A sexualidade é parte de nossa identidade, mas não é tudo. Dizer que apenas a sexualidade nos define, dizer que “a única coisa que conta é com quem você transa”, e fundar uma solidariedade a partir disso, é comunitarismo.

Este enfoque nas crianças é preocupante?

O problema é o desenvolvimento de uma comercialização (que existe também para os héteros) em torno da RMA (caso o esperma seja de um doador anônimo comprado no exterior) e da barriga de aluguel, na qual a criança é tirada da mãe que a colocou no mundo; enquanto que, para a criança, é importante ter acesso às suas origens. Todos nós temos a necessidade de saber de onde viemos para nos construirmos. Devemos aprovar essa farsa de uma filiação monossexuada, quando sabemos da dor das crianças adotadas que desconhecem suas origens? Queremos autorizar os casais que têm recursos financeiros a recorrerem a mães de aluguel? Nestes casos qual o estatuto das mulheres, de reprodutoras? Devemos consentir que os corpos dessas mulheres sejam instrumentalizados? E como fica o ponto de vista da criança dentro desta lógica de mercado ultraliberal? A pesquisadora Françoise Dekeuwer-Défossez (2) coloca esta questão da seguinte forma: “A questão da conformidade entre a satisfação do desejo do adulto e o interesse superior da criança não poderá ser indefinidamente evitada”. É necessário que façamos um debate público sobre essa questão.

Voltando à questão do casamento para todas as pessoas, você acha que há tendência a uma normalização?

Absolutamente: a pluralidade, as diferentes maneiras de viver, tudo foi esvaziado. É como se no presente houvesse apenas um único caminho para o reconhecimento da homossexualidade: o casamento. No entanto, outras formas de convivência foram propostas. O Pacs (Pacto Civil de Solidariedade), em 1999, foi um avanço considerável. Mesmo que na época eu fosse sobretudo a favor da adoção de medidas que pudessem melhorar o reconhecimento da concubinagem… a qual aliás conseguimos incluir no código civil. O Pacs já seria o suficiente se acrescido de alguns ajustes como, entre outros, o desenvolvimento de direitos próprios e a reforma do direito à sucessão.

Eu sempre achei que ser lésbica era uma dádiva, na medida em que isto me colocava certas questões: do porquê eu prefiro mulheres, sobre qual a relação disto com as minhas características pessoais… Isto foi muito importante e permitiu que eu assumisse a minha diferença. Sempre achei que esta posição me conferia uma proteção bem mais eficaz que a instituição do casamento. O debate deve ser deslocado para esta questão, pois o que está em jogo aí é uma necessidade de proteção, sobretudo com relação à homofobia. Devemos ser capazes de nos protegermos sem sermos engolidos pela norma dominante. Com o casamento, o que temos é a vitória do modelo matrimonial heterossexual, a integração à norma pequeno-burguesa da dignidade conjugal. Uma vitória paradoxal, justo no momento no qual vários casais heterossexuais vivem fora desse modelo.

Você se declara perplexa frente à unanimidade relativa a esta questão, tanto entre os homossexuais quanto entre os grupos de esquerda.

Estive revendo os textos que escrevi sobre a união livre e contra o casamento, que datam de 2004, quando já havia uma ofensiva a favor do casamento. Trata-se da época em que publiquei ‘Qu’est-ce qu’une femme désire quand elle désire une femme?’ (O que uma mulher deseja quando ela deseja uma mulher?). A maioria das pessoas que se exprimiam não se interrogavam sobre a questão do desejo, mas eu não pensava que isto tomaria tamanha proporção. Nunca houve uma enquete dentro do movimento LGBT para saber o que as pessoas pensavam a respeito. É a pressão por parte de um pequeno grupo, sob o pretexto de lutar contra a homofobia, que acabou influenciando as demais pessoas. E, como os opositores da direita e da extrema direita são particularmente inquietantes, acabamos por nos encontrar numa oposição completamente artificial entre a favor/contra, esquerda/direita. Enfim, diante desse paradoxo inacreditável que fez com que o casamento passasse a ser uma causa da esquerda!

Como você analisa a evolução do movimento homossexual na França?

Os anos 1970 assistiram ao nascimento de um movimento homossexual criativo e generoso, agora contamos com um movimento normativo e comunitarista. Em um prazo de 40 anos passamos de um ideal de emancipação coletiva a uma moral jurídica do cada um por si. Os anos 70 foram a época da saída do armário. Tínhamos sido formados pelo Maio de 68, tratava-se de um movimento de luta contra as instituições, de uma revolução cultural, da qual eu participei com alegria.

O movimento de mulheres e o movimento homossexual emergiram simultaneamente, trilhamos parte do caminho juntos. Eu mesma fiz parte do MLF, fui co-fundadora do Fhar (que no início era composto por homens e mulheres e depois passaria a ser composto apenas por homens), depois do grupo lésbico Gouine rouges. Reconheço que lá éramos contra homens. Mas, ao mesmo tempo havia uma grande fraternidade com relação aos meninos do Fhar. Nós pensávamos que eles estavam do nosso lado, do lado do feminino; pois, assim como nós, eles tinham sido oprimidos.

Porém, com a chegada da AIDS, tudo mudou. Com a morte dos doentes seus companheiros eram expulsos de seus apartamentos. Por isto os homens passaram a se preocupar com a questão da proteção jurídica. O problema está na não transmissão dos valores da contra-cultura dos anos 70. O desaparecimento da intelligentsia gay por causa da epidemia da AIDS criou um vazio cultural que foi preenchido por juristas e pelo “familiarismo”, no qual nos encontramos ainda hoje. Para se defenderem, os gays criaram associações, uma grande família, e ainda hoje eles mantêm esse espírito de comunidade, como se corrêssemos o risco de sermos colocados na rua pelo fato de sermos homossexuais.

Hoje vivemos um terceiro momento, caracterizado pelo ultraliberalismo. Partimos do Fhar, onde os militantes vociferavam “proletários de todos os países, acariciai-vos”, ou “casamento é uma armadilha para idiotas”. Eis-nos agora aqui comprando esperma no exterior e recorrendo às mães de aluguel.

E a questão da igualdade?

Qual? O casamento para todas as pessoas significa igualdade entre casais homossexuais e heterossexuais, mas não entre casados e solteiros. Você reparou que nós nem mencionamos isso? O casamento foi feito para a procriação de crianças, o que justificava que os solteiros pagassem mais impostos. Mas e os casais (homossexuais ou héteros) que não têm filhos? Como justificar que paguem menos impostos que os solteiros? E, mais, creio que é o fim da filosofia Iluminista, cujo fundamento era o indivíduo e não o casal.

Quanto a igualdade entre homens e mulheres… O movimento feminista abandonou a demanda de igualdade entre os sexos, muito difícil de ser obtida, passando em 1999 a reivindicar a paridade, época em que Jospin (3) estava no poder.

Como explicar que o debate tenha sido boicotado?

Na verdade ele sequer começou. As lésbicas, por exemplo, mal puderam se expressar. Talvez por terem menos acesso à mídia. Elas mantêm um site onde se manifestam, refiro-me ao site da Coordenação Lésbica na França, no entanto, elas pouco dialogaram com os demais setores sociais. No mais, elas encontravam-se sobretudo divididas: algumas eram a favor do casamento, outras contra, outras estavam divididas. As lésbicas do Centre Évolutif Lilith de Marselha manifestaram-se contra. As mulheres da associação lésbica e feminista Bagdam de Toulouse também se manifestaram, posicionando-se a favor… por causa da homofobia.

Os grupos a favor do casamento tomaram como reféns as feministas, assim como os homossexuais que se posicionaram contra esse ideal pequeno-burguês. De um lado havia grupos de fato reacionários, e do outro falsos progressistas. Se nos situávamos fora desta bipolarização, éramos acusados de ser homofóbicos ou reacionários. O debate encontrava-se polarizado em dois lados. Meu livro apresenta-se como uma tentativa de dar vazão a um pensamento crítico que permita encontrar uma outra via.

Referências:

(1) ‘As Tecnologias da Reprodução: Discursos sobre a Maternidade e Paternidade no Campo da Reprodução Assistida no Brasil’ (.pdf). Autora: Fernanda Bittencourt Vieira. Tese apresentada ao Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília/UnB.

(2) Ver outras publicações desta autora: ‘Les droits de l’enfant’, Paris, PUF, 2010.

(3) Lionel Jospin foi Primeiro Ministro da França entre junho de 1997 e maio de 2002, sob o governo do Presidente Jacques Chirac, pelo Partido Socialista.

+ Sobre o assunto:

[+] Para uma resenha criticando vários dos pontos defendidos por Marie-Jo Bonnet, ver em francês: Adieu Les Rebelles ! de Marie-Joséphe Bonnet.