Ela é sapatão…

Texto de Tamires Marinho para as Blogueiras Feministas.

De repente… onde está a garota talentosa? A aluna dedicada? A boa atleta? A menina inteligente? A filha carinhosa? A mulher bem-sucedida? Simplesmente, se vincula toda uma existência, ignorando todo o resto, a uma mera condição sexual. O que importa, não é mesmo? Ela é sapatão.

Enquanto produzia esse texto, numa conversa de boteco escutei um relato de uma amiga bem próxima, que elucida bem tudo que foi dissertado acima. Ela, uma moça muito responsável, profissional e competente, entrara numa nova empresa, devido a indicação de um parente. Tudo corria bem, mas sem muitos porquês e com desculpas esfarrapadas seu chefe a dispensou três meses depois. Ok, coisas da vida, não é mesmo? Deve ter sido por causa da crise. Na na ni na não, descobriu-se posteriormente pelo mesmo parente que a havia indicado, que o ex-chefe havia descoberto sua orientação sexual e que era esse o verdadeiro motivo de sua demissão.

Em palavras duras e diretas, não importa o quão gentil, empática, simpática, bondosa, uma mulher gay seja. No final de cada elogio, existira um… mas… “Que desperdício a moça é sapatão”… Meus amigos me falaram isso, meus pais me falaram isso, desconhecidos vivem me falando isso. Mais clichê? Impossível.

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6 canais de lésbicas no Youtube para você visibilizar sempre

Hoje, 29 de agosto, é Dia Nacional da Visibilidade Lésbica e Bissexual. Porém, cada vez mais ativistas bissexuais prestigiam a data da celebração bissexual em 23 de setembro, por isso hoje vamos focar nas lésbicas, que são muito invisibilizadas até mesmo no feminismo. O senso comum acredita que toda feminista é lésbica, mas não é isso que vemos na maioria dos grupos atualmente. As demandas lésbicas em relação a saúde, educação, violência e maternidade, entre outras, muitas vezes são colocadas de lado.

Quando se fala em visibilidade lésbica, estamos falando sobre o quanto a sociedade nega e desacredita o sexo e o amor entre mulheres, estamos falando do quanto a sociedade segrega as mulheres que não cumprem seu papel na sociedade heteronormativa. E, também estamos falando da lesbofobia cruel que joga pedras quando elas passeiam de mãos dadas nas ruas, que xingam quando se beijam num show, uma sociedade que acredita que lésbicas podem ser “curadas” ou “corrigidas” por meio de estupros.

Ser lésbica é resistir contra tudo que está aí. Ser lésbica é reescrever desde pequena o papel social das mulheres. Então, o melhor que podemos fazer nessa data é apresentar lésbicas maravilhosas que adoramos acompanhar:

#Jessica Tauane. Você já deve conhecer a Jessica do Canal das Bee, um dos melhores canais LGBT da internet, mas ela também tem seu próprio canal: Gorda de Boa. Ela também deu uma entrevista bacana pra Trip: Rainha do Brejo.

#Louie Ponto. Conhecemos a Louie por meio de um vídeo muito bom que ela fez com a Nátaly Neri. Feminismo e visibilidade lésbica são pautas frequentes no canal: Louie Ponto.

#Marias do Brejo. Mayara é bissexual e Yasmin é lésbica, são um casal de mulheres negras e falam muito sobre representatividade, empoderamento e negritude no canal: Marias do Brejo.

#Luisa Tasca. O bacana da Luisa é que família é um tema muito presente em seus vídeos, já que ela também tem uma irmã lésbica e uma mãe que as apoia. Além disso, recentemente a Luisa pediu a namorada Thais em casamento, confira: Lesbicando.

#Colher de Ideias. Eva e Manu fazem parte de uma grupo de Youtubers lésbicas que conhecemos no Twitter: @sapatubers. Em seu canal, falam sobre relacionamentos, tem desafios e questões que afetam as lésbicas como preconceito no mercado de trabalho: Colher de Ideias.

#Sapatomica. O site Sapatomica é um dos que acompanhamos há mais tempo, sempre com notícias e textos bacanas. E, elas também tem um canal no Youtube com vídeos bem legais: Tv Sapatomica.

Créditos da imagem: Maio/2016, São Paulo. 14° Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais. Foto de Paulo Pinto/Fotos Públicas.

Visibilizar É Resistir, e nós resistimos! Porque ainda precisamos falar sobre a Visibilidade Lésbica!

Texto de Mariana Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

“E eu não posso escolher entre as frentes em que eu devo batalhar essas forças da discriminação onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não durará muito para que depois eles aparecerem pra destruir você”. Audre Lorde.

Gosto sempre de refletir sobre essa frase da Audre Lorde, primeiro porque ela me fala diretamente sobre o feminismo no qual eu me reconheço, essa frase me diz que eu tenho que sair da minha zona de conforto da militância e reconhecer as hierarquias as quais estamos sujeitadas e que enquanto uma de nós estiver sendo oprimida, todas nós estamos. Mas, ultimamente, um trecho mais especifico me faz estremecer: “por onde quer que elas apareçam para me destruir…”.

Em tempos nefastos de avanço de fundamentalismos e retrocessos em direitos, visibilizar a nossa existência lésbica é resistir, é impedir que nos destruam!

Em 29 de agosto de 1996, durante o 1º Seminário Nacional de Lésbicas, criou-se um marco fundamental para o registro da luta de mulheres que têm seus direitos violados por sua orientação sexual no Brasil, o dia 29/08 passou a ser o Dia da Visibilidade Lésbica. Penso eu que passados quase vinte anos, ainda é necessário visibilizar as demandas, existências e resistências lésbicas.

A invisibilidade hoje, para mim, é das “forças das descriminação” apontadas por Lorde mais cruel e potente.

#MeRecusoASerInvisível é uma campanha de visibilidade lésbica do Coletivo LésBitoca em parceria com Canal Mim dá um Real e Núcleo de Pesquisas em Sexualidade - UFT realizada com apoio de LBL-TO, ABL-TO e MUDAS - Movimento Universitário de Diversidade Afetivo Sexual.
#MeRecusoASerInvisível é uma campanha de visibilidade lésbica do Coletivo LésBitoca em parceria com Canal Mim dá um Real e Núcleo de Pesquisas em Sexualidade – UFT realizada com apoio de LBL-TO, ABL-TO e MUDAS – Movimento Universitário de Diversidade Afetivo Sexual.

É cruel porque está longe de ser considerado violência, é algo quase como que abstrato e silencioso, por isso é tão potente. É cruel, porque quando invisibilizamos algo afirmamos que aquela demanda, aquela pessoa, aquela experiência  não é importante e não é digna de atenção. A invisibilidade nega toda e qualquer possibilidade de existência.

É através da invisibilidade que nos são negados direitos, aquilo que não existe não tem direitos.

As políticas públicas brasileiras de saúde sexual, prevenção e tratamento de DST/AIDS são reconhecidas e elogiadas no mundo todo, mas o que dizer de insumos de prevenção para as lésbicas? Preservativos específicos, dedeiras, toalhinhas para sexo oral, onde estão sendo distribuídos esses insumos? O que podemos dizer das pesquisas sobre contágio, transmissão de doenças sexualmente transmissíveis entre mulheres, além de que ainda são insipientes? É importante ressaltar também os efeitos na saúde mental das lésbicas que diariamente enfrentam a misoginia, o sexismo e a lesbofobia nas mais diversas esferas, seja no trabalho, seja no ambiente doméstico, seja nos seus espaços de sociabilidade.

Lésbica não pega DST? Lésbica não tem depressão? Não, lésbicas ainda são invisíveis…

Nos índices sobre violência contra população LGBT, nós somos a “letrinha” com menos dados e isso com certeza não quer dizer que não sofremos violência, inclusive letais. Isso quer dizer que os estupros corretivos organizados (inclusive por familiares) não estão sendo reconhecido como violência, isso que dizer que não reconhecemos aquela lésbica adolescente que é privada de liberdade dentro de casa pelos pais por sua orientação sexual, isso quer dizer que invisibilizamos essas violências que são muitas vezes violência doméstica. Isso sem falar no assédio nas ruas, o medo de assumir-se no trabalho e ser demitida, a insegurança de “perder” amigos e familiares queridos, e etc…

Nós também somos invisíveis nos espaços de participação e representação política, de quantas lésbicas em cargos de representação político partidárias podemos falar? Quantas lésbicas em cargos de direção e de decisão em empresas ou organismos importantes podemos citar? Temos alguns (poucos) exemplos internacionais, aqui no Brasil o que temos é a presidenta se “defendendo de acusações” sobre a sua orientação sexual, dizendo que “não é lésbica, é avó”… Alias sobre as “acusações”, suposições e inferências e toda a misoginia sobre a sexualidade da Dilma valeriam muitos outros posts, fica para um outro momento.

Tenho escutado em vários espaços que não é mais necessário “nos rotular”, não é preciso nos “identificar enquanto lésbicas” que as experiências são múltiplas e fluidas… Acho lindo, acho bacana, acho tipo um mundo de sonho onde os nossos “rótulos” e identificações não nos tornam menores, inferiores, dignos de menos direitos e mais suscetíveis a violências.

Enquanto esse mundo de sonho não chega, eu sigo assumindo essa minha identidade, esse meu rótulo de SAPATÃO que também referencia aquelas, que antes de mim, lutaram e resistiram para que hoje eu seja visível.

Pensando sobre isso e inspiradas por aquelas que se recusam a ser invisíveis, aqui no Tocantins, nós do coletivo Lésbitoca, organizamos uma campanha para mostrar que somos muitas e somos diversas: ‪#‎MeRecusoASerInvisível‬.

Somos negras, somos índias, temos muitas vivencias e experiências, estamos em muitos espaços. Somos médicas, estudantes, militantes, cozinheiras, trabalhadoras domésticas, professoras, bailarinas. A campanha é composta de 30 peças que tem o objetivo de dizer: Nós existimos!

Visibilizar é Resistir, e nós RESISTIMOS!

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Vídeo – Campanha “Me recuso a ser invisível”.