Em Brasília, a lesbofobia não passará!

Texto de Bia Cardoso.

Bloco das Perseguidas 2014 no Carnaval do Balaio Café em Brasília/DF. Foto de Drag On no Facebook.
Bloco das Perseguidas 2014 no Carnaval do Balaio Café em Brasília/DF. Foto de Drag On no Facebook.

“Lepra da sociedade, puta neguinha, sapatona e vocês têm que morrer”. Essas foram as palavras ouvidas por vítimas de agressões lesbofóbicas, na madrugada da última sexta-feira de fevereiro, na saída do Balaio Café, um conhecido estabelecimento LGBT em Brasília/DF. Quatro meninas, todas lésbicas, foram agredidas e uma delas está internada num hospital.

Na mesma semana, duas mulheres foram espancadas por um homem no Setor Comercial Sul, no centro de Brasília, na hora do almoço. As jovens de 22 e 24 anos, almoçavam em um restaurante quando dois homens pediram para dividir a mesa. No momento em que uma delas se levantou para se servir, o agressor teria dito: “Fala para sua amiga ‘sapatão’ que ela tá pagando cofrinho”, o que gerou bate-boca e fez com que as amigas mudassem de mesa. Assim que saíram do restaurante, perceberam que estavam sendo perseguidas pelo homem, até o momento em que foram agredidas. Por trás, o homem teria empurrado uma delas no chão. Foram chutes e socos até que ela ficasse desacordada. Uma delas teve o osso da perna esquerda quebrado, a outra fraturou o braço e passou por uma cirurgia. A jovem conta que, apesar de se um local de grande movimento, ninguém tentou impedir as agressões.

Dois casos gravíssimos na mesma semana fizeram muitas pessoas se perguntarem: o que está acontecendo? Mais grave ainda é saber que, no caso que ocorreu num lugar de grande circulação de pessoas na cidade, ninguém interferiu para cessar as agressões. A violência contra a mulher é um tema que está presente em diversas campanhas no país, mas ao ver casos como esses percebemos que a sociedade ainda se sente no direito de “ensinar respeito as mulheres na base da porrada”.

Em nota, o Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal – CRP/DF defende a rápida apuração e responsabilização por parte das autoridades competentes:

Às vésperas de março, quando comemoramos e damos visibilidade à luta de mulheres – tantas e diversas – por reconhecimento de sua autonomia, o Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal vem a público expressar seu completo repúdio aos casos de agressões sofridas por mulheres, especialmente negras e lésbicas, noticiadas esta semana no Distrito Federal.

Infelizmente, é sabido que tais fatos não são isolados, considerando que muitas – que não acessam a justiça ou os meios de comunicação – sofrem violências veladas e silenciadas, seja pela falta de poder econômico, seja pela falta de poder político, por não serem brancas, por serem lésbicas, por serem trans, por serem, enfim, mulheres.

Os Movimentos Sociais do Distrito Federal também divulgaram nota, questionando as ações do governo local para combater esse tipo de violência:

O descaso do Governo do Distrito Federal, que sequer se pronuncia sobre muitos dos casos de violência discriminatória no DF, se configura como um desrespeito às pautas de Direitos Humanos e à luta dos movimentos sociais. No ano passado, o Governador revogou, horas depois de sua publicação, a regulamentação da lei que punia administrativamente a homofobia.

O Distrito Federal é uma das unidades da federação em que mais se registra agressões físicas à população LGBT. Além disso, o GDF possui uma Coordenadoria da “Diversidade Sexual” instituída à Secretaria de Justiça Direitos Humanos e Cidadania (SEJUS/DF), que pouco faz pela comunidade LGBT. Estes organismos precisam apresentar com urgência uma proposta de ação e medidas cabíveis para enfrentar esta violência.

A Marcha das Vadias do Distrito Federal em sua nota sobre o caso relata mais agressões que ocorreram na Delegacia, no momento do registro da ocorrência:

A violência vivenciada no estabelecimento foi intensificada na própria Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher (DEAM), quando os pais de uma das garotas agrediram verbalmente a namorada da filha por ser negra e lésbica – a “pior companhia e pessoa sem alma”! As garotas convivem com a lesbofobia em suas próprias casas! Uma delas teve sérios ferimentos na cabeça e passa por exames para descartar a hipótese de hemorragia intracraniana.

Muitas vezes, as agressões acontecem em locais públicos e de bastante movimento. Ainda assim, na maioria dos casos ninguém que presencia a violência é capaz de reagir, de inibir o agressor ou se mobilizar com outras pessoas para impedir tamanha brutalidade. No Rio de Janeiro, no dia 14 de fevereiro, um casal de lésbicas foi agredido no meio da Lapa sem qualquer reação das pessoas que por ali passavam. E, assim, a sociedade se omite! As violências continuam sendo naturalizadas! As vozes de quem apanha e sofre permanecem caladas.

A lesbofobia é uma das faces perversas da violência contra as mulheres. A agressão é justificada não apenas pela vítima ser mulher, mas também por não se alinhar aos padrões heteronormativos. Para essas mulheres não é permitido amar sem medo.

O Balaio Café é um local de resistência, encontro e celebração da diversidade na cidade de Brasília. Há alguns anos, o local vem sofrendo ataques machistas, lesbofóbicos e racistas em suas paredes, por meio de pichações. Como resposta, desde o ano passado foi organizado o Bloco das Perseguidas, que esse ano saiu justamente no dia 02 de março, alguns dias após esses casos de violência. Nossa resposta é a resistência, é seguir na luta. Lesbofobia não passará!

[+] Coordenação de Diversidade Sexual emite nota de repúdio contra casos de homofobia.

Babado Forte! As lésbicas não querem todas as mulheres do planeta!

Texto de Márcia Vasconcelos.

Sou Lésbica. Mas, isso não quer dizer que desejo todas as mulheres que vejo em minha frente.

Mulheres Hétero, vocês desejam sexualmente todos os homens que passam a sua frente? Pois é, nós também não.

Quando você esta na rua e olha para outra mulher pode estar pensando mil coisas, mas se você é lésbica… Aí com certeza esta tirando a roupa dela mentalmente! Principalmente se você for uma lésbica que usa roupas consideradas masculinas.

Minha namorada se veste assim e é constrangida toda vez que vai ao banheiro. Os olhares destinados a ela me ferem também. Uma lésbica, assim como qualquer mulher, precisa ir ao banheiro. Nosso sistema biológico não é diferente, acredita?

E, quanto aquela sua amiga que você abraçava e até dormia na mesma cama, quando descobriu que ela era lésbica, o que te fez agir diferente?

Foto de Paul Cullen no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Paul Cullen no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Acredito que todos que agem assim são preconceituosos, mesmo com um discurso liberalista. Pensar que só porque uma lésbica te olhou, ela quer ficar com você não é questão de autoestima, é ignorância. Lamento dizer que, provavelmente, aquela lésbica que fez você cochichar com a pessoa ao lado não queria nada com você.

Todos esses preconceitos favorecem a lesbofobia. As pessoas, principalmente homens, muitas vezes acham que lésbicas são mulheres mal amadas e, que por isso preferem ficar com outras mulheres. Há até mulheres homofóbicas que acham que vão ser agarradas na rua por lésbicas.

É comum escutar frases como: “Sapatão só precisa de um trato”. Conheço mulheres maravilhosas e nem por isso tenho sonhos eróticos com elas. Lésbicas tem amigas, sem haver necessariamente um envolvimento sexual. Assim como todas as pessoas, temos vontade de abraçar, dar carinho, como qualquer ser humano. Ser lésbica não nos faz “querer dar uns pega nas muié tudo”.

Antes que eu me esqueça, se você diz que ela esta te olhando é porque você olhou para ela também, certo? Ótimo, estamos conversadas. Homens também querem abraçar homens, sejam gays ou não, queiram transar com você ou não. Vai por mim.

Por fim, sejamos francos, a primeira coisa para se curar um preconceito (sim, o preconceito precisa de cura) é assumir, admitir e procurar mudar. Se a sexualidade de uma pessoa te faz agir diferente com ela, você é preconceituoso/a!

Autora

Márcia Vasconcelos é negra, lésbica e atrevida. Estudante de direito e escreve nas Blogueiras Negras.

Visibilidades pelas quais lutamos

Texto de Mariana Rodrigues.

Hoje, dia 29 de agosto, é Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual.

1° Semana de Blogagem Coletiva pela Visibilidade Lésbica e Bissexual, organizada pelo site True Love.
1° Semana de Blogagem Coletiva pela Visibilidade Lésbica e Bissexual, organizada pelo site True Love.

Essa é a data em que comemoramos, discutimos e debatemos a lesbianidade no Brasil, como podemos ver acompanhando as blogagens coletivas, que estão fantásticas.

Apesar das controversas, o dia 29 de agosto foi escolhido porque em 1996 realizou-se o 1° Seminário Nacional de Lésbicas – SENALE, quando mulheres Lésbicas e Bissexuais se reuniram para discutir as demandas especificas das experiências e vivências da lesbianidade, além de se organizar politicamente. Desde então, todos os anos no dia 29 de agosto, nos organizamos e comemoramos com orgulho o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.

E por que falamos de visibilidade? Porque dar visibilidade é trazer foco para algo e torna-lo visível. Visibilizar é mostrar para o mundo a sua existência. É dizer que precisamos falar e avançar no debate sobre a sexualidade das mulheres, principalmente daquelas mulheres que vivenciam uma sexualidade diferente da norma, a heterossexual.

O ocultamento e a invisibilidade das mulheres lésbicas cis e trans* (sim, existe mulher trans* lésbica ou bissexual e, elas estão bem lá no finzinho da pirâmide das invisibilidades) e de suas questões específicas estão presentes na nossa sociedade heteronormativa, na vida social, cultural e, principalmente, na política. Visibilizar e falar das relações, do sexo, do afeto, das contradições do amor entre mulheres e da lesbianidade como uma das formas de orientação, expressão e identidade sexual é falar de direitos sexuais e portanto, direitos humanos.

Muitos são os ocultamentos que permeiam a nossa vivencia enquanto lésbicas e muitas são as questões pelas quais demandamos mais visibilidade!

Visibilidade para nossos direitos tão negados e/ou por muitas vezes negligenciados: o direito a autonomia sobre o próprio corpo, direito a segurança, direito a casar (ou não), direito a ter filhos (biológicos ou não)…

Visibilidade para a saúde das mulheres lésbicas e bissexuais. Os tratamentos lesbofóbicos nos consultórios ginecológicos e os protocolos de atendimentos médicos que mostram profundo desconhecimento sobre a realidade dessas mulheres, seja no que se refere à saúde preventiva seja reprodutiva. Afinal, o quanto estamos falando sobre fertilização para casais de lésbicas?! Além disso, pouco se fala sobre a nossa saúde mental e sobre os impactos que a lesbofobia, o sexismo e a misoginia causam, devastando o bem-estar físico e mental de mulheres que subvertem a norma heterossexual.

Caminhada Lésbica. Foto de Galiza Contrainfo no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Caminhada Lésbica. Foto de Galiza Contrainfo no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Visibilidade para a vertiginosa e crescente violência contra as lésbicas. Os estupros corretivos cada vez mais constantes, espancamentos, assassinatos, a violência familiar que acontece quando pais e mães não conseguem “aceitar” e respeitar suas filhas e as expulsam, violam, humilham e rejeitam…

Visibilidade também para a violência entre as próprias lésbicas… O tabu do segundo armário, a violência entre casais de mulheres que precisa ser discutida, repensada e combatida. Em briga de mulher com mulher também se mete a colher!

Visibilidade para os espaços de trabalho ocupados por lésbicas e bissexuais. Fico me perguntando quantas de nós ocupamos espaços públicos? Ou poderíamos nos questionar quantas de nós ocupamos espaços publicamente? Ocupando as ruas, os palanques, as profissões… Aliás, quantas de nós estamos produzindo arte, ciência, tecnologia, conhecimento? Quantas de nós estão nas universidades? Quantas de nós estão na política? Quantas de nós estão na prostituição?

Por fim, visibilidade para um feminismo mais lésbico, um feminismo que compreenda que heterossexualidade compulsória também é um sistema opressor das mulheres, de TODAS as mulheres sejam ela cis, trans*, lésbicas, bissexuais, brancas, índias, negras… Enfim, seja ela a mulher que for, ela com certeza vai ser interpelada pela heteronormatividade em algum momento da sua vida.

O movimento feminista por muito tempo invisibilizou lésbicas e bissexuais e, ainda invisibiliza trans*. Gosto de pensar que mesmo a passos de formiguinha isso está mudando. Penso que essas blogagens coletivas já dão sinais disso, afinal nunca vi tantos espaços participando tão ativamente dessas ações na internet. Percebo que cada vez mais feministas heterossexuais (mesmo que timidamente) acompanham o movimento lésbico e trans* discutindo, debatendo e pautando as nossas questões. Mas precisamos de mais, cada vez mais visibilidade.

“E eu não posso escolher entre as frentes em que eu devo batalhar essas forças da discriminação onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não durará muito para que depois eles aparecerem pra destruir você”. Audre Lorde.

*Esse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love.