Um brinde à sua saúde: 5 dicas para mulheres bissexuais melhorarem sua saúde e bem estar

Texto de Audrey Faye. Publicado originalmente com o título: “Here’s To Your Health: 5 Ways Bisexual Women Can Pursue Better Health & Wellness”, no site Autostraddle em 31/03/2015. Tradução de Jéssica Alves e revisão de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Os números são evidentes: mulheres bissexuais correm maior risco de terem a saúde mental e física prejudicadas, estão mais propensas à pobreza, vício, violência e, com frequência, estão sujeitas à discriminação dentro do sistema de saúde. Porém, não somos obrigadas a aceitar assistência médica de baixa qualidade ou negligência. Felizmente, a Comunidade Bi está se unindo para propor melhorias na conscientização e no acesso ao sistema de saúde.

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A Parada da Diversidade e os atos políticos

Texto de Thayz Athayde.

No dia 14 de dezembro de 2014 aconteceu a 10º Parada da Diversidade de Curitiba. A concentração começou ao meio dia na Praça da Mulher Nua. Ainda antes da concentração, várias pessoas já estavam esperando o início da Parada, que acontece uma vez por ano na capital paranaense. Muitas pessoas que militam nos movimentos sociais acreditam que a Parada da Diversidade não seja um ato político. Essas pessoas alegam que a Parada não tem cunho político e acreditam que o evento trata-se apenas de uma festa para a população LGBT. É comum ouvirmos críticas dirigidas a Parada com um teor moralista, tentando dizer que o fato de ser uma festa em que há muita “pegação” e pessoas nuas não deve ser levada a sério.

Ora, mas, afinal o que é um ato politico? Para algumas pessoas um ato político deve ter como característica falas e gritos que protestem contra uma violência. Há ainda aqueles que acreditam que esse ato deve ser sério para que seja politizado. A seriedade deve acontecer por conta da violência que atinge as pessoas que estão protestando. Então vamos recapitular: para algumas pessoas um ato político deve ser sério por conta da violência que as atinge e para protestar é necessário que falas e gritos que são entendido como “politizados” sejam proferidos. Ou seja, essas falas devem demonstrar um certo domínio sobre o tema, preocupação, além de dados sobre as violências. As articulações feitas nessas falas são importantes para que tudo isso dê um tom de seriedade com um misto de denúncia.

Veja, não estou aqui querendo criticar as pessoas que fazem movimento político dessa forma, a minha crítica é direcionada as pessoas que querem classificar o que é um ato político. Um ato político pode estar ligado a um ato que deveria ser cotidiano, mas que é carregado de recriminação pela sociedade, como um beijo entre dois homens ou entre duas mulheres. Um homem que beija outro homem em uma situação cotidiana, como quando você está no shopping escolhendo o que você vai comer, pode ser considerado para muitas pessoas um ato nojento ou que está passível de recriminação. Sabe aquele beijo que você, pessoa hétero, dá no seu namorado ou namorada quando estão passeando? Você já foi violentado por isso? Não, né? Pessoas gays, lésbicas e bissexuais são violentadas por conta de sua orientação sexual.

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Parada da Diversidade de Curitiba/2014. Foto de Lari Schip no Facebook.

Sabe você, mulher e homem cis que sai para passear tranquilamente pelas ruas e não é marginalizado com olhares ou palavras de violência? Isso não acontece com pessoas trans. Pessoas trans são marginalizadas todo o tempo por conta de sua identidade de gênero. E ser marginalizada tem a ver com ser expulsa de casa, da escola, da sociedade. De ter as portas do mercado de trabalho constantemente fechadas por conta de seus corpos marginalizados. Quando mulheres trans vão à Parada e ficam com os seios à mostra ou mesmo passam por ali com roupas consideradas “amorais” elas são alvo de críticas daquelas pessoas que acham que isso não é ato político, mas sim uma pouca vergonha, algo que “mancha” a Parada da Diversidade.

Em Curitiba – PR, a grande maioria das pessoas que vão na Parada são da periferia. São lésbicas, gays, bissexuais, mulheres e homens trans que ocupam o centro cívico, lugar no qual pessoas de classe média moram e circulam. E as críticas sobre isso são que “gente de baixo nível e feia” vai “sujar” a cidade. A elite curitibana entra em pânico. A patrulha da moral e dos bons costumes grita loucamente. Como assim vocês deixam pessoas da periferia ocupar o centro da cidade? Como vocês podem deixar mulheres cis e trans ficarem semi nuas? Como vocês deixam duas mulheres se beijarem? Como “aceitam” dois homens se beijando?

É tudo muito simples. Quando dois homens se beijam na parada eles não estão fazendo nada mais do que um casal hétero faz. Ou seja, quando um casal homossexual se beija na Parada, sem a preocupação de ser agredido, violentado ou mesmo receber olhares desaprovadores, eles estão fazendo aquilo que casais héteros fazem todos os dias sem serem violentados. Em um dia do ano muitos casais gays e lésbicas podem fazer na rua aquilo que deveria ser cotidiano. Aquilo que deveria fazer parte do dia a dia. Sabe quando você ganha um presente do namorado e quer só dar muitos beijos e abraços? Sabe esse cotidiano? Ali é possível. Ali é uma possibilidade de construir um mundo menos heteronormativo. Ninguém precisa fazer um grande discurso sobre isso, as pessoas que estão namorando, ficando, se beijando, já estão nos dizendo em alto e bom som: CHEGA DE HETERONORMATIVIDADE.

Quando mulheres e homens trans saem às ruas para ocupar as ruas é também uma forma de dizer: “sociedade, não adianta me expulsar, eu estou aqui”. Quando mulheres trans ficam com os seios de fora é uma mensagem direta de quem diz que o corpo é dela, só dela. É sobre seu corpo que é marginalizado, expulso, violentado e que volta para dizer que não, que este corpo vai ocupar todos os lugares que foi expulso. E vai ocupar do jeito que quiser, da forma que quiser, com quem quiser e quando quiser. Não precisa de um discurso sobre como as pessoas trans são mortas por conta da transfobia, elas sabem. Pessoas trans perdem amigas e amigos por conta da transfobia e cissexismo. Elas já estão nos dizendo: CHEGA DE TRANSFOBIA.

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Parada da Diversidade de Curitiba/2014. Foto de Lari Schip no Facebook.

Quando pessoas da periferia ocupam um lugar no qual foram expulsas, um lugar no qual a cidade entende que “ali não é o seu lugar” é também uma forma de dizer: a cidade também é minha. Não adianta tentar fechar o shopping, como tentaram fazer no dia da Parada, a periferia vai entrar. A cidade será tomada, será ocupada. Não é necessário fazer um discurso sobre como a sociedade é classista. Já está sendo dito: CHEGA DE CLASSISMO.

Um ato político, a meu ver, pode sim ser uma festa, uma pegação, uma ocupação. Quando pessoas marginalizadas fazem algo que são “proibidas” por conta de homofobia, lesbofobia, bifobia, transfobia e classismo, isso pode ser um ato político. Você fica chocado ao ver duas mulheres se beijando? Então comece a refletir sobre o motivo pelo qual duas mulheres ou dois homens se beijando te chocam tanto. Porque um casal hétero não te choca? Ah, o que te choca é a pegação? Você acha que tem que ser feito em um lugar “reservado”? Quero só ver você falando a mesma coisa para o próximo casal hétero que ver na rua.

Você sabe como explicar para seu filho quando uma mulher trans ou cis mostra os seios na Parada? Aproveite para explicar sobre o que é empoderamento, sobre machismo e corpos marginalizados. É uma excelente oportunidade. Aproveite também e debate sobre como a cidade é elitizada, mas que deveria ser ocupada por todas e todos.

Um ato político pode chocar, pode te deixar sem palavras, pode te fazer apelar para a moral e os bons costumes. E atos políticos assim são os que mais me emocionam, porque ali quem fala é o corpo. O corpo é o cartaz da sua denúncia. O corpo é o ato político.