Feminismo pra quê?

Texto de Marília Cairo para as Blogueiras Feministas.

Ser mulher por si só remete a muitos rótulos. Esperar que a mulher atenda à padrões estéticos que não a representam, ou que assuma quase que integralmente a educação dos filhos são exemplos corriqueiros. É como uma promessa, como se alguns padrões já estivessem definidos no nosso DNA. Se é mulher, logo…

Mas, no universo de mulheres possíveis, que conquistaram o direito de decidir por si próprias, cabem muitos perfis. Dona de casa. Mãe. Sim. Mas também empreendedora, chefe de família, solteira por opção, e mais o que vier. Mulheres que os antigos modelos já não dão conta mais.

No entanto é fácil ver que, apesar do legado deixado pelas lutas sociais femininas, apesar das suas próprias batalhas pessoais, muitas mulheres ainda se desdobram para atender às pesadas expectativas sociais. É lugar comum falar do sentimento de culpa que acompanha a liberdade de decidir. Seja a culpa por trabalhar e não poder estar com os filhos em tempo integral ou, na contramão, a culpa por priorizar a família, deixando de lado importantes metas individuais.

Uma melhor qualidade de vida da mulher implica na tomada de consciência do seu próprio direito legítimo de escolher, e também na formação de uma estrutura social que acompanhe as conquistas femininas, passando pela igualdade de oportunidades de trabalho e de salários, e pelo compartilhamento de responsabilidades no seio familiar. Então quem sabe poderemos ver relações mais equilibradas e saudáveis para homens e mulheres.

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Assédio: estar encurralada, viver com medo, sentir a ameaça.

Texto de Pri para as Blogueiras Feministas.

Hoje, por volta das 17:15h, sentei em uma mesa de frente para um espelho. Quem me conhece bem sabe que escovo os dentes no escuro, penteio o cabelo com um olho fechado e outro aberto, e não sou muito adepta a ficar olhando pra mim. Faça as suposições que quiser, se quiser. O que de fato acontece é que sou tão apegada em reparar nos meus sentimentos, nos meus estados da alma, nos sintomas que meu corpo apresenta que a sobrancelha e o cabelo ficam em segundo plano.

Mas hoje foi diferente.

Quando me olhei de relance, percebi mexas cobres no meu cabelo. Dos dois lados algo brilhava, era largo, intenso e diria inclusive- bonito. Há mais de 1 ano adotei a estratégia de não usar nada químico no meu cabelo e deixar que ele voltasse ao seu estado cru, original. Desde então tenho feito descobertas, como, por exemplo, de que ele tem mais curvas do que retas e que seu tom natural é uma interessante mistura genética que muito me agrada.

Bom, hoje me vi. E hoje me vi diferente.

Cada vez mais gasto menos tempo em me arrumar, cada vez mais gosto da menor interferência de maquiagem possível, e continuo me gostando mais depois de sair do spinning e enquanto faço uma máscara de argila, do que toda montada para um casamento. Aprendi que tudo bem ser assim e não estou nem aí por não ter um batom cor de uva na gaveta.

Porém, de uns tempos pra cá tenho ficado sem forças. Não tenho vontade de escolher uma roupa, pego o que tem na frente, repito o mesmo sapato praticamente a semana inteira só para poupar o pensar, e faço os coques mais bizarros da história pós-blogueiras. Um erro conceitual para quem está por ai solta pelo mundo.

Mas, por qual motivo não quero cuidar desse outro lado?

Há alguns meses, quase todos os dias meus braços em algum momento, ficam fracos. Eles adormecem a noite e preciso chacoalha-los para trazê-los de volta a esse planeta. Tenho derrubado ainda mais coisas do que fazia antes, e não tenho conseguido me dedicar a novos projetos. O que aconteceu com aquela energia toda tão presente no meu estilo de encarar o mundo?

De 7 meses pra cá venho sofrendo de algo que demorei para nomear, apesar de ser um tema em constante debate. Venho sofrendo assédio.

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As musas que foram estupradas e os debates que nunca acontecem

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Minha intenção nesse texto é falar sobre traumas, mas também sobre relações saudáveis. E, sobre as responsabilidades de todos envolvidos para que isso ocorra. Não é um puxão de orelha nos homens, nem um abraço apertado nas mulheres, é um convite para reflexão. Violência é um assunto dolorido e incômodo, mas precisamos encará-la se temos a intenção de realmente aprender algo com as experiências, sejam nossas ou de outras pessoas.

Ontem, o texto “Como foi transar com uma vítima de estupro” viralizou. Vi vários compartilhamentos. De início, li errado o título e entendi “Como é” em vez de “Como foi” e fiquei preocupada se estava rolando algum texto com uma receitinha de bolo que ensinasse a lidar com vítimas de violência. Ainda bem. Afinal, não existe receita certa para lidar com estupro, até porque não existe uma forma só de estupro, assim como não existe uma forma só de trauma ou de como lidar com ele.

Terminei de ler o texto com algum incômodo, e não fiquei surpresa ao ver textos pipocando com críticas a essa viralização. Muito se falou sobre a romantização do relato, sobre a possibilidade da moça (musa inspiradora do texto em questão) não ter consentido a divulgação da sua história, sobre como a viralização desse tipo de texto em detrimento ao de tantos outros que falam da cultura de estupro seria um desserviço à causa feminista.

Porém, acho que precisamos encarar outro ponto: se várias mulheres compartilharam é porque, em algum momento, elas se identificaram com o texto ou no mínimo acharam importante visibilizá-lo. E, ainda que possamos questionar a romantização da narrativa, este pode ter sido um recurso importante ao tratar de um tema delicado como esse. Vamos combinar que presumir que a protagonista da história não gostou ou se sentiu desconfortável com o relato faz tanto sentido quanto presumir qualquer outra coisa sobre ela. E, ainda que alguém muito próximo dos dois possa sacar de quem se trata a pessoa, houve um esforço no texto de não deixar sua identidade evidente.

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