Assédio: estar encurralada, viver com medo, sentir a ameaça.

Texto de Pri para as Blogueiras Feministas.

Hoje, por volta das 17:15h, sentei em uma mesa de frente para um espelho. Quem me conhece bem sabe que escovo os dentes no escuro, penteio o cabelo com um olho fechado e outro aberto, e não sou muito adepta a ficar olhando pra mim. Faça as suposições que quiser, se quiser. O que de fato acontece é que sou tão apegada em reparar nos meus sentimentos, nos meus estados da alma, nos sintomas que meu corpo apresenta que a sobrancelha e o cabelo ficam em segundo plano.

Mas hoje foi diferente.

Quando me olhei de relance, percebi mexas cobres no meu cabelo. Dos dois lados algo brilhava, era largo, intenso e diria inclusive- bonito. Há mais de 1 ano adotei a estratégia de não usar nada químico no meu cabelo e deixar que ele voltasse ao seu estado cru, original. Desde então tenho feito descobertas, como, por exemplo, de que ele tem mais curvas do que retas e que seu tom natural é uma interessante mistura genética que muito me agrada.

Bom, hoje me vi. E hoje me vi diferente.

Cada vez mais gasto menos tempo em me arrumar, cada vez mais gosto da menor interferência de maquiagem possível, e continuo me gostando mais depois de sair do spinning e enquanto faço uma máscara de argila, do que toda montada para um casamento. Aprendi que tudo bem ser assim e não estou nem aí por não ter um batom cor de uva na gaveta.

Porém, de uns tempos pra cá tenho ficado sem forças. Não tenho vontade de escolher uma roupa, pego o que tem na frente, repito o mesmo sapato praticamente a semana inteira só para poupar o pensar, e faço os coques mais bizarros da história pós-blogueiras. Um erro conceitual para quem está por ai solta pelo mundo.

Mas, por qual motivo não quero cuidar desse outro lado?

Há alguns meses, quase todos os dias meus braços em algum momento, ficam fracos. Eles adormecem a noite e preciso chacoalha-los para trazê-los de volta a esse planeta. Tenho derrubado ainda mais coisas do que fazia antes, e não tenho conseguido me dedicar a novos projetos. O que aconteceu com aquela energia toda tão presente no meu estilo de encarar o mundo?

De 7 meses pra cá venho sofrendo de algo que demorei para nomear, apesar de ser um tema em constante debate. Venho sofrendo assédio.

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As musas que foram estupradas e os debates que nunca acontecem

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Minha intenção nesse texto é falar sobre traumas, mas também sobre relações saudáveis. E, sobre as responsabilidades de todos envolvidos para que isso ocorra. Não é um puxão de orelha nos homens, nem um abraço apertado nas mulheres, é um convite para reflexão. Violência é um assunto dolorido e incômodo, mas precisamos encará-la se temos a intenção de realmente aprender algo com as experiências, sejam nossas ou de outras pessoas.

Ontem, o texto “Como foi transar com uma vítima de estupro” viralizou. Vi vários compartilhamentos. De início, li errado o título e entendi “Como é” em vez de “Como foi” e fiquei preocupada se estava rolando algum texto com uma receitinha de bolo que ensinasse a lidar com vítimas de violência. Ainda bem. Afinal, não existe receita certa para lidar com estupro, até porque não existe uma forma só de estupro, assim como não existe uma forma só de trauma ou de como lidar com ele.

Terminei de ler o texto com algum incômodo, e não fiquei surpresa ao ver textos pipocando com críticas a essa viralização. Muito se falou sobre a romantização do relato, sobre a possibilidade da moça (musa inspiradora do texto em questão) não ter consentido a divulgação da sua história, sobre como a viralização desse tipo de texto em detrimento ao de tantos outros que falam da cultura de estupro seria um desserviço à causa feminista.

Porém, acho que precisamos encarar outro ponto: se várias mulheres compartilharam é porque, em algum momento, elas se identificaram com o texto ou no mínimo acharam importante visibilizá-lo. E, ainda que possamos questionar a romantização da narrativa, este pode ter sido um recurso importante ao tratar de um tema delicado como esse. Vamos combinar que presumir que a protagonista da história não gostou ou se sentiu desconfortável com o relato faz tanto sentido quanto presumir qualquer outra coisa sobre ela. E, ainda que alguém muito próximo dos dois possa sacar de quem se trata a pessoa, houve um esforço no texto de não deixar sua identidade evidente.

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Assédio na noite curitibana: reflexões sobre direitos das mulheres e estratégias feministas

Texto de Ellen Silva para as Blogueiras Feministas.

Não é uma nem duas, nem três vezes que ouvimos colegas, ou nós mesmas, reclamando que foram apalpadas na noite ou hostilizadas quando disseram não para algum cara. Geralmente a reação é a mesma: nos desvencilhamos do agressor, reclamamos entre nós e pronto.

Grupo de mulheres se encontra em bar. Foto: Mazé Mixo/Extra.
Grupo de mulheres se encontra em bar. Foto: Mazé Mixo/Extra.

Na semana passada, essa prática machista foi elevada a ultima potencia no meu círculo de amigas. Uma de nós foi assediada em um bar que  frequenta há anos. Um homem a tocou várias vezes em várias partes do corpo. Quando ela pediu para soltá-la, ele e a hostilizou. Ela continuou respondendo até ele soltar a frase: “Você é merda para mim”. O agressor estava na rodinha do dono do bar, minha amiga recorreu ao dono e ele  gargalhou do ocorrido. O caso dela foi o mais grave, mas além dela, uma outra amiga que a acompanhava, foi perseguida a noite toda por um outro ser humano que não soube ouvir não. Quando uma terceira amiga tentou intervir ele a hostilizou com violência.

No dia seguinte, após o show de horrores e a sensação de impotência, minha amiga decidiu fazer uma denúncia na rede. Fez um texto relatando o ocorrido e finalizou dizendo que a culpa era do cliente, mas ela esperava mais aporte da casa perante a violência. Ela finalizou dizendo que não gostaria de deixar de frequentar o bar, mas gostaria que lhe fosse ofertada a segurança que ela merecia enquanto ser humana. O que ocorreu depois disso me pareceu muito interessante para falarmos um pouquinho sobre ser mulher no Brasil, nossos direitos e as estratégias que podemos usar para buscar equidade.

No palco da reivindicação da minha amiga temos duas forças que merecem ser analisadas: A primeira é o bar. Com a repercussão crescente, eles entraram em contato no mesmo dia. Por telefone, o dono disse que pela casa estar cheia e muito barulhenta ele não ouviu quando ela falou com ele do assédio e que portanto, não gargalhou disso. Se mostrou solícito, passou o caso para a equipe de relações públicas e disse que talvez seria justo com a imagem dele a denúncia ser apagada. Como o diálogo com a casa foi positivo e os insultos ao dono estavam crescendo a minha amiga ficou em dúvida se deveria manter a postagem. Ela estava certa, mas não estaria exagerando? Prejudicando um terceiro?

Essa dúvida que minha amiga sentiu é a síntese do que é ser mulher. Ela é um resultado direto de uma socialização em que as mulheres são entendidas como loucas, histéricas, descontroladas, não racionais e fúteis. Uma socialização em que as mulheres têm pouco ou nenhum poder. Você olha pro Congresso tem 10% de mulheres. Para as Assembleias Legislativas mesma coisa. A Dilma pode ser presidenta, mas dizem o tempo todo que é só por causa do Lula. CEOs? Não vamos nem comentar. As meninas fazem “coisas de menina”, que geralmente são atividades e comportamentos dignos de risos e de fofura. As meninas que apanham de meninos aprendem que isso, é na verdade, ele gostando de você.

Essas representações todas entram no nosso subconsciente e começam a formar uma névoa de fumaça nos deixando confusas sobre o que somos capazes e, principalmente, sobre quais são os nossos direitos. Por isso a dúvida nos constitui. Ela está martelando na sua cabeça quando você acha que deve pedir aumento, quando você precisa ocupar um lugar de poder, e até quando você levanta para fazer um comentário em sala de aula. Ela martela sempre e martela muito. E quando diz respeito a lutar por melhorias na sua vida, ela vira uma britadeira.

Entender como essa dúvida é constitutiva do ser mulher é fundamental também para entender porque algumas de nós não denunciam assédios, abusos e a violência doméstica. No fundo há sempre uma dúvida. Se uma mulher escolarizada, engajada e com um círculo de apoio sólido como minha amiga se sentiu em dúvida por um instante, o que dizer de outras que não tem o mesmo background? Então sim, uma mulher que denuncia é uma força da natureza. Mas, não usemos a força de algumas para diminuir as que não o fazem. Temos vivências diferentes e, portanto, reagimos diferentemente às pressões.

Voltando para a história, minha amiga refletiu sobre tudo isso e respondeu ao dono que  entendia o lado dele, mas que gostaria que ele entendesse o dela. A denuncia não era apenas sobre ela, era sobre o direito de ir e vir das mulheres e que ela a manteria, mas se comprometeria a divulgar a retratação deles também. (Ponto pras meninas!)

Do outro lado do debate, estavam as pessoas comentadoras de Facebook, algumas delas feministas. A maioria, horrorizada com o caso, vociferava: “Não volte lá nunca mais”. Teve até uma que partiu para a agressão pelo fato de minha amiga querer voltar na casa. Essas pessoas acharam esta estratégia a mais acertada. Para mim é uma forma muito equivocada de lidar com o problema. Não sou contrária a boicote. Muitas vezes  ele é acertado. Porém, nessa situação não acho que seja por quatro razões:

a)  Não estávamos lidando com alguém como o Rafinha Bastos, do outro lado havia uma vontade mínima de diálogo (independente da motivação);

b) Não ir ao bar, não mudaria em nada o modus operandi dos agressores. Eles saberiam que iam poder tocar o terror, as mulheres que denunciariam iam deixar de ir e no dia seguinte ia ter outras gurias para eles assediarem;

c) Acho muito problemático pegar a estratégia de uma mulher que sofreu uma violência e dizer: NÃO FAÇA ISSO, FAÇA O QUE EU ACHO CERTO. Puxa,  pera lá. É preciso dar autonomia para os feminismos alheios. Talvez a sua estratégia seja boa para você e não tão boa para mim. Talvez seja o caso de apoiar e esperar sua opinião ser pedida.

d) Essa postura, por mais que não queiram, é também  uma reiteração da cultura do estupro. Mesmo quando as pessoas querem que as mulheres sejam respeitadas, elas indicam que devemos nos retirar. Se optarmos por recuar, vamos parar onde? Há denúncias de violência contra as mulheres em absolutamente todos os espaços, desde as suas próprias residências até os espaços públicos. Então ok, é um fato que os espaços privilegiam os homens, mas nós  estamos aqui para DISPUTAR  estes espaços. Disputar não é fácil, mas pega na mão da feminista ao lado e vamos para cima.

Enfim, minha amiga estrategista não arredou o pé. Propôs soluções. Manteve sua posição e o fim da história é satisfatório: depois de muitos erros, o bar acatou o clamor popular dos comentários e fez um post público em sua fanpage lançando a campanha  #nãoénão, em parceria com outros bares de Curitiba. Se comprometeu também a fazer um treinamento com seu staff para conscientizar sobre o tema e para que as mulheres se sintam mais seguras. Isso sim, senhoras e senhores, é um avanço! É o tipo de vitória para ser comemorada. Feminismo se faz com luta, mas toda luta precisa de estratégia(s)!

Autora

Ellen Silva é co-fundadora e colaboradora do Elas Também. É cientista social graduada pela UFPR. Atualmente é mestranda em Estudos Comparados das Américas na UnB. No âmbito acadêmico já pesquisou sobre as Elites Políticas do Brasil e Uruguai. Agora pesquisa as trajetórias políticas das parlamentares de Brasil e Costa Rica. Vez por outra posta no blog Momento Ellen e no Coletivo Blogueiras Negras. Acredita em Deus, gosta de criança. Amigos são oxigênio. Tem asma e para respirar bem precisa viajar. Tem um coração encantado e convocado por todas esquinas da América Latina. Sonha em trabalhar com políticas publicas que promovam a igualdade da mulher.