Assédio na noite curitibana: reflexões sobre direitos das mulheres e estratégias feministas

Texto de Ellen Silva para as Blogueiras Feministas.

Não é uma nem duas, nem três vezes que ouvimos colegas, ou nós mesmas, reclamando que foram apalpadas na noite ou hostilizadas quando disseram não para algum cara. Geralmente a reação é a mesma: nos desvencilhamos do agressor, reclamamos entre nós e pronto.

Grupo de mulheres se encontra em bar. Foto: Mazé Mixo/Extra.
Grupo de mulheres se encontra em bar. Foto: Mazé Mixo/Extra.

Na semana passada, essa prática machista foi elevada a ultima potencia no meu círculo de amigas. Uma de nós foi assediada em um bar que  frequenta há anos. Um homem a tocou várias vezes em várias partes do corpo. Quando ela pediu para soltá-la, ele e a hostilizou. Ela continuou respondendo até ele soltar a frase: “Você é merda para mim”. O agressor estava na rodinha do dono do bar, minha amiga recorreu ao dono e ele  gargalhou do ocorrido. O caso dela foi o mais grave, mas além dela, uma outra amiga que a acompanhava, foi perseguida a noite toda por um outro ser humano que não soube ouvir não. Quando uma terceira amiga tentou intervir ele a hostilizou com violência.

No dia seguinte, após o show de horrores e a sensação de impotência, minha amiga decidiu fazer uma denúncia na rede. Fez um texto relatando o ocorrido e finalizou dizendo que a culpa era do cliente, mas ela esperava mais aporte da casa perante a violência. Ela finalizou dizendo que não gostaria de deixar de frequentar o bar, mas gostaria que lhe fosse ofertada a segurança que ela merecia enquanto ser humana. O que ocorreu depois disso me pareceu muito interessante para falarmos um pouquinho sobre ser mulher no Brasil, nossos direitos e as estratégias que podemos usar para buscar equidade.

No palco da reivindicação da minha amiga temos duas forças que merecem ser analisadas: A primeira é o bar. Com a repercussão crescente, eles entraram em contato no mesmo dia. Por telefone, o dono disse que pela casa estar cheia e muito barulhenta ele não ouviu quando ela falou com ele do assédio e que portanto, não gargalhou disso. Se mostrou solícito, passou o caso para a equipe de relações públicas e disse que talvez seria justo com a imagem dele a denúncia ser apagada. Como o diálogo com a casa foi positivo e os insultos ao dono estavam crescendo a minha amiga ficou em dúvida se deveria manter a postagem. Ela estava certa, mas não estaria exagerando? Prejudicando um terceiro?

Essa dúvida que minha amiga sentiu é a síntese do que é ser mulher. Ela é um resultado direto de uma socialização em que as mulheres são entendidas como loucas, histéricas, descontroladas, não racionais e fúteis. Uma socialização em que as mulheres têm pouco ou nenhum poder. Você olha pro Congresso tem 10% de mulheres. Para as Assembleias Legislativas mesma coisa. A Dilma pode ser presidenta, mas dizem o tempo todo que é só por causa do Lula. CEOs? Não vamos nem comentar. As meninas fazem “coisas de menina”, que geralmente são atividades e comportamentos dignos de risos e de fofura. As meninas que apanham de meninos aprendem que isso, é na verdade, ele gostando de você.

Essas representações todas entram no nosso subconsciente e começam a formar uma névoa de fumaça nos deixando confusas sobre o que somos capazes e, principalmente, sobre quais são os nossos direitos. Por isso a dúvida nos constitui. Ela está martelando na sua cabeça quando você acha que deve pedir aumento, quando você precisa ocupar um lugar de poder, e até quando você levanta para fazer um comentário em sala de aula. Ela martela sempre e martela muito. E quando diz respeito a lutar por melhorias na sua vida, ela vira uma britadeira.

Entender como essa dúvida é constitutiva do ser mulher é fundamental também para entender porque algumas de nós não denunciam assédios, abusos e a violência doméstica. No fundo há sempre uma dúvida. Se uma mulher escolarizada, engajada e com um círculo de apoio sólido como minha amiga se sentiu em dúvida por um instante, o que dizer de outras que não tem o mesmo background? Então sim, uma mulher que denuncia é uma força da natureza. Mas, não usemos a força de algumas para diminuir as que não o fazem. Temos vivências diferentes e, portanto, reagimos diferentemente às pressões.

Voltando para a história, minha amiga refletiu sobre tudo isso e respondeu ao dono que  entendia o lado dele, mas que gostaria que ele entendesse o dela. A denuncia não era apenas sobre ela, era sobre o direito de ir e vir das mulheres e que ela a manteria, mas se comprometeria a divulgar a retratação deles também. (Ponto pras meninas!)

Do outro lado do debate, estavam as pessoas comentadoras de Facebook, algumas delas feministas. A maioria, horrorizada com o caso, vociferava: “Não volte lá nunca mais”. Teve até uma que partiu para a agressão pelo fato de minha amiga querer voltar na casa. Essas pessoas acharam esta estratégia a mais acertada. Para mim é uma forma muito equivocada de lidar com o problema. Não sou contrária a boicote. Muitas vezes  ele é acertado. Porém, nessa situação não acho que seja por quatro razões:

a)  Não estávamos lidando com alguém como o Rafinha Bastos, do outro lado havia uma vontade mínima de diálogo (independente da motivação);

b) Não ir ao bar, não mudaria em nada o modus operandi dos agressores. Eles saberiam que iam poder tocar o terror, as mulheres que denunciariam iam deixar de ir e no dia seguinte ia ter outras gurias para eles assediarem;

c) Acho muito problemático pegar a estratégia de uma mulher que sofreu uma violência e dizer: NÃO FAÇA ISSO, FAÇA O QUE EU ACHO CERTO. Puxa,  pera lá. É preciso dar autonomia para os feminismos alheios. Talvez a sua estratégia seja boa para você e não tão boa para mim. Talvez seja o caso de apoiar e esperar sua opinião ser pedida.

d) Essa postura, por mais que não queiram, é também  uma reiteração da cultura do estupro. Mesmo quando as pessoas querem que as mulheres sejam respeitadas, elas indicam que devemos nos retirar. Se optarmos por recuar, vamos parar onde? Há denúncias de violência contra as mulheres em absolutamente todos os espaços, desde as suas próprias residências até os espaços públicos. Então ok, é um fato que os espaços privilegiam os homens, mas nós  estamos aqui para DISPUTAR  estes espaços. Disputar não é fácil, mas pega na mão da feminista ao lado e vamos para cima.

Enfim, minha amiga estrategista não arredou o pé. Propôs soluções. Manteve sua posição e o fim da história é satisfatório: depois de muitos erros, o bar acatou o clamor popular dos comentários e fez um post público em sua fanpage lançando a campanha  #nãoénão, em parceria com outros bares de Curitiba. Se comprometeu também a fazer um treinamento com seu staff para conscientizar sobre o tema e para que as mulheres se sintam mais seguras. Isso sim, senhoras e senhores, é um avanço! É o tipo de vitória para ser comemorada. Feminismo se faz com luta, mas toda luta precisa de estratégia(s)!

Autora

Ellen Silva é co-fundadora e colaboradora do Elas Também. É cientista social graduada pela UFPR. Atualmente é mestranda em Estudos Comparados das Américas na UnB. No âmbito acadêmico já pesquisou sobre as Elites Políticas do Brasil e Uruguai. Agora pesquisa as trajetórias políticas das parlamentares de Brasil e Costa Rica. Vez por outra posta no blog Momento Ellen e no Coletivo Blogueiras Negras. Acredita em Deus, gosta de criança. Amigos são oxigênio. Tem asma e para respirar bem precisa viajar. Tem um coração encantado e convocado por todas esquinas da América Latina. Sonha em trabalhar com políticas publicas que promovam a igualdade da mulher.

Viajar sozinha? Que tal?

Texto de Nathalia Marques para as Blogueiras Feministas.

Uma pesquisa realizada pelo site TripAdvisor apontou que apenas uma em cada quatro brasileiras viaja sozinha. Quando problematizamos esse número sabemos que muitos fatores influenciam no resultado. Pode ser que seja financeiro, já que ganhamos menos então viajar se torna algo mais difícil. Somos culturalmente ensinadas a ser dependentes. Além das inseguranças nos destinos gerados pelo machismo.

Desta forma, para uma mulher viajar sozinha diversas barreiras precisam ser quebradas. Acredito, e isso não é uma imposição apenas uma opinião, que viajar sozinha seja uma situação que todas as pessoas deveriam experimentar — especialmente as mulheres.

Mulher na praia do Arpoador, Rio de Janeiro. Foto de Estefan Radovicz/Agência O Dia/Estadão Conteúdo.
Mulher na praia do Arpoador, Rio de Janeiro. Foto de Estefan Radovicz/Agência O Dia/Estadão Conteúdo.

Ao decidir arrumar as malas e cair na estrada sozinha, a primeira sensação é de encontro comigo mesma. Recordo-me de quando fui à Argentina e pensei: agora sou eu comigo mesma, o que eu vou querer fazer? Foi a primeira vez que viajei sozinha e foi bem difícil tomar esta decisão, pois todos eram contra. Minha família ficou assustadíssima, pois tinham medo que algo de ruim acontecesse comigo.

No entanto, andar pelas ruas de Córdoba, sem ninguém para me dizer o que eu devia ou não fazer, foi uma das coisas mais incríveis que aconteceu na minha vida. Para os homens argentinos, eu era louca — e um chegou até a dizer isso na minha cara. Uma mulher viajando sozinha não é algo comum para as pessoas.

Ao viajar sozinha o machismo acaba sendo mais uma preocupação e é importante que isso não nos amedronte. O espaço também é nosso, seja onde for temos o direito de ir e vir. Há precauções a serem tomadas para nossa segurança, mas precisamos lutar para que o machismo não imobilize as mulheres em suas viagens.

Infelizmente sei que viajar é algo que não está ao alcance de todas as mulheres financeiramente e não quero cagar regra elitista nesse texto, mas dentro dessa proposta que trago é possível viajar sozinha pela nossa própria cidade. Conhecer lugares antes desconhecidos. Há também opções bacana como a rede Worldpackers que oferece a oportunidade de viajantes conhecerem diversos lugares onde você pode trocar seu trabalho (recepção, fotografia, aulas) por hospedagem. Além disso, há no Facebook um grupo chamado Feministas Mochileiras que compartilham diversas dicas para quem quer cair na estrada.

Sei que temos que lidar com diversos problemas antes de fazer algo como viajar sozinha, mas não deixe que os problemas influenciem na sua escolha. Para mim, viajar sozinha é um incrível processo de autoconhecimento. Fiz várias coisas que queria sem a opinião de ninguém. Além disso, pude mergulhar e conhecer outras culturas, pois tinha mais contato com as pessoas locais e isso foi bem enriquecedor. Ganhe o mundo, só não ganhe se isso realmente não lhe interessa.

Autora

Nathalia Marques é estudante de jornalismo, feminista e blogueira. Escreve no M pelo Mundo.

Assédio continua sendo ignorado como violência

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Nas últimas semanas, a mídia noticiou alguns casos de assédio envolvendo o uso de dados privados de mulheres, clientes de serviços de táxi e operadoras de tv a cabo. No primeiro caso, várias mulheres reclamaram do assédio que sofrem de alguns taxistas depois que usam aplicativos pelo celular. No segundo, a jornalista Ana Prado atendeu uma ligação da NET pela manhã oferecendo uma promoção. Mais tarde, recebeu mensagens privadas via Whatsapp de uma pessoa que se identificava como o mesmo atendente que havia telefonado mais cedo.

Em ambos os casos há o uso de dados privados por parte de funcionários das prestadoras de serviço. As matérias veiculadas na mídia, como a exibida pelo SP TV: Clientes de operadora de TV e aplicativo de taxi denunciam assédio; reprovam o assédio, mas o caracterizam como um “susto” ou “mais um dos problemas relacionados a falta de segurança desses dados” e focam no quanto os clientes dessas empresas correm risco de serem roubados ou sofrerem algum golpe.

Com certeza, como diz Ana Prado na reportagem, é preciso transparência em relação ao uso e o acesso aos dados pessoais de clientes, assim como fiscalização e responsabilidade. O funcionário que assediou Ana foi demitido. A empresa do aplicativo de táxi anunciou mudanças no produto para barrar o acesso ao número dos clientes. Porém, o assédio continua sendo algo socialmente aceito. Porque esses homens nem mesmo tem receio de enviar uma mensagem de texto, não pensam que estão gerando uma prova contra eles mesmos.

Movimento social "Mulheres em Luta" fez "grafitaço" para apagar nomes de meninas expostos na lista das "mais vadias" que circula em escolas de São Paulo. As ativistas sofreram represálias após o grafitaço. E moradores pintaram algumas artes. Cerca de 30% dos trabalhos já foram apagados. Foto de Daia Oliver/R7.
Movimento social Mulheres em Luta fez “grafitaço” para apagar nomes de meninas expostos na lista das “mais vadias” que circula em escolas de São Paulo. As ativistas sofreram represálias após o grafitaço. E moradores pintaram algumas artes. Cerca de 30% dos trabalhos já foram apagados. Foto de Daia Oliver/R7.

Muitas pessoas acham que o assédio dessa maneira é apenas uma coisa boba, que pode ser ignorada, mas ele faz parte da estrutura de pequenos abusos de poder que temos na sociedade e recai especialmente sobre as mulheres. A ideia de que o assédio deveria ser encarado como um “elogio”, já que a pessoa está sendo assediada porque outra acha que ela tem boas qualidades (beleza, voz, etc.) mostra o quanto as mulheres estão vulneráveis a violência tanto nos espaços públicos como nos meios virtuais.

Tanto na mídia como entre as pessoas, o assédio ainda é visto como “cantada”, como algo inofensivo. E, há muitas mulheres que defendem esse tipo de abordagem, alegando que ela faz bem para a autoestima. Porém, desde que a Campanha Chega de Fiu-Fiu do Think Olga publicou seus resultados, percebe-se que há um incômodo grande entre as mulheres e isso não pode ser ignorado.

Questionar o assédio não significa estabelecer o fim das interações sociais entre as pessoas, significa repensar práticas machistas que muitas vezes causam constrangimento e abrem precedentes para outras formas de violência contra as mulheres. Afinal, dificilmente conhecemos um lindo caso de amor que começou com um homem dizendo para uma mulher: “quero te chupar todinha”. Como diz Iara Paiva no texto Assédio verbal e a pesquisa “Chega de fiu-fiu”:

“a possibilidade de agradar a um grupo, seja maioria ou minoria, não deveria justificar o constragimento de todas as outras. Obrigar todas as mulheres a ouvirem gracejos porque eventualmente algumas podem gostar não faz sentido.” (…)

“Qualquer aproximação deve considerar que as mulheres são sujeitos de sua sexualidade e livres pra corresponder ou não às investidas. E caso não correspondam, não devem ser constrangidas por isso. Insinuações sexuais gratuitas são constrangedoras para imensa maioria das pessoas. Aproximações aparentemente bem educadas podem se tornar muito invasivas e desconfortáveis quando o suposto moço bem intencionado é insistente. E elogios não deveriam ser impostos. Ser chamada de “linda” por um estranho quando estamos andando em uma rua escura soa mais ameaçador do que lisonjeiro”.

Um recente texto no Buzzfeed Brasil mostra que em dois anos os comentários em notícias sobre estupro publicados nos grandes portais continuam os mesmos, culpabilizando as mulheres pela violência que sofreram: Comentários em notícias sobre estupro mostram como o problema é grave no Brasil.

Essa ideia de que a mulher provoca e o homem é um ser irracional quando o assunto é sexo, colabora para que a violência contra a mulher continue sendo um dos maiores problemas que temos. Em pleno 2015, ser chamada de “vadia” ainda é uma marca social muito negativa, as mulheres não tem liberdade para vivenciar sua sexualidade e, quanto mais jovens mais a violência as afeta, como mostra o caso da listas “TOP 10 Mais Vadias” que tem circulado entre alunos das escolas de São Paulo e provocado o abandono de estudos e até tentativas de suicídio de meninas com 12 anos.

Num momento em que temos órgãos legislativos conservadores que barram a questão de gênero nos planos de educação propostos pelos governos, vemos os casos de violência sexual acontecerem em espaços considerados seguros, como no recente estupro de uma menina de 12 anos por três colegas em uma escola de São Paulo, e do aumento do compartilhamento sem permissão de imagens íntimas em redes sociais, especialmente entre os jovens.

Vemos ainda cristalizada na sociedade a ideia atrasada e sem sentido de que não falar sobre sexo e violência com crianças e adolescentes nas escolas irá afastá-los disso. Porém, a falta de debate e reflexão só tem provocado mais violência. Questões de gênero e educação sexual não podem ser excluídas da vivência de crianças e adolescentes. Portanto, quanto mais falarmos sobre o assunto melhor.

Para muitas pessoas pode soar absurdo dizer que um assobio na rua pode estar relacionado a um estupro coletivo. Porém, a violência sexual e o assédio contra as mulheres não são elementos isolados, fazem parte de uma estrutura que enxerga as mulheres sem autonomia sobre seus corpos e sua sexualidade.

Violência sempre é uma demonstração de poder. De quem pode abordar outra pessoa sem permissão, ignorando seu consentimento, sua situação no momento, em prol de um desejo que não quer ser correspondido, quer apenas ser exercido. Então, a mesma violência social aceita e corroborada no assédio as mulheres também se reflete em casos extremos como no recente estupro coletivo de três adolescentes numa cidade do Piauí. Assédio é violência e isso não pode continuar sendo ignorado.

Campanha para ajudar as vítimas de estupro do Piauí

Amigos e familiares das quatro meninas violentadas encabeçam uma campanha para arrecadar dinheiro para o tratamento das garotas que permanecem internadas nos hospitais. Intitulada “Flores para Elas”, a iniciativa já está sendo divulgada nas redes sociais. A intenção é ajudá-las financeiramente e psicologicamente.

+ Sobre o assunto:

Eu, mulher negra e o assédio de rua. Por Stephanie Ribeiro na Imprensa Feminista

Listadas como vadias, punidas por serem mulheres. Por Jarid Arraes no Questão de Gênero.

O peso da palavra “vadia” ainda mata mulheres. Por Bia Cardoso no Biscate Social Club.