A liderança das mulheres indígenas e seus atuais desafios

Por Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Silvana Terena, Enir Bezerra da Silva, Iara Wassu Cocal, Marcia Wayna, Valdelice Verón, Leonice Tupari, Zahy Guajajara, Silvia Waiãpi, Ana Terra Yawalapiti, Joenia Wapichana, Antonia Melo, Bel Juruna, Kerexu Yxapyry, Célia Xakriabá. São mulheres que descobri durante as pesquisas para esse texto. São algumas das mulheres indígenas que estão liderando seus povos na luta por terra, autonomia, identidade, cidadania. São algumas das mulheres que me ajudaram a pensar sobre questões como: O que é ser mulher indígena hoje? Quais são as histórias dessas mulheres? Quais suas trajetórias, lutas, conquistas e desafios? Como o feminismo trata a mulher indígena? Como posso saber mais sobre suas demandas?

O etnocídio das populações indígenas é diário e pouquíssimo divulgado. A maioria das pessoas não se interessa por saber os impactos da construção de Belo Monte, quais as ameças da PEC 215 ou sobre as disputas sangrentas de terra cometidas pelo agronegócio. A violência contra indígenas é invisível e muitas vezes até apoiada em nome do “progresso”. Anos e anos de colonização forçada criaram esse senso comum de que índio significa “atraso”, por isso é normal se omitir quanto as atrocidades cometidas, acha-se natural a destruição de bacias hidrográficas e a morte cultural de povos inteiros.

As mulheres indígenas são lideranças fundamentais na luta dos povos brasileiros pelo reconhecimento de sua terra e sua identidade. As diferentes etnias brasileiras estão representadas na atuação e participação política de inúmeras indígenas. Como tantas outras mulheres, elas também se veem muitas vezes divididas entre tantos afazeres e responsabilidades, além de enfrentar o machismo e a violência de gênero que irrompem sempre que levantam sua voz. Porém, essas mulheres enfrentam questões que dificilmente encontram simpatia da população brasileira e que muitas vezes são ignoradas pelo feminismo, ainda mais numa época tão marcada pelo consumo como cidadania.

Bel Juruna, a nova voz feminina do Xingu

No texto ‘No fim do mundo de Alice Juruna tem Peppa Pig’, Eliane Brum nos apresenta: Bel Juruna. Com 29 anos, Bel é agente de saúde e estuda para ser técnica em enfermagem, sua principal luta é a mudança da alimentação que traz como consequência novas doenças que acometem seu povo.

Com a construção da hidrelétrica de Belo Monte não há mais rio para garantir a subsistência, não há mais peixe para comer. A população vai sendo forçada a adquirir produtos industrializados de baixa qualidade, pois geralmente são os mais baratos. Bel Juruna precisa ser ativista, mãe e estudante. Tudo ao mesmo tempo, agora: “Estou tentando ensinar minha filha mais velha a cozinhar outras coisas, já que ela só sabia preparar peixe”, conta. “Mas, como tenho que ir a muitas reuniões, por conta dos empreendimentos, meus filhos comem miojo. Se vou a reuniões três dias seguidos, são três dias seguidos de miojo.”

Por causa de Belo Monte a aldeia juruna se dividiu. E nessa construção de uma nova aldeia, as mulheres ganharam mais espaço na liderança. Bel já foi vice-cacique e só deixou a liderança para terminar o curso de enfermagem: Pergunto a ela se busca inspiração em alguma mulher que admira, ela responde: “Me inspiro em mim mesma, na minha própria vida”. Depois, conta que se aconselha também com Antonia Melo, coordenadora do movimento Xingu Vivo Para Sempre e uma das maiores lideranças populares do Médio Xingu.

Bel Juruna é indígena, descendente de uma tribo que foi quase dizimada, evangélica e em suas falas usa conceitos feministas como empoderamento. Sente um avexame nos peitos quando vai falar em público, mas não tem medo de apontar o dedo para representantes da mineradora canadense que quer explorar a região. Tão complexa como tantas mulheres, mas com uma causa urgente que precisa ser divulgada. Já que órgãos específicos como a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) vem perdendo cada vez mais poder nos cenários dos diversos governos federais.

Bel Juruna diz: “Hoje nós temos que nos refugiar da nossa própria casa, porque a nossa própria casa não tem segurança por causa de Belo Monte. Sai uma notícia, assim, de que a barragem estourou, e a gente corre das nossas casas. E com essa Belo Sun nos pressionando, nosso futuro está mais comprometido. Lá vai ter produtos químicos, vai ter rejeitos, e a gente viu o que aconteceu com Mariana. É muito triste. Desviaram nosso rio, e com isso a vida foi mudando pra nós, que somos adultos. Mas é muito triste, também, porque nós estamos vendo o que está acontecendo com nossos filhos, que já não têm mais contato direto com o rio. E Juruna, Yudjá, é dono do rio. Nossos filhos vão conhecer a vida por fotografias. E estão esquecendo o que é ser Juruna, Yudjá. O meu maior medo não é deixar de existir, mas que meu povo não possa mais viver aqui, que tenha que se dividir e se refugiar”.

As violências que afetam a mulher indígena

No texto ‘Por que a violência contra mulheres indígenas é tão difícil de ser combatida no Brasil’, Ana Beatriz Rosa apresenta um panorama das diversas violências que as mulheres indígenas enfrentam. As formas como pensamos e conceituamos as desigualdades de gênero não são facilmente aplicáveis aos contextos de grupos indígenas, como consequência, propostas como a Lei Maria da Penha não atendem às necessidades de muitas mulheres.

A violência contra mulheres indígenas é cruel e possui dados assustadores. De acordo com relatório da ONU, 1 em cada 3 mulheres indígenas são estupradas ao longo da vida, porque a violência sexual faz parte de uma estratégia para desmoralizar a comunidade e também como “limpeza étnica”. Marcia Wayna Kambeba, geógrafa e ativista, alerta: “A mulher indígena sofre vários tipos de violência. Primeiro ela sofre por ver seu povo sendo afetado, marginalizado, discriminado. Depois, ela sofre como mulher e essa violência não é só física, ela é psicológica e social também. Mulheres indígenas sofreram esterilização forçada. Mulheres e crianças são violentadas e assassinadas por pistoleiros como forma de intimidar o povo a deixar a aldeia.”

Lívia Gimenes, advogada e autora da pesquisa ‘A construção Intercultural do Direito das Mulheres Indígenas a uma vida sem violência: A experiência brasileira’, explica as dificuldades enfrentadas na aplicação de políticas públicas para as mulheres: “Quando a gente fala de política de enfrentamento da violência, a gente não tem uma mulher universal. A gente tem dificuldade de lidar com os vários perfis de mulheres em suas várias realidades diferentes. E quando se fala de mulheres indígenas a diversidade é ainda maior. Ouvi das indígenas que elas têm medo de o quanto a aplicação da lei poderia desestruturar a realidade em que elas vivem e isso sempre gera muita angústia. Elas não são contra a lei, mas também não se reconhecem nela.”

Além disso, Lívia Gimenes traça um paralelo importante entre as demarcações das terras indígenas e a vulnerabilidade das mulheres: “O Estado tem que entender que a demarcação de terras é uma pauta de enfrentamento a violência contra as mulheres, porque é a terra que garante uma reestruturação das comunidades indígenas. Sem terras reconhecidas, o que acontece é um efeito cascata de violência e a parte mais vulnerável é a mulher. A demarcação é uma pauta de gênero e de defesa das mulheres indígenas.”

A liderança que é fundamental não apenas para os índios

As duas primeiras organizações brasileiras exclusivas de mulheres indígenas surgiram na década de 1980. Foram a Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn) e a Associação de Mulheres Indígenas do Distrito de Taracuá, Rio Uaupés e Tiguié (Amitrut). Há muito tempo as mulheres indígenas buscam ter voz e poder de decisão em suas comunidades, mas o debate sobre a importância de sua liderança é recente, como mostra o livro ‘Mulheres Indígenas, Direitos e Políticas Públicas‘ organizado pelo INESC (Instituto de Estudos Socioeconômicos).

Nos diálogos que ocorrem entre as mulheres indígenas e o feminismo é preciso evidenciar as limitações e exclusões de uma agenda política que parte de perspectivas simplificadas de igualdade e de visões universalizantes de cidadania. Mais uma vez, é preciso reforçar a urgência em reconhecer e respeitar a diversidade de interesses das mulheres. A história de Bel Juruna nos aproxima de um cotidiano pesado vivido por tantas mulheres, mas dificilmente nos envolvemos com sua luta, pois seguimos afastadas devido ao preconceito e a dificuldade de enxergar outras formas de se organizar socialmente.

A luta da mulher indígena é invisível até mesmo dentro do feminismo. É preciso se esforçar para citar o nome de uma liderança feminina indígena. Da mesma maneira que a história formal apaga os feitos das mulheres, no movimento feminista a atuação de mulheres não-brancas também é desconhecida da maioria. Portanto, divulgar e apoiar a luta dessas mulheres é o mínimo que podemos fazer. Mas há mais.

A nossa ignorância em acreditar que controlamos a natureza é parte da visão inferiorizada que temos dos indígenas. Esquecemos diariamente que não é a apenas a vida dos Jurunas, dos Guajajaras ou dos Guarani Kaiowás, entre outros, que estão em risco, qualquer impacto na região amazônica ou em bacias hidrográficas terá consequências ambientais para o Brasil e para o planeta. Nossa omissão será nossa própria destruição. Nossa fantasia de “progresso” está dizimando a vida de inúmeros povos indígenas agora, mas amanhã nos será cobrado o preço de ter ignorado seus alertas.

Nesse momento, está sendo organizado o Acampamento Terra livre 2017 que será realizado em Brasília/DF de 24 a 28 de abril de 2017. O objetivo do Acampamento é: “Reunir em grande assembleia lideranças dos povos e organizações indígenas de todas as regiões do Brasil para discutir e se posicionar sobre a violação dos direitos constitucionais e originários dos povos indígenas e das políticas anti-indigenas do Estado brasileiro”. Você pode apoiar contribuindo com a vakinha online: Seja um apoiador do Acampamento Terra Livre 2017!

+ sobre o assunto:

[+] Mulheres retomam papeis protagonistas na cultura indígena. Por Ana Claudia Araújo no Portal Catarinas.

[+] Mulheres indígenas e participação política: a discussão de gênero nas organizações de mulheres indígenas. Por Ângela Sacchi na Revista ANTHROPOLÓGICAS.

[+] Reinventando o feminismo: as mulheres indígenas e suas demandas de gênero. Por Alejandra Aguilar Pinto no Fazendo Gênero 9.

Imagem: Palmas/TO – Indígenas de diversas etnias interrompem as competições dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas em protesto contra a PEC 215. Foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Vamos revolucionar!

Hoje quero falar de revolução. Quero convidar você a revolucionar-se. Perceber a revolução que vivemos. Começando por aquela que queremos fazer com nossas vidas. Quero falar sobre o mundo que desejamos para nós e para os que virão depois de nós. Essa semana, me peguei pensando muito em revolução, mudanças, pontos de partida, em como fazer uma revolução ampla, gigantesca para mudar o rumo da humanidade. Me chamem de megalomaníaca, provavelmente eu vou responder.

Wangari Maathai na Conferencia das Nações Unidas de 2009. Foto: UN / Mark Garten – Imagem em CC – Africa Renewal

Fiquei pensando nisso e lembrei de duas mulheres que, nos últimos tempos, me chamaram atenção.

Uma delas foi a queniana Wangari Maathai sobre quem fiz um post no meu blog no ano passado, de tanto que sua vida e sua luta me inspiraram. Ela, ativista politica e ambiental revolucionou seu país plantando árvores.

Fundou o movimento The Green Belt Movement que modificou sua comunidade, e o impacto disso no país culminou com a deposição do poder do ditador Daniel Arap Moi.

Ela foi membro do parlamento queniano após a queda do ditador e colocou o exército queniano para plantar árvores. Trinta e cinco mil árvores foram plantadas no Quênia. O grupo que ela fundou e liderou trabalha ainda, mesmo depois de sua morte em setembro do ano passado. Seu legado vive nas florestas restauradas do Quênia. Ela mudou o destino do seu país, ela deu o primeiro passo que foi seguido por muitos em direção ao futuro que ela imaginou para seu país e seu povo.

Uma outra mulher que tem me inspirado e fascinado muito é Birgitta Jonsdottir. Ativista islandesa que está por toda parte. Digite seu nome no google e voce se surpreenderá com a quantidade de informações sobre ela.

Escritora, poeta, editora, mãe solteira, membro do parlamento Islandês desde abril de 2009, porta-voz de diversos movimentos sociais e perseguida política pelos Estados Unidos por causa da sua colaboração com o WikiLeaks. Defensora e porta-voz do IMMI (Icelandic Modern Media Initiative – Iniciativa islandesa da mídia moderna).

Birgitta Jonsdottir – Foto: Florian Apel-Soetebeer / Government 2.0 Netzwerk Deutschland. No Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Ela liderou as manifestações em 2008 quando a economia Islandesa quebrou por causa da crise dos mercados financeiros. Comandou a ação do povo contra a medidas restritivas e as manobras financeiras que dariam aos bancos o socorro financeiro e imporiam aos islandeses uma dívida que seria paga por gerações e gerações de pessoas. O povo islandês pagaria pelos empréstimos que os bancos particulares e multinacionais contrairam durante a crise dos mercados finaceiros . Ela se posicionou contra essas medidas. Juntos, ela e o povo da Islândia votaram contra essa medida e os bancos foram todos nacionalizados.

Ela defende o WikiLeaks onde já foi voluntária. Assumiu a co-produção do vídeo que mostra oficiais americanos abrindo fogo contra civis em Bagdad e que foi estopim para a investigação dos crimes de guerra cometido pelos EUA. Ela luta pela transparência nos assuntos do Estado e sobretudo pela internet livre, sem censuras ou regulações, pela transparência na regulação do sistema financeiro. A sua vida e sua luta são tão incríveis e fascinantes que um post não é o suficiente para falar sobre tudo que ela já conquistou.  Judith Ehrlich está produzindo um documentário sobre ela.

Curiosamente, nada do que aconteceu na Islândia é notícia nas grandes redes de televisão do mundo. Sob a sua liderança, a Islândia não cedeu a pressão feita pelos EUA e sofreu sanções, mas ressurgiu e está de pé. Não passou incólume pelo golpe financeiro, mas se refaz. A democracia do país se fortaleceu e talvez, ouso dizer, passou a ser democracia no sentido mais literal do termo. As decisões políticas agora estão transparentes.  O povo tomou consciência do seu poder e responsabilidades para manter a política livre de agentes externos que a forcem financeiramente a decisões que não priorizam a população.

Essas mulheres estão separadas em épocas e continentes diferentes, impulsionando seu povo para mudar o meio ambiente, a política, a economia e os rumos de seus países. Essas mulheres não são diferentes de mim ou de você. E no entanto, suas lutas e a determinação com que buscam seus objetivos levaram-nas a atingir enormes conquistas. Provocaram e ainda provocam transformações enormes em seus países, no nosso mundo, na nossa sociedade.

Eu convido você a mudar, a revolucionar, a refletir, a rever preconceitos, a rever seus discursos, suas opiniões, seus objetivos de vida. E então, mude o que você acha que não está bom na sua realidade, no seu cotidiano, na sua rotina. Repense, reflita, sejamos a primeira pedra do dominó a cair e derrubaremos juntos toda a opressão.