Aos queridos homens que desejam ser aliados das mulheres

Texto de Lisa M. O’Neill. Publicado originalmente com o título: “Dear Men Who Wish To Be Allies to Women”, no site Medium em 11/10/2016. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Olá, eu estou feliz que você se preocupa com os direitos das mulheres e quer ser um aliado! Isso faz de você um ser humano decente. Sem mencionar estar do lado correto da história. Você pode ter testemunhado um aumento da masculinidade tóxica ultimamente — digamos, por exemplo, durante o último debate presidencial americano — chamando sua atenção para o que sempre esteve aqui na superfície, mas talvez nem sempre tenha sido tão visível para você. Você pode até ter experimentado algum grau de culpa ou vergonha por ser um homem quando alguns homens estão agindo de maneiras tão infames, repugnantes e tomando decisões para as mulheres sem realmente ouvir as mulheres. Estamos todos tentando dar o nosso melhor para sermos boas pessoas no mundo e essa merda é complicada. Mas há algumas coisas que você pode querer saber. Eu escrevi isso para você.

1. Não é responsabilidade das mulheres educar você. Aprenda você mesmo sobre sexismo, misoginia e sobre como recriar nossa cultura para eliminá-los. Assim como é responsabilidade das pessoas brancas educar-se e descobrir como desmantelar a cultura racista que construímos, vocês, homens, os beneficiários de nossa cultura patriarcal, precisam descobrir como desfazer suas idéias sexistas e misóginas, sistemas de crenças e comportamentos . Você precisa descobrir como mudar internamente e externamente para que vivamos em uma cultura que verdadeiramente valoriza e apóia as mulheres. Aqui está um ótimo lugar para começar (em português, temos vários sites em nossa biblioteca).

2. Não peça às mulheres que façam trabalho emocional adicional. As mulheres foram socializadas para serem cuidadoras e protetoras. Algumas de nós abraçam este papel e outras de nós não, mas nenhuma de nós quer fazer isso o tempo todo. Mas o que é o trabalho emocional? Ouvir os outros falarem sobre seus problemas, pensar as questões e fornecer aconselhamento; cuidar dos sentimentos dos outros, oferecendo espaço e tempo e, por vezes, afeto físico na forma de abraços ou segurando suas mãos. Pelo fato das mulheres terem sido condicionadas socialmente para ver este trabalho como parte do nosso papel sendo mulheres e, porque as pessoas de todos os gêneros foram condicionadas a ver as mulheres como cuidadoras, você pode não perceber quando você está pedindo às mulheres para fazerem isso. Verifique como estão as mulheres em sua vida antes de pedir-lhes para fornecer apoio emocional; certifique-se de que elas têm tempo, energia e recursos para oferecê-lo. Certifique-se de ter a permissão delas. Observe a quantidade de espaço que você ocupa em uma conversa. Isso soa cansativo? E é. E este é o trabalho que as mulheres fazem o tempo todo. Fazemos este trabalho em cima do trabalho de caminhar pelo mundo sendo mulher e, eu lhe asseguro, é demorado, trabalhoso, duro e muitas vezes desmoralizante. Por fim, não envolva mulheres que você não conhece ou mal conhece em intensas revelações emocionais. Eu não preciso saber sobre os recentes traumas de um homem na fila no mercado. Eu não preciso lidar com uma incômoda enxurrada sobre o dia horrível de um estranho. Você está esvaziando uma lixeira emocional por todas nós. Cuide de suas próprias necessidades emocionais.

3. Pense no espaço que você ocupa. Em conversas. Em reuniões de trabalho. Em eventos públicos. Em painéis de conferência. Caminhando pela rua. Pense na sua proximidade com as mulheres. Pergunte a si mesmo se você está dando espaço suficiente para elas: falarem, se moverem, existirem. Isso é especialmente conveniente se você encontrar uma mulher sozinha. Dê a ela espaço.

4. Faça sua lição de casa e procure as perspectivas das mulheres. Leia artigos e livros sobre o feminismo interseccional. Leia artigos e livros que não têm nada a ver com o feminismo, mas que são escritos por mulheres. Olhe para a sua estante. Está cheia de livros escritos por homens? Pense porque isso acontece. Em seguida, comprometa-se a ler exclusivamente o trabalho de mulheres — de todos os países, com origens e identidades diferentes — por uma semana, um mês, um ano ou mais. Pergunte às mulheres em sua vida por recomendações de livros que mudaram suas vidas, livros onde elas se sentiram profundamente ouvidas ou vistas. Leia esses livros.

5. Peça às mulheres em sua vida para compartilharem suas histórias com você. Fique bem se elas não quiserem. E, se elas quiserem, realmente ouça. Essas histórias quando vem em cascata são muitas vezes tensas, violentas e profundamente tristes. Você pode se sentir chocado, com raiva, ou cheio de tristeza que alguém que você conhece e ama teve que passar por essas experiências. Não encerre a conversa porque você se sentiu desconfortável ou mesmo cúmplice. Não fique tentando ver o lado bom das histórias. Não descarte a importância das palavras das mulheres em sua mente ou para a mulher que você está escutando. Não encontre razões para desculpar o mau comportamento dos outros. Escolha estar presente. Escolha continuar a ouvir.

6. Se você é um criador, pense sobre as coisas que você faz. Lembre-se que o trabalho que você oferece ao mundo como artista, escritor, cineasta, músico ou outro processo criativo reflete uma determinada perspectiva: a sua. Pense sobre o que você está criando e o que isso diz para as pessoas que se envolvem com seu trabalho. Todas as suas personagens femininas são unidimensionais? Elas são sempre culpadas pelas desgraças de seu protagonista masculino? Quantas mulheres você está entrevistando para o seu documentário? Você combinou uma mistura de vozes em termos de etnia, nacionalidade, classe socioeconômica, níveis de habilidade, tamanho e forma, sexualidade e possibilidades além do gênero binário? Quais são suas canções e que visão de mundo refletem? A arte que você faz reforça narrativas culturais problemáticas?

7. Encontre outros homens fazendo este trabalho. Aprenda com eles, compartilhe recursos. E então, — e isso é realmente importante — tenha conversas com seus amigos, colegas e vizinhos sobre sexismo e misoginia. Instigue as conversas difíceis. Faça perguntas difíceis a vocês mesmos e uns aos outros. Você provavelmente viveu a maior parte de sua vida sem ter que pensar sobre essas coisas. As mulheres não tiveram esse luxo. Seja desconfortável. Mas também, encontre apoio para fazer este trabalho.

8. Respeite os limites das mulheres. Não significa não, ponto final. Você não tem direito ao corpo de uma mulher, tempo, energia, atenção, respeito, e assim por diante. Além disso, se uma mulher dá sinais evidentes, verbais ou não, de que ela não quer que você interaja com ela, deixe-a sozinha.

9. Não policie os corpos ou vozes das mulheres. As mulheres são seres autônomos e, contrariamente às mensagens culturais que reforçam o oposto, nós não existimos para o prazer dos outros. O que nós vestimos, onde caminhamos, o que fazemos ou não fazemos com nossos corpos não é preocupação de ninguém além de nós mesmas. Da mesma forma, as mulheres podem ter suas próprias perspectivas (e articulá-las da maneira que escolherem), então, apenas porque uma mulher discorda de você não significa que ela não compreende as complexidades da situação e precisa de uma explicação.

10. Fazer esse trabalho não faz de você um herói, mas faz de você um ser humano melhor. Todos nós devemos ser feministas porque ser feminista significa que você acredita que as mulheres são iguais e devem ser tratadas como tal. Você está fazendo a coisa certa. Mas você não merece elogios ou aplausos, assim como um pai não merece isso por mudar a fralda de seu filho. Você recebe a recompensa de ser um homem que acordou, um homem que está se movendo através do mundo com integridade.

11. Perceba que fazer este trabalho não é um desafio com apenas uma jogada. Se você quer ser um aliado, isso significa que você se compromete com uma vida de educação continuada. Isso significa que você terá que olhar duramente para suas próprias cagadas. Isso significa que você terá que procurar maneiras de apoiar as mulheres em sua vida. Isso significa que você terá que estabelecer formas de trabalhar de maneira comunitária e sistêmica. Você se sentirá incomodado a maior parte do tempo. Você provavelmente ficará na defensiva. Mas continue tentando.

12. Escolha criar uma cultura que valorize inerentemente as mulheres. Torne essa lista obsoleta.

Autora

Lisa M. O’Neill é uma escritora e jornalista que cobre as interseções entre cultura pop e política, gênero e feminismo, o sistema de justiça criminal, e os relacionamento dos seres humanos com o espaço. Já publicou nos sites The Feminist Wire, Edible Baja Arizona, Salon e Good Housekeeping, entre outros.

Imagem: Audra Wolowiec, “(h)ear”, 2016.

5 Textos das Blogueiras Negras que você precisa ler!

Ontem, 25 de julho, foi Dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha. Por muitos anos, o Brasil teve como principal data negra o 13 de maio. Porém, graças há tantas negras e negros brasileiros, essa data tornou-se um espantalho para mostrar que não houve libertação para a população negra. O dia da abolição da escravatura não conta a história do povo negro no Brasil. Então, o movimento negro reivindicou suas datas políticas, especialmente o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. E, as mulheres negras tem o dia 25 de julho como sua principal data. É com alegria que vemos mais eventos e ações nessa data com o passar dos anos.

A data foi criada em 25 de julho de 1992, durante o primeiro Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingo, República Dominicana, como marco internacional da luta e da resistência da mulher negra. No Brasil, a data é nacional, foi instituída por uma Lei de 2014, como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza de Benguela foi uma importante líder quilombola que viveu durante o século 18.

Uma das iniciativas mais importantes que acompanhamos na internet nos últimos anos foi a criação do site e da comunidade Blogueiras Negras.

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Grupos que incentivam mulheres em TI

Texto de Kamilla Holanda.

Tenho participado de encontros de mulheres desenvolvedoras de software em Washington D.C. (EUA) e fico muito feliz quando posso ir e ver mulheres falando sobre tópicos técnicos, dando palestras e transmitindo conhecimento, isso é muito empoderador. Nunca tive a oportunidade de participar de algo assim no Brasil. Estou há quase cinco anos na faculdade de Engenharia de Software e, infelizmente, posso contar nos dedos de uma mão as meninas que conheci. E, mesmo que existam algumas meninas no curso, já vi muitas vezes elas serem “empurradas” para cargos que precisam especificamente de maior socialização e menos programação, com justificativas de que as mulheres são menos adequadas para trabalhar especificamente com programação.

Abri um tópico no grupo das Blogueiras Feministas e tive respostas de apenas três meninas, o que está de acordo com pesquisas do grupo Mulheres na Tecnologia:

Podemos afirmar que as mulheres geralmente representam entre 10 a 30% de profissionais na indústria de Tecnologia da Informação no mundo. Nos Estados Unidos, incluindo os cargos administrativos, elas são 32% dos profissionais de TI. No Canadá, elas representam cerca de 23 a 28% e, na França, são 20%. No Brasil, as mulheres correspondem a aproximadamente 19%, segundo o PNAD/2009. Diversas pesquisas apontam que há preconceito de gênero, e em uma pesquisa realizada em julho de 2012 em um evento da SBC foi afirmado que ‘a resistência – quando a menina diz que quer fazer computação ou alguma área tecnológica- começa em casa, com os pais e familiares; depois as adolescentes acabam esquecendo e não se identificam mais com a área. Referência: Girl (tech) power: as mulheres de TI.

E quando se fala em salário, uma pesquisa realizada pela recrutadora Michael Page revela que as mulheres em cargos de gestão no mercado de TI recebem até 23% menos que os homens.

Não é novidade para ninguém a importância da Tecnologia da Informação e o quanto isso pode mudar os rumos da nossa sociedade. Concordo plenamente com o slogan do Anita Borg Institute: “A tecnologia transforma o mundo e as mulheres transformam a tecnologia”. Por isso, mais do que nunca, é importante que mulheres ocupem seus espaços e assumam seus postos trabalhando como cientistas da computação, engenheiras de software, engenheiras de computação, analistas de sistemas e etc.

Foto de divulgação do site Black Girls Code.
Foto de divulgação do site Black Girls Code.

Tentado ajudar, fiz uma lista com encontros, blogs, listas de e-mail, conferências, organizações que incentivam mulheres em TI e outros textos, tudo inicialmente em inglês. Depois da postagem no grupo das Blogueiras Feministas tive feedbacks com alguns outros links em português. Alguns grupos como Ladies Who Code, PyLadies e Rails Girls têm material para quem quer criar esses grupos na própria cidade. E eu digo que devemos fazer isso! É importante que existam mentoras mulheres incentivando outras mulheres e mostrando que é possível, sim, ser bem sucedida em TI.

Em português:

  • Girl Geek Dinners Brazil: evento voltado para mulheres que tem interesse ou trabalham com tecnologia.
  • LinuxChix: grupo que encoraja mulheres e meninas a usarem Linux e outros softwares. História do LinuxChix.
  • Mulheres na computação: site brasileiro feito por meninas que trabalham com TI no Brasil.
  • Mulheres na Tecnologia – MNT: maior grupo brasileiro que incentiva mulheres em TI. Página do Facebook.
  • Rails Girlsencontro de mulheres que programam em Rails. É o mais fofo de todos os grupos, as meninas são super bem organizadas e o site tem vários materiais para quem quer começar um Rails Girls na sua cidade. O bom desse grupo é que também acontecem encontros em várias cidades do Brasil como: Porto Alegre, Salvador, Fortaleza, Campina Grande, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Natal, Belém, Recife e São Paulo.
  • RodAda Hacker: oficina para meninas e mulheres que querem aprender a programar projetos web.

Em inglês:

  • Anita Borg Institute: um dos maiores institutos que incentivam mulheres em TI, todo ano eles têm um programa de verão específico para mulheres.
  • Being a female software engineer: tumblr engraçadinho.
  • Black Girls Code: organização que apoia e incentiva meninas negras a programarem e muito mais.
  • Feminist Hackerspaces Alliance: lista para quem tem interesse em criar hackerspaces feministas.
  • Gabriella Coleman: autora do livro ‘Coding Freedom: The Aesthetics and the Ethics of Hacking’. Ela é um nome muito conhecido no meio hacker, digital ativismo, produção open source e propriedade intelectual.
  • Geek Chich Programming: treinamentos em desenvolvimento de software para mulheres.
  • Geek Feminism Wiki: Página com material para (e sobre) mulheres mulheres em comunidades geek.
  • Geek Girl Con: conferências para garotas geeks.
  • Girls Who Code: organização que tem como objetivo ensinar programação para meninas do ensino fundamental e médio.
  • Helping Bridge the Gender Gap in Computing Careers: ótimo vídeo sobre mulheres em TI (em inglês).
  • Famous Women in Computer Science: fotos/história de mulheres cientistas da computação famosas.
  • Hive – Anarchafeminist Hackerhive: lista muito legal com muitas discussões feministas/hackers e o papel da mulher em TI.
  • Ladies Who Code: encontro de mulheres programadoras. Participei de dois encontros desse grupo em Washington D.C. (EUA). É um grupo muito bem estruturado com diversas palestras técnicas e gente importante participando.
  • PyLadies: encontro de mulheres que programam em Python. Participei de um encontro em Washington D.C. (EUA) e as meninas são ótimas! Muitos papos técnicos e dicas de programação.
  • She++: conferências para mulheres em TI.
  • Systers: maior lista de e-mail de mulheres em computação.
  • Women in Computer Science: organização estudantil da Stanford University (EUA).
  • Women & Technology in Brazil: site da ThoughtWorks, empresa que tem várias iniciativas para incentivar mulheres em TI.

Mais textos

[+] Feminismo e Software Livre: texto de Liliane Cruz, tradução de Tica Moreno.

[+] Garotas de programa: ótimo artigo com um pouco da história das mulheres em TI.

[+] Gender Codes: Why Women Are Leaving Computing: vários ensaios sobre a participação de mulheres em TI.

Confira também nossa série de entrevistas: Mulheres e TI.

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Kamilla Holanda tem 23 anos, está no último ano do curso de bacharelado em Engenharia de Software da Universidade de Brasília e trabalha atualmente como Guest Research no National Institute of Standars and Technology. É feminista, lésbica, usuária Linux, entusiasta de desenvolvimento open source, programadora Python e atualmente tentando atuar em grupos específicos para mulheres que trabalham com TI.