Preta Maravilha

Texto de Viviane A. Pistache para as Blogueiras Feministas.

Dedico este conto às muitas Pretas que me inspiram (com a fé de que entre sonhos e pesadelos nos fortalecemos), e em especial à Amanda Silva, Monamuzinga!

Naquela noite chuvosa atendi sem resistência ao chamado que vinha da casa do sono. Ao entrar na sala dos sonhos dei de cara com uma ladeira e um bom pedaço de papel que me convidava pra escorregar. Uai, por que não? E depois de uma eternidade esquiando no barro, fui parar numa planície fantasma. Assustei. “Cadê o morro velho que me trouxe aqui?”

Sina de mineira é temer a morte das montanhas. No desespero até rezei pro horizonte desembelecer a passo de lesma, na esperança de que ficasse pelo menos um rastro luminoso da beleza de antes. Mas a culpa é do escorpião amarelo, aquele que tem uma escavadeira insaciável que há séculos fere o ventre da terra pra comer ouro. E ele cutucou até o formigueiro que dormia bem no pé da minha cama.

Ameaçada pelos ferrões da tradicional família mineira deixei pra trás o precioso conforto de casa, sem guerrear com o sangue que circula na minha árvore genealógica. Mas não sei se por medo ou precaução, enterrei no quintal um baú com alguns pesadelos e trouxe na mala os sonhos que julgava imprescindíveis. E assim foi que montei na garupa da minhoca de metal que veio serpenteando no lombo da Fernão Dias até chegar aqui.

Continue lendo “Preta Maravilha”

Uma reflexão sobre a universalidade das experiências masculinas nas narrativas

Texto de Milena Barbi para as Blogueiras Feministas.

“Broken man seeks the perfect woman”. Homem “quebrado” busca a mulher perfeita. Ele, franzino e sucumbindo à pressão da vida adulta, de camisa xadrez e óculos de grau. Ouve música alternativa e sofreu bullying na escola. Ela, bonita e inteligente, mas não muito. Usa roupas “vintage” e gosta de quadrinhos e discos. Os dois se encontram e a missão da vida dela passa ser a de levar cor e alegria para a vida dele.

The manic pixie dream girl, ou a “a garota maníaca, fadinha mágica, dos sonhos”, novo (mas nem tanto) estereótipo hollywoodiano, veio para cimentar definitivamente o apagamento das mulheres enquanto sujeitos dotados de sua própria narrativa no cinema e na literatura.

Após o esgotamento da fórmula de vários clichês de personagens femininos, a garota meiga e meio desajeitada passou a ser uma constante nos filmes cujo protagonista é considerado um cara “fofo” à espera da mulher que o salvará do mar de amargura que é a sua vida.

Eu poderia estar falando de qualquer outro lugar-comum do cinema, mas escolhi este. Escolhi este porque no fim da tarde eu vinha pra casa lendo um livro e me deparei com um sentimento de inquietude, provocado pelo autor. Ele é um destes caras “quebrados”. Sofreu muito na vida, é um eterno apaixonado, desengonçado e meio nerd. Ama todas as mulheres e não ama nenhuma. No meio das suas palavras açucaradas e cheias de anseios e sonhos eu encontrei mais daquilo que estou acostumada a encontrar nas palavras dos autores que leio sempre: um vazio e profundo nada.

Continue lendo “Uma reflexão sobre a universalidade das experiências masculinas nas narrativas”

Cutia feminista

Texto de Adla Georginni para as Blogueiras Feministas.

Eu deveria ter uns seis ou sete anos quando um dia, ao sair do trabalho, meu pai me levou até um sebo que acabara de abrir na cidade. Naquela época, morávamos em Anápolis (GO), e ele sempre teve o hábito de comprar livros para mim, tanto que se hoje sou viciada em leitura, a maior parcela de culpa é dele.

Chegando ao sebo, meu pai deixou que eu escolhesse alguns livros, não me lembro dos outros, mas um deles escolhi pelo título engraçado. Era algo como “O noivo da cutia”. Levei para casa. Como eu tinha gostado tanto, resolvi ler primeiro.

Capa do livro 'O Noivo da Cutia' de Joel Rufino dos Santos. Editora Ática.
Capa do livro ‘O Noivo da Cutia’ de Joel Rufino dos Santos. Editora Ática.

A estória é basicamente assim: o jabuti e o teiú vivem competindo pela mão da cutia, um diz ser mais rápido, o outro mais forte e em nenhum momento um deles pergunta se a cutia está interessada, simplesmente continuam brigando e se desafiando. Até que uma hora os dois cansam e decidem confrontar a cutia. Eles vão até a casa dela e dizem autoritários que eles estão cansados de competir e que ela precisa pedir para o pai dela escolher um deles para ser seu marido. Mas eis que aí está melhor parte. A cutia responde que ela não vai escolher ninguém, pois não tem obrigação de casar com nenhum deles, que o tempo em que o pai escolhia o marido da filha havia passado e que hoje as mulheres têm o direito de escolher com quem vão casar, se querem casar ou não, que as mulheres têm a liberdade de fazerem o que quiserem e não o que o marido ou qualquer outro homem deixa ou manda. Então, ela terminou dizendo que não queria casar, virou as costas e seguiu seu caminho. Simples assim.

Quando eu terminei de ler, havia ficado sem palavras. Reli a fala da cutia várias vezes. Achei aquilo sensacional. Imagine para uma criança de seis ou sete anos que somente obedecia aos pais (muito religiosos), o que significava ter um pouco de liberdade. Eu não sabia o que era ser feminista naquela época, mas hoje sei que foi no momento em que terminei de ler o livro que uma faísca do feminismo se ascendeu em mim.

Encontrei tanto da cutia em mim, eu queria ser a cutia, queria ter a coragem de dizer que eu era dona de mim mesma, das minhas escolhas. Que quando eu crescesse casaria se quisesse, seria escritora e viajaria pela Europa. Foi naquele instante que eu descobri que tinha vontade própria, que eu poderia abraçar minha liberdade.  Foi ali, naquela última página, que tive minha primeira experiência com o feminismo.

Autora

Adla Georginni é uma feminista recém-formada, estudante de jornalismo e metida a blogueira. Rainha do drama em tempo integral, é fã de Agatha Christie e do mundo policial. Apaixonada por história, reclama da vida no @adlageorginni e escreve seus dramas reais (ou não) em http://adlageorginni.blogspot.com.br/