Imperatriz Furiosa e as mulheres feministas em Mad Max: Estrada da Fúria

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Atenção, esse texto contém spoilers!

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Quem matou o mundo? Essa é uma das perguntas feitas no filme Mad Max: Estrada da Fúria. Quem faz essa pergunta é uma mulher, ao questionar um homem sobre as verdadeiras intenções de seu líder. As críticas elogiosas tem enaltecido não apenas as cenas de ação, efeitos especiais e o enredo com vários panos de fundo, mas também o fato desse filme ser uma distopia feminista, um massacre do patriarcado. Será?

Como afirma Kate McDonough em “Mad Max: Fury Road”: where feminist revenge fantasy meets old school redemption quest: “Nós temos uma tendência cultural a analisar o feminismo de um filme por meio de uma métrica estreita (como o Teste de Bechdel), mas nunca achei esse método particularmente alegre ou politicamente útil. Há feminismo em Mad Max: Fúria na Estrada, mas a quantidade e o tipo dependem de você fazer essa análise dentro dos padrões de Hollywood ou por meio de uma ideia que reconheça que personagens femininas podem pensar, sentir, lutar e sangrar”.

Estamos falando de um blockbuster hollywoodiano. Até que ponto é possível que Hollywood, uma indústria comandada por homens brancos, ricos e conversadores, produza filmes feministas? Então, nossa base de análise será essa, afinal, o feminismo nos últimos anos passou a ser rentável em alguns aspectos, devido a “moda feminista”. Para muitas pessoas não há nenhuma revolução nisso mas, para muitas mulheres que cresceram gostando de filmes de ação, ou que na solidão nerd só tinham a Princesa Léia e Nyota Uhura, as mulheres de Mad Max podem fazer diferença para a geração atual de jovens quando pensarmos em representatividade.

Distopias feministas no cinema

Há alguns filmes de ficção científica ou de ação que contem elementos feministas. São geralmente produções com protagonistas mulheres que levantam questões sobre gênero, reprodução e poder político. Ellen Ripley da série Alien e Sarah Connor da série O Exterminador do Futuro são exemplos disso. Matrix, Jogos Vorazes e até mesmo V de Vingança são exemplos de filmes de ação recentes que também tratam essas questões. Tank Girl, apesar de não ter feito tanto sucesso, trabalha de maneira muito boa questões paralelas com relação a sexualidade das mulheres e as formas de dominação masculinas. O novo Mad Max também entra nesse conjunto e consegue ir um pouco mais além.

Na maioria desses filmes, a heroína feminista é solitária. É ela contra o mundo. Lutando para salvar a si mesma e também o mundo. No novo Mad Max somos apresentadas a Imperatriz Furiosa, que parece seguir esse mesmo roteiro. Porém, seu objetivo principal no momento é libertar mulheres e levá-las para viver em segurança num local comandado por mulheres. Em determinado momento, fica claro que Furiosa não tem um plano infalível. O que ela tem é uma oportunidade, dirigir uma máquina de guerra, a partir disso vai improvisando e aceitando ajuda de todos os lados que vierem. É aí que entra não só Mad Max, mas também Nux (um War Boy) e as cinco noivas, que tem nomes descritivos: Toast, a sábia; Angharad, a esplêndida; Cheedo, a frágil; Capable e The Dag. Está formado um comboio, que mais para frente ganhará o reforço do clã original de Furiosa, as Vuvalinis.

Portanto, temos não apenas mulheres buscando a liberdade, mas também unindo-se em torno desse objetivo em comum. Num primeiro momento, elas seguirão juntas em busca de um novo mundo. Porém, Max as convence que derrubar o império de Immortan Joe, pode ser mais efetivo e trazer resultados mais imediatos para uma população faminta e escravizada. Isso talvez seja o que de mais feminista o filme tenha, a ideia de não apenas libertar mulheres, mas construir um mundo mais justo e igualitário para todas as pessoas.

Como ressalta Fabiano Camilo em “Mad Max – estrada da fúria” ou A possibilidade de um mundo outro, fundado no feminino: “São os miseráveis, as crianças, as mulheres escravizadas – os oprimidos, aqueles cuja vida não tinha nenhum valor na comunidade governada totalitariamente por Immortan Joe – quem reconhecem em Furiosa e seu grupo as agentes capazes de liderarem-nos na instituição de um mundo outro, cuja comunidade política seja fundada em princípios políticos valorados como femininos”.

Novas representações da personagem feminina forte e de gêneros

Num primeiro momento, Imperatriz Furiosa é todo estereótipo de heroína forte que conhecemos: masculinizada, andrógina, assexual. Porém, novas camadas são apresentadas ao longo do filme e passamos a enxergá-la de diferentes formas. Porque, não nos interessa trocar o estereótipo da personagem feminina bibelô por uma personagem feminina forte cheia de padrões. Como diz Lady Sybylla no texto Personagem Feminina Forte: “É interessantíssimo colocar mulheres fortes na tela, mas em alguns casos parece mais um cala a boca do que representatividade. Além disso, o que é força? Como definir essa fortaleza em um personagem?”.

As cinco noivas, que num primeiro momento aparecem como anjos no meio do deserto, poderiam representar o oposto de Furiosa, mas o ponto positivo de Mad Max é que isso não acontece, não há dicotomias entre as mulheres. Furiosa nos mostra em diversos momentos que está em busca de redenção. Treinada e sabendo de suas qualidades físicas, tem como missão ajudar as cinco noivas a escapar, mas também cobra delas protagonismo, iniciativa e solidariedade. As cinco noivas, mulheres magras e com ar frágil, vão descobrindo suas aptidões, forças e como podem ser úteis ou até mesmo essenciais em momentos cruciais.

As cinco noivas em cena do filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015).
As cinco noivas em cena do filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015).

As Vuvalinis, um clã formado só por mulheres, a maioria delas idosas, apresenta mulheres independentes que sobrevivem neste ambiente de violência sem precisar da ajuda de nenhum homem. Também não são o oposto das cinco noivas, porque o filme não busca representá-las apenas como artificio de sedução, mas expande as possibilidades de todas serem guerreiras, cada uma de seu jeito. Inclusive, tanto as idosas como as grávidas participam ativamente dos momentos de conflito, apanhando e batendo.

Ao encontrar as Vuvalinis, a noiva The Dag questiona uma das idosas sobre a razão dessas mulheres também matarem pessoas, se elas não poderiam fazer diferente. A resposta é que no passado elas não precisavam matar, mas agora o fazem para sobreviver. Se antes existia um lugar em que eram iguais, hoje já não existe mais e elas devem lutar por isso. As Vuvalinis parecem estar ali para nos lembrar que as questões de gênero precisam ser vencidas e é preciso lutar para que — quem sabe um dia — elas possam voltar a ter o mesmo lugar que tiveram. Isso fica claro quando Mad Max e Nux são avistados e elas já se sentem intimidadas, mas Furiosa logo aponta que eles são confiáveis. Isso remonta as várias vezes em que mulheres não sentem confiança em certas situações com homens cis e heterossexuais, pois muito das coisas que elas tinham, da confiança que carregavam lhes foram tiradas por alguns motivos. Furiosa vem para lembrar, de um outro lado, de uma outra posição, que ainda é possível acreditar e confiar.

Na cidadela de Immortan Joe, as mulheres são exploradas de diversas maneiras. Imperatriz Furiosa é mais uma de suas armas de guerra humanas. As noivas são escolhidas a dedo apenas para trazerem ao mundo filhos machos alfas perfeitos. Há uma idosa responsável por cuidar delas, que moram dentro de um cofre. Com a escassez de recursos, o leite materno tornou-se um dos alimentos mais valiosos, para obtê-lo, Immortan Joe escraviza mulheres presas a máquinas onde são ordenhadas.

Giza Sousa em Mad Max: Estrada da Fúria (Feminista) aponta sobre essas questões: “Como uma boa distopia deve fazer, Mad Max nos faz pensar na forma como validamos o consumo de produtos derivados dos animais. E se fôssemos nós a receber o tratamento que oferecemos aos animais? E por fim, as mulheres neste futuro distópico também são encaradas como um recurso, uma mercadoria. Mas não são também neste nosso mundo atual? A distopia de alguns é a realidade outros, a escravidão sexual é uma realidade em nosso mundo, ela acontece diariamente em todos os lugares, obviamente de forma ilegal mas acontece. Está aí uma das raízes da força feminista do filme, revelar como a objetificação das mulheres está ligada à violência propagada contra elas”.

A relação complexa entre as “noivas-parideiras” e os “filhos-soldados” também merece ser observada. Quando elas insistem que não devem haver mortes desnecessárias, afinal eles são filhos de outras delas na mesma condição e foram treinados para aquela violência. A representação da mulher como “aquela que provê a vida” está presente tanto nas noivas, como no fato de que as Vuvalinis carregam um estoque de sementes para plantar e ter comida em um novo mundo, mas isso não é essencializado ou sacralizado como a verdadeira função das mulheres.

No campo das representações de gênero, Otavio Cohen em Como a mitologia e o feminismo fizeram de Mad Max: Estrada da Fúria o melhor filme de ação do ano, destaca: “Falar de temas feministas no reboot de uma franquia que cheira a gasolina e pólvora sem nem mesmo citar o termo “feminismo” é um grande serviço social. Ao longo do filme, Max perde o cabelo, o carro, o sangue, o protagonismo – e tantos outros símbolos de virilidade. Mesmo assim, continua sendo um herói corajoso e habilidoso. Max não é menos homem por acreditar na causa de Furiosa. E ninguém na plateia será menos homem por gostar de um roteiro que resiste à tentação de tornar Furiosa e Max um casal ou de mostrar a protagonista feminina de um jeito sensual”.

Outras interseccionalidades: loucura e capacitismo

O capacitismo é tema presente no filme, tanto em aspectos relacionados a deficiências físicas como mentais. No que tange às questões físicas, vê-se duas proposições diferentes. Por um lado, a busca da perfeição física presente no discurso de Immortan Joe, que busca produzir filhos perfeitos para seu exército. Tal propósito parece se relacionar com o fato de que ele e seus dois filhos possuem deficiências físicas, escaras e doenças respiratórias, as novas gerações apresentam doenças como tumores. A manutenção do poder também passa por perpetuar o corpo físico ideal.

Por outro lado, em nítida oposição discursiva, vê-se a deficiência física apresentada pela Imperatriz Furiosa que tem um braço mecânico, mas que não depende dele. O braço mecânico é útil, porém ela pode prescindir dele e viver tranquilamente sem. Tendo só metade de um braço, ela não tem dependência da ferramenta que traria mais “normalidade” para seus movimentos ou que a ajustaria a uma padrão estético mais normalizado e aceitável. Furiosa também não demonstra estar triste ou abalada quando não está usando o braço. Não há traumas ou o desejo de ser fisicamente como os outros.

Imperatriz Furiosa em cena do filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015).
Imperatriz Furiosa em cena do filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015).

Quanto aos aspectos relacionados à loucura e à forma de lidar com ela, também identifica-se uma certa polaridade. Os War Boys, o exército de Immortan Joe, são uma ótima representação do que um poder totalitário pode fazer com nossa racionalidade. Eles são jovens guerreiros kamikazes, que sonham com o paraíso dos “Portões de Valhalla”, gritam o tempo inteiro: testemunhem! E xingam-se de medíocres. Também carregam outros simbolismos, como a tinta prateada nos dentes, evidenciando o aspecto de caveira que já possuem. Cada um estimulando a loucura do outro, cada um celebrando a morte como o grande momento de suas vidas, numa constante adrenalina em que existem até bolsas de sangue vivas. Eles são movidos por uma esperança estéril e irrefletida, não ponderada nem personalizada.

Tal comportamento difere dos protagonizados por Mad Max que logo nas primeiras cenas se questiona se é ele quem está louco e se todo mundo está louco. Ele é um personagem perturbado por lembranças do passado que volta e meia enxerga seus fantasmas. Não segue impassível diante da morte daqueles que deveria proteger. É um personagem atormentado e nunca sabemos o que realmente o leva a fazer tudo para sobreviver. Diferente de outros protagonistas masculinos que possuem um psicológico inabalável, Max é diferente. Foi afetado por seu passado e continua seguindo.

O nome da Imperatriz Furiosa não está no título do filme, mas há uma divisão grande de protagonismo entre ela e Max. Os dois são obrigados a reconhecerem suas próprias limitações em alguns momentos e, mesmo tendo personalidades independentes e autônomas, se veem tendo que ser flexíveis em determinadas situações para sobreviver. Em determinado momento, Max diz a Furiosa que “a esperança é um erro”. Cada um busca sua redenção dentro de sua própria loucura.

Não somos objetos!

Em determinado momento, Angharad fala para uma das outras noivas que recebeu uma ordem de Max: “você não tem que obedecê-lo”. Em outro momento de fuga, uma das noivas grita a seus perseguidores: “não somos objetos!”. São exemplos de diferentes momentos em que as mulheres reivindicam seu protagonismo e sua autonomia. Outro ponto de vista feminista positivo no filme é apresentar essas mulheres como catalisadoras de suas percepções. Não é Furiosa quem dá poder as noivas, ela as tira da prisão para que corram com suas próprias pernas.

Essa agenda feminista do filme não surgiu à toa. Como descobrimos pelas notícias sobre a produção, foi pensada desde o início. Eve Ensler, autora do livro e da peça “Monólogos da Vagina” e fundadora do V-Day, uma organização que luta contra a violência a mulheres e crianças prestou consultoria ao filme, especialmente para forjar as personagens das noivas. E, o diretor George Miller contou em entrevista que pediu a Margaret Sixel — sua esposa — para editar o filme, justamente para não parecer um filme de ação qualquer. Além disso, temos importantes mensagens nas entrelinhas sobre a importância de preservar, mas também de democratizar o uso da água e de outros recursos, os efeitos da escravidão e da complexidade de certos elementos em ambientes de guerra e escassez.

Charlize Theron, que interpreta a Imperatriz Furiosa, também falou em entrevista sobre o feminismo do filme: “Eu senti isso muito forte quando terminamos de gravá-lo”, contou a atriz ao Entertainment Weekly. “O que tocou forte nele é a importância que as mulheres têm nesse mundo de sobrevivência. É perceptível como a geração mais nova de mulheres foi representada, minha geração foi representada, e essa geração de mulheres mais velhas foi representada. Fiquei feliz de ser uma garota com peitos e fazer parte disso”, explica.

Então, Mad Max: Estrada da Fúria é um blockbuster melhor do que a média que vemos surgir todo ano. Há outros tantos aspectos no filme que podem ser analisados como os detalhes do regime totalitarista de Immortan Joe, sua associação com outros líderes totalitários de outras cidades, o fato de em determinado momento alguém dizer que toda confusão foi causada por um problema de família ou o fato dos exército dos War Boys serem extremamente brancos, nos levando a pensar no conceito de raça pura. Há também análises comparativas com os filmes anteriores. Esse novo Mad Max não é uma revolução feminista, mas está trazendo bons questionamentos.

Ainda há uma série de problemas que merecem críticas como a falta de protagonistas, figurantes e coadjuvantes que não sejam brancos e heterossexuais. A diversificação étnica e racial fica restrita as noivas e as Vuvalinis, que apresentam diferentes tons de cabelo além de fenótipos negros e indígenas. Num ponto que chega a parecer estranho por não se encaixarem na falta de diversidade do resto do elenco. Por isso, apesar de ser um filme empolgante, divertido e com várias perspectivas feministas, fica aquela sensação de que ainda não existe espaço no cinema para a interseccionalidade. Quando se consegue trabalhar melhor uma diversidade as outras acabam ficando de lado. Apostamos que com mais mulheres dirigindo, produzindo e editando filmes, alcancemos cada vez mais diversidade, até mesmo em Hollywood.

+ Sobre o assunto:

[+] ‘Mad Max: Estrada da Fúria’ é o filme de ação feminista que você estava esperando. Por David Perry na Vice.

[+] O que feministas e machistas não perceberam sobre Mad Max. Por Victor Lisboa no Tempo de Consciência.

[+] Então quem matou o mundo? Por João Vítor Pessanha na Revista Fórum.

[+] “Mad Max: Estrada da Fúria” é o filme feminista que Hollywood estava precisando. Por Gustavo Abreu no IG.

[+] Entrevista em inglês com a atriz Charlize Theron: Charlize Theron on Mad Max: Fury Road, being part of a feminist action movie.

[+] The Women Pull No Punches In Fiery, Feminist ‘Mad Max’. Por Mandalit del Barco no NPR.

[+] Mad Max: Fury Road’s George Miller: “Initially, There Wasn’t a Feminist Agenda”. Por Jill Pantozzi no The Mary Sue.

Estamira Vadia

Texto de Jamil Cabral Sierra.

Dias atrás, em 27 de julho, aconteceu no Rio de Janeiro a Marcha das Vadias. Nesse mesmo mês, em 13 de julho, as vadias de Curitiba também foram para a rua marchar, e lá eu estava, fucsiamente, com todas elas: as mulheres, cis e trans*, as monetes pintosas, as bilus afeminadas, as passivas provocadoras, as sapatonas destemidas, as pervertidas de toda sorte, as vadias… No domingo, 14 de julho, pós marcha de Curitiba, ainda inebriado pela belezura dos corpos que serviram de plataforma política para a visibilização da opressão a que estamos, todxs nós, submentidxs, fui ver “Estamira”, peça que estava em cartaz na cidade. A vida de Estamira já é conhecida por muitxs, o documentário que retrata sua experiência fez muito sucesso e é difícil alguém mais ou menos bem informadx não conhecer sua história. Portanto, nem a contarei aqui.

A atriz Dani Barros na peça "Estamira - Beira do Mundo". Foto de Luis Alberto Gonçalves.
A atriz Dani Barros na peça “Estamira – Beira do Mundo”. Foto de Luis Alberto Gonçalves.

O que me interessa mesmo é dizer que Estamira é também uma vadia e bem poderia ter estado lá, nas ruas do Rio ou de Curitiba, com todxs nós. O que une Estamira à Marcha das Vadias? Em ambos os casos temos o corpo como lugar do escândalo, e a vida como possibilidade de revelação escandalosa da verdade. Não a revelação de uma verdade divina, transcendental, inscrita no plano do além-da-terra. Ao contrário, é a revelação da verdade dessa vida mesmo, de suas mazelas, de suas contradições e desaforos, de suas opressões.

Não à toa, a peça começa com o seguinte diálogo da personagem (magistralmente interpretada pela atriz Dani Barros, merecedora de todos os prêmios que levou para a casa): “Eu, Estamira, recebi uma missão, de dizer a verdade doa a quem doer”. Essa missão, diria eu, é também de todas as vadias que têm saído às ruas, por diversas cidades do país, para denunciar o regime patriarcalista e heterocapitalista que tem, cada vez mais, sentenciado milhares de vida ao extermínio e expurgado de nós o direito aos nossos corpos, sejam eles como forem; o direito aos nossos prazeres, sejam eles com quem forem; o direito aos nossos amores e afetos, sejam eles para quem forem.

Nesse sentido, Estamira como vadia, ou se quiserem, as vadias todas como Estamiras atualizam a pista foucaultiana que nos permite pensar formas de vida contemporâneas como um traço de posteridade do cinismo descrito pelo autor em seu curso “A Coragem da Verdade”. Seja na experiência da loucura em estado nu de Estamira, seja na experiência dos corpos nus das vadias, o próprio modo de viver a vida e expô-la em público de maneira franca e provocativa nos convida a pensar essas experiências como uma possibilidade de criação inovadora, um projeto ético-estético-político capaz de desenvolver uma outra relação consigo mesmo e com xs outrxs, instaurador de um fazer político que se materializa no próprio corpo: o corpo, ele mesmo, como a manifestação da verdade por meio do escândalo em carne viva.

Nesse rastro, existências como a da catadora de lixo do Jardim Gramacho ou das vadias da rua escancaram uma relação muito pertinente e necessária, especialmente nos dias atuais, isto é, a relação entre uma certa atitude contestatória com um determinado modo de viver a vida. Aliás, esta-é-a-mira: fazer de nossos corpos, prazeres e amores, portanto fazer da vida, o lugar de manifestação e provocação política para que, cinicamente, possamos ter a chance de criar e potencializar novos modo de viver. E, me parece, tanto Estamira quanto as vadias têm nos ensinado a trilhar esse caminho.

Jamil Cabral Sierra.
Jamil Cabral Sierra.

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Jamil Cabral Sierra é professor da UFPR, pesquisador na área de Gênero e Diversidade Sexual e, como não canto, não danço, não atuo, não toco nenhum instrumento, não pinto… nem bordo (só às vezes), não desenho e não esculpo, resta apenas inventar-me na/pela escrita. Uso os caracteres como arma de guerrilha.

Debora Diniz: uma conversa e tantas outras perspectivas

Texto de Marcelo Caetano e Catarina Corrêa.

No ensolarado dia 13 de Janeiro, no bairro Sudoeste da capital federal, Marcelo Caetano e Catarina Corrêa se encontravam  com Debora Diniz, cientista social, professora da Universidade de Brasília, mulher, feminista, para realizar uma entrevista em nome das Blogueiras Feministas.

Debora Diniz. Foto: Rodrigo DalcimnUnB Agência

Detentora de um currículo invejável, não sabíamos muito bem o que nos aguardava. A ansiedade era grande; as expectativas eram muitas, e a curiosidade, enorme.  Os 40 minutos que nos foram prometidos para a conversa, foram agradavelmente tranformados em mais  de uma hora que, aliás, compreendia também a sabatinagem e conversa tranquila, enquanto conhecíamos seu ambiente de trabalho.

Falar de Debora Diniz não é uma tarefa fácil: são muitas as suas linhas de pesquisas, são variados os seus títulos, é extensa sua produção. Manter o foco da conversa era um grande desafio, uma vez que tudo nos parecia interessante e digno de um longo debate. Começamos questionando-a sobre sua trajetória, como chegou ao lugar em que hoje se encontra. Sua resposta era plena de paixão, embora nos levasse a várias outras divagações possíveis e desejáveis, mas que, em função do tempo, foram suprimidas e tivemos que ser comedidos. O tema das mulheres, mais especificamente do aborto, é recorrente e, provavelmente, aquilo que lhe rendeu mais projeção, não apenas no meio acadêmico. Contudo, vale notar que não fala das mulheres como ouvimos por aí: talvez, até sejam mulheres que vemos por aí, que poderíamos encontrar em um ônibus ou na fila da padaria, mas são as mulheres que não seriam ouvidas de outra forma, mulheres silenciadas pelas contingências diárias, pelos percalços da vida que as fizeram mudas até então.

Tratar do aborto a partir da questão do aborto de fetos anencéfalos foi uma escolha política, um passo estratégico e bem calculado, uma vez que sempre esteve ciente dos “desafios argumentativos” que o tema carrega consigo. Nossa sociedade ainda não estava (já está, hoje, no momento presente?) pronta para enfrentar face a face o dilema moral do aborto, para aceitar que esta é uma escolha da mulher sobre o que fazer com o seu corpo. Desenharam-se os primeiros passos rumo a esse entendimento, mas partindo de um pressuposto anterior. Ainda assim, questiona: “Por que obrigar uma mulher a ficar grávida contra sua vontade?”

Assita aqui ao documetário “Uma História Severina”

Reiterando a diferença entre o valor político e o caráter de verdade (ou de vontade de verdade)  – como já debatemos em um outro post – , Debora Diniz trata do feminismo em sua vida de uma forma peculiar. Pelas suas práticas e posicionamentos, diríamos que Diniz é uma mulher feminista. Todavia, ela não considera que isto seja uma qualidade, um adjetivo: “feminismo é substantivo”. Hoje, entende que já pode colocar seus posicionamentos mais livremente, pois tem seu lugar de fala assegurado e respeitado; em outras circunstâncias, era preciso dar um passo para trás para fazer-se ouvida, para conquistar a atenção dos que se dispunham a debater com ela. Dar um passo atrás em não se afirmar feminista em determinados espaços era uma manobra política, era a garantia da possibilidade de diálogo que pretendia transformar de dentro espaços aprioristicamente fechados ao feminismo.

A questão da loucura tem exercido um fascínio particular nos últimos tempos. Debora Diniz parece ser levada por interesses ‘flutuantes’; os temas vão surgindo e acabam por lhe fisgar, cada um de maneira particular, mas todos de forma muito intensa. Entender os desafios que a loucura coloca sobre nosso corpo social ainda hoje, diante das pressões, controles e repressões, é seu mais novo desafio. Questiona o controle da ‘anormalidade’ a partir do uso do castigo: como e para que punir o ‘desviante’ quando nem muita certeza temos sobre seu desvio? O castigo como forma de conter as diferentes expressões e representações não nos parece fazer muito sentido, mas é isto que a pesquisadora tem observado que se dá na realidade concreta; nós sabemos mesmo que é isto que acontece, mas continua a não fazer sentido, ainda que empiricamente observado.

Diniz sabe da importância de sua produção audiovisual e reconhece que é esta que, mais do que seus artigos, tem atraído estudantes até ela. Um dos trechos de seu documentário “A Casa dos Mortos” já foi visto mais de um milhão de vezes no YouTube. Ainda que a cena específica reproduza o estereótipo de alguns virais em que se ri da ‘loucura’ e falta de jeito alheios, o número é significativo. Um público que não seria alcançado pela produção acadêmica tradicional está sendo paulatinamente fisgado. Eventualmente, acabam por ver o documentário na sua integralidade e acabam, também, por conhecer outras produções, ou mesmo outros materiais que não são da autoria de Diniz, mas que contribuem para o debate.

"A Casa dos Mortos": documentário sobre a situação de um manicômio judiciário

No momento, os planos e projetos são muitos. A questão da homofobia é uma que tem se apresentado fortemente. A pesquisadora nos contou que acredita mesmo que a história a ser contada seria a das travestis, o segmento mais marginalizado e violentado da população LGBT. Porém, entende que esta é uma história que o público ainda não está pronto para ver: ela conta aquilo que lhe interessa, mas também não deixa de pensar politicamente, pensar naquilo que mais pode atrapalhar do que ajudar nos avanços políticos.

A conversa foi longa e proveitosa. Muitas histórias podem e ainda serão contadas. Muitas ideias, muitos projetos. Importante é dizer que Debora Diniz tem alcançado espaços de difícil acesso, espaços que dificilmente seriam preenchidos por outras pessoas. Gostaríamos, finalmente, de agradecer sua disposição em nos receber e por dar voz aos que são cotidianamente calados;. algumas vezes, a mordaça do silêncio é tão grande que não há nem como pedir por voz e, então, precisamos de alguém que nos dê esta voz, mas que não se precipite a querer falar por nós.

Entrevista de Debora Diniz a UnB Agência: “A pergunta sobre o início da vida é uma armadilha para o debate sobre aborto no Brasil”.