Por que votar em meio à crise política?

Texto de Priscilla Brito para as Blogueiras Feministas. 

A concretização do golpe parlamentar no Brasil coincidiu com o início da campanha para as eleições municipais. O cenário aterrador do círculo de homens engravatados que formam o machistério de Michel Temer incentivou muitas feministas a fazer campanha para candidaturas que defendam os direitos das mulheres, o que significa que no momento de maior crise das instituições democráticas, saímos às ruas pedindo que as pessoas voltem a confiar nelas.

É como se vivêssemos exatamente o contrário do que acontece no livro “Ensaio Sobre a Lucidez” (1995), de José Saramago, quando a maioria das pessoas de uma cidade imaginária decidem ir às urnas para votar em branco. A chamada “epidemia branca” causa alvoroço entre governo, polícia e mídia, e coloca sob intenso questionamento a fragilidade da democracia, pois a vida segue, a despeito das suas instituições e rituais. Já por aqui, nessa realidade chamada Brasil, o governo Temer assumiu sem votos para legitimá-lo, mas com apoio de setores poderosos como o da mídia e do empresariado, que apostam num pacote de medidas para frear a crise econômica. Enquanto isso, “Fora Temer” virou saudação, para em seguida lançar como bote a ideia de que podemos mudar a política, se as prefeituras e câmaras se tornarem mais diversas e plurais.

No romance de Saramago, um dos ministros sugere que o voto em branco é uma manifestação da lucidez das pessoas. E, no nosso caso, qual seria o oposto? Por que estamos declarando votos, saindo às ruas, organizando listas de candidaturas de mulheres feministas, elaborando a campanha pelas Diretas Já, quando só no sudeste duas capitais tem grandes chances de eleger como prefeitos candidatos fundamentalistas?

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