Uma carta para todos os machistas que já conheci

Texto de Jenifer Lucarelli para as Blogueiras Feministas.

“O silencio mantém o status quo. Eu decido falar. Eu decido me levantar.” Isatou Touray*

A dor corroeu meu corpo, minha alma, minha mente e coração. O seu machismo meu deixou em cacos, me desculpei por coisas que não deveria me desculpar, seu machismo transcendeu meu corpo. Feriu, ardeu e queimou todas as memórias boas que tinha sobre você. Talvez, porque eram fantasiosas da minha parte.

Idealizar demais alguém foi meu erro, pensar que você cabia em mim, você é pequeno e eu sou uma imensidão. Qualquer sinal de doçura vindo da sua parte, um olhar, uma mensagem bonita, um elogio, sanava de alguma forma toda a grosseria. Como aquele agrado que a gente recebe depois de um tapa.

Você provavelmente foi criado num lar onde a mulher é menosprezada e submissa, mas o mundo aqui fora não é o seu lar, existem outros indivíduos com pensamentos diferentes e valores também, a mulher não é sua submissa, não é seu objeto de prazer e não é sua serva.

Seu círculo social pode muito bem concordar com suas ideologias machistas, mas desumanizar e objetificar não é o correto, é cruel e deixa marcas muitas vezes que não se apagam em quem sofre com isso.

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Como minha avó contribuiu para o meu feminismo

Texto de Débora V. Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Desde que me lembro de mim, ouvia histórias que pairavam no ar sobre a violência do meu avô, como batera durante décadas, desde o início do casamento, na minha avó, por ciúme, “porque a amava muito”, ouvi muitas vezes. “Ela era tão bonita…”, que talvez ele tivesse medo de a perder, pensavam. Batera também e indiscriminadamente nas filhas e filhos, quando não correspondiam ao seu quadro de valores.

Ele nunca me bateu, nunca gritou comigo, nem precisou, pois o terror familiar velado era tal, que eu sempre me comportei, nunca falhei em nada, não fazia barulho. Podem pensar que ele era um monstro, mas eu não o via assim, nem vejo hoje. Sabe… é que o problema de demonizar os agressores não ajuda em nada a causa, eles são apenas pessoas, com características positivas e negativas, fazem também coisas boas, como más. A questão aqui é a seguinte: são seres humanos que com as suas coisas más danificam irreversivelmente outros seres humanos, que, à luz da atualidade, cometem CRIMES e devem ser responsabilizados social e juridicamente por isso. Não importa se são “boas pessoas”, se “ninguém diria…”, se praticam a caridade… Num dado momento violaram o espaço mental e físico da outra pessoa e ultrapassaram o penúltimo limite da condição humana, o último será obviamente o homicídio/feminicídio.

Quando eu nasci ele já não lhe batia, mas chegou a espancar as filhas adolescentes, como espancou friamente os filhos mais velhos durante décadas, quando estavam sob a sua alçada, porque, mais uma vez, não foram de encontro ao seu quadro de valores.

Ela era a criatura mais bondosa que eu tive oportunidade de conhecer. Numa análise superficial, poder-se-ia dizer que ela era submissa, que devia ter fugido quando era nova, que incentivava outras mulheres a “aguentar”, como ela também tinha aguentado (como lhe ensinaram desde tenra idade). Mas eu vi mais do que isso.

É preciso dizer que ela nasceu e viveu num tempo em que não era possível nenhuma dessas soluções, em que estava completamente dependente financeiramente. E, para além de tudo isso, ela amava-o e, infelizmente, acreditava que o amor era mais importante.

Como disse antes, eu vi mais do que isso, eu vi uma mulher que dentro de todas as limitações contextuais, culturais, sociais, disse sempre o que pensava, mesmo que isso implicasse ser batida, mesmo que isso implicasse ser psicologicamente abusada, como eu assisti muitas vezes com os meus 4, 5 ou 6 anos. Que professou sempre aquilo em que acreditava até à morte, que cedeu em muito mas nunca nos seus ideais pessoais, custasse isso o inferno que custasse. Dizia o que pensava, não importa agora se eu concordaria ou não com ela, o que interessa é que ela era corajosa, valente e defensora dos seus ideais. Sei que ela nunca se iria considerar feminista, até porque as suas crenças religiosas nunca o permitiriam, mas foi isso que eu vi ali.

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“Amamos mulheres independentes”. Amam? Até que ponto?

Texto de Pamela Sobrinho para as Blogueiras Feministas.

Ontem minha mãe me disse: “Tenho dó do seu futuro marido, você só pensa em trabalhar”. Fiquei assustada, não imaginava minha mãe me falando uma frase dessas. Reconsiderei, minha mãe tem os reflexos de uma sociedade machista e patriarcal que acha um absurdo uma mulher trabalhar muito.

Às vezes conversando com amigos ou até alguns caras com quem saio, eles dizem: Amamos mulheres independentes. Amam? Até que ponto?

Uma vez um cara me dispensou porque eu era bem sucedida no meu trabalho e ele não. Outra vez disse que a um cara que eu tinha saído dizendo que estava tranquila, saindo pouco e ele me disse: “Agora sim podemos voltar a sair”, é claro que eu não voltei a sair com esse cara e pouco me importei a se a masculinidade do outro foi afetada porque meu salario é maior que o dele.

Esses homens amam mulheres independentes porque talvez elas não tenham amarras, não tenham preconceitos, sejam livres e paguem metade da conta, mas na hora de assumir um relacionamento, eles estão preparados para tanta liberdade?

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