Quando a mãe vai embora

Na supersérie Os Dias Eram Assim, o abandono familiar de Monique (Letícia Spiller) deixou os internautas indignados.

Texto de Jennifer Frank Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

A supersérie da Rede Globo, Os Dias Eram Assim teve sua passagem de tempo e o desfecho de uma das personagens tem recebido bastante críticas nas redes sociais. Monique, interpretada por Letícia Spiller, é uma mãe que sempre se esforçou para cuidar dos três filhos, vê-los bem e feliz. Uma esposa que sempre esteve ao lado do marido, Toni (Marcos Palmeira) e fez o que pode para manter seu casamento vivo. Na cena em que foi ao ar no dia 06 de junho, ela foi embora com o amante, Chico (José Loreto).

O fato dela ter um amante já foi motivo o suficiente para a personagem receber críticas, afinal, trata-se de uma mulher casada, com filhos grandes e criados. Filhos que ela sempre esteve ao lado, incentivando a persistirem em seus sonhos, como o de Caíque (Felipe Simas), que quer fazer uma loja de pranchas de surf na garagem do pai sem carro, que só utiliza o local para guardar coisas velhas. Além disso, Toni acha a ideia do filho mais velho uma bobeira. Em uma das cenas, ele até fica bravo com sua família por todos terem escondido dele que Caíque usou a garagem para tentar começar seu negócio. Nervoso por conta da aprovação do pai, o garoto erra o processo de construção de uma prancha e Toni reforça sua ideia de que a loja do filho é besteira. Já a mãe, mesmo depois de fugir, ainda deixa dinheiro para ele investir em seu negócio (no entanto ele recusou).

No começo da supersérie, Monique e Toni eram um casal comum, tomavam decisões juntos, discutiam ora ou outra (as brigas aumentaram na segunda fase), mas também tinham momentos de intimidade, sempre partidos da iniciativa da mulher. Mesmo cansada por cuidar dos filhos, buscava uma maneira de se dedicar ao marido, que também estava cansado por causa do trabalho ou de jogar futebol com os amigos. Ela via esse cansaço e diversas vezes sugeriu que fizessem uma viagem para relaxar, com um dinheiro que esposo tinha guardado. Essa viagem nunca aconteceu, pois Toni pediu demissão de onde trabalhava para seu irmão Arnaldo (Antonio Calloni) e com o dinheiro comprou um ponto para montar um negócio próprio. Ele tomou essa decisão sozinho, sem consultar sua mulher e não incentiva o filho a fazer o mesmo que ele, montar seu negócio.

Na passagem de tempo, o amante da personagem já fora apresentado ao telespectador e tentava convencê-la a fugir com ele numa viagem, a que Monique sempre pediu ao marido. Durante os capítulos, era nítido a mudança de Toni, mas nas redes sociais, os julgamentos eram apenas a respeito da atitude de sua esposa. Naquela época, década de 70 a 80, o abandono paterno já era grande. Até hoje muitos filhos foram e são abandonados pelo pai, deixados com a mãe. Há casos em que a paternidade é assumida, por obrigação. Alguns pagam pensão, também por que são obrigados, porém é a mãe quem cria sozinha.

Monique cuidou dos filhos com a ajuda do marido e se dedicou ao casamento, mas a traição e o abandono dela só chocam por ser uma mulher. Ninguém espera que a matriarca abandone a família. E se fosse ao contrário, se Toni tivesse traído a esposa, deixado os filhos e fugido com a amante? E se fosse Monique quem tivesse se tornado uma esposa e mãe ranzinza, estaria tudo bem para o público? Tramas deste tipo já foram abordadas diversas vezes, inclusive na própria emissora e os internautas não ficam tão chocados. A surpresa é por se tratar da mãe, de uma mulher. As críticas a personagem de Letícia Spiller deveriam se aplicar a casos contrários, com os pais, os homens, tanto nas produções fictícias quanto na vida real.

Quando a mulher é abandonada, sobram motivos para tentar justificar o porquê dela estar sozinha e no final, elas são guerreiras por criar os filhos sem uma figura paterna do lado. Todas são guerreiras, até Monique que lutou pela família e aguentou um marido que, de repente, ficou chato. Seus filhos estão grandes e criados e ela fez a viagem que tanto queria.

A imagem que estão tendo de Toni é de coitado, traído e abandonado pela mulher, mas se fosse ao contrário, ainda que dada como guerreira, Monique seria julgada do mesmo jeito só por ser mulher. Ela foi curtir com o amante, já que o marido não quis. Quantos pais vão curtir e as mães ficam com os filhos? Em Os Dias Eram Assim os papéis foram invertidos, mas não é nada de extraordinário e novo reproduzido na televisão. Quando este papel é interpretado por uma figura masculina não vejo os internautas tão espantados como aconteceu com a trama de Monique.

A mídia mostra muita traição em suas produções, nenhum tipo de traição é válida, mas a sociedade se choca quando a mulher faz um papel que estão acostumadas a ver em um homem. Pior, relevam. Já a mulher sai como a errada nas tramas e na vida real.

Autora

Jennifer Frank Rodrigues formou-se em jornalismo em 2016 e segue sua caminhada sem desistir, sempre em busca de aprendizado e o melhor para sua vida. Ama assistir séries, filmes e novelas e fazer comparação com a vida real.

Imagem: Letícia Spiller como Monique em cena da supersérie Os Dias Eram Assim (2017), Rede Globo.

Carta para meu amigo artista

Texto de Laís Ferreira para as Blogueiras Feministas.

Meu querido amigo artista,

Hoje eu lhe escrevo com as costas doendo, mil ideias, a lista de tarefa que só aumenta e a sensação que a gente nunca fez muito. Você sabe, quem inventou que isso de “ser artista” é fácil é porque, obviamente, nunca tentou. Mas sabe, meu amigo, acho que você possa ter aproveitado um pouco mais desse lugar tão privilegiado que criaram para os artistas: alguém que cria, que pensa, que põe no mundo algo que não existia antes. Aproveitado até muito, eu diria. Porque, meu amigo, eu preciso te dizer: você é homem. Você, meu amigo, achou que, por ser artista, deveria ser compreendido. E aí, meu amigo, você fez como todo mundo privilegiado faz: não olhou, de verdade, para os outros. E se esse outro for mulher… Vixe, meu amigo, eu só consigo te imaginar forçando tudo que a ordem do seu desejo, desse mundo onírico que esses deuses-artistas-fabricados levam podem pedir: o sexo do seu jeito, as ideias do seu jeito, o trabalho, o seu, sempre maior. Sabe, meu amigo, ser artista não te faz menos suscetível a nenhuma doença: esse lugar de deus que você quis criar não é tão forte assim. Você pode contrair doenças sexualmente transmissíveis como qualquer pessoa que, pela vida, só pode criar o jeito de chegar até o fim do dia. Então, meu amigo, esse seu desejo não é especial assim não. Não, meu amigo, você não pode pressionar qualquer mulher para transar sem camisinha e isso não será perdoado pelo seu grande raio iluminador: esse ego é seu, não uma blindagem das vicissitudes do mundo. E, veja só, meu amigo: não é possível dizer que o sexo, tão perto da vida e da morte, tão próximo a pulsão da arte, deve circular em torno do seu tesão. Porque, meu amigo, veja só, outra vez: ser artista não te inibe de ser gente. E, deixa eu te contar: uma mulher também deseja. Então, meu amigo, eu preciso te dizer que tesão, sexo, não é só seu: não é para ter, nas mãos de uma mulher, uma personagem para o que você criou. Porque, veja uma novidade: mulheres também criam. Na cama, em seus sonhos, em seus desejos, nas suas angústias. Então, meu amigo, preciso te dizer: nem mesmo a sua fama pode passar por cima disso. Porque ser artista não te inibe de ser gente. Não te inibe de ter consequências sobre os seus gestos, não te protege de nada. Na verdade, eu preciso te contar: ser artista é um trabalho. Um trabalho. E, por isso, eu preciso te dizer: há mulheres também nesse mercado. Mulheres que criam, que trabalham, que estudam. Muitas mulheres. E, eu preciso te dizer, meu amigo, com sensibilidades e ideias às vezes mais potentes que aqueles que o signo do privilégio masculino ajudou a chegar no mundo. Então, meu amigo, não pense que uma mulher precisa de você para alguma coisa. Ela não precisa não, meu amigo. E mais, ela não precisa trabalhar com você para adquirir experiência. Ela tem um mundo de oportunidades e desafios pela frente, para enfrentar do jeito que a vida permitir agora. E não, meu amigo, uma mulher não precisa de alguém para inseri-la em nada. Tampouco tem menos potencial. Acontece, meu amigo, que as mulheres artistas tem mais dores nas costas porque, em momentos de trabalho, precisam mostrar o que sabem duas vezes. Porque, meu amigo, você é pequenino. Acha que é grande, mas morre de medo de entender que ser artista não te inibe de ser gente, não te faz diferente e, veja só, uma mulher pode trabalhar como você. Então, meu amigo, mude: se ser artista é algo tão iluminado assim, destrua, com as mãos em gestos, as trevas do seu machismo e sexismo.

Autora

Laís Ferreira é escritora, pesquisadora, jornalista e fotógrafa. É autora de Caderno de Bolsa (Chiado Editora, 2015) e Canções do Porto e do Mar (Multifoco, 2017). É editora da Revista Moventes.

Imagem: Máscaras/Notitarde.