A força desconhecida das mulheres

Texto de Maravilha Paz para as Blogueiras Feministas.

O patriarcado é um sistema social pensado, planejado e executado pelos homens em benefício dos mesmos. Nesse sistema, o papel a ser assumido pela mulher é o de total submissão, impedindo-a de obter maior liberdade no seu modo de pensar ou agir. Dessa forma, dificilmente os homens aceitarão a chegada das mulheres ao poder o que nos leva a uma necessária revolução social. Porém, de nada adianta uma revolução feminista se as mulheres não forem as protagonistas. É fundamental que elas liderem e implementem ações necessárias para a valorização feminina e para o fim do machismo na sociedade.

Para que ocorra a consumação desta revolução feminista na sociedade é preciso a adoção de medidas práticas que empoderem as mulheres. É fácil observar que a maioria das áreas de poder e decisão são áreas predominantemente masculinas e se tornam instrumentos da subjugação das mulheres aos homens. Por conta disso, é fundamental uma maior participação feminina em cargos decisórios para que obtenhamos maior representatividade social e empoderamento, gerando a tão sonhada equidade de gênero.

Entretanto, a grande problemática enfrentada pelas mulheres são os elevados índices de violência, o que nos deixa em situação bastante vulnerável. A ineficácia do Estado em garantir uma segurança pública e medidas de proteção efetivas para as mulheres só contribui para aumentar a sensação de impunidade. É preciso ao menos minimizar esse quadro tão absurdo, aumentando a autoconfiança das mulheres e freando a agressividade desmedida dos homens agressores. Por isso, acredito que a autodefesa é uma das ferramentas que podemos usar para isso. Precisamos incentivar as mulheres a descobrirem sua força física. O uso da força sempre foi um instrumento de dominação masculina, por isso, precisa ser absorvido pelas mulheres como forma de autodefesa do gênero.

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Epidemia de sífilis, DSTs e o uso da camisinha: questão de confiança nos relacionamentos ou o machismo e outros preconceitos também influenciam?

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Apesar da necessidade da camisinha para prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) ser bastante difundida aqui no Brasil, seu uso têm diminuído por diversos fatores. As alternativas de prevenção em relações sem penetração são pouco debatidas e diversas questões morais — além da falta de observação à questões de raça, classe, orientação sexual — fazem com que determinados grupos fiquem ainda mais vulneráveis ao contágio e suas consequências. Não é a toda que uma doença como a sífilis tenha voltado a se tornar uma epidemia com um número exponencial de contágios no Brasil e no mundo. Mas, boa parte do material de divulgação desses dados se mostra bastante preconceituoso.

Como toda ação que depende de um acordo de todas as partes, muitas decisões com relação a qual método contraceptivo ou de prevenção de DSTs são consequência de relações de poder. O que isso resulta na prática? Que em relações entre homens e mulheres cis, geralmente cabe ao homem decidir pelo uso ou não da camisinha. Mesmo que a pessoa mais vulnerável às consequências negativas dessas doenças sejam as mulheres, já que lesões no canal vaginal e no colo do útero podem demorar a ser diagnosticadas dificultando a cura e até trazendo sequelas irreversíveis como: o HPV que pode levar ao câncer, a clamídia que pode levar a infertilidade e a sífilis que pode levar a malformação de fetos durante a gravidez, além é claro, do vírus HIV que não tem cura e também pode ser passado na gravidez). São os homens que costumam optar por não usar devido ao “desconforto” que seu uso gera durante as relações.

Outro dado que vejo ser ignorado quando se fala da transmissão é a falta de cuidado com a própria saúde e higiene dos homens. Números apontam que homens cis buscam menos a prevenção de doenças, vão menos ao médico e têm menos cuidado com a higiene do pênis, mas qual a consequência disso nas relações sexuais e na disseminação das DSTs? Bem, algumas que poderiam ser diagnosticadas cedo para evitar seu contágio ou potencial agravante para a saúde são simplesmente ignoradas. Isso impacta diretamente no número de contágios e até a reincidência, já que se apenas a mulher vai no médico ela pode tratar da doença e depois ser novamente infectada. Isso influencia até em casos de candidíase de repetição, por exemplo, mesmo que não seja uma DST é uma condição que pode ser sexualmente transmitida e depende do tratamento de ambos.

Existe ainda todo o falocentrismo que leva as pessoas a ignorarem o potencial de transmissão em outras formas de sexo que não envolvem apenas a penetração pênis-vagina. Diversas DSTs, como herpes, HPV e sífilis, podem ser transmitidas facilmente até no beijo se a boca tiver alguma lesão. Fora isso, há possibilidades de contaminação por sexo oral e anal, a transmissão indireta por brinquedos sexuais e, mesmo a masturbação, sem o devido cuidado com as unhas, pode gerar feridas que aumentam o potencial de transmissão de várias DSTs. A falta de atenção à essas informações faz com que as relações da população LGBT sejam apagadas ou envoltas em moralismo e ignorância.

Outro problema se dá na dificuldade do acesso à camisinha, que ainda que tenha preço baixo e uma grande distribuição pelo SUS, enfrenta algumas barreiras: seja por falta em alguns postos de saúde (e a limitação da mobilidade para a chegada nos mesmos), seu alto custo para uso contínuo, a alergia que algumas pessoas têm ao material (a maioria das camisinhas masculinas é feita de látex, no SUS todas são deste material e nas farmácias além de nem sempre existir alternativa seu custo é muito maior) e, mesmo o tabu envolto nas práticas sexuais fazendo com que muitas pessoas não busquem nunca ou de forma menos frequente que o necessário. Lembrando também que camisinha tem prazo de validade, uma camisinha velha ou mal colocada pode rasgar ou estourar.

Nesse sentido, as relações entre mulheres lésbicas e bissexuais são as mais ignoradas pelas campanhas de prevenção, existe pouco material que trate do assunto mesmo dentro das campanhas criadas pelos órgãos ligados à saúde. Os profissionais de saúde também não sabem como orientar propriamente as mulheres nestes casos. Por outro lado, o preconceito dentro e fora da comunidade LGBT faz com que se ignore o potencial de risco de determinadas práticas ou se estigmatize determinados grupos, sendo ainda muito comum o discurso que se associa o sexo entre homens gays à contaminação — por essa comunidade já ter sido a mais afetada pelo HIV, e no caso do Brasil ter voltado recentemente a ser o maior grupo de risco — ou as pessoas bissexuais serem vistas como eternos potenciais propagadores dessas doenças.

Tudo isso faz com que na maioria das vezes o único foco das ações de saúde pública voltadas para população LGBT seja o uso da camisinha. Com isso, não se abarcam as outras formas de transmissão de DSTs, além de ignorar as diversas pautas relacionadas a saúde física e mental dessa população. Outro problema é que poucos números (seja de saúde pública, comportamento ou para qualquer outro fim) são registrados sobre a população LGBT levando em conta seu gênero e orientação, o que dificulta a criação de políticas públicas ou mesmo a ação de organizações não governamentais para a prevenção. Muitos dados ainda trazem um viés de coleta e análise moralista e preconceito, o que nos deixa quase às cegas ao fazer campanhas de prevenção.

Daí, ainda vem toda a mística envolvida no compromisso com a exclusividade nas relações e a moralidade envolta na prática do sexo casual. No primeiro caso, muitas mulheres cedem à vontade dos companheiros (e até em relações não heterossexuais acaba prevalecendo uma lógica heternonormativa que gera consequências parecidas) para demonstrar que acreditam e confiam em sua fidelidade. Isso obviamente leva ao descobrimento tardio dessas doenças, porque a maioria não faz exames frequentes ou muitas vezes nenhum exame para verificar a possibilidade de algum dos dois ter adquirido algumas dessas doenças previamente, até em outros meios que não a relação sexual. Vale lembrar que DSTs também podem ser transmitidas por transfusão de sangue infectado, objetos mal higienizados, compartilhamento de seringas no uso de drogas, etc.

Isso também influencia na falta de orientação para aqueles que levam outros arranjos de relacionamento que não o monogâmico. Não existe nenhum protocolo para orientação de prevenção e tratamento de DSTs nesse caso. Um exemplo básico é quando o tratamento de alguma doença ou condição envolve a prática ou tratamento de pessoas com as quais você se relaciona. O protocolo é tratar a pessoa sozinha ou ela e o parceiro ou parceira fixos. O que a medicina entende como parceiro fixo é um mistério e nenhum profissional, bula ou material que eu já tenha visto ou esbarrado trouxe nenhuma orientação para o caso de existir mais de duas pessoas envolvidas numa possível transmissão.

No caso do sexo casual, ainda que atualmente sua prática não seja vista de forma tão negativa quanto era alguns anos atrás, ainda existe toda uma preocupação sobre a tal fama da pessoa ser reconhecida como “promíscua”. Pessoalmente, já vi casos absurdos de mulheres não quererem comprar ou andar com camisinha para não serem reconhecidas como “galinhas”, reportagens que culpam aplicativos de relacionamento pelo aumento na transmissão de algumas doenças entre homens gays e bissexuais, textos que recomendam o celibato para diminuir chances de transmissão de doenças e diversas pessoas que se recusam a fazer exames de sangue porque isso poderia “pegar mal”. O que leva inclusive a muitas delas usarem a doação de sangue como desculpa para serem examinadas.

Aliás, as orientações da própria Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre descarte e recusa da doação de “grupos de risco” ilustra muito bem como determinadas condutas e a orientação sexual são vistas na sociedade. Sexo entre homens e a prática sexual com mais de dois parceiros em um ano são vistos como potencial perigoso, enquanto sexo sem camisinha e falta de exames frequentes não é. Esse exemplo ilustra muito bem como as orientações de prevenção de DSTs são falhas. Também mostra como profissionais da área da saúde, e aqueles com poder que tomam as decisões sobre esse tipo de orientação, preferem fechar os olhos para a realidade e enxergar a prática sexual com uma lente moralista.

É fácil ver que o problema não está na prática sexual em si, mas na falta de debate, dinâmicas de poder e abuso nas relações, falta de cuidado com a saúde e principalmente preocupação e cuidado com os parceiros. Todos esses fatores impactam a saúde geral da população de diversas formas, mas em especial a população pobre, negra, indígena e LGBT — estando a população T mais vulnerável às consequências mais devastadoras — que possuem maior dificuldade ao acesso de informações e ferramentas para prevenção.

Imagem: Fevereiro de 2017. Campanha de Carnaval em Santa Catarina. Foto de Paola Fajonni/G1.

Sobre descobrir que está grávida e o que você não esperava

Texto de Heloise Alves para as Blogueiras Feministas.

Ser mulher nesse mundão machista e misógino é difícil, cansativo e desgastante. Se você decidiu lutar por uma classe oprimida, como a das mulheres, o julgamento que lhe será imposto, surgirá quinhentas vezes maior. Por isso, tornar-se feminista é como subir num palco e gritar bem alto: “Venham! Estou pronta para julgamentos”.

Mas não para por aí, quando por decisão ou pelo simples fato de que é algo que acontece (oh my god!), a mulher engravida… Pronto! Todos resolvem julga-lá e fazer com que se sintam pequenas e fragilizadas. O que ninguém pergunta é: Por que somos tão julgadas? Principalmente no período gestacional. Eis que enumerei os fatos, e sim, estão hierarquizados em nossa cultura patriarcal:

1. Se você engravidou porque planejou e tem um marido do lado, PA-RA-BÉNS-! (mas agora é só cuidar do bebê e sem reclamar, tá?);

2. Se você engravidou porque planejou e NÃO está casada. COI-TA-DA-! (prepare-se para ouvir: “quem é o pai”? Pelo menos 500 vezes por semana);

3. Se você engravidou, não planejou e NÃO tem um marido/namorado. CHA-MA-O-SA-MU-!(você será julgada até por ser má influência para outras mulheres e ouvirá mãe solteira por mais de três décadas seguidas, ok?).

Independente de qualquer uma dessas opções para a sociedade o filho é quase que 99% responsabilidade sua. “Engravidou porque quis”, “quem pariu mateus que o embale” e tantas outras frases que esquecem totalmente dos donos de espermatozoides.

A partir do momento que aparecem, os risquinhos num teste de gravidez…Pronto! O mundo da uma volta em 30 segundos até o Alaska e volta. Não é assim? Porém, quando a futura mamãe tem um parceiro colaborativo, essa fase PODE SER um pouco melhor… mesmo que tudo tenha sido muito planejado, ok? Se você for casada e o seu marido encarar a paternidade de frente em todos os sentidos, talvez sua maternidade não será solo. Porém, quando a mamãe não é casada, nem namora o pai do bebê, as coisas pioram em segundos, numa escala de zero a mil. E isso ninguém te conta.

O pai vai questionar a paternidade? SIM! Ele vai fazer com que você se sinta péssima? SIM! Ele vai querer te ajudar nessa fase? DEPENDE. (abre parênteses forte aqui, porque ajudar e aceitar são coisas diferentes). Ele vai continuar saindo por aí? Pras baladenhas no findis? SIM ! E se você mamãe, quiser sair, com neném na barriga… Hum… NÃO PODE! Diversão é só para quem não está grávida. Ele vai poder arrumar outras mil namoradas, com você grávida, sem ser julgado? SIM-SIM-SIM. Agora se você mulher, gestante, solteira, quiser arrumar uma transa com alguém legal que conheceu…Ppode não, viu? Isso é coisa de mulher promíscua, mulheres não podem ter este comportamento. E fica pre-pa-ra-da porque depois que o baby nascer, vai ser muito difícil você arrumar alguém que aceite sua situação. E se aceitar, você não deixa escapar, hein? Mesmo que ele seja um machista, só não pode é ficar sozinha.

Infelizmente isso é bem comum de se ver e ouvir. Tudo isso dói muito, mas uma hora você aprende que levantar a cabeça para o sistema e encarar o mundo, resistindo e existindo, é sim, uma das formas mais lindas e fortes de lutar por uma causa. Mães feministas existem e não são caretas, ultrapassadas ou menos inteligentes. Se informe sobre elas, vocês vão descobrir um beabá de coisas interessantes e muito conhecimento. Estamos cansadas de julgamentos, falta de informação e pura misoginia disfarçada de ódio oculto. Se engravidamos sem planejamento, não foi um erro como muitos dizem, e não merecemos ir pra fogueira em função disso.

Irresponsabilidade por transar sem camisinha? Sim, mas dos dois, homem e mulher. E a pena para isso não pode ser a maternidade obrigatória. A culpa não pode ser dar mulher que poderia ter tomado pílulas e mais pílulas, mas há que risco? Às vezes ela acha pílula um método contraceptivo opressor, e não usa… às vezes ela sempre usou camisinha, mas naquela noite o tesão falou mais alto. Às vezes o parceiro forçou, acontece, viu? Certo dia, ouvi de uma pessoa com HIV, a seguinte frase: “Começo esse discurso com uma pergunta, quantos de vocês nessa público já transaram sem camisinha? Guarde a resposta e apenas não me julguem”. Muitas pessoas transam sem camisinha, sim. E muitas não engravidam, nem descobrem ter alguma doença sexualmente transmissível. Porém, essas pessoas estão sempre prontas para julgar o outro ou a outra. Mas nunca sabemos quando seremos o próximo a ser julgado.

Mulher, sendo mãe ou não, merece o máximo de respeito como qualquer outro ser humano. Precisamos tirar essa conotação errada de que somos frágeis, dependentes, malucas e putas. Se estamos nervosas com o trabalho é TPM. Se brigamos com o namorado(a) é TPM. Se queremos ter voz própria é TPM. Então, assim, quer dizer que ser uma mulher politizada, informada e militante é culpa dos nossos hormônios? E que, para a cultura machista, vivem sempre alterados e fora dos eixos. Nós, mães solos, mães e feministas, não queremos bajulações e tratamentos diferenciados… Nós existimos como tal e queremos visibilidade para nossa causa. A gravidez passa e a força só aumenta.

Autora

Heloise Alves é estudante de letras.

Ilustração: Thaiz Leão/Mãe Solo.