TPM: desculpa de mulher?

Texto de Lilian Felix.

Tensão pré-menstrual: TPM. Essas letrinhas estão presentes na vida das mulheres e a maioria delas lida com os incômodos mensalmente antes de menstruarmos: dores na cabeça e pernas, inchaços nas mamas, irritabilidade e cansaço. Algumas chegam ao ponto de ficarem depressivas e tentarem suicídio, tamanho é o efeito dessa fase no ciclo menstrual.

Sofro com a TPM e fico deprimida, irritada, com dores. Mas o que me faria escrever sobre TPM, algo que é considerado pela maioria esmagadora das mulheres como algo natural, um sina presente na nossa vida?

Porque a TPM sempre é usada pra justificar certos tipos de atitude agressiva por parte das mulheres ou invalidar qualquer argumento que elas tenham. Quantas vezes, no meio de alguma discussão séria, seu argumento foi totalmente invalidado por um: “Para falar isso você só pode estar de TPM.”

Então, como uma estudante acadêmica que se preze, fui fazer minhas pesquisas nos periódicos científicos. Qual foi a minha surpresa ao saber como a TPM é tão escassamente estudada. Diversos são os sintomas apresentados pelas mulheres neste período que antecede à menstruação, podendo apresentar intensidades leves ou mais graves, mas não há consenso entre os pesquisadores quais são os sintomas que caracterizam a TPM e quais não.

Outra questão interessante foi perceber certo descaso na prática médica com a TPM. Por que isso acontece? Cito aqui as palavras de uma estudiosa no assunto, a Sra. Márcia Marinelli:

Há um certo descaso ou talvez desconhecimento deste problema tanto na prática médica quanto em outras, como, por exemplo, na psicologia e na sociologia e, parece que a STPM não é problema de ninguém, ou melhor, parece ser problema de mulher. E quem estaria interessado em tal assunto? Referência: Consequências da síndrome da tensão pré-menstrual na vida da mulher.

A menstruação foi e ainda é vista como uma “impureza” e, em algumas religiões como a muçulmana, a mulher é proibida de entrar na mesquita menstruada. Não, a menstruação não é algo “impuro”, faz parte da natureza da mulher e ela não é melhor ou pior por causa disso. A TPM faz parte desse processo, mas não deve ser considerada como um castigo ou algo de menos importância.

Tensão pré-menstrual tem tratamento. Muitos dos seus sintomas podem ser amenizados. O que não podemos aceitar é o estereótipo negativo, que só pelo fato de sermos mulheres nossos argumentos possam ser invalidados com um: “Você não tem razão porque está de TPM”. E, sabe por que este argumento e outros que utilizam a TPM como base não se sustentam?

A TPM não dura o mês inteiro, mas de 2 a 10 dias no máximo. Nos restantes dos dias a mulher não está numa montanha russa hormonal e mesmo que estivesse, segundo os pesquisadores, ela só estará mais irritada que o normal devido à falta de endorfinas, o hormônio do bem estar.

Não, ela não se transforma num monstro irracional totalmente dominada pelas forças de seu útero. A mulher é perfeitamente capaz de desempenhar suas atividades cotidianas do mesmo modo que um homem mais agressivo que o normal. Ou será que você, homem, toma decisões todos os dias de maneira racional e vive sua vida sem ficar mais irritado do que nos outros dias? Acha que a agressividade te tira a racionalidade? Por que em uma mulher seria diferente?

O machismo e a máquina de escrever

Texto de Danielle Cony.

Gostaria de começar esse texto falando sobre a capacidade de ouvir. Não somente a capacidade de escutar, mas sim ouvir, refletir. Não posso negar que o ato de ouvir é diferente entre homens e mulheres. E, não por qualquer questão genética ou fisiológica. Ouvir é uma questão cultural mesmo.

Quantas e quantas mulheres já se viram querendo expressar sua opinião e não foram ouvidas? Ou pior, ser desqualificada por dizer algo ou pensar algo que não se enquadra no status quo. Ou no trabalho, ou em casa, ou na família. Mas… Se de repente seu discurso for endossado por um homem, esse discurso se torna válido.

Já experimentamos isso, inclusive em discussões na blogosfera. Num episódio com o Nassif, falamos, argumentamos e fomos publicamente desqualificadas. Quando os blogueiros Idelber Avelar e Paulo Cândido tomaram partido, endossando nosso discurso, a coisa mudou de situação e foi repensada.

Acho importante a democratização da internet e a abertura para o diálogo. O que incomoda de fato é a desqualificação contínua do diálogo quando esse é realizado por uma mulher (ou várias mulheres). Muitas vezes vejo que as mulheres argumentam e argumentam com números, estatísticas, campanhas, dados e no final só escutamos: “Não dá para leva-la a sério”; “Mal amada! Feminista mal resolvida, vai procurar o que fazer”.

O mundo está mudando, mas algumas pessoas ainda se prendem ao conservadorismo. Só posso imaginar que seja por medo da mudança. Não saber ouvir é um tiro no pé. A manutenção dos previlégios de forma impositiva não se sustentará, pois o próprio mercado não o sustenta. Como vimos nos anos 30, as mulheres começaram a trabalhar por uma necessidade de mercado. Os homens foram para a guerra, então quem fabricariam as armas? As mulheres. Então, o mercardo capital, por vezes denota mudanças culturais. Essas mudanças podem ser boas e ruins, mas de qualquer forma são mudanças.

O que quero dizer com tudo isso é que hoje se uma empresa não ouve seu consumidor sua imagem fica muito arranhada. Vide a história do meu carro falha. E então, se a empresa não ouve, as redes sociais escutam. E vai tentar dialogar depois da imagem se arranhar amplamente. É muito pior. Muitas vezes o marketing negativo e os processos legais são irreverssíveis.

O mesmo acontece com o discurso machista. Temos mudanças sociais por todos os lados, as mulheres com o seu trabalho de formiguinha, estão cada vez mais ganhando espaço. Contudo, infelizmente, ainda temos essa imposição articulada do discurso e comportamento machista. Imposição sim, porque muitos não querem ouvir o que a mulher tem a dizer. E, acredito que isso se extenda a todos os níveis da sociedade. O crescimento dos grupos masculinistas, a dificuldade de se aplicar a lei Maria da Penha, a homofobia são alguns dos exemplos da reivindicação de quem reproduz esse discurso.

“O mundo é assim e pronto”. O grande problema de quem pensa dessa forma é que não está aberto ao diálogo. E quem reproduz esse discurssso, não consegue entender que impor esse modelo não fará que o mundo continue assim. Funcionou por muito tempo, mas hoje, a democracia, os movimentos sociais, a articulação nas redes sociais e o ciberativismo provocam transformações. Observe o que está acontencendo com os países árabes. Ou seja, quem se posiciona políticamente dessa forma precisa aprender a ouvir e em seguida a pensar. Sei que dói um pouquinho, pois desconstrói tudo em que se acredita, mas com isso a pessoa se tornará muito melhor. Acredite.

Então, meu caro amigo machista, manter o discurso nesse formato só vai fazer com que vocês se sintam excluídos. E depois não adianta vir com o mimimi. Manter o discurso machista é o mesmo que argumentar a utilidade da máquina de escrever. Pode ser até útil, mas tem certeza que com as opções do mundo de hoje você quer usá-la?

Homens, modo de usar

Texto de Carol Fontes.

Esse foi o primeiro oito de março que não recebi flores ou parabéns. Ano passado travei lutas o dia inteiro tentando esclarecer meus amigos de que flores não significam salários dignos, licença-maternidade de seis meses ou acaba com a violência. Apenas simbolizam nossa fragilidade, docilidade e submissão exigidas, nos lembra que um tapa dói, e muito, e pode nos despetalar.

Algumas empresas estão começando a mudar (ou pelo menos a tentar) sua linguagem com as mulheres, caso da Bombril que este ano resolveu inovar na homenagem e produziu uma campanha publicitária intitulada “AME – Associação das Mulheres Evoluídas” com Marisa Orth, Dani Calabresa e Mônica Iozzi como garotas-propaganda.

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A agência produziu seis comerciais com os mais variados (e preconceituosos) temas, o primeiro (com o título de “Adestramento”) é feito por Marisa Orth e nos ensina que devemos tratar os homens como animais dentro do esquema “Dr. Pet” de recompensas, se ele lava o banheiro merece carinhos, se ficar babando no sofá merece “jornalada na cara” (e depois comece a rezar para ele não revidar!). Em “Dona Marisa” ouvimos os conselhos de Mônica Iozzi para a ex-primeira-dama mostrar que mulher evoluída é aquela que manda em casa e coloca o escravo marido desempregado para limpar a casa, não me venham com a história de dividir tarefas! Ou você faz tudo ou não faz nada…

Com o “Homem das Cavernas” aprendemos que esse pode ser um tema muito bom, como usado na campanha nacional do Equador contra o machismo, ou muito ruim, usando a coitada da Dani Calabresa pra dizer que “homem é bom, mas é tosco”, verdadeira pérola! O quarto nem deveria se chamar “Inveja” e sim “Preconceito”, a humorista ensina como um homem deve segurar os produtos da Bombril, com violência e ignorância porque é o “jeitinho” deles, e como não deve se vestir, brinquinho? Depilação? Isso é palhaçada né? Você mesmo sendo menos evoluído pode usar os produtos de limpeza e pode até nos alcançar. Obrigada, Bombril, finalmente teremos homens à nossa altura!

Quer falar com os homens? Use linguagem de macho! Tem que falar grosso, gesticular muito, ser violenta, deixa que a Dani Calabresa e “Tropa de Elite” te ensinam. Preste atenção como o gestual dela muda assim que tira a boina, voz delicada, poucos movimentos e intenso bater de cílios, quase uma personagem de José de Alencar. E depois temos Marisa Orth de volta para revelar que eles tem apenas cinco utilidades, coitados, é muito triste ver que para levantar a autoestima das mulheres precisamos acabar com a masculina, isso tem nome: sexismo!

Chamou-me atenção o estereótipo dos homens em comerciais de produtos de limpeza, dá para resumir em uma palavra: burrice. E nós acabamos reproduzindo isso quando falamos “deixa que eu faço porque você não sabe mesmo” ou “qual mulher vai dividir a louça comigo?”. Porém, o incentivo precisa ser dado desde cedo ou ele vai crescer achando que varrer uma casa, lavar um banheiro é coisa de mulher ou “bichinha”. Até nosso vocabulário está errado, um homem não deve nos ajudar a limpar a casa, devemos dividir tarefas.