Ideologias em pó

Texto de Barbara Lopes.

Vai parecer perseguição, eu sei. Depois do meu texto da semana passada, do texto aí embaixo sobre a Devassa, vem aí mais crítica à publicidade. Nada pessoal, amigos publicitários. Mas dêem uma olhada no comercial abaixo:

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Preciso falar alguma coisa? Não, mas vou falar mesmo assim. Isso sim é falta de sutileza. Diz que é obrigação da mulher cuidar dessas coisas de cozinha; e que o homem pode até, num gesto magnânimo, ser paciente, mas ele está esperando isso. Só que o comercial diz mais: a mulher deve cozinhar, mas não é muito capaz de fazer isso sozinha. Não porque ela precise aprender com um chef (nada contra aprender com alguém). Mas porque ela precisa de um pó mágico.

Esse é um modelo eficiente para vender produtos industrializados. Afinal, nas mãos de uma mítica dona-de-casa (como a gente torce para a noiva acima se tornar), eles se incorporam à tradição. Não são mais elementos estranhos, feitos de nomes compridos que ninguém sabe o que significam; são um “toque caseiro”, o “sabor da comida da mamãe” – tinha até aquele que era “amor”. A nova tradição é aditivada por glutamato monossódico.

É o pior de dois mundos: os papéis machistas se mantêm e a saúde piora. O pó mágico da propaganda tem, em uma porção, dois terços de todo o sódio que uma pessoa deveria ingerir no dia. Alimentos industrializados muitas vezes têm sal, açúcar e gordura em excesso e, a menos que a gente preste atenção às letrinhas miúdas, não ficamos sabendo. É para alertar para esses riscos que diversas entidades se reuniram na Frente pela Regulação da Publicidade de Alimentos, que teve seu lançamento no último dia 17 em São Paulo. O objetivo da Frente é exigir que as propagandas e embalagens tenham informação completa e exata sobre as propriedades nutricionais e os riscos à saúde.

Enquanto isso não vira regra, vamos nós indo atrás, conhecendo, trocando informações. Ficando de olho não só na qualidade dos produtos, mas também na venda casada desses produtos com ideologias.

Machismo e feminismo estão em muito do que vejo

Texto de Deh Capella.

Levar a vida sendo mulher é assunto que não sai da minha cabeça. Os mais empedernidos podem me considerar paranoica ou  “radical”. Mas passo uma parte considerável do meu tempo olhando, reparando, elocubrando, matutando sobre isso: enquanto ando pela rua, quando ouço pessoas conversando, quando observo suas ações, quando vejo televisão, leio; enquanto vivo.  Gosto de dizer que isso é automático e só é possível porque me impus a necessidade de disciplinar o olhar, a cabeça e  também a língua, porque me incomodava reproduzir padrões de comportamento e opinião que não condiziam com a pessoa que eu  gostaria de ser. Continuo praticando.

Gosto de olhar em volta e perceber o que há de machismo e o que há de feminismo no mundo, nas atitudes e palavras, as sutilezas e detalhes e também o que é ostensivo.

Vejo um pouco das duas coisas, pra começar, quando olho em volta e enxergo tantas mulheres desgastadas, sobrecarregadas,  cansadas e sobretudo culpadas em função de suas escolhas. Pra várias é como se aquilo que escolheram viver tivesse que ser  levado, arrastado como um fardo, e por trás desse peso o “mas você quis assim, você escolheu isso”; como se muitas dessas  mulheres tivessem com quem dividir o peso do que é imposto e não escolhido.

Enxergo um mundo marcado pelo machismo quando ando pelo condomínio aos finais de semana e vejo exclusivamente mães pajeando  suas crianças pequenas e ouço menções aos pais – e me espanto, porque se não ouvisse o que essas mulheres falam poderia  supor que elas viviam sozinhas com seus filhos – mas aqui vejo o machismo de uma sociedade em que muitos pais não tornam  possível uma experiência de ma(pa)ternidade diferente daquela que me contava outro dia uma senhora que se preparava para  entrar na piscina da academia: ela cuidou de seus filhos sozinha, completamente sozinha, e o pai aparecia para um bilu-bilu  no queixinho da criança de vez em quando. Alimentação, educação, higiene, valores, diversão, era tudo pra mãe. Mas aí eu  viro e mexo e continuo vendo e ouvindo casos de pais que nunca trocaram uma fralda de suas crianças, que não sabem o nome  da professora e não têm lá muita ideia do que se passa no dia-a-dia da casa. Homens da minha idade, maridos de mulheres da  minha idade. Eu continuo me espantando porque sempre acreditei que esse padrão de comportamento fosse próprio de décadas  atrás e não admissível, mas identificável em outro contexto.

Também reparo quando escuto os medonhos discursos pró-“preservação” da mulher, que deve “se dar ao respeito”. Que não deve  praticar sexo casual, deve se vestir de forma “respeitável”, sobretudo se for mãe de família, que deve se resguardar após  enviuvar ou se separar, que deve tomar cuidado com o que fala porque “palavrão em boca de mulher” é horroroso, porque  “podem pensar que é biscate”, porque “podem se aproveitar”, porque “depois acontece um estupro e ninguém sabe por quê”.  Para mim não há nada de sutil nesse tipo de afirmação e comportamento, e educar filhos e filhas com base nesse tipo de  ideia é ostensivamente machista; talvez não o seja para tanta gente porque é o “normal”. O aceito. O desejável e esperado.  Assim como desejável e esperado é também não reagir, sob perigo de ganhar o rótulo de radical, ou de mal-amada, ou de  neurótica, ouvir as ameaças que só as “mulheres bravas” sabem quais são. Espera-se de todas nós uma docilidade, uma  resignação e uma aceitação que me é familiar dos discursos do Brasil Colônia (se não me engano foi Mary Del Priore que  falou sobre “dois lados da mesma moeda: a puta e a Virgem Maria”, e isso se grudou à minha cabeça de aluna bem bobinha de  Graduação no começo dos anos 90) e das revistas femininas dos anos 50, do imaginário feminino dos seriados (lembro sempre  do Papai Sabe Tudo e de A Feiticeira, imagens bastante opostas de mulheres em núcleos familiares).

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Esta é minha primeira tentativa de reflexão neste espaço sobre um dos temas mais abrangentes que conheço. Machismo e  feminismo estão em muito do que vejo, em praticamente todo lugar. Vou tentar estabelecer uma pequena tradiçãozinha aqui: publicar a postagem e incluir uma recomendação de leitura e/ou deixar uma questão no ar. Quem quiser contribuir, dar  pitacos, fazer críticas terá a caixa de comentários à sua disposição!

A perguntinha é: que peso têm as mulheres e os homens na perpetuação de valores feministas/machistas?

Minha recomendaçãozinha de leitura é um post de Marina Macambyra, bibliotecária da ECA-USP: Sapatos, orelhas e Tia Ruth. Muito do que se espera de nós,  inclusive por sermos mulheres, tem a ver com padrões estéticos e de consumo, o texto fala exatamente sobre consumismo e necessidades.