Mulher, o eterno fantoche

Texto de Thayz Athayde.

Depois que Dilma conquistou a presidência na base de muito preconceito e histeria moralista, aqueles que não se conformam que ela é nossa presidenta, criaram uma frase para tentar desqualificá-la e também para que ela seja vomitada por aí,  sem que as pessoas façam a mínima idéia da onde surgiu: a Dilma é fantoche do Lula.

Quem ainda não ouviu essa frase? Ouço quase todos os dias! E ainda contribuem falando que ela logo vai morrer por causa do câncer, coitada, tá toda inchada! Ainda bem que o Lula já está por trás de tudo isso, vai que ela morre, né?

Ok, depois eu sou a paranóica.

Não entendo o motivo das pessoas não aceitarem Dilma Roussef como uma mulher que chegou onde está por mérito. Tudo bem, a gente sabe que o Lula deu uma forcinha (forçona) pra ela na campanha, mas, ele não “escolheu” ela por acaso, ela não fez um concurso de beleza e o Lula falou: ah, eu quero ela. Essa mulher teve um grande papel contra a ditadura, continuou com esse papel na política, foi ministra da casa civil, o que vocês querem mais para provar que ela é competente?

Presidenta Dilma Rousseff recebe a faixa presidencial, no Palácio do Planalto, Brasília. Foto de Paulo Whitaker/Reuters.

O problema é que o nosso país machista olha pra mulher sempre como um fantoche, como se a mulher sempre precisasse do homem para fazer qualquer coisa na vida, inclusive ser independente. Nem vou falar das acusações que a Dilma é lésbica (se for mesmo, e daí?), se ela fosse casada falariam que era mandada pelo marido ou que o marido era uma marica. Se ela fosse bonita e magra, ela teria dado pra alguém pra conseguir onde está. Vocês percebem que de qualquer forma ela nunca seria vista com respeito? A mulher sempre está ligada a imagem masculina, de alguma forma as pessoas inventam uma conexão, nunca é por que simplesmente a mulher decidiu se dedicar a carreira profissional, ou ser solteira, ou não ta nem ai pra dieta e ser do peso que quiser, são escolhas que as mulheres fazem e não dependem do homem pra isso.

Ontem, conheci a Gerente de Logística de uma grande empresa, ela é casada e tem uma filha. A empresa pediu que ela viesse para Curitiba para estruturar a área, o marido e a filha de 15 anos ficaram em Porto Alegre, ela vai todo final de semana ficar com eles, até que completem os dois danos de estruturação da área. Qual a reação de todos os amigos e família? Você vai deixar seu marido e filha aqui? Ela respondeu: se fosse ao contrário você me julgaria?

E qual o problema do homem cuidar da filha? Qual o problema da mulher lutar pela sua carreira? Qual o problema da mulher não se colocar como fantoche e assumir seu verdadeiro papel na sociedade? A mulher pode (e deve) ser mais do que uma coadjuvante, deve trilhar seu caminho do jeito que ela escolher. Eu entendo que enfrentar esse preconceito diário é uma tarefa árdua, conviver com o olhar do outro sempre cheio de reprovação é um caminho tortuoso. Mesmo cheio de preconceito, começamos o ano com quebra de paradigmas, a mulher na presidência é uma grande vitória e precisamos “ajudar” a Dilma nesse trabalho, da nossa forma, no nosso dia a dia.

A Dilma não é fantoche do Lula, ela não é uma mulher solitária e gorda. Ela é presidente do Brasil e ela está mais interessada em acabar com a miséria do que comprar a próxima roupa da moda para usar na reunião com os ministros.

Gostaria de saber o que essas pessoas vão falar quando no final do seu mandato, aconteceram tantas mudanças. Podem até tentar falar que foi o Lula quem fez e não ela, mas eu sou sonhadora e acredito em um mundo menos machista, é por ele que eu luto todos os dias.

Os homens inseguros

Texto de Nessa Guedes.

Se metade dos caras que detono com uma frase, com uma correção qualquer, me enfrentasse ou admitisse seu erro com a dignidade de quem não tem medo de errar, eu me apaixonaria por cada um deles.

Sabe por quê?

Não tem nada mais sexy que alguém tão seguro de si, que mesmo quando erra tem colhões suficientes para dizer: OPA! ERREI, DESCULPE!

Em 80% das vezes esses “homens” correm de mim. E sério, tô cansada de ser temida. Principalmente pelos meus objetos de desejo. Eu não passo de uma jovem mulher de 20 anos que leu livros demais na sua época de gorda-nerd-pré-adolescente e desenvolveu um senso crítico aguçado para rebater qualquer um que subestime a intelgiência que tanto prezo em mim mesma. Mas, já diziam os velhos sábios, elogiar a si mesmo é o mesmo que afirmar que você não é aquilo que afirma ser, logo, eu não devo ser nada inteligente.

Disse minha mãe que, se eu fosse inteligente DE VERDADE, eu tentaria parecer burrinha para os homens. E assim que eles caíssem de quatro por mim, eu poderia mostrar para eles que eu sou um pouquinho mais do que um rostinho bonitinho e um papinho simpático. Diz ela que eu nunca deveria citar meu emprego, e meu curso na universidade, até conquistar um dito-cujo. Porque, segundo ela, e eu suspeito que tenha razão, os homens tem medo de mulheres que mostram interesse por coisas muito além do que banalidades geralmente atribuídas unicamente ao público feminino.

Segundo, minha mamãe querida, uma guria que chega e fala que estuda física, e que trabalha com o que eu trabalho, seria carta descartada do baralho de qualquer guri da minha idade — e provavelmente até os dez anos mais velhos. Meu maior erro, aparentemente, é falar demais, dar palpite demais, e dizer que sou gremista, mas estou pouco me importando se tem jogo do Grêmio quarta-feira, menosprezando uma das coisas mais importantes para 90% da população masculina. Ou, fazer coisas do tipo, cortar um cara, mesmo que sem querer, ao corrigir o que ele falou, ou desmentir algo que ele disse, sem que eu perceba que estou fazendo. E eu sei que eu faço, mesmo que inocentemente, mesmo que só querendo trazer a verdade para o conhecimento das pessoas, e não deixá-las com uma informação errada pairando sobre suas cabeças.

Outra coisa que faço errado também, é fazer as contas certo. É. Se alguém erra um cálculo e eu percebo, eu corrijo. Agora pára e imagina uma mesa de bar cheia de gente, e na hora de pagar a conta, quem toma a atitude de fazer os malabarismos matemáticos para dividir a conta entre a galera seja o macho-alfa da situação. Agora, imagine que ele erre as contas, mesmo depois de ter usado um papelzinho ou o celular. Agora imagina se eu corrijo a conta que ele fez, sem usar papelzinho ou calculadora do celular. E quando as pessoas chegam no caixa, a conta que eu fiz estava certa e a dele não. Pois é. Aprendi com a minha mãe que esse é o tipo errado de atitude a se tomar quando se está afim de homem qualquer. Porque eles detestam se sentir para trás, ou algo do tipo.

Óbvio que eu — no estado de solteirice irremediável que estou, mas ao mesmo tempo, sem ninguém para dar uns amassos por aí (pelo menos não alguém que eu queria né) — ponderei sobre a sugestão da minha mãe. Pensei que, poxa, pelo menos para finalidade de apenas sexo esse método — de bancar a múmia-da-roda-que-só-ri-das-piadinhas-alheias-e-não-tem-opinião-sobre-nada — talvez fosse válido. Mas depois eu pensei; putaquepariu, onde eu enfiei a minha cabeça? Um cara que superestima minha suposta falta de inteligência, e que me levaria para cama só por eu aparentar burrice iminente e ter um sorriso simpático jamais mereceria estar ao meu lado numa cama, oras.

Porque, se os homens tem problemas em se sentirem inferiorizados, o problema é DELES. Não meu. Se esses cidadãos porto-alegrenses se sentem intimidados por uma guriazinha metida de vinte anos que ainda mora na casa dos pais – embora divida as contas com eles -, ainda está na faculdade, e fica bêbada com apenas uma capirinha, o que eu vou fazer? Acho que vou dar é graças a deus por ter m livrado de tamanho número de gente imbecil. Porque, fio, insegurança é broxante, sabe.

Só que, eu peço encarecidamente à vocês, homens de Porto Alegre e arredores (por que não?), que parem de ser inseguros.

Para o bem-estar da minha (inexistente) vida amorosa.

Ok? Combinados?

Digam que sim, please.

Machismo velado

Texto de Danielle Cony.

No Brasil há uma situação peculiar quando falamos de preconceito. Ninguém assume que é preconceituoso. Quantas vezes você já ouviu que não há racismo no Brasil? Mas o elevadores de serviço nunca foram desativados, não? Foi necessário uma lei específica para taxar o preconceito de classe e raça nos elevadores.

Então, não temos preconceito ou só tentamos com muita força mascará-lo? E digo que, assim como o racismo, o machimo está nos detalhes, nas pequenas coisas do dia-a-dia.

Lembro-me uma vez que estava em Porto Alegre, num bar, e resolvi fui pegar uma cerveja. Um homem extremamente mau-educado não só furou a fila como me empurrou. Fui falar com ele e simplesmente me chamou de quê? “Sua puta. Sai para lá vagabunda”.

Fiquei absurdamente irada com aquela situação e comecei a discutir com o cara, que covardemente chamou seu amigo e começou a me ameaçar. Meu marido estava presente e quando me viu emboscada pelos dois marmanjos se aproximou. Ver a cara dos dois recuar foi muitíssimo prazeroso (meu marido tem 1,90 de altura e 150 kilos, basicamente o dobro de cada um dos “guris”). Mas diga-me uma coisa, havia necessidade disso? Havia necessidade de me tratar com desreipeito só porque sou mulher e estava desacompanhada? E não posso negar que também fiquei muito irritada por precisar “chamar ajuda”. Normalmente gosto de resolver as coisas por mim mesma. Mas atitudes covardes só podem ser repreendidas, não?

Mas e vocês mulheres? Quantas vezes passaram por situações de machismo, coação e até mesmo violência? O preconceito que sofremos está velado diariamente. Vou citar alguns exemplos:

– Quando num jantar de fim de ano, as mulheres ficam na cozinha e ao termiar a farra todas as mulheres levantam-se para lavar a louça. Isso é o que mesmo?

– Quando “naturalizam” o rosa, a saia, a princesa para as meninas. Porque mulher boa é assim. Princesa. Não tem opinião, é submissa, e bonita.

– Quando um casal está num restaurante e o garçom entrega sempre a conta para o homem. Não importa quem pede a conta.

– Quando você é contratada por um empresa, tem dez anos de mercado na função e seu salário é equivalente ao cara que acabou de sair da faculdade. Observe que os dois realizam a mesma função.

O machismo brasileiro é velado. Não admitir a existência deste é alienar-se do problema e tentar manter as coisas exatamente como estão. E, tenho certeza que todo mundo que acessa esse blog tem a certeza que as coisas ainda estão muito longe de serem igualitárias para as mulheres (ou qualquer minoria, na verdade). Então, vai dizer agora que não há preconceito/machismo no Brasil?