Obrigada pelas vidraças!

Texto de Thayz Athayde para as Blogueiras Feministas.

Nossos corpos não são de plástico ou de vidro. Aqui há carne, osso e sangue. Nossos corpos já não suportam mais o peso das desigualdades, das indiferenças, da falta de direitos, da violência cotidiana porque há corpos que valem menos que os outros. Há ainda corpos que não valem nada.

“Quem vai pagar a conta do patrimônio público?” Eles perguntam. Nós respondemos: com nosso corpo! O corpo de tantos que já se foram, o corpo daqueles que tentam calar. Nos pedem para ser pacíficos. Como ser pacíficos se em nossos corpos não há paz?

Quem vai pagar a conta de tantas pessoas mortas, violentadas e internadas compulsoriamente na Cracolândia? Por que esses corpos não importam pra você? “Ah, eles fumam crack”. E por isso não tem mais direitos? E por isso não podem viver? E por isso não podem mais desejar?

Quem vai pagar a conta pela chacina dos trabalhadores rurais no Pará? A mesma chacina que nos segue desde o tempo da colonização, a chacina que faz com o que o sangue escorra em nós: nas nossas mãos, nas nossas veias, na nossa vida, na nossa consciência. A chacina que aconteceu e continua acontecendo diariamente com pessoas indígenas. Eles querem que não sobrem ninguém para contar a história. Ou que contem outra história. “Nós fomos colonizados”. Não só. Houve morte, estupro, violência. Houve o apagamento que fez com que a única coisa que muitas pessoas lembrem das pessoas indígenas seja unicamente o Dia do Índio, você sai com um cocar e transforma tudo isso em folclore. Como podemos ser pacíficos se já mataram tudo que há de paz em nós?

Quem vai pagar a conta da violência contra a mulher? Dos nossos corpos que são violados, estuprados, abusados. Mais de 500 mulheres são vítimas de agressão física a cada hora no país. Tic tac tic tac. 13 mulheres são mortas por dia. Quem de nós irá morrer dessa vez? A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Com que roupa vou sair? Será que posso beber? Quem são os homens que frequentam a minha casa? Como vai ser andar de ônibus, de metrô, de trem? Como vou voltar pra casa? Vou voltar pra casa?

Quem vai parar a máquina de matar pessoas negras e pobres que é o próprio Estado? Quem consola a mãe do complexo do Alemão que perdeu seu filho por uma bala perdida? A bala perdida que tem cor e classe social. A bala que mata a cada 23 minutos pessoas negras no Brasil. Quem vai pedir licença ao entrar na casa de moradores da favela? Quem vai limpar o chão sujo de sangue e lágrimas? Quem irá pagar por isso? Para Rafael Braga a prisão de 11 anos por conta de uma garrafa de pinho sol.

Quem vai pagar a conta por tantas pessoas trans mortas com requintes de crueldade? Quem vai se importar quando não houver respeito a sua identidade, a sua dignidade, a sua integridade? Vocês ouvem as pauladas que foram dadas em Dandara? Vocês conseguem ver? Vocês desviam o olhar ao estupro corretivo de lésbicas? Vocês fingem não ouvir quando tratam essa relação entre duas mulheres como algo menor e cheio de fetiche? Vocês andam tranquilamente na rua e não olham para as lâmpadas quebradas nas cabeças de homens gays? Quem vai pagar a conta por essas pessoas que tem que desviar de tantas coisas da vida apenas porque desviam de vidas normativas como a sua?

Sim, obrigada pelas vidraças. Quebrem todas. Queimem. Porque os nossos corpos já estão todos quebrados.

Imagem: Maio/2017. Em Brasília, manifestantes que protestavam contra o governo Temer, as reformas trabalhista e previdenciária se protegem da polícia militar que defende o prédio do Congresso Nacional. Foto da Mídia Ninja.

Aborto e o controle social dos corpos

Texto da equipe de coordenação das Blogueiras Feministas.

Durante o mês de setembro fizemos ações e participamos de campanhas visando o debate sobre a legalização do aborto no Brasil. O dia 28 de setembro é o Dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto.

Com a mídia noticiando as mortes de Jandira Magadalena dos Santos Cruz e Elizângela Barbosa em decorrência de abortos clandestinos, algumas vozes pautaram a discussão sobre o aborto como um problema de saúde pública. Porém, mais que isso, a legalização do aborto envolve garantir plenos direitos a uma pessoa de tomar decisões sobre seu próprio corpo. É isso que está em jogo. Portanto, para nós é inadmissível comparar a vida de uma pessoa nascida e plena de direitos com a vida em potencial de um embrião ou feto.

Não há país no mundo, nem sociedade que não saiba da possibilidade de interrupção voluntária da gravidez. Em todas as culturas e em todos os povos, o aborto existe de alguma maneira. Embora seja comum ser alvo de uma condenação geral, a prática é tolerada, sendo geralmente tratada como algo ao qual se cabe “fechar os olhos”. São raras as vezes em que na mídia ou nas representações culturais o aborto aparece como tema de narrativas ou produções. O aborto também não está associado a rituais ou simbolismos. É algo que existe desde que o mundo é mundo, mas sobre o qual a sociedade evita falar.

Opinião pessoal e punitivismo individual

Em todos os debates, nos mais variados espaços, sempre há quem levante a voz para dizer: “Mas hoje em dia, com tantos métodos anticoncepcionais, só engravida quem quer”. “Mas por que fazer um aborto? Tantas pessoas querem um filho, basta dar o bebê para adoção”. “Mas e se o pai da criança quiser o bebê? É só a mulher entregar o bebê para ele, são só nove meses”.

Ao ouvirmos essas argumentações a única conclusão que chegamos é: essas pessoas acreditam que seres humanos são pessoas perfeitas, com corpos perfeitos e que medicamentos ou processos biológicos nunca falham. Além disso, há uma grande idealização e romantização da gravidez, como sendo algo maravilhoso, quando na verdade, é um processo que exige muito do físico e psíquico de uma pessoa.

Grupo faz ato em São Paulo pela legalização do aborto. Foto de Gabriela Biló/Futura Press.
Grupo faz ato em São Paulo pela legalização do aborto. Foto de Gabriela Biló/Futura Press.

Infelizmente, após anos de luta pela descriminalização e legalização do aborto no Brasil, hoje o debate encontra-se na vala da opinião pessoal. O que acaba reduzindo a questão a: sou a favor ou sou contra. Sendo que a discussão é muito maior. Ser contra ou a favor não muda em nada o fato de que inúmeros abortos clandestinos são realizados todos os anos no país, que há uma rede subterrânea que lucra muito com isso e que o desespero das mulheres é completamente ignorado.

Se ver grávida sem querer é um momento dolorosamente solitário. E, se você morrer em decorrência de um aborto clandestino ainda haverá diversas pessoas pregando que sua morte é consequência apenas de seus atos, nunca das estruturas sociais e de poder, mesmo que você tenha deixado órfãs outras crianças.

É assustador pensar que a empatia por um embrião ou um feto é muito maior do que o sentimento que a maioria das pessoas reserva a mulher que aborta. O caráter da inocência, tão atribuído a essa vida em potencial, é crucial porque é sempre muito mais fácil apontar, condenar e julgar as pessoas que mais se parecem conosco. O ser humano é extremamente falho, em todas as suas esferas, nenhuma pessoa é igual a outra, mas compreender as falhas dos outros, observar as macroestruturas sociais é inadmissível, afinal, vivemos numa sociedade que cada vez mais vê no punitivismo individual a única forma de disciplina.

A pena capital para a mulher que faz sexo apenas por prazer é ficar grávida e ter um filho. Se ela se recusar a cumprir seu papel social de procriar, será condenada a morrer num aborto clandestino.

Controle social dos corpos

Quando falamos em direito ao corpo, queremos dizer que cada pessoa deve ter direito de decidir sobre o que fazer com seu corpo e isso inclui fazer ou não tatuagens, fazer ou não sexo com outra pessoa, autorizar ou não uma cirurgia, doar ou não um órgão, realizar procedimentos estéticos ou não, fazer ou não um aborto, entre outras coisas.

Muitas pessoas acham um crime hediondo a possibilidade de uma mulher interromper uma gravidez por escolha própria. E aqui, falamos em mulheres porque nossa transfobia social nem mesmo consegue conceber a ideia de que um homem possa engravidar. Sim, eles engravidam. Homens trans*, assim como mulheres lésbicas, estão suscetíveis a violências sexuais extremas como o estupro corretivo. E, mesmo a realização do aborto em casos permitidos pela lei encontra diversas barreiras.

Sabemos que ninguém pode obrigar uma pessoa a doar um órgão para outra. Não se pode obrigar um pai a doar um órgão para um filho. Também sabemos que por mais que alguém manifeste que quer ter seus órgãos doados, a palavra final é da família. Doar órgãos é uma ação que salva vidas, mas não vemos religiosos e conservadores tão empenhados em campanhas de doação de órgãos. Por isso, afirmamos que a questão do aborto não é uma questão do valor da vida, mas sim da regulamentação e propriedade dos corpos. Controlar os corpos de quem engravida é fundamental para a manutenção de várias estruturas de poder.

Diversos procedimentos estéticos cirúrgicos podem ser realizados por pessoas cisgêneras apenas com a autorização de um médico, mas as pessoas trans* enfrentam muita burocracia e uma patologização excessiva para fazer qualquer modificação corporal que irá ajudá-las a melhorar suas vidas.

Sabemos também que há outros inúmeros aspectos da desigualdade social que perpassam essa questão como: raça, etnia, classe social e até mesmo as referências culturais de cada local. A criminalização do aborto afeta diretamente a vida das pessoas das classes sociais mais baixas, sem informações sobre educação reprodutiva, sem acesso a meios seguros de contracepção e planejamento familiar. Portanto, vemos que em nossa sociedade existem diversas situações em que temos diferentes pesos para o valor moral da vida e sobre as escolhas do que queremos fazer com nosso próprio corpo.

Pensando nisso, essa semana publicaremos uma série de textos questionando problemas físicos e sociais relacionados a prevenção da gravidez, a gravidez em si, ao parto e pós-parto. Justamente para pensarmos: Só engravida quem quer? É só dar para adoção? São só nove meses? E depois?

Considerando que os direitos reprodutivos integram os direitos humanos e que o direito de decidir sobre o próprio corpo precisa ser aceito e respeitado, na medida em que o Estado nega proteção aos direitos reprodutivos, incluindo o acesso ao abortamento seguro, contribui, deliberadamente, para que as repercussões sobre a saúde mental feminina (culpa, depressão, etc.) sejam maximizadas e para que os impactos da morbidade e da mortalidade por aborto na organização familiar e na vida social em geral sejam também ampliados. Referência: Aborto – Mortes Preveníveis e Evitáveis.

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=AXuKe0W3ZOU]

Vídeo – ‘Clandestinas’. Documentário sobre aborto no Brasil.

+ Sobre o assunto:

[+] A discussão política sobre aborto no Brasil: uma síntese.

[+] Aborto é questão de saúde pública e não criminal, defende Anistia Internacional.

[+] Criminalização do aborto no Brasil e implicações à saúde pública.

[+] Óbitos em clínicas clandestinas de aborto estimulam debate sobre o tema.

O que será uma Universidade?

Texto de Jussara Lopes para as Blogueiras Feministas.

Nos últimos anos, assistimos à reconfiguração e expansão do ensino superior no Brasil, cujo crescimento é controverso e paradoxal. Se, de um lado, proporciona o acesso de grupos historicamente excluídos no espaço acadêmico, por outro, se efetiva de forma cada vez mais precária e empobrecida. As instituições privadas transformaram a educação superior em mercadoria, e vendem uma formação cada vez mais voltada para o mercado de trabalho, em detrimento da construção de conhecimento crítico e totalizante. Outrossim, as universidades públicas estão cada vez mais sucateadas, vivenciando a escassez de recursos, penalizando trabalhadoras e trabalhadores, se expandindo sem qualidade.

Toda a complexidade desse contexto, no qual o ensino superior brasileiro se insere, nos leva a refletir sobre os rumos da universidade, bem como o seu papel nesse processo. Nos últimos dias, pude testemunhar três acontecimentos que me fizeram acreditar que ainda podemos ter esperança em uma reconfiguração desse quadro.

À esquerda, cartaz com a programação da I Calourada Preta. À direita, cartaz da Oficina de Siririca.
À esquerda, cartaz com a programação da I Calourada Preta. À direita, cartaz da Oficina de Siririca.

Primeiro, no dia 12 de setembro, aconteceu a I Calourada Preta, organizada conjuntamente por discentes do Instituto de Ciências Humanas – ICHS e Instituto de Ciências Sociais Aplicadas – ICSA da Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP. O evento também teve por objetivo apoiar o Núcleo de Estudos AfroBrasileiros – NEAB da UFOP, frente a uma ameaça de mudança de sala que comprometeria às suas atividades. Com muita coragem, uma turma de discentes protagonizou uma (re)ação de protesto, debates e, sobretudo, resistência coletiva.

No dia 17 de setembro, no âmbito da Calourada do Serviço Social e Calourada Vermelha, na mesma universidade, aconteceu a polêmica “Oficina de Siririca”. A corajosa e instigante atividade teve como principal objetivo discutir e compartilhar experiências sobre a liberdade sexual das mulheres. Contudo, causou alvoroço nas redes sociais e acabou sendo noticiada em conhecidos portais, como UOL e Catraca Livre. O que mais me assustou foi perceber que o pensamento conservador e reacionário ainda é predominante, o que ficou explícito nos calorosos e inúmeros debates na internet. O perfil de estudantes da UFOP também foi evidenciado, e constatei que boa parte dessas pessoas se alinha com as ideias “coxinhas”, ainda hegemônicas.

No dia 18 de setembro, ao chegar no ICSA, me deparo com sofás, cadeiras, mesas, som e muita gente bonita espalhada no instituto, sentada no chão e nos arredores, em pleno estacionamento. Assim começou o Sarau de Poesia Marginal, também parte da programação da Calourada do Serviço Social e Calourada Vermelha da UFOP. Paralelamente a essa atividade, grafites e pichações são feitas em um dos muros da instituição. Pessoalmente, um momento histórico e marcante em minha trajetória profissional e individual, já que cada vez menos elas se distinguem. Entretanto, mais uma vez a ação foi motivo de polêmica e alvo de muitas críticas. Estudantes dos demais cursos do ICSA e também de outros institutos, assim como ex-estudantes da UFOP, protagonizaram agressivas e até mesmo degradantes discussões nas redes sociais. Alguns alegam vandalismo, falta de respeito, hostilidade, prepotência. Tem gente que até fala em desligamento de discentes, processo administrativo, boletim de ocorrência, polícia.

“Babado, confusão e gritaria…”. De minha parte, fiquei emocionada com a coragem dessas pessoas, de todas as idades, que com muita audácia organizaram e foram protagonistas nessas (re)ações. São iniciativas como essas, a Calourada Preta, a Oficina de Siririca, o Sarau Marginal e as pichações e grafites, assim como todas as outras que sem dúvida virão, que me fazem acreditar que estamos, à custa de muita luta , colorindo e mudando a cara da Universidade…

Embora ocupe a posição de professora, cada vez mais sou eu quem aprende com essas manifestações e com as pessoas que as organizam.

Autora

Jussara Lopes é uma jovem revolucionária, mulher, negra e trabalhadora. Atualmente, está professora do curso de Serviço Social da Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP. Para contato: Facebook.