Desafio sem make: desafio para quem?

Texto de Jessica Romero.

Então vamos falar de desafios? Primeiramente preciso falar sobre a minha relação com maquiagem. Eu gosto de estar maquiada, me maqueio com frequência, é um fetiche de consumo e também uma vaidade. Mas saio tranquilamente de cara lavada e evito me maquiar diariamente para não agredir minha pele. Essa relação mudou completamente há pouco tempo, depois que me senti empoderada pelo feminismo. Está sendo um aprendizado descobrir que minha beleza não precisa de aprovação alheia, apenas de amor próprio. E isso não tem a ver com gostar ou não de elogios ou se achar uma deusa da Terra, mas sim com o fato de que ter autoestima e segurança faz uma mulher mais forte e feliz. Acredito que toda mulher é linda e a participação no movimento feminista nos faz compreender e perceber melhor isso.

É relevante dizer que escrevo reconhecendo que tenho privilégios diante do padrão de beleza que temos imposto na atual sociedade. Ser branca, cis e magra já me tira de algumas situações agressivas em relação à cobrança social do que deve ser a “beleza feminina”. Portanto, é mais fácil para uma mulher como eu, ter a sua beleza aceita socialmente, com ou sem maquiagem.

Foto de Carsten T. e Salvage no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Carsten T. e Salvage no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A primeira intenção do “Desafio Sem Make” foi ótima e espero que tenha dado certo para muitas garotas. Nos libertarmos da ideia de que estar maquiada seja algo importante para nos considerarmos, sentirmos ou sermos bonitas é necessário. O uso da maquiagem precisa ser uma escolha individual a partir da plena consciência de que somos todas naturalmente lindas em nossas diferenças. Acho super positivo quando famosas postam suas fotos sem maquiagem e desconstroem a perfeição inexistente das capas de revistas vendidas a nós. Mas acredito para nós, “mulheres comuns”, isso não devia ser posto através de um “desafio” público. Não devíamos precisar provar aos outros e nas redes sociais que somos bonitas “de qualquer jeito”.

Não critico as meninas que participam, acho que a ideia tem seu valor. Porém, creio que vale também questionar a real face do que está por trás dessa brincadeira: a velha necessidade de provação e aprovação de beleza que nós mulheres temos que passar o tempo todo.

O uso da maquiagem nos é cobrado desde muito cedo, quando ainda nem entendemos o que significa esse pacote todo de “ser mocinha”. A vontade ou a obrigação de usar maquiagem sempre surge de uma pressão evidente ou invisível para nós mesmas. Pode vir de todos os lados: da família, do grupinho de amigas, da mídia, da publicidade, das pessoas com quem nos relacionamos ou até mesmo como exigência para ocupar certos cargos de trabalho. Vontade e obrigação, nesse caso, se confundem e vivem se equilibrando numa linha tênue.

Acredito que essa é mais uma tensão consequente do machismo (a velha história de que mulheres existem para serem bonitas e agradar) e que se ampara no capitalismo, pois juntos eles nos vendem um ideal inalcançável de beleza que nos faz comprar e consumir maquiagens, revistas, roupas, acessórios, tratamentos, cirurgias, etc. Enfim, se a lógica fosse contrária e vivêssemos num sistema que nos criasse para sermos seguras e independentes acima de tudo, todo esse mercado da beleza estaria falido. Portanto, é intere$$ante para muita gente que as mulheres sintam-se inseguras e comprem diversas coisas para se sentirem mais bonitas ou até mesmo minimamente aceitas por elas mesmas e pelos outros.

A ideia de aceitar-se bonita “até sem” maquiagem é ótima, mas deveria depender mais de uma desconstrução dos padrões de beleza e de uma mudança em como nos relacionamos com a beleza do que de likes alheios nas redes sociais. O Facebook, o Instagram e outras redes sociais, tornam-se só mais um ambiente em que somos cobradas a estarmos bonitas (com ou sem maquiagem), e a moeda de troca são os likes e comentários de aprovação.

Se nesse caso postar uma foto sem maquiagem é demonstrar-se segura e confiante, é preciso também analisar a importância do fator repercussão. Como sempre, na cultura machista, quando uma mulher mostra-se, aparenta ou finge estar segura, logo surgem comentários e julgamentos machistas. Coisas como “melhor com maquiagem” ou “se andar sem maquiagem vai ficar solteira pra sempre” apareceram na rede e só reforçam a ideia de que, mesmo na tentativa de desconstrução, ainda somos vistas como objetos e nossa missão no mundo é sermos belas princesas à espera de um príncipe, nesse caso, desencantado.

Comentários desse tipo nos mostram um termômetro da situação, pois mesmo com tantas provações não seremos totalmente “aprovadas” nunca. Quando uma mulher está “maquiada demais”, ela recebe críticas. Quando está sem maquiagem, também. Então, para onde caminhamos ao aceitarmos um desafio de servidão ao outro?

Outro lado do desafio é desconsiderar completamente outros tipos de relação que algumas mulheres tem com a maquiagem. Ao participar de alguns debates na internet, tive contanto com alguns relatos de mulheres trans* que me fizeram pensar. Não posso reproduzi-los, pois foram feitos em grupos fechados, mas em alguns o que percebi é que para algumas mulheres trans* poder usar maquiagem e sair na rua maquiada significa parte do sentir-se mulher, sentir-se no “corpo desejado” e consequentemente, sentir-se livre. O desafio de muitas mulheres é ter coragem de sair cotidianamente assim e encarar a transfobia por ser a mulher que é. Vi algumas mulheres trans* serem desafiadas a postar uma foto sem maquiagem, e uma delas disse que nunca o faria, pois aquilo seria uma autoagressão que nenhuma mulher cis poderia imaginar.

Dentro dessas discussões, também fui alertada para outras questões, como por exemplo: muitas mulheres têm sérios problemas de pele, cicatrizes ou marcas e usam a maquiagem para recuperar a autoestima e sentirem-se mais pertencentes do que socialmente é considerado uma mulher bonita. Desafiá-las a expor suas marcas não é necessariamente incentivá-las a se amarem e a sentirem-se bonitas como são, mas sim a dependerem de likes para que se amem e sintam-se bonitas. Isso vai na contramão de qualquer lógica de empoderamento feminino, pois creio que esse deva ser sempre um processo autônomo e colaborativo, não dependente.

Acredito no poder do compartilhamento da informação como arma para o empoderamento. As redes sociais me proporcionam diversas descobertas e trocas de experiências que considero importantes no meu processo de formação feminista. Porém, percebo que assim como isso pode ser usado a nosso favor, também é muito usado contra nós ou até mesmo em nosso favor, mas invisibilizando ou agredindo mulheres que fazem parte de minorias. É preciso ter cuidado com essa faca de dois gumes.

Na internet, os desafios da vida real parecem fáceis pelo caráter superficial que ganham devido à rapidez dos compartilhamentos. Nós mulheres sabemos que os reais desafios exigem mais de nós. Exigem uma luta cotidiana de combate às opressões e as construções machistas da nossa cultura. Para eles, tome sua dose diária de feminismo. E, em vez de esperar os likes alheios, curta-se. Você é linda!

Autora

Jéssica Romero é mulher, feminista e jornalista em construção. Escreve no site Desvio Livre e em sua página no Facebook.

+ Sobre o assunto:

[+] A loucura pela beleza. Por Karen Polaz no Biscate Social Club.

[+] Por que eu não participei do Desafio Sem Make. Por Gizelli Souza no Lugar de Mulher.

[+] “Parem com a loucura da beleza”: escritora confronta padrões em projeto de campanha publicitária.

Meninas e Maquiagem

Esse lance da maquiagem é uma coisa que vem me incomodando há muito tempo. E eu praticamente não sei porque ainda não escrevi sobre isso. Hoje é o dia, então.

Little Misses
Little Miss Flagler County 8-11. Daviana Campbell & Her Court. Vencedoras de um concurso de beleza infantil americano em 2010.

Eu nunca fui muito de maquiagem. Quando era adolescente (jovem-adulta), e extremamente idiota, fútil e cretina, eu usava quase todos os dias. Porque, né, eu fazia Direito e tinha que ser sempre muito fashion, muito no salto, muito advogada-mirim. Daí um belo dia dinheiro passou a significar nada para mim. E foi bem no dia que decidi que ia ser professora pra sempre. Porque quando a gente decide ser professora, isso tem que vir junto com a morte de muitas das nossas ambições. E foi no dia que o meu sonho de ser milionária morreu que eu assumi para mim e para o mundo que a sala de aula é o meu lar. E só a partir desse dia eu pude ser feliz de verdade. Ok, divago.

Depois que saiu do meu ombro a pressão de ser/parecer dondoca, tudo mudou. O salto virou rasteira e sapatilha. A chapinha deixou de ser obrigação diária. E desde aquele dia, tenho virado mais e mais hippie. E amando muito esse “novo” lifestyle, mais livre, mais sussi, mais descontraído.

E nessa eu deixei de ser vaidosa. Aí é que está a pegadinha. Eu NUNCA deixei de ser vaidosa. Eu só deixei de ser vaidosa do jeito que as pessoas esperam que eu seja. E é aí que a casa cai né. Porque a primeira pessoa que sempre pegou muito no meu pé foi justamente a minha mãe. Que nunca cansou de repetir que eu era mais bonita antes. Que eu me amava mais. Que agora eu sou relaxada.

E desde quando ser relaxada é xingamento né? Tem gente que paga uma nota para fazer massagem e “relaxar”. hehe E daí eu sou relaxada de graça e isso tá errado.

Ano passado, dando aula da rede pública depois de anos isolada em salas de aula com adultos, comecei a perceber que tá acontecendo uma transformação horrível nas meninas. Que elas se maquiam demais, todos os dias, e o tempo inteiro. Que isso começa cada vez mais cedo, no terceiro ou quarto anos. Que na hora do recreio elas vão ao banheiro para retocar rímel. Que uma aluna minha uma vez acampou comigo e ela acordava e passava lápis no olho, antes mesmo de lavar a cara ou escovar os dentes. Que um dia num boia-cross uma escoteira veio toda preocupada perguntar se a água tinha borrado o rímel dela.

E eu pensei: que porra é essa?

Um dia no MSN estava conversando com outra aluna e comentei sobre maquiagem. Ela disse que me viu no reveillon e me achou linda, pq eu tava maquiada. E eu fico puta com essa idéia de que as pessoas só são bonitas quando se mascaram e viram outras pessoas. Eu comentei que não uso maquiagem mesmo, e me acho bonita mesmo assim, com a cara lavada e inchada de manhã cedo. E comecei a questionar ela. Sobre por que ela se maquiava e talz. Ela respondeu que é feia sem maquiagem. Que quando se maquia, se sente uma estrela. Agora vai desconstruir isso. Não dá. Não numa conversa idiota via MSN.

E a única conclusão que eu consigo chegar é que esse mundo tá perdido mesmo. Porque nossas meninas crescem já se achando feias, e imperfeitas. E aos 12 anos estão surtando por causa de celulite. E antes disso provavelmente já estão raspando as pernas. Acho isso um crime – mesmo com as adultas. Pior ainda com crianças. É a força da mídia né. Porque nos Estados Unidos o Wal-Mart já tá vendendo maquiagem com agentes anti-envelhecimento para crianças de 8 anos. Sim. É verdade.

E daí eu esbarro num vídeo do youtube com uma menina de no máximo 12 anos dando dicas de maquiagem. Com diversos macetes para cobrir “imperfeições”. Ela acha que tem muita olheira e tal. E ela manja pacas de maquiagem – faz coisas que eu nunca nem imaginei que fosse possível fazer no rosto. Tentei encontrar o vídeo pra linkar aqui e não achei mais.

Só sei que eu tenho vontade de chorar. Ou de quebrar o computador. Ou de xingar muito no tuiter. Porque tem alguma coisa de muito errado nisso, e eu devo viver em outro mundo mesmo, com tanta gente achando isso normal. E eu vejo essas propagandas de depila isso, tira aquilo, creme pra isso, protetor praquilo, sabonete pra piriquita e tantas mil coisas que obrigam uma mulher a gastar praticamente todo o seu salário com idiotices – talvez pra gastar menos em livros né?

Cadê meu blush feminista?

Texto de Bia Cardoso.

Preciso contar uma coisa para vocês, mas é segredo, tá? Existe feminista que usa maquiagem. Uau, né?

E ainda vou te contar outra coisa: Feminista gosta de várias coisas. Tem feminista que faz ótimos cupcakes, tem feminista que adora jardinagem, tem feminista que tem blog de esmalte, tem feminista que luta kung fu, tem feminista que acorda seis da manhã pra nadar, tem feminista que gosta de futebol, tem feminista que fez o layout deste blog, tem feminista que anda de moto, tem feminista que faz tricô, tem feminista que é dona-de-casa, tem feminista que ficou super feliz porque comprou um avental de cozinha bonitão.

Feminista é gente como você, mas gente que quer que as pessoas percebam o quanto as mulheres ainda sofrem sem direitos, oportunidades e respeito plenos. Então, é claro que tem feminista que gosta de maquiagem.

Feminista que gosta de maquiagem, adora fazer carão para começar bem o dia, dar aquela levantada no visu. Porém, sabe que um dia as mulheres tiveram que quebrar batons, pisar em blushes, sombras e pincés durante manifestações públicas, porque a maquiagem significava a obrigatoriedade de ser um estereótipo de mulher que deveria ser sempre bela, sorridente e resiliente, numa época em que os únicos papéis aceitáveis socialmente para as mulheres eram o de mãe e esposa.

A crítica que fazemos atualmente refere-se ao fato de que a maquiagem é utilizada, especialmente pela indústria como uma forma de restringir as belezas femininas, as formas de se sentir bela, corroborando padrões estéticos constantemente divulgados pela mídia. Nessa propaganda de O Boticário chamada Repressão, por exemplo, a mensagem passada é que num mundo sem maquiagem, sem vaidade, todas as mulheres seriam feias e iguais e nós sabemos que isto não é verdade, as pessoas tem belezas plurais com ou sem maquiagem e isso deve ser valorizado. Inclusive, muitas vezes a indústria da beleza age dessa maneira repressiva e impõe padrões que pasteurizam as mulheres.

É preciso refletir sobre o quanto pequenos truques que fazemos com maquiagem estão ligados a imagem que projetamos de nossos rostos e corpos, a ponto de que se eu estiver sem um lápis de olho não me reconheço mais, sinto-me inferior. É absurdo que em vários empregos mulheres sejam obrigadas a usar maquiagem, muitas vezes sem nem receber um auxílio de custo para comprar bons produtos, já que o uso diário de maquiagem pode prejudicar nossa saúde.

Então colega, o que queremos para homens e mulheres é que você sinta-se livre para arrasar na maquiagem num dia e sair de cara limpa no outro, sentindo-se bel@ e livre, sem imposições. Porque é claro que homem também pode usar maquiagem. David Bowie está aí desde sempre provando isto.

A minha dica de hoje para você que gosta de maquiagem são os vídeos do Beauty Drops da Paola Gavazzi. A Paola não tem uma beleza-padrão, faz muitas caretas nos vídeos e dá dicas exatamente mostrando que não usa a maquiagem para ser a mulher mais escandalosamente linda do lugar, ou para tentar ficar igualzinha a atriz da capa da revista, mas sim para se sentir mais bonita num dia em que o humor não tá legal, que olho tá um pouquinho mais caído, que a olheira de panda tá despontando mais que nos outros dias. Além disso, os vídeos são super bem editados e a Paola é engraçadíssima, cheia de gírias e muito humor.

Outra coisa que acho bacana na Paola é que ela prega muito a questão da autoestima, da brincadeira que é se maquiar. No post “A” Make ou “O” Make? Ela fala um pouco de etimologia das palavras e como gêneros da linguagem podem influenciar conceitos que acabam se tornando culturalmente restritos. E no fim o recado dela é claro e bacana: Maquiagem serve para homens e mulheres. O que importa é maquiar, brincar e melhorar a estima! Confere aê!

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