Duas palavrinhas sobre Trump, os protestos da inauguração e coquetéis molotov

Texto de Raquel Parrine para as Blogueiras Feministas.

Eu estou morando nos Estados Unidos há quase exatamente dois anos, por isso peguei praticamente todo o processo eleitoral americano – o misterioso processo eleitoral americano, aliás, que me surpreendeu cada vez mais a cada etapa. Estava aqui quando o Bernie Sanders foi apontado o rival da Hillary Clinton, um candidato abertamente socialista, que teve a campanha completamente financiada pelos eleitores. Fui num comício dele onde moro, em Ann Arbor, uma cidade universitária no estado de Michigan, famosa por seu protagonismo no ativismo de esquerda. Daqui, era fácil acreditar que o Sanders era uma oportunidade viável. Mas os EUA, assim como o Brasil, é feito de bolhas e eu logo vi que estava em uma. Os e-mails vazados da Hillary Clinton mostraram o quanto o partido democrata não levava Sanders a sério e não investiu em sua candidatura. Entretanto, as denúncias de Sanders a Hillary, o fato de ela estar casada com o capital, ressoaram nos ouvidos dos americanos, ressentidos com a recessão da que o país nunca se recuperou totalmente desde a crise de 2008.

Tudo isso para dizer que eu senti na pele o susto nacional com a vitória do Trump. Senti na pele justamente no estado responsável por esse susto. Muitas pessoas compararam a ascensão do Trump a do Temer, mas sinceramente, eu vejo poucas relações. O Temer ascendeu ao poder contradizendo os preceitos e processos democráticos, enquanto o Trump se elegeu justamente por causa desses processos. Nunca houve dúvida que a Dilma foi eleita pela maioria dos brasileiros, enquanto o Trump não foi eleito nem pela maioria das pessoas que votaram. Aqui nos Estados Unidos, a questão do que se entende por “democracia”, ou seja, o governo do que deveria ser a maioria, é extremamente problemática, porque, como se sabe, 1) as pessoas não são obrigadas a votar, 2) o presidente não é eleito por maioria simples, mas por votos do colégio eleitoral que representam a maioria de votos em cada estado, 3) os delegados de cada estado teoricamente representam a mesma quantidade de pessoas, mas isso não é verdade na pratica, o que sempre foi uma vantagem para os republicanos, que são populares em estados menos populosos, 4) a eleição é em dia de semana e os americanos têm que voltar pro trabalho depois de votar, 5) os locais de votação são uma bagunça federal– isso quer dizer que as pessoas têm que esperar horas para votar, o que é extremamente problemático se você pensar que pessoas que tem ocupações de baixo salário recebem por hora, 6) em muitos estados, os eleitores votam por CARTA – as cartas se perdem, chegam atrasadas, molham, rasgam, etc, 7) e talvez mais importante, aqui não tem título de eleitor – cada estado exige uma documentação diferente para as pessoas votarem – isso foi especialmente relevante nessa eleição porque havia uma lei anterior que facilitava o processo de identificação para afro-americanos, a fim de aumentar a participação deles– lei esta que caiu nesta eleição e, consequentemente, muitas pessoas foram impedidas de votar.

No dia 8 de novembro, todos os termômetros apontavam uma vitória lavada da Hillary. Há muitos meses, os meios de comunicação já nem levavam o Trump mais a sério. Qual foi a surpresa, o choque dessa população ao ver o mapa interativo ficando vermelho, vermelho, vermelho… Especialmente em estados, como Michigan e Pensilvânia, que eram tradicionalmente azuis. Como aceitar que as pessoas com quem convivemos todos os dias preferiam ter um presidente que vai construir um muro entre os EUA e o México, que vai fazer um registro nacional de muçulmanos, que brinca sobre molestar mulheres, que chama os latinos de estupradores. Inaceitável. Inacreditável. Inconcebível.

Não quero bater na tecla do que todo mundo sabe. Os dias que se seguiram foram indescritíveis. As pessoas choravam no corredor e andavam sem fazer contato visual. Ninguém sabia o que aquilo significava, o que podia acontecer. A faculdade amanheceu com frases de ódio escritas no chão e desenhadas numa rocha – “Kill em all”, ilustrado com o elefante símbolo dos republicanos. Eu voltei para casa escoltada por amigos brancos durante toda a semana. Houve denúncias de violência contra muçulmanos e latinos: uma menina foi empurrada de um penhasco, outra teve a cara rasgada por um alfinete e uma terceira foi ameaçada de ser queimada viva. Estávamos chocados e horrorizados. O reitor lançou uma nota dizendo que os dois lados tinham que ser ouvidos, como se o lado que provoca esse tipo de violência pode ser comparado àquele que está tentando se defender. Eu senti como se eu tivesse que andar com a cabeça baixa pelos anos que me restavam nesse país. Resolvi pegar uber sempre pra voltar para casa. Um desses dias no uber, com Amir, meu motorista, depois de uma conversa amena, estávamos ouvindo o rádio, quando um dos membros da comitiva de Trump acena à possibilidade de um campo de prisioneiros para os muçulmanos que moram nos EUA, no modelo dos campos de japoneses, durante a segunda guerra. Amir ficou em silêncio, eu senti um enjoo entorpecente.

Foi por isso que, quando os primeiros protestos surgiram, algumas semanas depois, as pessoas foram para as ruas com todo esse enjoo contido. E houve muito grito, muita palavra de ordem, hordas de estudantes entrando nas bibliotecas, nas salas de aula, arrancando os alunos do dia a dia. Foi como abrir uma represa. Havia muita alegria, mas principalmente, no que eu li e no que eu senti, o que se compartilhava era o sentimento de comunidade, de saber que as pessoas te apoiavam. Você, pessoa trans, muçulmana, latina, esse país não quer que você se foda. Foi massa ver quanta energia foi colocada para entender especificamente a questão da imigração, do destino das pessoas sem documentos nesse país – coisas que me afetam diretamente e a minha comunidade.

A inauguração e suas consequências são para mim diretamente ligadas a esse processo de superação do luto, de articulação dos movimentos sociais, de repensar um projeto de país, a visão que o americano tem de si mesmo. No dia da eleição do Trump, ouvi alguns desabafos que me marcaram muito, como “Como vou explicar para os meus filhos que a gente não é racista?”, o chocante “No fundo, eu sempre achava que pelo menos eram os EUA, com uma cultura legal, que tá colonizando os outros” e o meu preferido “Hoje eu senti que uma coisa dentro de mim morreu. E foi assim que eu descobri que, apesar de tudo, eu ainda tinha orgulho de ser americano”. É só uma pequena amostra de como versões diferentes dos EUA – o liberal, feminista, obamiano, liberal, democrata e o caubói, racista, republicano – convivem em conflito, se sobrepondo, se excluindo. Você pode facilmente se encontrar numa bolha onde uma dessas visões nem sequer considera a existência da outra. Como dissociar a cultura “massa” dos EUA com a guerra no Iraque? A Ku Klux Klan com a eleição do Obama?

O Zizek é um babaca que acha que a eleição do Trump é boa, mas ele tem razão – como não? – quando afirma que esse processo vai levar a um fortalecimento dos movimentos sociais nesse país e um necessário choque de realidade. Repensar seriamente como dá para viver com uma constituição do século XXVIII, com colégio eleitoral, com “liberdade de expressão” que possibilita a existência de um treco hediondo chamado KKK, que tem abertura pra ficar angariando membros e fundos. O Trump se elegeu como um candidato anti-stablishment, assim como Bernie teria se elegido. Será que dá para parar e pensar seriamente no que isso significa?

Marcha das Mulheres em Washington 2017. Foto de Katie Orlinsky.

Fui na marcha das mulheres contra Trump aqui em Ann Arbor e demorei duas horas para andar três quarteirões. Para uma cidade de 150 mil habitantes, foi chocante até para os motoristas de ônibus a quantidade de gente na rua, a multidão de touquinhas cor de rosa. É muito engraçado perceber o quanto os americanos se manifestam diferente da gente. Eles são muito mais organizados, quase todos com cartazes divertidos, zoando as mãos pequenas do Trump, apontando a conexão dele com o Putin, fazendo referência as suas frases imundas, a sua atividade no twitter. Tinha fantasia, muito carrinho de criança, cachorro. Tinha gente distribuindo comida na rua para os manifestantes, tirando foto uns com os outros… Era um programa familiar, até porque ninguém estava esperando o choque aparecer, jogando bomba de gás lacrimogêneo e colocando cavalo para pisar em manifestante. Apesar de que, a verdade seja dita, os protestos aqui não são sempre pacíficos.

Em geral, acho que as manifestações desta semana ajudaram a criar uma agenda dura de resistência à trumplândia, por exemplo com as sugestões concretas do Michael Moore, que foi a DC. Mas também ativaram a liderança dos movimentos civis dos anos 60, que vieram aos protestos com as armas de Jorge – Gloria Steinem, Angela Davis, John Lewis, Bernie Sanders. Essa participação ativa, preparada, energizada devolveu a dignidade perdida a esse país, que – não se engane – vai sofrer imensamente por quatro anos, com todos os poderes, legislativo, executivo e judiciário, entregue nas mãos desses monstros republicanos. Eu concordo que existe uma grande hipocrisia nesses governos liberais, como o do Obama, que se projeta como defensor dos direitos civis, mas deportou mais gente do que qualquer outro presidente, não extinguiu Guantánamo ou terminou com a guerra do Iraque, como prometeu. Mas entre criticar o projeto liberal do Obama e desejar o governo de um imbecil perigoso como o Trump são outros quinhentos. Gostaria que essa esquerda cínica brother do Zizek parasse pra pensar como vão viver os muçulmanos desse país pensando que podem ser queimados vivos na rua, como a menina que estava passando na frente do prédio onde eu estava trabalhando. Também não acredito, como a Michelle Obama e a Meryl Streep, que ódio se luta com amor. Eu legitimo o ressentimento que as minorias que moram nos EUA estão sentindo agora. Eu legitimo a raiva. Os direitos civis nesse país foram ganhados no grito, na base do coquetel molotov. A gente, como brasileiro, esquece que aqui até outro dia era ilegal ser homossexual, por exemplo. E que as boates gays só pararam de ser revistadas e fechadas quando umas mulheres trans e drag queens fizeram barricada na rua e se jogaram em cima de policiais. Não sei se a nossa passeata cheia de carrinho de bebê vai ter o mesmo efeito de um coquetel molotov, ou uma marcha do Black Lives Matter. Enquanto eu tô tirando fotos dos cachorros e bebês com faixas, não consigo dizer o que eu acho que estou fazendo, a não ser protestar com o meu corpo, como disse Steinem em DC. Sair do computador e ir pra rua. Da próxima vez, vou escrever um cartaz também.

 

Autora

Raquel Parrine é doutoranda em literatura hispano-americana e passa muito mais tempo no Netflix do que deveria. Também é editora da Revista Raimundo e fã de pastel.

Xanas on fire, ressaca e resistência: sobre a Marcha das Mulheres em Washington

Texto de Ana Rusche para as Blogueiras Feministas.

Xanas on fire

A primeira faísca veio do Havaí. Sem conseguir dormir bem com a vitória do Trump, Teresa vai lá desabafar no facebook: gente, e se no dia da posse, muitas mulheres marchassem para Washington? A aposentada vai lá e cria um evento. 40 pessoas confirmaram. Foi dormir preocupada com o futuro das netas. Quando acordou, a surpresa: seu evento tinha 10 mil confirmações! O segundo estouro foi visto em Nova York, quando Bob posta a foto com a legenda “Marcha de um milhão de bucetas – acho que a gente devia montar uma coalizão de t-o-d-a-s as aliadas marginalizadas e fazer isso”. Recebeu 31 curtidas e 4 comentários. A partir daí, não é possível traçar muito bem a genealogia do pussyfire que se alastrou. Aliás, se tem algo que o Trump fez de bom, foi colocar pussy na boca de todo mundo.

A palavra Pussy de pussycat pode designar gatinho, algo fofo e felpudo. Mas pussy é um termo pejorativo para buceta. Também designa mulher como mero objeto sexual. No português, será que a etimologia de “xana” indica esse caminho? Gatinha, bichana, xana? Os dicionários não estão nem aí com estas palavras, daí a gente pode fazer o que bem entender com elas. Pussy se tornou popular com um vídeo que viralizou durante a campanha presidencial. Nele, Trump diz a frase “Grab them by the pussy” (as agarro pela buceta) – expressão que resume o tratamento misógino dispensado às mulheres por parte do então presidenciável. De pussy para lá e pussy para cá, criou-se o pussyhat (gorro-buceta, no original rima com pussycat), indumentária rosa-choque que inundou todas as fotos que se vê da marcha.

“Quem inventou isso está rico!”, comenta alguém ao ver o mar de pussyhats. Depois fiquei sabendo que os gorrinhos não eram moeda. Os gorros foram feitos todos a mão por feministas durante semanas de preparação para a marcha. Como suas avós e com as suas avós. Devem ter ficado ricas mesmo, de histórias, afetos, vivência. Na resistência da fofoca e do tricô. 

Drogas – nadando de braçada no mar felpudo

A melhor descrição que li sobre estar submersa no mar de pussyhats é: o que foi que tomei? Sim, drogas! A sensação de estar submersa no oceano de xanas on fire é de terem te dado algo. Você fica meio boba-alegre, com vontade de chorar e abraçar pessoas. Vontade de dançar. Vontade de celebrar a vida. Como se tivessem te dado uma dose maciça de oxitocina para tocar o mundo.

Participei da Marcha em Nova York. Não antes sem entrar em pânico com a cultura de manifestação local. Na manhã do dia da marcha, descubro: fudeu, era preciso se inscrever antes! Diva! Só pessoas que nunca conheceram repressão forte podem pedir “por favor, fazer inscrição ali no site”. Iam fazer um cadastro dos e-mails e enviar à NSA? Já começo assistir irritada ao desfile de celebridades no twitter. Cadê meu lilás feminista? Não quero esse gorro rosa com jeitinho de Barbie. Sigo reclamando comigo mesma. Bem, vencida minha má vontade matinal, decidi ir no último horário, na pipoca, na hora de quem perdeu o bonde. O twitter relampejava com coberturas, discursos, fotos. Na sabotagem, perco a hora, me atraso, esqueço de vestir meu único casaco de inverno.

Quando desci na estação central, uau… bateu! Era gigantesca. Felpuda. Envolvente. Impossível de encontrar o início, o fim. Gente, gente, gente. Rosa, sobretudo, rosa-choque. Um oceano. A primeira coisa que lembro de ter visto foi uma garotinha negra nos ombros do pai. O pai, orgulhoso, sorridente. Me deu oi. Depois uma senhora branca enrugadinha de óculos cochichando para a amiga e apontando um cartaz: ei, olha, agora somos todas vadias! Uma mulher com flor nos cabelos e traços latinos sérios empunha o cartaz, “comunidade do Queens presente”. Audre Lorde presente, seu silêncio não vai te proteger. This is what democracy looks like, democracia se parece com isso, meu bem. O desfile de palavras. Nas línguas amaldiçoadas – árabe, espanhol, russo. Viva vagina! Sim, muita buceta. “Mulheres = buceta” num cartaz. Gente, feminismo transfóbico hoje, qual a necessidade disso? A roda gira. Quando se abre a porteira, vem de tudo. Cartazes homofóbicos sobre o Putin e Trump. Alguns com tom nacionalista absurdo. This is what democracy looks like. O rosa felpudo parece que absorve o choque. Você segue com coração blindado no quentinho. Adolescentes orientais fazem cosplay de algo que minha pouca juventude não identifica. Black lives matter! Black lives matter! Vidas negras importam! Vidas negras importam! Um casal envolvido na bandeira do arco-íris. Uma palhaça cheia de glitter. A cadeirante com um pandeiro. As brasileiras dançando na frente da bandinha. Momento do abraço. A bandinha toca música da Sérvia.

Imagem do Twitter: @rmayersinger. Retirada do Pussyhat Project.

Passaram três garotas de véu. São uma a uma saudadas pela multidão – “I’m with her! I’m with her” (eu estou com ela, eu estou com ela). Em Nova York, após a vitória do Trump houve um surto de agressões e ataques a mulheres jovens muçulmanas, no metrô, em cafés, perto de escolas. Aparece a princesa Leia, lugar de mulher é na resistência. Não sei por quanto tempo fiquei ali, zanzando, absorvendo, caminhando, caminhando. Muito tempo. My body, my rules, meu corpo, minhas regras. Uma hora, congelei e fui para casa. No metrô, seguia rindo sozinha. Não era a única. Devia ser umas 21h e tinha muita gente na rua se manifestando ainda. Muita. Sem bateria no celular, fiquei pensando: quantas pessoas participaram? Pois se o sol tinha se posto em Nova York, ainda iluminava toda a Califórnia e iria ainda lamber as ruas do Havaí.

Cinco milhões. Essa é a soma final.

Cinco fucking milhões de pessoas.

A ressaca: lendo notícias depois

A bad foi se formando assim que saí do metrô. Cara, impressionante! Uma marcha totalmente pacífica! E quanta gente! Daí começo a maquinar: mas se não teve repressão nenhuma, é porque acham que não temos importância nenhuma! É isso? É legal um protesto ser pacífico? Claro que é, chegar bem em casa, tou toda feliz. Mas outras manifestações aqui são reprimidas – vide as do Black Lives Matter. Se não tem repressão, tem sempre policial acompanhando de cara ameaçadora. Lembrei ainda dum momento que tinha o gritinho “thank you NYPD” (obrigadx, Departamento de Polícia de Nova Yorque). Gente, quando que a gente vai gritar “valeu, PM”? As perguntas ficavam ricocheteando na minha cabeça.

Li o máximo que pude depois sobre a marcha. Parte da ressaca é a certeza: cacete, cadê o trabalho na interseccionalidade? E digo isso aqui como mulher branca, aqui da classe média, me sinto um homem cis ht desconstruidão apalpando os questionamentos. É urgente não esquecer que o feminismo deve estar ali na intersecção contra as opressões de gênero, raça e classe social.

Sim, houve várias patinadas da organização da Marcha até cair a ficha: mais uma vez, era um protesto articulado por mulheres brancas e de classe média. Daí seria tão pacífico e flufi? Por isso pouco vi nas ruas as pautas, hum, quentes? As boas e velhas pautas sobre aborto legal e seguro, acolhimento e inserção de imigrantes, condições de trabalho das profissionais do sexo, a morte sempre tão jovem na população trans? Distribuição igualitária de renda? Não discutir isso é bom para quem? Pra uma brasileira branca deslumbrada em Nova York?

Nos dias que se seguiram, li a intervenção enérgica da Brittany Oliver, ativista negra. Ela simplesmente apontou como (a) os títulos iniciais para marcha tinham sido retirados de movimentos criados por pessoas negras e agora esvaziados de seu propósito original e (b) as expressões “todas as mulheres”, “todas as vozes” é apenas uma tentativa de apagar as necessidades específicas das pessoas afrodescendentes. Depois dela quase desenhar isso e muita gente pressionando em redes sociais, o comitê organizador da Marcha foi alterado. Leia a ótima entrevista feita pela AZMina com Briane Butler, uma das organizadoras da Marcha, que conta mais sobre o acontecido.

Isso tudo foi digerido. Passado à limpo. Questionado. Difundido num #PORQUE MARCHAMOS” da organização da Marcha. Achei aqui na tradução de Maria Lima, publicado no site da Insurgência (vale a pena ler na íntegra):

“A libertação de cada umx de nós está ligada à libertação dx outrx. A Marcha das Mulheres em Washington inclui lideranças de organizações e comunidades que vêm construindo a base para o progresso social há gerações. Congratulamo-nos com a colaboração vibrante e honramos o legado dos movimentos que vieram antes de nós – as sufragistas e abolicionistas, o movimento pelos direitos civis, o movimento feminista, o movimento indígena americano, Occupy Wall Street, Marriage Equality, Black Lives Matter, e outros –, adotando uma estrutura descentralizada, representativa em termos de lideranças e focada em uma agenda ambiciosa, fundamental e ampla.”

Me emocionou muito a fala da Janet Mock, escritora e ativista, uma mulher negra trans. O trechinho do discurso foi traduzido pela Inês Castilho, na matéria mais precisa que encontrei em português, assinada por Katie Klabusich e Zach D. Roberts e publicada no OutrasPalavras:

“Nossa visão de liberdade precisa ser idêntica, mas devemos ser intersecionais e inclusivas. Deve estender-se para além de nós mesmas. Sei com certeza absoluta que minha liberdade está diretamente ligada à liberdade da trans latina sem documentos que anseia por refúgio. À da estudante portadora de necessidades especiais que busca acessibilidade inequívoca. À da trabalhadora sexual que luta para fazer a vida em segurança.

Liberdade e solidariedade coletivas demandam um trabalho difícil; um trabalho em que lutamos juntas e lutamos umas com as outras. Não é porque somos oprimidas que não somos vítimas de ações inconscientes, do mesmo modo policialescas e vergonhosas. Precisamos nos voltar umas às outras com mais responsabilidade e comprometimento com esse trabalho. Ao estar aqui presentes, vocês estão se selando um compromisso com esse trabalho.”

Cinco fucking milhões nas ruas contra o Trump!

Ia terminar o texto com um tom derrotista, até meio envergonhada pelo meu pico de euforia causado pela oxitocínica droga felpuda. Mas a vida é maior. A luta ensina:

Com o presidente tuitando, que é a nova forma da gente saber qual horror está por vir, as mobilizações massivas se tornam também mais ágeis. Sei que duma hora para a outra, assisti na rua o final de uma “mobilização emergencial” contra o banimento da imigração muçulmana e contra a construção do muro com o México. Quem estava lá? Muita gente que esteve na marcha das mulheres, militantes LGBTT. Feministas deram as caras. Nenhuma surpresa que a Linda Sarsour, árabe e americana, organizadora da Marcha das Mulheres estivesse com o microfone nas mãos. Inclusive, após a Marcha foi acusada de ter “laços próximos com grupos terroristas” e fortemente defendida em redes sociais.

Outro alento: está em pleno planejamento a Scientists’ March (marcha pela ciência), também movimento anti-trump, que visa reforçar a agenda ecológica e ambiental. A Marcha das Mulheres em Washington, com seu passo gigante, deslumbrado e rosa-choque, aviva um sentimento: vai, é possível. A gente conseguiu um feito. Cinco milhões. Cinco fucking milhões de pessoas.

Deixo você com as palavras do discurso antológico da Angela Davis na marcha, tradução da Juliana Borges:

“Nos próximos meses e anos nós estamos convocadas a intensificar nossas demandas por justiça social e nos tornarmos mais militantes em nossa defesa das populações vulneráveis. Aqueles que ainda defendem a supremacia masculina branca e hetero-patriarcal devem ter cuidado! Os próximos 1459 dias da gestão Trump serão 1459 dias de resistência: Resistência nas ruas, nas escolas, no trabalho, resistência em nossa arte e em nossa música.”

Que seja. Nenhuma a menos. Que nenhuma seja deixada para trás.

Que a Diva nos ajude.