Marcha das Vadias Curitiba 2015: Vadias sabotando o Estado

Texto de abertura da Marcha das Vadias de Curitiba(PR) em 2015. Publicado por Marjory Rocka em seu perfil pessoal do Facebook em 05/07/2015.

Eu venho todo o ano aqui me expressar. Uso esse espaço para minhas palavras – ainda que repetidas – ao vento jogar. Na minha cabeça ecoam vozes inquietantes. E esse primeiro poema curto eu dedico as manas que me contaram seus abusos, vocês pra mim são importantes.

Sabe o peso da cama
de quem matou o amor, não ama?
Sabe o peso da culpa
que carrega a palavra “puta”?
O amargo do sangue na boca
De quem foi obrigada a engolir porra
Carrego 24h comigo
o sal do suor azedo
na pele, de baixo da unha, na ponta dos dedos
Carrego 24h comigo
seu cheiro na minha mente
seu toque na minha mente
seu riso amarelo na minha mente
seu “você vai gostar” na minha mente
Na minha mente
Na minha mente
Na minha mente
Dizem que eu tô doente
que eu tô louca
que eu sou louca
que isso é coisa da minha mente
que isso é coisa pouca
pouca coisa pra se falar
pouca coisa pra se importar
é pouca coisa
aconteceu comigo
acontece com você
é pouca coisa
coisa pouca
histeria coletiva de mulheres loucas
que não chamam de estuprador só homem de touca
pois sabem bem o peso da cama
de quem matou o amor, não ama.
Sabem o peso da culpa,
que contém a palavra “puta”.

Em 2015 não vai ser tão diferente, eu vou fazer aqui a minha parte. Marcha das Vadias é espaço de luta e espaço de arte, de performance, de música e poesia, é periférica essa harmonia.

Me chamam vadia
Vadia, eu sou
Vadia, eu assumo
Vadia, eu rumo
E vou
caminhar com as minhas irmãs vadias
que berram
e berram
e cerram
os punhos
insistem com murros
e armas – os corpos, as mãos
quebrando correntes
machismos latentes
que matam inocentes
e inocência
Eis a consciência
Tô sem paciência
de tanto chorar
de tanto gritar
e com veemência
Me querem calada
Cabeça abaixada
E na madrugada
Na cama estar
pra ser violada
em casa espancada
pelo amor estuprada
não vão acreditar
que eu disse “não”
Meu “não” vale nada
Sigo amordaçada
Com as mãos atadas
mas com pés no chão
De pé eu enfrento
Estado nojento
O seu julgamento
Não me assusta, não.

Marcha das Vadias Curitiba/PR 2015. Foto de Ke Sia no Facebook.
Marcha das Vadias Curitiba/PR 2015. Foto de Ke Sia no Facebook.

Foi assim que começou. Em 2011 as vadias saíram nas ruas para gritar as violências contra as mulheres pela primeira vez. De lá pra cá, eu percebi uma mudança: as mulheres estão cheias. Cheias da sua violência, insistência, dos seus beijos roubados,
do seu “fiu fiu”, de você se fingir de inocente, dizer que é exagero, de usar seu poder pra conseguir sexo forçado, de nos taxar de loucas, histéricas, emotivas, de achar que um “não” pode ser um “sim”, e um “sim” ,afe, muito vadia pra você?

Mulher pra casar, mulher pra trepar, mulher pra comprar, mulher pra vender, achar normal ver corpo padronizado em propaganda, mulher como produto para seu consumo, e cobiça, achar que no meu corpo você manda. Quantos aí vieram só pra ver peitos de fora? Eles não são pra vocês. E é na conquista que vocês são manés e perdem a vez.
Muitas delas já sabem e isso incomoda, aquele que se acomoda nessa posição. E não pense que a falta do consentimento só é quando a mulher disser “não”. Incomoda quem quer submeter as mulheres a seu prazer, dizer o que elas tem que fazer, no que trabalhar, quanto merece ganhar, o que vai vestir, o que vai comprar, e o que vai vender.

Prostitutas, insultas, carregam a culpa do seu pudor. Já dizia Nega Gizza pra quem se incomoda com a presença do dinheiro e a ausência do amor. “Meu corpo, minhas regras”. E isso não é uma piada. O aborto nem vai entrar em pauta nos próximos anos, da maternidade compulsória, a mulher é a culpada, julgada e encarcerada. Com mais de 300 reacionários na plenária, e um presidente, Cunha, misógino, que acha que a Câmara é sua Igreja e escolhe o que vai ser colocado em votação, achar que as mulheres terão vez é muita ilusão. Quantas mulheres mais morrerão?

Elas estão cheias, nós estamos cheias, mas tem outro lado, o lado mais negro, o lado da Cláudia, que morreu arrastada por um camburão. Eu não vou esquecer. Não passarão.
O lado da Maju, a “garota do tempo” que vem sofrendo com os ataques racistas na internet, a violência não é menor porque acontece na web. Eu tô do lado de Verônica, a travesti que foi espancada e humilhada no encarceramento deste Estado violento. E das muitas meninas, mulheres, irmãs que sofrem esses abusos policiais sangrentos.

Eu tô do lado das mães, amigas e familiares que sofrem com as revistas vexatórias para ver seus parentes na prisão. E do lado daquelas pessoas que não querem ver seus filhos menores encarcerados como adultos. À redução eu também digo não! Porque encarceradas nossas pequenas infratoras já são. Não sabiam não? Eu tô do lado também das meninas da faculdade que sofreram a agressão exibida em um cartaz que ameaçava de estupro corretivo as sapatão. Eu tô do lado das meninas que se sentem ofendidas com homens gays achando normal dizer que “na hora do pornô lésbico ninguém é homofóbico”. É lesbofóbico mesmo, parça. Nessa você não foi feliz, não.

A mudança que queríamos ver era nas estatísticas. Particularmente, não queria que precisássemos de números pra saber que existe um problema, e que esse problema precisa ser resolvido, mas é assim que funciona o Estado. Se você não mostrar gráficos as pessoas fingem que o problema não existe, mesmo que elas tropecem nele todos os dias, precisam de dados, dados, e mais dados. O Paraná é o terceiro estado brasileiro que mais mata mulheres, Piraquara é a segunda cidade do país que mais mata mulheres. Até um terço das meninas sofre violência na América Latina. Mais de 70% dos estupros acontecem dentro de casa, na ‘desbaratina’. E esses são os casos denunciados. Muitos crimes contra a mulher seguem silenciados. Do abuso, até a mulher conseguir realizar que foi abusada, e conseguir dizer isso em voz alta, existe um longo caminho. Pois quando ela diz é costume da sociedade desacreditá-la, taxa-la de louca, dizer que é exagero, e até burburinho. Não, não é. Moça, você não está exagerando.

Se precisar vou continuar exemplificando. A violência contra a mulher muitas vezes começa com piadas, ele achando que você está a serviço dele dentro de casa, e termina com morte. Moça, seja forte, não estamos com sorte, mas juntas a gente pode. Quantas vocês acham que já apanharam porque não fizeram a janta? Ou que por isso por seus companheiros foram chamadas de “anta”. E quanto mais falamos sobre isso mais querem dizer que estamos loucas. Mas não somos poucas.

Machismo não é invenção, machismo é violência. Leva o mundo todo a decadência. Invenção é dizer que eu faço parte do sexo frágil. Invenção é dizer que mulheres amam cor de rosa, não são boas com matemática, não é reclamar que foi abusada pelo chefe num estágio. Invenção é presumir que homens dirigem melhor. Invenção é acreditar que a mulher no futebol é a pior. Invenção é para mulheres feminilidade, para homens masculinidade. Invenção é achar que o cara sabe tudo, por que é homem ou por causa da idade. E isso tudo é invenção do patriarcado, que também inventou o Estado que nos violenta, homens e mulheres, pessoas transgêneras e quem não quer se encaixar. É no seu nascimento que vão te enquadrar. O mesmo Estado que proporciona que homens continuem decidindo sobre nossos corpos nos submetendo a violência dos abortos clandestinos e à prisão. O crescimento da população carcerária de mulheres é de 256% nos últimos anos, ainda que mulheres sejam menor número nas cadeias, elas estão entrando mais em presídios sem condição. Nem absorvente tem pra sua menstruação. Eu não preciso de dado ou faculdade pra saber que o Estado nos fode,
e se não te fodeu ainda vai foder cedo ou tarde. Porque o Estado continua velando machismo, o Estado é covarde.

Na sua quinta edição a Marcha das Vadias vem pra sabotar este Estado. Suas normas nos punem, mas suas violências nos unem! Em um mundo onde tudo tem um preço saibam que não nos calarão, esse é só o começo.

Autora

A Marcha das Vadias de Curitiba é um coletivo que desde 2011 organiza não apenas a Marcha, mas também outras ações educacionais contra o machismo. Em 2015, a Marcha das Vadias aconteceu no dia 04 de julho com o tema: “Vadias sabotando o Estado”.