Xanas on fire, ressaca e resistência: sobre a Marcha das Mulheres em Washington

Texto de Ana Rusche para as Blogueiras Feministas.

Xanas on fire

A primeira faísca veio do Havaí. Sem conseguir dormir bem com a vitória do Trump, Teresa vai lá desabafar no facebook: gente, e se no dia da posse, muitas mulheres marchassem para Washington? A aposentada vai lá e cria um evento. 40 pessoas confirmaram. Foi dormir preocupada com o futuro das netas. Quando acordou, a surpresa: seu evento tinha 10 mil confirmações! O segundo estouro foi visto em Nova York, quando Bob posta a foto com a legenda “Marcha de um milhão de bucetas – acho que a gente devia montar uma coalizão de t-o-d-a-s as aliadas marginalizadas e fazer isso”. Recebeu 31 curtidas e 4 comentários. A partir daí, não é possível traçar muito bem a genealogia do pussyfire que se alastrou. Aliás, se tem algo que o Trump fez de bom, foi colocar pussy na boca de todo mundo.

A palavra Pussy de pussycat pode designar gatinho, algo fofo e felpudo. Mas pussy é um termo pejorativo para buceta. Também designa mulher como mero objeto sexual. No português, será que a etimologia de “xana” indica esse caminho? Gatinha, bichana, xana? Os dicionários não estão nem aí com estas palavras, daí a gente pode fazer o que bem entender com elas. Pussy se tornou popular com um vídeo que viralizou durante a campanha presidencial. Nele, Trump diz a frase “Grab them by the pussy” (as agarro pela buceta) – expressão que resume o tratamento misógino dispensado às mulheres por parte do então presidenciável. De pussy para lá e pussy para cá, criou-se o pussyhat (gorro-buceta, no original rima com pussycat), indumentária rosa-choque que inundou todas as fotos que se vê da marcha.

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Os estupros são coletivos, mas a sociedade não se sente responsável

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Esse mês este blog fez 6 anos. Fui olhar rapidamente os textos que publicamos esse ano. Publicamos muito sobre violência contra a mulher, e desde 2012, temos publicado vários textos sobre estupros coletivos. Uma realidade que sabíamos existir, mas que parece ter sido descoberta recentemente pela mídia devido a quantidade de casos que foram noticiados nos últimos tempos no Brasil e no mundo.

Para a maioria das mulheres não é fácil ler, nem mesmo pensar sobre casos de estupro. Muitas vezes nos perguntamos porque nem mesmo amigas feministas estão divulgando o “caso de estupro coletivo do mês”. E a resposta é que muitas não tem mais estômago para ir além das manchetes. E, nesse momento, falo de mulheres que nunca foram estupradas. Não me atrevo a tentar imaginar como se sentem as muitas mulheres que viveram — ou que ainda vivem — essa realidade violenta e brutal.

Se falamos tanto sobre estupros, por que essa ainda é uma violência tão próxima de tantas mulheres? Por que a violência sexual ainda é minimizada? Por que as pessoas ainda culpabilizam a vítima? Podemos resumir tudo em machismo, mas sabemos que não é só isso. Também nos perguntamos, desde o ano passado, o que leva milhares às ruas na Argentina e em outros países da América Latina? O que falta para que as pessoas no Brasil se indignem da mesma forma?

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Mulheres belas e fortes se foram… a marcha!

Texto de Florencia Maffeo. Publicado originalmente com o título: “Mujeres bellas y fuertes se han ido… ¡a la marcha!”, no site Marcha em 19/10/2016. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Argentina, 2016. Foto de Tadeo Bourbon/Site Marcha.
Argentina, 2016. Foto de Tadeo Bourbon/Site Marcha.

“Gritos por toda noite, o vizinho e um corpo. Na estrada de terra se vai. Mulheres bonitas e fortes se foram, meu amigo, e não voltarão”. Hoje #NósParamos e nos mobilizamos. Reflexões urgentes para um dia que será história.

“Você tem raiva por ter nascido mulher?”, me perguntou minha psicóloga, em meio a uma difícil sessão, fazendo referência a forma como o mundo tem me enxergado há 29 anos. Eu não entendi a pergunta, então, em seguida questionou: “Vamos ver, me fale sobre a história das mulheres de sua família, de suas avós. Como você as descreveria? Fortes? Sofredoras?”. Comecei a pensar. Se há algo que se destaca nas mulheres de minha família é o fato de serem trabalhadoras. Duas avós que trabalharam (uma delas ainda trabalha) desde jovens. Minhas bisavós também não ficam atrás, e a reconstrução dessa árvore genealógica me leva até uma tataravó anarquista. Mulheres que trabalham no campo, empregadas domésticas, operárias em fábricas têxteis e de tabaco, cozinheiras que mantinham butecos onde comiam operários de fábricas de tijolos, professoras e babás. Mulheres que também eram chefes de família, algumas sustentaram suas famílias sozinhas. O trabalho doméstico não era algo que pudessem evitar fazer. Cuidar das crianças após um dia de trabalho, organizar a casa, limpar, passar, cozinhar, costurar e fazer as roupas — que o salário não conseguiu comprar — para vestir filhas, filhos, netas e netos. Cozinhar para toda família, pôr a mesa e lavar os pratos enquanto os homens seguiam conversando sobre futebol e política.

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