Feminismo, maternidade e a briga nossa de cada dia

Texto de Luka Franca.

Confesso que o dia das mães não me empolga, talvez por que seja um dos períodos do ano em que a minha dor seja mais visível, nada relacionado ao significado da data em si: motivo para se aquecer o comércio, valorização da mulher como cuidadora, visão unilateral do que é ser mulher e tantas outras coisas que pra mim são um tanto conservadoras quando penso qual o papel da mulher na sociedade. Mas ao mesmo tempo não nego que é um bom momento para reflexão do que é realmente tomar a decisão de ser mãe.

Acho fundamental que neste dia das mães desvinculemos um pouco a questão reprodutiva dos afetos pessoais, dessa imagem da mãe sacralizada e abnegada, aquela disposta aos maiores sacrifícios em nome de sua prole. Mães são também trabalhadoras não-remuneradas, que pelo modelo atual de família e mercado tendem a arcar individualmente com um ônus imenso em nome do bônus coletivo. Oferecer melhores condições para que desempenhem este trabalho, quer seja dentro da família, com o pai assumindo mais tarefas, quer seja no ambiente de trabalho, com tolerâncias às ausências justificadas de quem tem crianças sob sua responsabilidade sem que isso reflita em prejuízos ao seu desenvolvimento profissional, não é portanto uma questão de solidariedade. É um investimento social de  longo prazo. (PAIVA, Iara. Blogueiras Feministas)

Incluiria neste parágrafo da Iara a necessidade de reforçar que nós mulheres-mães não perdermos a nossa identidade pelo fato de termos crias. E esta reafirmação de ser alguém para além do ser mãe ou filha de outra pessoa é importante para podermos até mesmo compreender quais desafios temos como feministas-mães para criar pessoas não necessariamente nos moldes existentes na sociedade, pois tanto lutamos por inserção na sociedade para além do âmbito doméstico, pela socialização do trabalho doméstico e tantas outras coisas que nos resumirmos a mãe do fulano ou a filha da fulana é no mínimo retornar ao papel da mulher que foi construído pela sociedade patriarcal: cuidadora, relegada ao espaço privado e não o público, destinada a procriação e tantas outras coisas.

Aí alguém vem e pergunta: Mas as feministas não defendem a legalização do aborto? Então como é que pode haver feminista mãe? A começar que o fato de defendermos a legalização do aborto não quer dizer a não defesa de uma mulher decidir por ser mãe, é só dar uma parada e ler alguns documentos que versam justamente sobre qual deve ser a política global para se legalizar o aborto no Brasil e ver que ali se coloca a necessidade de se garantir o direito a maternidade plena.

Há sim um desafio enorme em se criar pessoas nesta sociedade, pois algumas coisas estão tão arraigadas, mas tão arraigadas que o desconstruir delas é um caminho tortuoso. Exemplos bem simples são a relação de cores para meninas e meninos e o fato das pessoas só reconhecerem se um bebê é menina ou menino pela existência ou não de um brinquinho na orelha, passando por questões mais ideológicas mesmo da valorização do núcleo familiar nas escolas e tal.

O governo equatoriano realizou uma campanha bem interessante sobre combate ao machismo e um dos vídeos era justamente relacionado o como as crianças são criadas na sociedade:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=NTxUWQ2IE6s&feature=player_embedded]

Para mim não há duvida de que feminismo e maternidade tem relações próximas, não apenas pela questão da criação e formação das pessoas, mas também pelo fato da sociedade encarar o maternar como função exclusiva da mulher, sem compreender a revolta hormonal que acontece no corpo feminino durante a gravidez e no puerpério, ou então quando se escandaliza ao ver uma mulher amamentanto no ônibus sem cobrir os seios como se fosse um sério atentado ao pudor.

O papel de mãe acaba por se enquadrar na lógica de só existir apenas dois tipos de mulheres no mundo: as santas e as putas. Justamente a visão sacralizada de maternidade que a Iara se refere no parágrafo citado acima, mães não trepam, não mostram os seios, não tem desejos… Vivem apenas para as crias e se fogem disso logo escutam: Isso não é um comportamento aceitável, você é mãe.

Como já disse no mundo em que vivemos hoje se mulher e mãe sem cair nos arquétipos do que deve ser um ou outro e passar isso para as crias não é uma tarefa fácil, porém é um dos momentos em que a realidade da mulher na sociedade acaba se desvelando de forma crua e combater todos estes esteriótipos e construções não se faz do dia para noite, mas é preciso ser feito cotidianamente.

A maternidade como trabalho não pago

Texto de Iara Paiva.

Já falamos aqui sobre as mulheres e o mercado de trabalho, mas não custa relembrar: a discriminação sofrida pelas mulheres na vida profissional se dá, principalmente, pela possibilidade delas terem que se ausentar de suas funções produtivas por conta da maternidade, seja para gerar e dar a luz a uma criança (o que implica em meses de licença), seja para, no dia-a-dia, resolver questões relativas à saúde e à educação de sua prole. As bases para essa discriminação residem em duas crenças: 1) a de que as tarefas de reprodução são obrigações inerentes às mulheres, 2) que são questões essencialmente privadas.

Á esquerda, Licia Ronzulli, membro do Parlamento Europeu. Crédito da Imagem: MailOnline/Reuters.

Sobre a exigência de que a mulher assuma inteiramente (ou a maior parte) das tarefas de manutenção do lar e cuidados com crianças e idosos também já tratamos aqui. É como se à mulher tivesse sido permitido o acesso à realização profissional contanto que ela continuasse respondendo pelas tarefas que lhe foram destinadas na divisão sexual do trabalho. Daí que, quem quer/precisa trabalhar fora delega este trabalho a outra mulher, seja ela remunerada (babá ou empregada doméstica, ou uma vizinha que improvisa uma creche em sua sala) ou não (avós, outros parentes e até crianças mais velhas). Mesmo aquelas poucas que tiveram a sorte de encontrar uma vaga em creches públicas ou tem condições de pagar por berçários (onde a imensa maioria das funcionárias são, não por acaso, mulheres) se vêem, vez ou outra, com a necessidade de adiar compromissos profissionais quando a criança fica doente. Raramente o pai falta ao trabalho quando o filho tem febre.

Mas eu queria focar um pouco mais na função social de colocar uma criança no mundo. Pensando economicamente, interpretando a Economia como a ciência que estuda também a administração da escassez de recursos, não falta gente no mundo. E quando algo é abundante, ou seja, a oferta é  maior do que a demanda, os preços tendem a cair. Se este “algo” não tiver uma relação mercantilizada, fica ainda mais difícil estabelecer um valor, porque nossa noção mais imediata depende disso, do quanto se paga por algo. Por isso tendemos encarar a reprodução de um ponto de vista exclusivamente privado, sem atentar para o valor que ela agrega. Só que independentemente da ideologia política com a qual analisamos a questão, sendo anarquista, comunista ou liberal convicto, não é assim. A reprodução, mais do que um instinto de preservação da espécie ou uma realização social é também uma necessidade social.

Quero focar minha análise no ponto de vista liberal, para não depender de sensibilidades humanistas em meus argumentos. Considerando apenas a realidade capitalista, é preciso que haja manutenção da mão de obra e do mercado consumidor. O mercado e o capital, sozinhos, não dão conta disso, porque ainda não existe tecnologia capaz de reproduzir as condições do útero de uma mulher. Depois do bebê gerado, é preciso que alguém se encarregue de seus cuidados básicos, de sua saúde e sua educação (não só a formal, como a social,  emocional, etc). Este cidadão ou cidadã em formação já consome antes de ser capaz de produzir, e chega ao mercado apto para ser mão de obra (o que varia é seu grau de qualificação). O mercado arca com parte dessas despesas? Sim, mas com uma parcela ínfima delas, se considerarmos a parcela dos impostos voltada para estes fins e os eventuais programas de benefícios corporativos. E as principais responsáveis hoje pela manutenção desse trabalho essencial para continuação da espécie são discriminadas.

Muito bonito o discurso, mas o que você tem a ver com os filhos dos outros? Você sequer quer ter filhos! Bom, se você pretende, um dia, se aposentar, é o trabalho da nova geração quem vai permitir isso. Você não conta com a previdência pública e tem um fundo de aposentadoria privado? Acho que depois da crise de 2008 você já deveria saber, mas não custa lembrar: não existe reprodução automática nem de dinheiro. Só o capital especulativo não garante a sua pensão, se não houver um trabalho produtivo que o suporte. Na dúvida, pergunte para o pessoal da Islândia que eles te explicam direitinho. Ah, mas quanta bobagem, não para de nascer gente no mundo! Mais ou menos. O último censo já encontrou no Brasil menos gente do que estimava encontrar. As mulheres estão tendo menos filhos, as pobres inclusive. As de classe média alta, justamente aquelas que terão condições de sustentar um filho até ele se formar geriatra pra cuidar das nossas artrites, menos ainda.

Acho fundamental que neste dia das mães desvinculemos um pouco a questão reprodutiva dos afetos pessoais, dessa imagem da mãe sacralizada e abnegada, aquela disposta aos maiores sacrifícios em nome de sua prole. Mães são também trabalhadoras não-remuneradas, que pelo modelo atual de família e mercado tendem a arcar individualmente com um ônus imenso em nome do bônus coletivo. Oferecer melhores condições para que desempenhem este trabalho, quer seja dentro da família, com o pai assumindo mais tarefas, quer seja no ambiente de trabalho, com tolerâncias às ausências justificadas de quem tem crianças sob sua responsabilidade sem que isso reflita em prejuízos ao seu desenvolvimento profissional, não é portanto uma questão de solidariedade. É um investimento social de  longo prazo.

Que presente?

Texto de Tica Moreno.

Nos últimos anos, sempre que o Dia das Mães se aproxima vem aquela questão entre as irmãs: qual vai ser o presente que vamos dar pra nossa mãe?

E, nos últimos anos também, tem me incomodado mais e mais as propagandas de presentes pro dia das mães. Outro dia ligaram aqui na SOF (organização feminista onde trabalho) pra dar uma sugestão de pauta pra um periódico nosso (a Folha Feminista). Eu atendi a moça, que falou tudo sobre uma linha de presentes mára pro dia das mães. Eu expliquei pra ela qual era nosso foco (política, feminismo, transformação…), ela entendeu e ficou por aí.

Parece que o Dia das Mães só perde pro Natal como data que dá lucro pro comércio. Aí um primeiro elemento que surge na mente é o da mercantilização do afeto. Um presente, em um dia específico do ano, sintetiza todo o carinho que deveria ser demonstrado em atos, palavras, olhares ao longo do ano. Tá, não é só no Dia das Mães, logo mais vem o Dia dos Namorados e o Dia dos Pais que tem muito disso também.

Só que aí no Dia das Mães os presentes reforçam explicitamente, ou de forma sutil, qual é o lugar daquela mulher que, entre todas as outras coisas que é ou gostaria de ser, é nossa mãe.

É nossa mãe e é mulher. Então são duas ordens de carro chefe de presentes: os eletrodomésticos maravilhosos e todas as parafernálias a serviço da feminilidade. Assim as mães dão conta de todas as suas tarefas e ainda conseguem ficar lindonas (afinal de contas, isso também é parte da tarefa).

Agora um parênteses gigante, pra depois voltar ao assunto do presente:

Ontem eu tava vendo, de novo, Sex And The City 2. Tirando todos os comentários sobre o filme (parece que foi escolhido como o pior de 2010, rs) ou sobre o seriado, vou dizer que tem uma cena, que pra mim é fantástica, e que tem a ver com o assunto desse post.

Eis que as quatro amigas estão lá em Abu Dhabi, e duas delas que são mães, vão tomar umas. A Miranda (personagem que eu mais gosto) dá um incentivo e uns drinks pra Charlotte falar sobre o assunto maternidade, as angústias que vem sofrendo, essas coisas que quem só é filha imagina como deve ser, mas não sabe porque nunca viveu na pele a experiência de ter um ou mais seres humanos dependendo full time de você. Você pode assistir a cena, numa filmagem feita na tv e sem legendas, aqui.

Enfim, umas coisas sobre essa cena:

  • A primeira é a afirmação da Miranda “Ser mãe não é o suficiente”. Não preciso comentar né?
  • A outra é o sentimento de culpa que a Charlote sente, porque ela está se sentindo bem por passar uma semana inteira longe das pimpolhas. Junto com um sentimento de fracasso como mãe. Porque ela sempre quis uma família perfeita, se dedicar inteiramente pra essa família e pluft – tá foda.
  • E olha que ela tem ajuda em tempo integral. Não, não é o marido. É a babá. Uma babá super qualificada que fica o tempo todo a disposição. A Charlotte, ricona, se pergunta “como as mulheres que não tem babá em tempo integral conseguem?”. E desemboca falando que, quando a outra amiga disse que era um risco ter uma babá bonitona porque o marido dela podia trai-la com a babá, o que deixou a Charlotte realmente preocupada foi “eu vou perder minha babá”.
  • Brilham nessa cena, em neon, a posição de classe em que elas estão, uma visão não libertária de relacionamento e, além disso – e por isso que coloquei o diálogo aqui – alguns elementos sobre a experiência da maternidade que imagino ser comum a várias mães mundo a fora.

Vários posts aqui no Blogueiras Feministas já abordaram o assunto da maternidade lindamente.

A idéia de levantar o que tem de “não perfeito/conto de fadas” na experiência da maternidade não é, de forma alguma, dizer que ser mãe é sempre um fardo, um horror e tal.  Pelo contrário, sou daquelas que acha que a gente sempre tem que levantar todos os elementos que permeiam as experiências, ver o que é bom, o que é ruim, o que é marromenos, pra ver como potencializa o bom, e acaba com o ruim.

Voltando pro presente…

Se você não for daquelas/es que pulam essas datas festivas pra boicotar o mercado, vamos combinar de dar presentes que não reforcem toda a sobrecarga e pressões pras mulheres mães? E mais, como é que a gente faz pra que esse combinado não fique restrito a um presente em um dia específico? Como fazer para isso vire uma estratégia, que vise garantir, para todas as mulheres que decidam ser mães, que a maternidade seja sempre mais prazer que perrengue?

Ei, pais, vocês tem um papel fundamental nessa empreitada.