Como a “Má Medicina” descarta e diagnostica incorretamente os sintomas das mulheres

Texto de Terry Gross. Publicado originalmente com o título: How ‘Bad Medicine’ Dismisses And Misdiagnoses Women’s Symptoms, no site National Public Radio em 27/03/2018. Tradução de Carina Santos para as Blogueiras Feministas.

Quando a jornalista Maya Dusenbery estava com 20 anos, ela começou a sentir dores progressivas nas articulações e acabou aprendendo que elas eram causadas pela artrite reumatóide.

A medida que ela começou a pesquisar por conta própria sua doença, Dusenbery percebeu como teve sorte em receber seu diagnóstico de forma relativamente fácil. Ela conta que outras mulheres com sintomas similares “sofreram uma longa demora no diagnóstico e sentiram… que seus sintomas não foram levados a sério”.

Dusenbery mostra que essas experiências estão incluídas em um grande padrão do viés de gênero na medicina. Seu novo livro, Doing Harm (Fazendo Mal, em tradução livre ainda sem título em português), argumenta que os sintomas das mulheres são frequentemente descartados ou diagnosticados incorretamente — em parte pelo que ela chama de “viés sistêmico e inconsciente que está enraizado … no qual os médicos, independente de seu próprio gênero, estão aprendendo nos cursos de medicina”.

“Eu definitivamente acredito que o fato da medicina ter sido histórica e continuamente dirigida por homens seja a fonte de alguns desses problemas”, ela diz. “O conhecimento da medicina que temos é desproporcionalmente inclinado a saber mais sobre os corpos dos homens e as condições que os afetam”.

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Ocultando os efeitos colaterais dos contraceptivos hormonais: uma história racista e sexista

Texto de Bethy Squires. Publicado originalmente com o título: The Racist and Sexist History of Keeping Birth Control Side Effects Secret, no site Broadly em 17/10/2016. Tradução de Ana Cristina para as Blogueiras Feministas.

Um estudo recentemente publicado traz à tona a alarmante relação entre anticoncepcionais hormonais e a depressão. Mas os resultados encontrados são apenas os mais recentes de uma longa sucessão de batalhas, travadas por mulheres com seus médicos, por informações precisas sobre métodos contraceptivos.

Em setembro, a JAMA Psychiatry publicou um estudo dinamarquês que encontrou correlação entre o uso de anticoncepcionais hormonais e o diagnóstico da depressão clínica. O estudo monitorou o uso de contraceptivos hormonais e a prescrição de antidepressivos por mais de seis anos, e para mais de um milhão de mulheres. Eles descobriram que mulheres que faziam uso de contraceptivos hormonais – fosse a pílula, dispositivo intrauterino (SIU) ou o anel vaginal – tinham chances significativamente maiores de precisar da prescrição de antidepressivos.

Desde que a notícia do estudo surgiu, muitas mulheres relataram se sentirem justiçadas, uma vez que a ciência está finalmente reconhecendo suas experiências de vida. “Eu tomei a pílula por dez anos”, conta Holly Grigg-Spall, autora do Sweetening the Pill (“Adoçando a pílula”). “Uma em particular, a Yasmin, provocou efeitos colaterais gigantes – efeitos psicológicos: depressão, ansiedade, ataques de pânico. Por dois anos eu não liguei os pontos entre o que estava acontecendo comigo e a pílula”.

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Meu corpo simbolizado e ressignificado para além da sociedade cisgênera

Texto de Daniela Andrade.

Outro dia, vi uma mulher cisgênera dizendo que era um absurdo eu dizer que não tinha nascido homem ou mulher, que isso dava força para os fanáticos religiosos que falam criminosamente em ideologia de gênero, como se estivéssemos impondo aos outros quais seus gêneros. Que eu não poderia negar a realidade objetiva.

O que não entra na cabeça dessas pessoas cisgêneras é que: sexo/gênero não são dados postos, entregues à humanidade por alguma entidade mítica, mas descritos por uma sciencia sexualis criada e gerida por humanos, diga-se de passagem, humanos cisgêneros, que foram quem desde sempre tiveram acesso ao saber e fazer acadêmico-científico. As pessoas trans desde sempre estão alijadas desses espaços.

E, se formos ler Thomas Laqueur, por exemplo, vamos verificar que a divisão do mundo em absolutamente dois sexos não é algo imemorial. Laqueur debruçando-se sobre a história da sexualidade humana, como Foucault em sua trilogia, dão conta que o mundo até então era tido como tendo apenas um sexo, em que a mulher seria uma deformação do masculino, ou o sexo masculino não desenvolvido. Daí sua inferioridade considerada dentro do patriarcado.

Espelho. Foto de Christi Nielsen no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Espelho. Foto de Christi Nielsen no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Pois bem, vejam que se inclusive as pessoas cisgêneras modificaram a concepção de sexo-gênero, por que eu, pessoa trans, tenho que engolir as teorias de sexo-gênero, ou ante isso, a imposição do sistema sexo-gênero sobre a minha pessoa, de forma acrítica?

O corpo é meu, eu ressignifico o meu corpo como me cabe. Não estou dizendo como ninguém tem que ver o próprio corpo, não estou impondo como as pessoas precisam simbolizar e significar o próprio genital por exemplo, de forma que não quero que façam o mesmo comigo.

Quero que parem de se intrometer no meu corpo e na forma como eu vislumbro meu corpo, isso só compete a mim. E aí que reside a leviandade e a mentira desses fanáticos religiosos. Não estou impondo nada, ao contrário do que as pessoas cisgêneras desde sempre fizeram, estou propondo às pessoas trans outras formas de significarem e simbolizarem os próprios corpos, em detrimento das pressões e imposições sociais.

Se eu quero ou necessito mudar o meu corpo, o meu genital, isso deveria dizer respeito apenas a mim. Isso não muda o mundo, isso não muda a vida de ninguém, apenas a minha. Não estou ditando que genital cada um deve ter, que corpo cada um deve ter, estou dizendo que não sou obrigada a acatar imposições que legitimam corpos cisgêneros e a identidade cisgênera como corretos, “de verdade”, “normais”, o que deve ser perseguido pelas pessoas trans. Inclusive porque as pessoas trans podem ter os mesmos corpos das pessoas cisgêneras, sem modificar absolutamente nada. Pois a identidade de gênero não é algo do aparato anatômico, mas do psíquico.

Se as pessoas cisgêneras impõem que meu genital é masculino ou feminino, eu pergunto: preciso realmente acatar o que a ciência cisgênera determinou para mim? Por conta do quê? A ciência, ou melhor, os cientistas cisgêneros ao longo da história já determinaram cada coisa absurda, por exemplo que as pessoas negras eram menos inteligentes, e diziam comprovar com estudos; que só me leva a crer que deveríamos deixar de falar em ciência como dogma ou religião.

Aliás, para além do que diz a biologia, que só pode descrever partes anatômicas dos corpos, eu não sou apenas um ser biológico, mas também um ser social e que possui subjetividade. Ou seja, não é porque alguém determinou que corpo eu tenho, que genital eu tenho, qual é meu gênero, que eu devo acatar. Estamos falando de mim, não de você.

Meu corpo pode ser simbolizado e ressignificado para além do que a sociedade cisgênera me impõe, o nome disso é resistência, é dizer não à colonização das pessoas cisgêneras sobre nossos corpos, nossas identidades, nossas subjetivações.

Meu gênero nunca esteve instalado no meu genital e na minha anatomia, e meu genital, por exemplo, só terá sentido pra mim se eu assim simbolizá-lo como uma parte de mim com significações benéficas. Sou mulher independente do meu genital, inclusive porque não saio mostrando ele por aí, as pessoas se relacionam com a Daniela e não com o genital da Daniela.

A forma como a Daniela vê o próprio corpo não deveria dizer respeito a você, mas à Daniela. Assim como a forma que você vê seu corpo não diz respeito à Daniela. Mas para além disso, tanto a Daniela precisa respeitar como você se vê e quer ser tratado ou tratada, quanto vice-versa.

Refuto as imposições do que deve ser meu corpo, do que deve ser meu genital e do que deve ser a pessoa que eu sou. É preciso respeitar as individualidades e singularidades de cada pessoa pois não somos robôs, cópias perfeitas uns dos outros.

A forma como você enxerga o mundo, enxerga seu corpo e enxerga o sistema sexo-gênero, pode não ser a forma como eu faço a mesma coisa. E daí? Qual o enorme problema na sua vida? Muda o que nos seus planos se eu vejo o mundo, meu corpo e meu genital de forma diferente da sua?

Autora

Daniela Andrade é uma mulher transexual que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou. Escreve em seu blog pessoal: Alegria Falhada. Administra a página:Transexualismo da Depressão.

Esse texto foi publicado originalmente em sua página pessoal do Facebook no dia 23/06/2015.