O que é aborto?

Texto de Érika Pellegrino para as Blogueiras Feministas.

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A foto acima é de um embrião. Não é um bebê, não é um feto, não é um ser desenvolvido. E não é produto, nem nunca iria resultar em uma gestação, porque é o embrião de uma galinha com 72 horas de existência. Galinhas, como sabemos, não ficam gravidas.

É muito comum termos dúvidas quanto a definição de termos como: aborto, embrião, feto, gestação, etc. Na internet é comum encontrarmos definições confusas ou às vezes até propositadamente incorretas, especialmente em sites de grupos anti-aborto.

O objetivo desse texto é ser simples e informativo, por isso, peço desculpas por ter assumido o risco de ser cisnormativa com o objetivo de ser didática. Portanto, quando falo sobre mulher e feminino ou homem e masculino nesse texto, estou usando como referência pessoas cisgêneras e cissexuais. Se qualquer pessoa trans* tiver uma crítica ou questionamento, ficarei feliz em responder nos comentários.

Fecundação e gravidez

Tudo começa na formação dos gametas, que são os óvulos e espermatozoides. A mulher já nasce com os oócitos, que todo mês a partir da puberdade irão se maturar e dividir dando origem aos óvulos.

O óvulo é lançado na trompa e percorre o caminho até chegar ao útero, que está com a parede interna espessada. Não ocorrendo fecundação e implantação, essa parede vai descamar e ocorre a menstruação normal. Se acontecer de ter espermatozoides nadando por ali no período fértil, eles vão chegar até a trompa e alguns deles encontram o óvulo, em geral só um consegue penetrar na camada externa do óvulo e ocorre a fecundação.

Fecundação é uma série de reações entre duas células até que o material genético de ambos se juntem formando o zigoto.

As células então vão se dividindo e formando um aglomerado, que vai descendo pela trompa até chegar no útero, o que leva 4 dias. A implantação, do que agora é chamado blastocisto, naquela parede uterina espessada vai ocorrer por volta do 6º dia e vai se completando até o 10º dia. É a partir daí que as reações metabólicas farão o corpo produzir o HCG, que é detectado nos testes de gravidez.

Só dá para falar em gravidez ou gestação depois que ocorreu a implantação do blastocisto. Como eu disse no início, galinhas (ou peixes, ou ornitorrincos) não gestam porque o desenvolvimento do blastocisto da galinha vai acontecer dentro do ovo que é externo ao corpo dela. A gestante é parte integrante da gestação, não há potencial de desenvolvimento para fases mais maduras, pelo menos até onde a tecnologia avançou, sem que isso ocorra, e portanto só se fala em gestação depois que ocorre essa interação entre o concepto e a gestante.

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Embrião e aborto

Usamos o nome de Embrião para a fase do concepto em que ele começa a se dividir e diferenciar em partes que darão origem aos diferentes órgãos e sistemas, essa fase compreende a 3ª semana até a 8ª semana.

Do terceiro mês até o final da gestação, chamamos de período fetal.

Falei tudo isso pra dizer que, em termos científicos, zigoto é uma coisa, embrião é outra, feto é outra. E nenhuma delas é sinônimo de bebê, da mesma forma que gestação e maternidade também não são sinônimos — tem mulheres que engravidam e não são mães, tem mães que nunca engravidaram…

Aborto é a interrupção da gestação até 20 semanas, ou com feto menor que 500g de peso ou com menos de 25cm de comprimento. A definição é determinada pela impossibilidade do concepto sobreviver fora do útero, e se o feto tiver mais de 20 semanas, mais de 500g e mais de 25cm existe teoricamente autonomia biológica suficiente para que ele seja capaz de sobreviver fora do corpo da gestante, e então fala-se em parto prematuro.

Por isso nas legislações frequentemente refere-se a interrupção da gestação — não é um eufemismo, é só um jeito de englobar casos mais precoces e mais tardios. Por exemplo, a lei brasileira permite interrupção da gestação no caso de fetos anencéfalos, e o diagnóstico só pode ser feito através de ultrassonografia após as 12 semanas, então é frequente que a interrupção seja mais tardia.

O aborto como evento natural é extremamente comum: nas gestações até 20 semanas, ocorre em 8 a 20% dos casos clinicamente detectados — ou seja, nos casos em que a mulher fez um teste de sangue ou urina e descobriu estar grávida, o que como vimos só ocorre a partir de cerca de 10 dias após a fecundação, mas geralmente acaba sendo um pouco depois, quando a menstruação atrasa. Isso faz com que um número ainda maior de abortos ocorra antes de a gestação ser sequer detectada, correspondendo de 22 a 26% das gestações. Se levarmos em conta as perdas antes da implantação, cerca de 50% dos óvulos fecundados nunca vai resultar num ser humano vivo.

Ou seja, para quem encara o aborto como equivalente a morte de um ser humano e defende os direitos civis de um suposto “nascituro” a natureza é uma baita genocida; pior ainda quando pensamos nos argumentos contra o uso de células-tronco embrionárias ou fertilização in vitro por conta da ideia de que a vida começa na fecundação.

Autonomia e escolha da mulher

Não vemos nenhum dos grupos autointitulados “pró-vida” protestando por enterros e atestados de óbito pelos quase 50% de abortos espontâneos ou perdas pré-implantações, mas vemos alguns praticando atentados contra clínicas e profissionais onde o aborto é legalmente praticado, o que me faz pensar que o nome mais apropriado seria “anti-escolha” ao invés de pró-vida. Parece que o aborto só vira uma grande questão que recebe a atenção geral quando é causado pela autonomia e escolha de uma mulher.

A coisa fica ainda mais anacrônica quando consideramos que pelo menos 68 mil mulheres morrem por ano em decorrência do aborto ilegal. O aborto praticado adequadamente no primeiro trimestre, por exemplo, é efetivo em cerca de 98% das gestações, com menos de 3% de complicações, que chegam a ser graves em apenas 0,65% dos casos — contra 25% de complicações graves nos casos de abortos praticados de forma insegura. A morte por aborto realizado de forma insegura é responsável por uma em cada 8 mortes relacionadas à gestação no mundo.

Apesar de todos esses termos e definições, não é a Biologia que determina as leis e o desenvolvimento de políticas. Cada país tem sua legislação específica, mais ou menos restritiva tanto em relação ao motivo do aborto quanto em relação ao período de gestação em que ele é permitido, e não existe na Biologia uma unanimidade para quando surge a vida e até quando pode-se fazer um aborto, porque não é daí que sai o substrato ético, então utilizam-se diversos critérios.

O que me parece ser unânime é que as escolhas sobre o corpo da mulher, que deveriam caber somente a ela, viram uma questão pública e todos acham que podem e devem lhes impor restrições, mantendo-as como cidadãs de segunda classe, com direitos abaixo até de grupos de células que parecem tanto com um ser humano quanto o embrião de galinha do topo desse texto. E o que parece ser critério para manter as mulheres em condições tão precárias, sem atenção ou garantia de direitos por parte do Estado é que sejam pobres – 98% dos abortos sem condições de segurança ocorrem no terceiro mundo.

Dia 28 de setembro é dia de luta pela descriminalização do aborto na América Latina, onde cerca de 1.1 milhão de mulheres pobres se submetem a um aborto inseguro todo ano. Dizer sim para a legalização não é dizer não para os métodos anticoncepcionais, não vai fazer com que seja uma decisão fácil, não vai estimular as mulheres a fazerem um aborto. É dizer sim ao reconhecimento dos direitos e à vida dessas mulheres, é parar pra pensar se realmente acha que todas essas mulheres (incluindo muito provavelmente alguém que você conhece, ou mesmo da sua família) são assassinas e deveriam estar na cadeia.

Referências

MOORE, K.L. & PERSAUD, T.V.N. Embriologia Clínica. Rio de Janeiro, Editora Elsevier, 2008.

Aprendendo embriologia no ite de embriologia da Famema: http://www.famema.br/ensino/embriologia/

Unsafe abortion, 2014. Por Melissa L Gilliam e Sadia Haider em: http://www.uptodate.com/contents/unsafe-abortion

Spontaneous abortion: Risk factors, etiology, clinical manifestations, and diagnostic evaluation, 2014. Por Togas Tulandi e Haya M Al-Fozan em: http://www.uptodate.com/contents/spontaneous-abortion-risk-factors-etiology-clinical-manifestations-and-diagnostic-evaluation

O site Uptodate em geral não funciona sem uma assinatura pessoal ou de uma instituição acadêmica, então se alguém precisar de uma referência específica de algum dado e não conseguir acessar, pode me pedir que eu vejo os artigos e tento mandar.

Autora

Érika Pellegrino é médica, está fazendo psiquiatria e acha o máximo ser paga pra ouvir inúmeras historias interessantes todos os dias.

A coragem das vítimas de Roger Abdelmassih

Texto de Bia Cardoso.

Vanuzia, Yvani, Maria Silvia, Crystiane, Helena, Teresa, Cristina. Esses são os nomes de algumas mulheres que foram vítimas do ex-médico Roger Abdelmassih. Condenado pela Justiça, em 2010, a 278 anos de reclusão pelos crimes de estupro e atentado violento ao pudor, há 3 anos ele estava foragido. Essas mulheres nunca desistiram de vê-lo preso.

A coragem que tiveram ao denunciá-lo foi a mesma que as impulsionou a se unirem, pesquisarem provas, entrarem em contato com pessoas que sabiam do paradeiro do ex-médico. Juntas, elas criaram uma associação e canais de comunicação na internet por onde receberam depoimentos de outras vítimas e informações preciosas sobre o paradeiro do foragido.

No dia 19 de agosto, Roger Abdelmassih foi preso no Paraguai. No dia 20 de agosto, desembarcou em São Paulo e algumas de suas vítimas fizeram questão de ir lá, mostrar sua força e determinação.

Mulheres, vítimas do ex-médico Roger Abdelmassih foram ao aeroporto de São Paulo celebrar sua prisão. Foto de Lívia Machado/G1.
Mulheres, vítimas do ex-médico Roger Abdelmassih foram ao aeroporto de São Paulo celebrar sua prisão. Foto de Lívia Machado/G1.

Quem, como eu, teve a possibilidade de acompanhar esse momento ao vivo no canal a cabo, viu cada mulher dizer seu nome e em seguida iniciar um relato, como é possível ver nos vídeos. Cada dor, cada tortura, cada momento de desespero narrado nos faz lembrar o quanto o estupro e o abuso sexual são crimes tão presentes em nossa cultura e tão mascarados. Essas mulheres estavam lá para mostrar seus rostos e celebrar o cumprimento da justiça.

É fácil desumanizar Roger Abdelmassih. Chamá-lo de monstro, demônio ou dizer que ele é doente ou louco, porque isso nos afasta das atrocidades que ele cometeu. Mas também estigmatiza como agressivo quem tem alguma deficiência mental.

Nossa primeira reação é não querer ter nada em comum com um estuprador. Mas acredite, ele é uma pessoa com a mesma cognição que tantas outras, que se sentiu no direito de colocar seu poder acima de outras pessoas, nesse caso, mulheres num momento de grande vulnerabilidade, em busca da medicina para realizarem o seu desejo de ser mãe.

Porque estupro e abuso não são demonstrações de desejo sexual, mas sim de poder. E, numa sociedade em que as vítimas ainda são muito culpabilizadas pela violência sexual, várias pessoas o ajudaram a fugir, várias mulheres foram abandonadas pelos maridos e por outras pessoas de seu círculo. A “monstrificação” dá normalidade a bondade e desumanidade ao que não se adequa a essa dita normalidade. Dessa forma, não se enfrenta a misoginia e o machismo, que são os verdadeiros problemas, além de estigmatizar pessoas que não estão dentro do comportamento “comum” da sociedade.

Quando uma notícia dessas ganha as manchetes, há sempre inúmeros desdobramentos. Roger Abdelmassih foi condenado por 49 estupros, mas sua prisão levou outras mulheres a fazer novas denúncias, um novo inquérito deve ser aberto.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) revelou que o assédio sexual contra pacientes foi responsável por 44% das cassações de registros profissionais de médicos ocorridas no país desde 2009. Um número assustador, mas que mostra como não são “monstros” que cometem esse tipo de ato, mas sim pessoas investidas em posições de poder, que tem total consciência do que estão fazendo.

O Ministério Público agora quer saber quem ajudou e quem financiou a fuga de Roger Abdelmassih. Ele vivia com muito dinheiro a disposição sem trabalhar e usava documentos falsos. As suspeitas é que, além da família e de amigos, haja uma quadrilha por trás que forjou empresas e fez lavagem de dinheiro. Algumas notícias indicam que há políticos, servidores públicos, magistrados e empresários envolvidos.

O estupro é um crime pavoroso, mas precisamos conter nossa sanha por vingança. A vitória dessas mulheres é uma inspiração. Para apoiar a coragem que tiveram, republicamos alguns dos depoimentos divulgados pela mídia:

Vanuzia Leite Lopes, criadora da associação de vítimas:

“Eu estou curada. Ele está entrando preso e eu estou livre. Eu fiquei dois anos sem sair de casa, com pânico desse homem”, contou.

“Ele me violentou quando eu estava sedada, só que eu acordei alguns minutos antes e consegui me desvencilhar e fazer o exame de corpo de delito. Fui a vítima que teve a prova cabal contra ele porque tive esse documento”, disse.

“Ele não vai sair (da prisão). Eu agi em legítima defesa hoje e esses anos todos para colocar ele aqui de volta. Ele destruiu vidas.”

“Eu tenho nojo desse homem, tenho medo. Ele acabou com a minha vida e com a vida de milhares de mulheres. Seja bem-vindo ao inferno. Você não vai sair daqui, não tem ministro que vai tirar você daqui mais. Eu estudei direito, eu derrubo qualquer tese. Eu estudei direito para isso”

“Nós juntamos 300 documentos, mandamos para todos os veículos, para a polícia e fomos nós que conseguimos tudo. Contas de telefone, endereços, transferências bancárias. Faz três anos que eu converso com denunciantes, que eu conto a minha história, dizendo que ele fez sexo anal comigo, que ele me passou uma bactéria. Eu me humilhei”.

“Não tenho medo que ele saia, ele não vai sair. Eu agi em legítima defesa hoje e esses anos todos para colocar ele aqui de volta. Nós vamos também na ONU representar como crime contra a humanidade porque ele misturou os nossos embriões com o de animais. Ele destruiu vidas”

“Ele disse uma vez que ele era o Deus aqui na terra. E agora pra onde ele vai é o inferno. Ele não é Deus lá não.”

Yvany Serebenic, empresária:

“Me paralisei (ao saber da prisão). Não sei se sinto fome, cansaço. Se ele não vai dormir, eu também não. Enquanto não vi as imagens não acreditei. Eu achei que ia ficar muito feliz, mas não conseguia imaginar a sensação. Agora o medo é dele não ficar preso.”
“Eu quero que ele apodreça na cadeia. Que ele viva muito para ele poder apodrecer e pensar e pagar por tudo que ele fez com a gente. Nós vamos até o fim, vamos continuar lutando.”

“Eu recebi de forma bastante satisfeita, com sensação de ter ajuda nisso. Nós, vítimas, contribuímos bastante com as denúncias. Recebíamos várias informações e íamos municiando a polícia. Eram informações de verdade, porque graças a ela a gente consegui desvendar esse paradeiro misterioso.”

“Logo que denunciei recebi telefones dizendo que iam acabar comigo, iam me destruir. Que eu ia pagar. Foram buscar diagnóstico meu antigo para saber se eu tinha problema de engravidar. Tentavam alegar que eu não tinha procurado tratamento com ele.”

”Apelo para a Justiça para que ele fique realmente preso, que ele viva muito e pague dentro da prisão pelos crimes que cometeu. Se mais uma vez esse homem for solto quem vai viver foragida somos nós.”

Maria Silvia de Oliveira Franco, artista plástica:

“Todo mundo que foi vítima dele, não pode ter uma sensação melhor do que essa justiça sendo feita. Eu tinha certeza que isso ia acontecer.”

“Ele destruiu famílias, destruiu sonhos de mulheres, casamentos e famílias. (…) Perdi parte da saúde, fiquei doente, não tive filho, não consegui engravidar, minha vida ficou caída, me separei do meu marido, fiquei um ano, dois anos sem ninguém encostar em mim.”

“Ele me fez abortar com quatro meses, sozinha em casa, sem amparo médico. Ele não me deixou ir para o hospital. Ele mandou eu pegar o meu feto e colocar na geladeira, porque ele queria analisar o meu feto. Esse homem é um monstro. Ele pegou os meus embriões, ele implantou em outras mulheres, eu tenho filhos por aí. A gente está mostrando o rosto para essas crianças, esses adolescentes, para nos encontrarem um dia.”

Helena Leardini:

“Ele me agarrou e beijou à força. Eu estava lúcida. Eu estou me sentindo emocionada pelas meninas, mas é alívio. É difícil encarar um homem que fez o que fez com essas pacientes.”

“A defesa dele dizia que eram mulheres frustradas que não conseguiam ter filhos que estavam entrando contra ele e que poderiam estar confundindo as coisas. Ele me agarrou e eu estava lúcida, e eu engravidei de gêmeas dentro da clínica dele, então, eu derrubo a defesa dele. Não tem defesa. Ele é safado, ele é estuprador, ele é um monstro sim.”

“É difícil você encarar um homem que fez o que ele fez. Nós sabemos de detalhes do que ele fez com mulheres que é terrível. Pacientes que retalharam as coxas porque era onde ele pegava, mulheres que apanharam dos maridos, que foram abandonadas.”

“Nós estamos aqui dizendo que agora é a nossa vez. Nós nos juntamos e conseguimos prender esse safado.”

“A gente não quer o dinheiro dele, a gente quer justiça. Ele foi condenado a 278 anos de prisão e a gente quer ele preso.”

Teresa Cordioli, escritora, assediada pelo médico em 1970, aos 18 anos, quando Roger Abdelmassih era residente em um hospital em Campinas:

“Eu tive uma crise de cólica renal, e meus pais me levaram para Campinas, no INPS da época. Eu fui atendida por ele [Roger], que me encaminhou para o hospital e fez a internação. Já no consultório, ele foi me ajudar a deitar, e eu senti que ele estava excitadíssimo. Fiquei assustada, mas achei que fosse algum aparelho de médico. Fui internada e só ele entrava no quarto. Ele não deixa ninguém mais ser internada junto comigo. Só deixou uma mulher cega e disse que ele era esperto. Ele erguia minha roupa, me manipulava. Eu estava de sonda, com soro nos dois braços. Ele sugava meu seio, lambia as partes, queria que eu fizesse sexo oral, esfregava o membro no meu rosto.”

Teresa diz que fugiu do hospital acompanhada de uma amiga, com medo de ser sequestrada por Abdelmassih. “Corremos tanto, o medo de encontrar com ele. Não assinei alta até hoje. Fugimos do hospital”, revela.

“Eu vi a ascensão e a caída dele, de camarote. E aplaudindo. O maior estupro foi feito pelo (ministro do do Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes, que o soltou. Aí nós criamos mais força na busca”, relata.

Cristina Silva, vítima de Roger Abdelmassih em 98:

“Fiz as três tentativas, mas no meu caso não houve o estupro na sala de sedação. Ele me assediou mesmo na consulta, já logo no início. Tentei me desvencilhar, ia acompanhada da minha mãe, do meu marido, de uma amiga”, diz ela que manteve o drama em segredo pelo mesmo receio relatado pelas demais mulheres.

Após o tratamento, Cristina acionou o Conselho Regional de Medicina. “Mandei uma carta ao CRM (Conselho Regional de Medicina) porque ele cometeu um erro comigo. Eu tinha uma série de problemas hormonais e não poderia ter feito o tratamento. Ele ignorava todas as vezes que questionávamos sobre isso. Ele também vendia medicação na clínica e tirava a oportunidade de a gente comprar em outro lugar. Além do assédio. O CRM acatou e abriu uma sindicância. Isso foi em 1999. Passou anos. Não tinha como eles acreditarem em mim. Eu não tinha celular, recurso de gravação.”

Para ela, o médico destruiu seu desejo de ter uma família. “Primeiro que o sonho que eu tinha, ele vende sonhos, mas visa lucro. Ele usa até isso para poder agir dessa forma crápula. Eu não tive os bebês como ele havia prometido.”

Cristina esteve no aeroporto e também comemorou a prisão do ex-médico. “A sensação é de vitória, embora em 2011 também tenha sido vitória. Esperamos que dessa vez não tenha habeas corpus.”

+ Links com depoimentos das vítimas:

[+] G1 – Vítimas de ex-médico relatam drama do abuso sexual e alívio com prisão.

[+] G1 – Veja relatos de vítimas do ex-médico Roger Abdelmassih.

[+] G1 – ‘Fiquei bloqueada, medo, tudo junto’, conta vítima de Abdelmassih.

[+] Estadão – Vítimas vão ao aeroporto encarar Roger Abdelmassih.

[+] Folha – Vítimas de Abdelmassih enfrentaram fim do casamento e muitos traumas.

[+] Veja – Associação de vítimas caça Roger Abdelmassih pelo mundo.

A mulher e a pílula

Texto de Lilian Félix.

Não sei se você, como mulher, já passou pela situação de tomar pílula anticoncepcional. Acho que isso se deu na vida da maioria das mulheres. Pelo menos no meu círculo de amizades todas mulheres que conheci fizeram uso da pílula anticoncepcional em alguma fase de suas vidas, tanto como método contraceptivo quanto como uma forma de tratamento de alguma disfunção hormonal.

Atualmente, apesar dos métodos contraceptivos serem populares e de fácil acesso para a maioria da população, o panorama nem sempre foi assim. A Igreja Católica foi uma ferrenha opositora desses métodos, visto que a contracepção choca-se diretamente com a admoestação bíblica do livro Gênesis, da humanidade se fecundar e encher a Terra. Durante muitos séculos, a única forma de evitar filhos vista por muitos era a abstinência sexual.

Uma mulher que se destacou na luta pelo direito das mulheres decidirem quando e quantos filhos ter, apesar de suas idéias racistas e eugenistas, foi Margaret Higgins Sanger (1833 – 1966). Em 1914, fundou nos Estados Unidos a National Birth Control League, concentrando suas atividades em produzir diafragmas, dando autonomia às mulheres para se prevenir de uma gravidez, algo que era facultado apenas aos homens.Claro que a iniciativa de Margaret não foi recebida com confetes pela sociedade da época, mas sua persistência deu a nós a invenção da pílula em 1960.

Segundo dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança de da Mulher de 2006, a pílula anticoncepcional é utilizada por 27% das brasileiras. O interessante dessa pesquisa é que a esterilização aparece como a segunda forma de contracepção, adotada por 26% das brasileiras. Porém, quando olhamos para a utilização de métodos contraceptivos masculinos, como o uso da camisinha e a vasectomia, a adoção é extremamente baixa, com apenas 5% dos parceiros das mulheres brasileiras vasectomizados.

É inegável que os métodos contraceptivos tenham dado uma liberdade grandiosa à mulher contemporânea, mas muitos passos ainda tem que ser dados. O cuidado na contracepção ainda é majoritariamente da mulher, que sofre os efeitos colateriais de tomar hormônios das pílulas, como aumento de peso, variações no humor entre tantos outros incômodos.

Pesquisas recentes vem trabalhando numa pílula anticoncepcional para os homens, que inibiria a produção de espermatozóides, mas parece que muitos não a têm visto com bons olhos. Por que? Perguntados sobre se usariam ou não uma pílula anticoncepcional masculina, em reportagem do site Terra, os entrevistados demonstraram receio de utilizar o contraceptivo devido aos efeitos colaterais, preferindo que o uso seja feito pelas suas parceiras. Essas opiniões apenas corroboram algo que já é um consenso entre pesquisadores: a responsabilidade da anticoncepção fica majoritariamente a cargo das mulheres, com a escolha do método sendo feito por elas.

Mas por que essa resistência à participação masculina na anticoncepção? Segundo o estudo: Participação Masculina na Contracepção pela ótica feminina feito por Marta Carvalho, Kátia Pirotta e Néia Schor doutorandas do Departamento de Saúde Materno- Infantil da USP, a associação da virilidade à fertilidade e uma possível perda dessa fertilidade pela utilização de métodos contraceptivos é considerada a causa fundamental dessa resistência. Triste ver que este conceito de perda de virilidade faz com que não sejam desenvolvidos contraceptivos e ações de planejamento familiar voltados para o público masculino, pois é senso comum que o controle de natalidade é de responsabilidade da mulher. E isto repercute na qualidade de vida das mulheres, pois são estas que acabam tendo que lidar com gravidezes indesejadas e doenças sexualmente transmissíveis.

A participação masculina na responsabilidade da contracepção precisa ser ampliada, passando de mero apoiador para uma atitude muito mais engajada. A quebra de tabus nessa área se faz mais do que necessária e tende a beneficiar todos, tanto homens quanto mulheres.