Blogagem Coletiva: #MitosFeminismo

Lá no post “Um Guia para você que tem vergonha de se assumir como feminista” fizemos a convocação. E aqui estão os posts participantes da blogagem coletiva que tem como objetivo acabar com diversos mitos sobre o feminismo:

Selo para a Campanha por Tatiana Anzolin Michels

[Blogagem Coletiva] Blogueiras Feministas, por Tatiana Anzolin

Chega de estereótipos, chega de histórias, chega de Cinderela. Feminismo é uma luta plural. Eu luto, ela luta, nós lutamos. Entre quatro paredes, em casa, fora, ali, lá e lá também. Em primeiro lugar precisamos vencer o silêncio, mas nem sempre conseguimos. eu me calo, nos calamos, perdemos todas. Um movimento plural e VIVO, não fazemos caras e bocas, ou fazemos, isso não nos define. Erramos e nos desculpamos publicamente, um movimento onde a palavra de lei é respeito. Livre expressão, o debate é rico, carinhos nascem, distâncias desaparecem e não estamos mais sozinhas.

Casada, depilada, maquiada, de unhas feitas, medo de lagartixa, ama a cozinha e… FEMINISTA?, por Mari Moscou

Se você acredita que as diferenças entre homens e mulheres não podem ser usadas nem pra oprimir e limitar as mulheres, nem pra oprimir e limitar os homens, então, surpresa amiga, você já é feminista. Pode escolher não dizer isso, usar outra palavra, enfim. Mas que você é feminista, isso é. Se você acha que o fato de engravidarmos não pode significar um salário menor (já que a outra metade do bebê é do homem né?) ou uma “baixa” na carreira – a não ser que nós mesmas escolhamos isso – então você é feminista. Se você acha injusto que um homem seja massacrado por outros homens porque decide resolver as coisas sem violência, então você é feminista. Se você acha um absurdo um homem ou mulher deixar de fazer qualquer coisa, seguir qualquer plano de vida, simplesmente porque lhe dizem que aquilo não é adequado a um homem/mulher, então, voilà, você é feminista. E infelizmente essas “sutilezas” da desigualdade ainda acontecem no nosso cotidiano. Se você acha injusto que você nunca deu uma cantada pedreira ofensiva em ninguém na rua mas já levou várias e se sentiu constrangida, você é feminista sim. Se você acha injusto ter que limitar seus horários de sair de casa simplesmente pela possibilidade de ser estuprada (e saiba que isso não acontece com homens), você é feminsta. Se você acha que ter filhos ou não ter deve ser uma escolha e nenhuma mulher deve ser crucificada porque quis ou porque não quis ter filhos, bem-vinda ao clube. 😉

Cozinhando com Feministas, por Barbara Lopes

O mito é: Feministas não têm senso de humor. A prova contrária é o vídeo abaixo, com a participação de Jane Fonda e Gloria Steinem no programa de Steve Colbert. Elas estavam lançando uma estação de rádio voltada para mulheres. Infelizmente, o projeto funcionou por menos de um ano.

A entrevista se dá em uma cozinha cenográfica, dentro do quadro fictício “Cozinhando com Feministas”. Além de falar sobre a rádio, Jane Fonda e Gloria Steinem aproveitam para combater alguns preconceitos associados ao feminismo. Por exemplo, Colbert pergunta como diferenciar uma feminista de uma mulher que apenas está zangada. Ele mostra uma imagem de Steinem como coelhinha da Playboy. Ela explica que naquela foto, ela estava zangada, mas tinha que sorrir. E diz que uma feminista é uma mulher que sorri ou fica zangada sem precisar disfarçar seus sentimentos.

Dos Mitos e dos Esclarecimentos, por Iara

Mas nem é esse o principal problema, na verdade. O complicado é preencher a frase “você é feminista, logo___” com um estereótipo qualquer. E sabe qual o problema dos estereótipos? Eles no geral, não são mentirosos, mas tendem a ser muito limitados. “Você é feminista, logo não usa maquiagem” pode ser muito válido. Há feministas que não usam maquiagem não só porque não querem, mas porque vêem a exigência social das mulheres usarem maquiagem como uma opressão. E concordo também que exigir isso das mulheres é uma exigência social bem sexista com nossa aparência. Mas uso porque gosto e quando quero, não porque me sinto obrigada.

“Ah, mas então se eu gostar de tudo na minha vida, não tenho porque ser feminista, né?”. Não, não é por aí. É preciso sair do lugar comum. É preciso ao menos questionar suas escolhas, tentar entender o porque você gosta de algo, principalmente se sustentar este gosto te traz problemas. Nossos gostos não são inerentes, mas resultados de uma construção cultural, e não há nada de errado com isso. O problema é quando nossas escolhas nos oprimem, nos fazem sofrer, e a gente não se dá conta disso. Daí entra o feminismo. Não pra dizer que “feminista não usa batom”. Mas pra te alertar que se você perde minutos preciosos de sono toda manhã pra se maquiar porque se acha feia, talvez se maquiar não seja exatamente uma escolha. E que se você não tem dinheiro pra voltar de táxi e é obrigada a aceitar carona com aquele cara pegajoso porque sua grana foi gasta na cabeleireira e na manicure pra ir pra balada, talvez você esteja refém do papel social que está desempenhando.

Faça você mesma!, por Tica Moreno

Mas, a gente tá falando de orgasmo. Que tem que fazer parte do sexo, mas que você também pode alcançar sozinha. E, aliás, é sempre bom dizer que conhecer seu próprio corpo e sua cabeça facilita muitíssimo chegar lá com outra pessoa.

 Assim, foi muito importante pro feminismo separar sexo de reprodução (a Igreja ainda não separou). Sexo antes do casamento também foi outra coisa boa que já avançamos nesse mundo. Separar sexo do amor ainda tá num processo, porque o tempo todo ficam empurrando pra cima da gente um ideal de amor romântico, e dizem que sexo é muito melhor quando é com quem você ama. Funciona pra algumas pessoas, mas pelo que eu vejo por aí, o amor tá longe de ser um pré-requisito pra um bom sexo.

Feminismo faz bem, por Bete Davis

Resumindo de forma meio curta e grossa o que passei a entender por feminismo desde então foi a necessidade de colocação da mulher em todos os setores da vida (casa, trabalho, sexo e política) de forma que a mulher tivesse os mesmos direitos que os homens têm (porque quanto aos deveres me parece, que temos bem mais – cuidar da casa, da família, de sermos lindas E magras, doces, amorosas etc., etc., e por aí vai). Direito de sermos igualmente competitivas no mercado de trabalho, direito de dividir os cuidados de família e casa com os parceiros e não a falsa benção de –“ que fofo, ele lava a louça! Aos domingos…”.

Nunca achei que o feminismo era esquecer que existem diferenças óbvias genéticas entre mulheres e homens, e essas diferenças não fazem um melhor que o outro, mas simplesmente diferentes. Nunca achei que feminismo fosse ser melhor ou pior que os homens; sempre achei, e acho, que feminismo é ter uma sociedade com direitos iguais para homens e mulher, lembrando que a noção jurídica mais atual de direitos iguais para todos é tratar os iguais como iguais e os desiguais como desiguais, isto é, procurar entender as diferenças entre posições que não são iguais e minimizar ao máximo as diferenças, com o objetivo de se buscar uma igualdade efetiva.

Feministas são Mulheres que lutam por seus direitos, por Liliane Gusmão

Acho que esses são os mitos mais frequentes que eu pessoalmente encontro por perto de mim: feministas odeiam homens, feministas são radicais. Mas também há os que dizem que feministas não se maquiam, ou não se depilam, ou não se casam, ou não tem filhos e que ainda são abortistas. Ou mais montes de outras besteiras possíveis.

A realidade não é assim, odiar homens ou ser radical não é pré-requisito para ser feminista. Feministas são gente, e gente é tudo diferente entre si, podem existir feministas misandrias ou radicais, mas isso não é o que nos une como grupo. O que nós feministas temos em comum é o desejo da liberdade e da igualdade e da autonomia das mulheres.

#MitosFeminismo, por Srta. Bia

O Feminismo está por aí lutando pela igualdade. Homens e mulheres são diferentes. O que queremos não é que sejamos iguais perante nossos corpos, mas que coloquemos um fim na desigualdade social que existe entre os gêneros masculino e o feminino. Feministas, mulheres ou homens, estão por aí lutando contra a violência que aflige as mulheres, contra a falta de creches, contra a divisão sexual do trabalho, por igualdade nos salários, educação para todos e saúde. Lutando para que a sociedade não tenha papéis de gênero rígidos e que as mulheres não sejam vistas como mais um bem patrimonial dos homens.

Então, quando você ver alguém comentando sobre um bando de mulheres rindo num programa de tv porque um cara teve seu pênis decepado pela esposa, saiba que isso não é feminismo. Quando você ver alguém citando apenas Valerie Solanas como a única feminista verdadeira, saiba que isso não é feminismo. Quando você ver alguém repetindo que as feministas não aceitam que mulheres façam sexo em determinadas posições sexuais, saiba que isso não é feminismo.

#MitosFemininos: Sou feminina e não feminista?, por Clara Guimarães

O feminismo nasceu dessa tensão da identidade sexual construída, assim ser feminista é ter o entendimento que existem diferenças anatômicas entre homens e mulheres, todavia, ter a certeza que não deve existir diferenças nos papéis sociais, uma mulher deve ter os mesmos direitos civis que os homens.

 Ser feminista não significa achar que as mulheres são melhores que os homens, pois essa é uma atitude preconceituosa, mas sim entender que apesar das diferenças temos direitos iguais, pois somos todos seres humanos.

 Nem toda mulher é feminista, assim como nem todo homem é machista. Acredito que devemos trabalhar em conjunto por um mundo mais justo e tolerante, ser feminista é ter o entendimento que as diferenças podem ser positivas, afinal todos somos diferentes, mas apesar delas, todos temos o direito de construir a nossa felicidade e não existe felicidade sem respeito.

O que é Feminismo?, por Luka

O feminismo é um pensamento científico, explicativo e transformador da sociedade. É uma revolução, talvez a maior revolução dos tempos modernos. Uma estranha revolução na qual não se derramou uma gota de sangue, pelo menos de sangue estrangeiro, no entanto, como bem apontam Gallizo Almeida ” é a revolução que mais mudou coisas na vida diária das pessoas, e acima de tudo, produziu mudanças irreversíveis “.

A revolução feminista é e tem sido a resposta das mulheres ao poder patriarcal, sem esquecer que as mulheres têm promovido outras revoluções desde a era cristã, além de sua própria e, periodicamente, saem delas de mãos vazias. A alegação de que durante séculos tem motivado a luta das mulheres e caracteriza o feminismo é a igualdade. Igualdade também tem direito aos direitos, tem alimentado a teoria, ou melhor, as teorias que inspiraram a revolução feminista e movimento de mulheres em geral. Assim, podemos dizer que o feminismo é a doutrina da igualdade de direitos para as mulheres, com base na teoria da igualdade dos sexos. Para não mencionar que a igualdade está intrinsecamente ligada a outros direitos como a liberdade, por exemplo, porque, tal como expresso no artigo 19 da Constituição, os direitos humanos são indivisíveis, inalienáveis ​​e interdependentes em seu exercício.

Sim, sou Feminista!, por Asa Heuser, uma atéia de bom humor

Uma pergunta comum é porque há poucas mulheres no ateismo, por exemplo. Uma das explicações é que socialmente ainda é mal visto quando uma mulher bate pé por suas opiniões e posicionamentos. Espera-se que a mulher ceda, seja diplomática, não confronte. Ser afirmativa e sustentar as suas opiniões é considerado “não-feminino” muitas vezes, até mesmo em ambientes ateistas.

Ser tachada de feminista no Brasil muitas vezes equivale a ser vista como pouco feminina, raivosa, uma mulher que odeia homens, etc. Por isso acredito que muitas mulheres independentes financeiramente não se assumem como tais.

Tentativas, por Ana Rusche

aí lembrei agora da festa que não fui

que queria vestir uma máscara de gorila

igual uma guerrilheira-girl, mas não ia ficar

pelada, tenho vergonha, ia vestir o vestido

rosa choque que comprei da menina

que a faculdade inteira apontou “puta! puta!”.

e o vestido é de rosa e de choque pq não é fácil

(viu que faculdade também tem f de fácil?)

embora todo esse rosa me enjoe, pink stinks,

– pobre das meninas sempre para sempre princesas.

Criação de Tatiana Anzolin, @Labucaneira

Um guia para você que tem vergonha de se assumir como feminista

Você é feminista? Opa, opa, não responda. Antes de qualquer coisa, deixa eu te falar que entendo o quanto essa palavra traz um fardo enorme por trás dela. Não é a mesma coisa de dizer “ah, sou socialista”. Ser socialista é bonito e justo. Ser feminista é ser implicante e falar de assuntos polêmicos. Ou você não sabe, que sendo feminista, rola a maior tensão no meio de um papo quando as pessoas começam a falar sobre mulheres? Todos olham para você com uma cara de medo esperando começar a terceira guerra mundial.

Crédito da Foto: The Justified Sinner no Flickr em CC.

Carla Rodrigues fez uma entrevista com Maitena, a autora do livro “Mulheres Alteradas” e questionou se ela é feminista. A resposta foi a seguinte:

“Bem, o termo feminismo foi muito degradado ultimamente, mas não gosto de dizer que não sou feminista, por que acredito que se não fosse pelo trabalho que este movimento realizou nos últimos cem anos, ainda estaríamos todas passando roupa.”

Na entrevista, Maitena fala diversas vezes sobre como o feminismo é importante, mas nessa fala podemos perceber que o feminismo é reconhecido sim, mas ainda há um medo de simplesmente se colocar como feminista justamente por mitos que foram criados com o passar do tempo. Afinal, quem degradou o termo feminista? Por que um termo que já foi revolucionário para muit@s é visto hoje como “o contrário do machismo”?

Em outro texto de Carla Rodrigues, “Feministas são bacanas”, ela mostra algumas pesquisas sobre o que as pessoas acham do feminismo.

“Algumas respostas podem ser encontradas na visão negativa que 33% homens – e 20% das mulheres – têm do feminismo. Para 19% dos homens e para 12% das mulheres, ser feminista é defender a superioridade da mulher sobre o homem. Já 16% dos homens e 8% das mulheres associam feminismo a autoritarismo das mulheres.”

Muitas pessoas ainda associam o feminismo com a superioridade da mulher perante o homem e podemos associar com o velho mito de que a o feminismo quer acabar com os homens. O feminismo conta hoje com vários homens no movimento e, lutamos também para mostrar como o  machismo também prejudica os homens. Se queremos acabar com os homens, por que os queremos ao nosso lado nessa luta?

Carla Rodrigues ressalta que muit@s acham que feministas são donas da verdade, arrogantes que não aceitam a “verdade”. Pensando sobre isso, podemos questionar o motivo de tanto estranhamento para o termo feminista. Bem, não fomos educad@s para entender o feminismo, a mídia não mostra o que realmente aconteceu (nas muitas manifestações feministas não fica claro qual é o motivo de estarem ali, isso quando alguma manifestação é mostrada), ou seja, não visualizamos em quase nenhum lugar o que é realmente o tal feminismo. Normalmente, quando as pessoas ouvem falar sobre o movimento é carregado de piadas e preconceitos e com aquela frase “lá vem a chata inventar machismo onde não existe”.

Muitas pessoas manifestam opiniões sobre o feminismo sem saberem ao certo o que é o movimento e o que ele significa. Por ser desconhecido, o feminismo acaba despertando um certo receio nas pessoas. Além disso, o feminismo luta por mudanças e alterar o status quo também gera medo. Como viver de forma diferente? O objetivo dessa campanha é mostrar o que é o feminismo para que o movimento deixe de ser algo estranho para as pessoas e mostrar a que veio o feminismo, mostrando que mudanças são bem-vindas e que podem beneficiar a tod@s. O que fazer para desmitificar, para fazer com que as pessoas entendam que feministas são seres humanos acima de qualquer coisa e por isso tem escolhas individuais? O fato de ser feminista não me faz ter obrigação de não me depilar, não passar maquiagem ou não assistir novela e me divertir. Ser feminista não me faz ter ódio de homens ou ser uma mal comida. Enfim, ser feminista me faz ter uma visão de mundo que vai de encontro à igualdade entre as diferenças não só das mulheres, mas dos homens também.

Por isso pensamos em fazer uma campanha para desmitificar o feminismo. A intenção dessa campanha é chamar todas as pessoas que são feministas e também aquelas que não são. Você pode falar de um mito especifico, como por exemplo: Feminista não usa maquiagem e falar um pouco sobre, tentando falar sobre como essa afirmação incomoda e não é verdadeira. Pode falar sobre os mitos de uma forma geral e pontuar sobre a importância de acabar com eles e levantar a bandeira do feminismo. Ou seja, a intenção é desmitificar de alguma forma. E pode ser através de posts no blog, vídeos, desenhos, músicas, twitter, facebook, Google +, tumblr, as redes sociais como um todo.

Vamos encher a internet com a hashtag #mitosfeminismo e mostrar que o feminismo vai além dessas histórias que são plantadas por aí. Vamos mostrar do que o feminismo realmente trata!

Campanha: 29/07 a 05/08. Participe e cole o selo em seu blog!

Selo para a Campanha por Tatiana Anzolin Michels

Alguns posts sobre o assunto:

[+] Dominar os homens? O impacto de uma mentira sobre feminismo – Texto da Cynthia Semíramis

[+] Feminista não tem vida pessoal? – Texto da Cynthia Semíramis

[+] Feminista só sabe falar sobre feminismo? – Texto da Cynthia Semiramis

[+] Nós ódiamos Feministas!!! – Texto da Ana Rita Dutra

[+] Por que ser Feminista? – Texto da Catarina Correa

[+] 5 mitos sobre o feminismo – Texto da Thayz Athayde

Feminista só sabe falar sobre feminismo?

Este é o terceiro de uma série de posts contando um pouco sobre como a divulgação de mentiras sobre feminismo atrapalha a vida de feministas (o primeiro post é sobre o mito de que feministas querem dominar os homens e o segundo é mostrando que feministas têm vida pessoal). Não costumo fazer posts falando de minha vida privada, mas acho que vale a pena contar um pouco sobre situações que passei pra mostrar que mesmo atitudes banais revelam a ignorância e o preconceito contra feministas, interferindo de forma prejudicial em nosso cotidiano.

Mentira: feminista só sabe falar sobre feminismo

Uma mentira irritante sobre feminismo é a presunção de que feminista só fala de feminismo, ou vive em luta perpétua contra opressões machistas a ponto de só falar disso o tempo todo. É como se eu fosse um fantoche que só tem vida se for pra falar de feminismo, e depois tem de desaparecer, sumir na caixa pra só voltar a ter vida em uma nova discussão feminista. Isso aí está bem longe da verdade.

Final da Marcha das Vadias em BH. Passamos o dia falando de feminismo, a hora aqui era de descansar e falar amenidades. Fotografia feita por Túlio Vianna, BH, 18 jun 2011

Existe o momento certo pra todo e qualquer assunto. Eu analiso o mundo com olhar feminista, mas isso não significa que vou falar de feminismo o tempo todo. Não adianta nada ficar falando de feminismo, de trabalho ou militância política em uma mesa com pessoas bêbadas, certo? Eu também quero beber, me divertir e falar de futilidades depois de um dia cansativo de trabalho. Não quero me transformar em uma pessoa que só fala de trabalho, inclusive nos momentos de lazer.

Em um encontro ou evento feminista, vou falar de feminismo. Em um blog sobre feminismo, vou falar de feminismo. Em uma encontro com pessoas de outras áreas, ou em uma mesa de buteco, vou falar de outras coisas. Isso deveria ser óbvio, já que é princípio de boa educação não ficar falando de trabalho fora do ambiente de trabalho. E muito menos é educado ou inteligente ficar tentando converter as pessoas para sua causa durante momentos de lazer.

Tem certeza que você quer que eu fale de feminismo logo agora? Fonte: acervo pessoal

É impressionante o tanto de gente que quer me forçar a discutir feminismo nos momentos mais esdrúxulos. Falam frases machistas torcendo para eu corrigir as besteiras, desviam os assuntos para impor uma discussão sobre situação das mulheres. E ficam decepcionadas ao descobrir que não estou interessada em discutir, e muito menos me adequar ao que fantasiamque deva ser uma feminista.

O pessoal que propositalmente fala coisas machistas é o mais estranho pra mim. Primeiro, porque acha que vai me irritar, o que mostra um grau de inocência impressionante: qualquer feminista já espera de antemão ouvir comentários machistas o tempo todo; o que fazemos é selecionar quais merecem uma resposta, ou não. Segundo, porque na verdade não estão irritando, mas decepcionando: uma pessoa que faz questão de falar besteiras para ver outra pessoa irritada está na verdade mostrando seus valores, que incluem defender situações que legitimam violência e amplificar absurdos. Afinal, quem realmente repudia machismo e violência não vai fazer de conta que mudou de lado apenas para irritar outras pessoas, da mesma forma que quem é de esquerda não vai ficar se passando por direita apenas para “irritar” ou zombar de pessoas de esquerda.

Todas essas pessoas estão tentando limitar minha vida, me colocando em situações constrangedoras, seja porque eu encarei a besteira machista como papo de bêbado e não quis discutir, seja porque a fantasia de discussão/reclamação é tão forte que mesmo ficando calada as pessoas presumem que eu estou discutindo. Já teve situação em que houve uma discussão na mesa, mas eu não participei (estava conversando com outra pessoa); depois fui acusada de ter sido agressiva durante essa mesma discussão que não participei!

Outra situação bastante comum é encontrar em eventos sociais pessoas que não sabem que sou feminista. Na maior parte das vezes, nem falamos de feminismo, e muitas vezes a pessoa continua sem saber que sou feminista. Mais tarde, ficará surpresa ao descobrir o óbvio: oh, feministas falam de outras coisas que não feminismo!

Feminista, sim. Sempre. Falando de feminismo quando eu quero, do jeito que eu quero, de acordo com o contexto e a ocasião. Crédito da imagem: anarquista_duvall(at)sapo.pt no blog http://limpa-vias.blogspot.com

Existem circunstâncias em que, ao invés de ignorar as besteiras, é necessário fazer um comentário mais enfático, até para a conversa não descambar para machismos constrangedores. Teve uma vez que não sabiam que sou feminista e vieram choramingar que não existe a lei João da Penha. Apenas perguntei: “tem certezaque quer falar sobre isso?” Em seguida mudamos pra um assunto mais leve, sem fazer drama e sem estragar o clima da festa.

Ou seja, quem acha que feministas só falam de feminismo e não perdem a oportunidade de reclamar das opressões machistas está totalmente enganado. O problema está no excesso de imaginação com base em estereótipos (inclusive no estereótipo machista de que mulher, seja feminista ou não, deve realizar a sua vontade). Seria melhor se as pessoas tivessem um pouco mais educação e procurassem saber um pouco mais sobre feminismo pra não perder a amizade nem criar climas constrangedores em eventos sociais.